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Este podcast é da responsabilidade da Fundação GDA. O que sabem os artistas e o setor cultural sobre fundos europeus? Quais os truques e as dicas que podemos partilhar para alcançar o tão desejado financiamento? Isto não é mais um podcast. São conversas inspiradoras sobre financiamentos europeus com o objetivo de quebrar mitos e passar à ação. O meu nome é Francisco Cipriano e sou o vosso anfitrião. Olá, bem-vindos a mais um episódio do nosso Isto Não é Mais um Podcast. Hoje tenho o prazer de ter comigo a Ana Battaglia, da Associação Cultural Babel, de Alcobaça, que nos vem falar do seu projeto de residências artísticas Art, Heart and Earth. Bem-vinda, Ana, muito obrigado por teres aceitado o nosso convite.

Muito obrigada, Francisco.

Já agora, gostaria de começar por explicar um pouco aquilo que é a iniciativa Culture Moves Europe, porque o nosso podcast tem muito esta vocação de explicar às pessoas do que estamos a falar e de os inspirar para poderem potenciar novos projetos.

É ótimo. Boa.

E por isso, Culture Moves Europe é uma iniciativa que concede bolsas de mobilidade a artistas e que funciona em duas direções: uma direção de mobilidade individual, em que as pessoas podem escolher ir em mobilidade artística para um determinado país, e o contrário, isto é, entidades que possam vir a acolher residências artísticas no seu espaço de trabalho. E foi exatamente isso que a Babel fez, e é disso que vamos falar. Se calhar começávamos justamente por aí.

Ok.

Explicando um bocadinho aquilo que foi o vosso trabalho neste contexto.

Muito bem. Aproveito para agradecer aqui em nome da Babel e dizer que a Babel é uma associação cultural que existe desde 2013 em Macau e que em 2021 estende-se até Alcobaça. E é aí que começamos a preparar este espaço, uma sede no centro histórico de Alcobaça, que se chama Central Periférica, que é o centro de residências e investigação artística, e que é num lugar muito bonito, porque é onde os dois rios se cruzam e se unem, que é o Alcoa e o Baça, e que dá o nome à cidade. É aí o nosso espaço, e que conta com instalações para ateliê, para alojamento e com um belíssimo jardim que culmina nestes rios. No fundo, é esse espaço que nós começamos a preparar para receber residências artísticas. E surge esta iniciativa, desta em particular, porque iria haver este ano, portanto decorreu de setembro a novembro, o Congresso Internacional de Cerâmica. E foi aí que tudo começou e nós começámos a preparar um projeto, escrito pela Margarida Saraiva, diretora da associação. E começámos a preparar todo este projeto relacionado com a cerâmica. E daí surge a oportunidade de nos podermos candidatar a apoio europeu dentro desta call para residências. E foi aí que nos candidatámos com este projeto, que faz este jogo de palavras entre arte e, em inglês, coração e terra. E é daí que também vem esta brincadeira com a matéria em si que nós escolhemos trabalhar, portanto, a cerâmica, vinda um material direto da terra. E todo o projeto com o fundo sustentável que tenta aproximar esta iniciativa de chamar à brincadeira com a palavra coração, heart. E aproximamos estas práticas culturais e artísticas de uma prática também mais atenta à sustentabilidade ambiental e à preservação cultural. Este projeto já aconteceu. Começou em junho e foi até outubro, agora de 2024. Foi uma residência artística que acolheu cinco artistas internacionais, é o número máximo deste projeto. Portanto, as entidades, o host, pode acolher até cinco. E nós escolhemos então cinco artistas, designers, escolhemos artistas bastante diferentes, alguns com a cerâmica pouco presente na sua prática, mas que nós de alguma forma conseguimos ver que poderia haver aqui um potencial muito interessante com as suas práticas que já vinham a desenvolver, a cruzarem com outros artistas, porque é muito interessante quando isto das residências cruza no mesmo tempo e no mesmo espaço, pessoas de diferentes lugares e de diferentes processos ou práticas artísticas. Cada candidatura de residências pode escolher como é que quer selecionar os seus artistas.

