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Este podcast é da responsabilidade da Fundação GDA. O que sabem os artistas e o setor cultural sobre fundos europeus? Quais os truques e as dicas que podemos partilhar para alcançar o tão desejado financiamento? Isto não é mais um podcast. São conversas inspiradoras sobre financiamentos europeus com o objetivo de quebrar mitos e passar à ação. O meu nome é Francisco Cipriano e sou o vosso anfitrião. Olá, bem-vindos mais uma vez aqui ao nosso espaço de conversas: Isto Não é Mais um Podcast. Hoje tenho comigo a Clara Amante, da direção do Gerador, que entre outras coisas nos vem falar do projeto Manifest. É um projeto financiado pela Europa Criativa, que tem como subtítulo, podemos dizer assim, Novas Perspectivas Artísticas sobre as Memórias do Comércio Transatlântico de Pessoas Escravizadas. Bem-vinda, Clara.
Obrigada.
É um gosto ter-te aqui. Nós temos outras relações profissionais bastante estabilizadas, mas é giro ter-te aqui neste contexto. Olha, eu gostava de começar por te perguntar o que é Gerador, o que fazem, quem são, como é que funciona.
Obrigada eu pelo convite. O Gerador é uma plataforma independente portuguesa, que trabalha em três pilares, sobretudo: a cultura, o jornalismo e a educação. E a nossa ideia é que através destes três pilares e de iniciativas que fazemos nos três, portanto, eventos culturais e artísticos, a produção de trabalhos jornalísticos, nomeadamente jornalismo mais lento e com mais profundidade, e também a educação, através dos nossos cursos e dos nossos estudos, conseguimos intervir em frentes diferentes e dar algumas ferramentas às pessoas para que elas consigam ser mais participativas, mais criativas, e que consigamos assim criar alguma dinâmica na sociedade.
Em particular, e é sobretudo a razão pela qual te convidei, vocês viram recentemente, já não é assim tão recentemente, aprovado um projeto Europa Criativa, que é o projeto Manifest. Queres nos falar um pouco sobre este projeto, em particular as vossas responsabilidades, o que é que vai acontecer, que tipo de atividades é que vão fazer?
Sim. O projeto, que tu disseste o nome muito bem, que tem um nome longo, mas é baseado principalmente em dois princípios. No primeiro, que é a importância de trabalhar a memória coletiva, e o segundo, que é o papel que a arte pode ter nesse trabalho, um pouco como mediadora entre os indivíduos e a sociedade como um todo, especialmente atuando sobre temas sensíveis, difíceis, como é o caso do tema deste projeto. Explico já?
Sim, força, por favor.
Ok. O projeto, basicamente, consiste na criação daquilo que nós chamamos uma artistic journey, em que nós selecionamos cerca de 22 artistas, 12 projetos, através de uma open call. E a ideia é que esses artistas, que já fizeram uma proposta quando se candidataram, vão trabalhar este tema da memória transatlântica das pessoas escravizadas, porque é um tema que é fundamental na história e no passado europeu e que mesmo assim é muito negligenciado. E ao convidarmos estes artistas, a ideia é que eles consigam produzir algum trabalho sobre isto, que possa pôr as pessoas a falar sobre este tema, trazer visibilidade ao tema e fazer aquilo que nós também chamamos de reimaginar um pouco esta memória para trazer novas perspectivas, porque muitas vezes este tema é tratado de uma forma muito formal e acadêmica, com pouco espaço para a emoção e para uma perspectiva com mais sensibilidade que o lado artístico pode trazer. Neste projeto, o consórcio é formado por cinco parceiros. A Chora, que é o parceiro líder, que é o parceiro da Dinamarca, que é uma empresa que trabalha sobretudo com realidade virtual e realidade aumentada. O Gerador. Uma entidade francesa chamada Les Années de la Mémoire, que trabalha questões da memória, principalmente relacionado com a memória transatlântica da escravatura, até porque eles são sediados em Nantes. E lá é um tema que é bastante falado, porque é uma cidade que tem um passado muito forte ligado à escravatura, tal como Lisboa, mas lá as coisas são um pouco diferentes e é muito mais conversado este tema. Eles têm um trabalho na área da história e nós sentimos que para este projeto era essencial ter um parceiro que viesse trazer uma componente de rigor histórico e de informação histórica. Depois, quem é que me falta? Temos a Pro прогреssió, que é o parceiro húngaro, que é um parceiro que tem já muita experiência em projetos europeus também e que são os líderes da dimensão artística do projeto. E por último, a Comediae, que é Culture and Media Agency Europe, acho, que estão sediados em Bruxelas e que também já têm muita experiência nesta dimensão dos projetos europeus. Estes parceiros juntaram-se e através desta open call nós acabamos por selecionar os artistas, que depois vão ter esta artistic journey, que já aconteceram em duas residências artísticas, uma em Lisboa e outra na Hungria Sempre acompanhados também pelo Lisandro de la Mamaar, portanto, com acompanhamento histórico sempre que precisem, para conseguirem fundamentar bem os seus trabalhos e as suas perspectivas. Agora esqueci-me o que ia dizer.
Não faz mal. Eu quero te