Era a minha próxima questão para ti. Era a minha dúvida.

Ok. Então há várias opções, ou pode ser por convite, ou pode ser uma specific call, ou pode ser um open call. Nós fizemos um open call mais specific call, que é quando tu direcionas a call para quem é o meio ou o público-alvo. Foi mais ou menos o que fizemos e depois de todas as candidaturas que recebemos, fizemos a nossa seleção, acreditando que os selecionados já poderiam vir a trabalhar de alguma forma juntos ou o que poderia surgir a partir daí. O que eu posso acrescentar? Que estes artistas vêm de países muito diferentes e o que eu acho também interessante neste projeto do Culture Moves Europe é que não é a nacionalidade deles, mas sim onde eles residem. Portanto, nós tínhamos aqui artistas de diferentes lugares, da Croácia, da Arménia, da República Checa, Ucrânia, que conseguiram, de alguma forma, trabalhar juntos neste projeto. Nós temos um subtítulo destas palavras que se chama Reviving Ceramic Traditions e que propõe exatamente repensar a prática da cerâmica e tentando torná-la mais sustentável, mas apresentar também o que é isto da história ou da tradição da cerâmica também neste lugar, e que tem uma componente tão forte nesta zona do Oeste.

E era justamente aí que eu gostaria de pegar. Eu tive a oportunidade de ler o vosso projeto e uma das coisas que me chamou a atenção foi a capacidade que tiveram de fazer parcerias com entidades locais, dando corpo a uma relação muito próxima com este conceito New European Bauhaus, que no fundo sustenta o vosso projeto, que é esta proximidade com o local. Queres me falar um bocadinho das vossas parcerias e como é que elas entram no projeto?

Claro. Isto tem uma ordem, todos estes passos. E acho que é importante perceber que quando existe a iniciativa de um projeto, o projeto já começa a estar estruturado. E depois precisamos de começar a preparar tudo o que é relativo a ele, caso ele aconteça, caso não aconteça ou caso não seja financiado. Então, ainda antes do sim, existe já este levantamento que nós começámos a fazer. Portanto, a equipa da Babel não é muito grande, é uma equipa pequenina, com uma associação cultural que está disposta a ir crescendo. Mas aí foi começando as nossas parcerias. O nosso foco era ter condições de oferecer e criar oportunidades e oferecer aos artistas tudo aquilo que nós achássemos que podia ser importante para esta experiência durante quatro meses, ainda é muito tempo. Portanto, nós queríamos que eles tivessem acesso a ateliês, a profissionais especializados dentro destas áreas da cerâmica, a um contexto artístico e cultural também que fosse estimulante para eles, porque ainda assim a nossa equipa não está fixa em Alcobaça, portanto, todos nós somos de outros lugares. Fomos parar a Alcobaça porque é um espaço nosso, mas sentimos que é muito desafiante, tal como outras entidades devem sentir, que é muito desafiante trazer novos públicos a estas zonas que não são centros urbanos. E daí também a nossa brincadeira com o nome de Central Periférica. É quase tornar tudo o que é periférico, central também, e trazer as pessoas para esses lugares ou resgatar os públicos culturais a estes locais. E então as nossas parcerias começaram logo a ser feitas e desde o início que têm sido feitas. Como por exemplo, o Armazém das Artes foi dos primeiros passos que também contactámos. Eles reabriram portas, é um espaço maravilhoso. E então também estivemos sempre em contacto com eles, caso fosse necessário alguma coisa, algum apoio aos artistas ou incentivá-los também a irem conhecer este espaço. E depois foram esses espaços todos que eu estava a falar, como fábricas, ateliês de cerâmica, por exemplo, contactámos a Fábrica Barracha, que na verdade é uma fábrica que cria fornos de cerâmica, mas que tem todas as pessoas técnicas também especializadas e que podem ajudar em alguma parte técnica, mas lá também está sediado o ateliê da Conceição Cabral, Art and Glass. E ela tem uma prática muito variada e que trabalha com diferentes dimensões e diferentes materiais na cerâmica e que ofereceu mentoria também aos artistas, o que foi muito interessante, dentro da nossa equipa e ela também. Mais, fomos criar as nossas parcerias com o CENCAL, que é um espaço profissional de especialistas na área e o CENCAL de Alcobaça é especializado em cerâmica, portanto, os artistas tiveram um acompanhamento excelente, ficaram até de alguma forma surpreendidos com este apoio que tiveram. E depois temos também uma parceria com os Artists at Risk, que é uma plataforma que apoia artistas em risco. E que ao nosso grupo do Culture Moves Europe, adicionou-se uma nova artista que foi apoiada por esta plataforma dos Artists at Risk. E então, de repente, o grupo passou a ser seis. E sim, estas parcerias vão sendo feitas. Há umas que são pré-preparadas, portanto, já é um levantamento para preparar todo o projeto, mesmo antes de ele acontecer. E assim que há um sim ou assim que há um ok para que o projeto se possa implementar, são oficializadas estas parcerias. É uma forma também de percebermos de que forma é que conseguimos aumentar as equipas, perceber quem é que podemos ter por perto e assim passinho a passinho, vamos criando todas as condições para os artistas terem o melhor que também podem aproveitar deste espaço.

Sim, e assim se cumprir muito o objetivo do Culture Moves Europe, que é ter as pessoas em residência artística e a promover os seus trabalhos. Olha, assim em jeito de provocação, e porque há muita ideia de que os financiamentos europeus depois têm consigo uma carga burocrática muito grande, o que é que foi mais difícil? Preparar a candidatura ao Culture Moves Europe, que não é das mais complexas, ou depois ter os artistas a trabalhar e fazer toda esta gestão mais próxima daquilo que é o financiamento?

Acho que esta precisa mesmo de ser desmistificada, porque acho que esta foi das candidaturas mais fáceis de fazer. O formulário é muito friendly, como diz a Margarida Saraiva. A Margarida tinha uma ideia muito clara daquilo que queríamos fazer, explorar e estudar em conjunto ou individualmente. Portanto, sendo esse um passo fácil, o de fazer a candidatura, todo o resto se torna um bocadinho mais difícil. E eu penso que o mais difícil de todos é o primeiro momento da chegada dos artistas, que às vezes até vêm de outras residências ou de outros países, ou da sua prática diária, e de repente há ali um primeiro choque de adaptação, que é normal, que todos nós passamos por isso, mas talvez essas primeiras semanas sejam o mais complicado. Depois, eu acho que acaba por ser maravilhoso para todos os lados, porque as pessoas vão se adaptando, os artistas vão se adaptando. Se tiver que haver alguma adaptação, ela também tem margem para isso. Portanto, se tivermos que mudar alguma coisa, se houver pouca programação, pode-se aumentar, se houver muita programação, pode-se reduzir. Portanto, de alguma forma consegue-se dar a volta e eu diria que não há propriamente nenhuma fase bastante difícil em todo este processo. É um processo muito inspirador, trabalhar com artistas que já trazem muito com eles e que ainda se disponibilizam para, durante uma temporada, aprender uma coisa nova, ou colaborar com pessoas que nunca viram na vida e que se calhar não voltam a ver. Mas é muito interessante, porque eu penso que isto acontece com todo tipo de residências, que é tudo que se constrói, acaba por ser a partir dali. Portanto, parece que tudo que foi preparado antes não fica visível, mas depois vai acontecendo e vai se manifestando durante a residência.

Por falar em invisível, e a mim importa muito explorar esta questão dos resultados, o que é que em termos institucionais, isto é, para a vossa associação, sentes que verdadeiramente ganharam com este projeto? Falo nos recursos, claro, os recursos humanos, os recursos financeiros, mas também olhando para esta lógica de redes internacionais e de um potencial novo projeto ou outro programa.

Este, em particular, dá para dizer que se ganha imenso de várias formas. Nós ganhamos muita experiência, conseguimos aumentar e solidificar a nossa equipa, ganhamos novos amigos, ganhamos público. Nós acabamos por já ter um público, mas ganhas novo público com uma nova movimentação na casa, que depois cada artista traz os seus focos de interesse, ainda que às vezes fujam um bocadinho ao assunto que traz a residência, eles vão atraindo pessoas. Cada um atrai o seu círculo ou as pessoas que, no fundo, se aproximam dos seus interesses, acabam por se ganhar novas qualidades para podermos desenvolver mais atividades. Portanto, o público mantém interesse nas atividades e ainda há muita coisa para terminar. Ou seja, acaba por se ganhar uma estrutura que pós-residência traz muito para a frente. Por exemplo, houve coisas que não ficaram terminadas e que agora a Babel está a arranjar condições para continuarmos. Por exemplo, uma das missões era terminar uma parede que era uma instalação num painel de um espaço e o artista irá voltar para terminar esse painel. Tal como houve mostras que fizemos, por exemplo, de uma peça de uma dupla de dois artistas espanhóis, que as fotografias agora vão dar origem a um catálogo, a um livro. Portanto, há sempre frutos da residência que não só ajudam as próprias instituições ou este host a solidificar os projetos, aumentar a equipa, a ter todas as condições que precisa para voltar a abrir as portas ou voltar a estar cada vez mais em contacto com o seu público-alvo ou público local, como todos os frutos que podem surgir. Neste momento, agora estão aqui todos estes artistas com as suas práticas individuais, mas agora com um pezinho aqui, um pezinho lá.

E ficou uma vontade de voltarem a concorrer? Estou a falar nisto porque neste momento estamos às portas de um novo concurso.

Exato.

Falo dos projetos de cooperação europeia da Europa Criativa. Ficou na instituição esta vontade de dar um passinho em frente e de fazer uma candidatura um bocadinho com mais fôlego?

Exato. Sim, nós estamos sempre muito interessados em continuar a fazer estas candidaturas. Sentimos que é o foco também deste projeto em Portugal, é também receber no nosso espaço. E vamos nos adaptando também às candidaturas que existem. Vamos percebendo quais é que são os projetos que também temos conosco, que gostávamos de lançá-los e que se adequam. E de todo, estamos sempre atentos para perceber o que pode vir como próximo projeto.

E têm rotinas de trabalho, como é que fazem isso internamente? Tem alguém que pensa nisso, que está sempre a ver os avisos?

É, nós temos rotinas de trabalho. Na nossa equipa não temos muitas pessoas que fazem as mesmas coisas, portanto, como somos pouquinhos, cada um está muito na sua área. Por exemplo, temos a nossa pessoa da comunicação, a nossa pessoa da produção, a nossa pessoa do design gráfico, portanto, vamos separando as funções. E a Margarida está sempre muito atenta a esta ponte entre o que podemos fazer entre Europa e Ásia. Portanto, daí também estarmos atentos às candidaturas e perceber onde é que podemos adequar os nossos projetos.

Ainda bem que falaste nisso, porque vem aí uma dimensão internacional muito forte agora nesta nova call, que era algo que não existia. Quando eu digo internacional, digo fora de portas da Europa. Internacional é sempre, porque falamos sempre de projetos de cooperação ou de projetos que envolvem mais do que um parceiro. Mas este aviso, e nós já conhecemos o programa anual de trabalhos, traz aí uma dinâmica muito interessante no que diz respeito ao internacional fora de portas na Europa. Portanto, sugiro que explorem essa dinâmica.

É, nós vamos continuar a explorar. Esta, de facto, foi a primeira vez que concorremos a financiamento europeu, porque todos os outros têm sido ou mais locais ou aqui mais próximo de Macau. Lamentamos que não tenha havido, de alguma forma, financiamento público local, porque acabava por ser um dos nossos principais focos também, porque sempre foi, vai ser e vai continuar, fazer o cruzamento entre os artistas internacionais que gostavam de vir até aqui desenvolver um trabalho, aqui em Portugal, e estar diretamente envolvidos com os artistas locais. E é daí que também sempre batalhamos para que isso aconteça. Ainda não foi desta. Portanto, ainda não tivemos apoio para conseguir pôr ambos os artistas em contacto financiado, mas tivemos algumas iniciativas que os aproximaram e que nos deu muito prazer de realizar. Posso destacar um evento ou outro que fizemos.

Com certeza.

Por exemplo, logo no início das residências, criámos um evento que se chama "Let's Get Together" e então os artistas tinham acabado de chegar e este evento consistia num dia de mostras e apresentações em que nós fizemos vários convites a artistas, a designers e a espaços culturais da região, que engloba Alcobaça, Caldas, Leiria, que faz aquele triângulo do Oeste, em que cada um foi apresentar um bocadinho o seu trabalho e misturamos as apresentações dos artistas também neste dia. Então foi muito interessante para eles e sentiram-se muito abraçados chegar a uma cidade que não é central e que não tem assim tanta movimentação, perceber todos os artistas que andam ali à volta ou o que eles fazem e eles também estarem logo em contacto com os artistas que acabaram de chegar. Portanto, eu penso que esta iniciativa foi muito importante para os deixar também mais à vontade.

Confortáveis com o espaço de trabalho.

E acesso direto aos outros artistas. Eles, a partir desse dia, ficaram com contacto, caso quisessem ir ver ateliês, estar em contacto ou criar alguma coisa, de alguma forma, juntos. E depois, no fim, fechamos com o "Let's Eat Together" e fizemos um almoço mais comunitário, onde os artistas selecionados, portanto, os nossos artistas de residência, fizeram um género de uma mostra neste espaço e apresentaram a todos os artistas que já tinham vindo no início e ao público local, tudo o que foi realizado.

Que bom, que giro. Eu quando li o vosso projeto e percebi que tinham ido pela dinâmica True Transform, uma das prioridades do Culture Moves Europe, fiquei arrepiado porque pensei: "Esta gente vai pelo caminho mais difícil."

É o mais difícil.

Porque, no fundo, este True Transform vai focar na nova iniciativa do New European Bauhaus, portanto, o que implica ser sustentável, inclusivo, estético e tudo ao mesmo tempo. E eu acho que o fizeram muito bem. Porque sustentável pela matéria-prima, inclusivo pelo local e pela abordagem que fizeram aos artistas locais, e estético, porque falamos de arte e de artistas. Portanto, acho que foi um grande trabalho, muito interessante.

Obrigada, Francisco. Sim, de facto, este foi um desafio, mas que como o projeto já estava de alguma forma estruturado, a missão já era essa antes da candidatura dizer lá New European Bauhaus. Portanto, de alguma forma, a iniciativa já era essa, de ser sustentável, de tentar brincar com esta tradição da cerâmica e tentar renovar, recriar ou repensar o que poderia ser as novas utilizações desta matéria. Então nós convidámos os artistas a irem apanhar o próprio barro e fazerem cada um a sua própria pasta. Portanto, cada um acabou por desenvolver a matéria com que queria trabalhar, após muitos testes, após workshops e mentorias para pelo menos saberem o que estão a fazer e onde, etc. E então, desde essa apanha do próprio material, que traz muita conscientização, porque entre comprarmos na loja ou ir apanhar com as próprias mãos, passar por todo o processo e saber o que custa, acabamos por também estar mais conscientes das quantidades, do que precisamos, dos testes. E percebemos também que na zona existiam muitas fábricas de cerâmica e que muitas delas fecharam, e que então havia um grande desperdício industrial, ou seja, todas as peças que têm defeito não são vendidas. uso comercial ou que de repente há um erro em alguma coisa, estas peças vão ficando em estoque armazenado. No fundo, é um dead stock, porque tem pouca nova utilização e às vezes não podem ser revendidas ou de uma forma mais económica, porque são peças exclusivas de coleções. Então a ideia sempre foi tentar reutilizar o que já estava feito. É claro que no início tínhamos uma ideia de tentar triturar, purificar tudo o que já fosse feito para utilizar essa mesma pasta para voltar a criar peças novas, mas fomos adaptando ao interesse de cada artista que também chegou e fomos percebendo como é que entre utilizar umas que já estão criadas e que podem ser refeitas, outras que podem ser criadas do zero, apanhando a matéria na natureza, cada um foi encontrando o assunto que o interessava e como trabalhá-lo. Foi muito interessante assistir a tudo isto.

Muito interessante mesmo. Bom, estamos a terminar. Eu tinha uma última pergunta para te fazer. Como sabes, o nosso podcast é um podcast que visa inspirar as pessoas. Nós gostamos que as pessoas, de certa maneira, desmistifiquem todos esses processos de candidatura. E, portanto, a pergunta era um pouco neste sentido: o que é que tu, enquanto mais experiente nestas andanças e depois de terem passado por este processo, dirias em jeito de conselho, a quem vai começar ou a quem nunca fez um projeto europeu?

Claro. Eu falo aqui em nome do grupo. Quem faz as candidaturas é a Margarida, eu dou assistência. E na verdade, aqui em nome de todos, nós recomendamos que façam. Ou seja, que os projetos não fiquem só na nossa pasta de computador, que não fique só para a oportunidade perfeita, que não fique só para a candidatura que se adequa. Acho que é preciso perceber que não vai haver, num curto espaço de tempo, o match perfeito entre o ficheiro que nós imaginamos que está escrito no nosso computador e o open call que vai abrir agora. Portanto, tudo o que possamos estar a pensar que pode ser um bom projeto ou que queremos realizar este projeto, devemos estar sempre muito atentos também ao que é que está aberto, quais são as calls abertas, onde é que podemos aproximar-nos do que está aí. E eu acho que o intuito é fazer um casamento. Eu acho que esta às vezes pode ser a parte mais difícil, que é como é que eu posso adaptar o que já escrevi ao que está aberto. Aí sim, é preciso às vezes ceder um bocadinho ou tentar perceber que volta é que se pode dar, mas no geral, basta começar. Basta tentar, seja europeu, seja começar primeiro local, é indiferente. O que é importante é que se comece e que na verdade é bem mais fácil do que possa parecer. E aqui a Margarida Saraiva tem a experiência de que então estes europeus acabam por ser ainda mais fáceis do que os processos chineses, que são muito mais complexos. Portanto, não querendo comparar, diria que no geral, cada um deve tentar. E o tentar é, se achar que tem condições sozinhos para o fazer, que tentem. Se acharem que não, é pedir ajuda nos processos de candidatura, se precisarem de ajuda para a elaboração da candidatura, às vezes pode ser uma questão de como tornar em palavras um projeto, mas nós recomendamos que tentem.

Ana, olha, muito obrigado. Gostei imenso da nossa conversa.

Obrigada eu.

Acho que esta última mensagem foi super importante, porque é mesmo uma coisa que eu insisto, que é não há matches perfeitos, como tu dizes. Há, sim, a necessidade de compreendermos bem o que o programa nos pede e de certa forma adaptarmos o nosso projeto a esse programa. Este eu acho que é um pouco a chave do sucesso dos projetos. Olha, obrigado e sucesso para a Abel.

Obrigadíssima.

Obrigado.

Até à próxima.

Obrigado. Obrigado por estarem desse lado e até uma próxima conversa. Prometemos continuar a dar informações sobre financiamentos europeus para arte, cultura e criatividade e a partilhar convosco mais projetos inspiradores. Este podcast é uma iniciativa da Fundação GDA, no âmbito da formação e desenvolvimento. Estamos juntos, no mesmo palco.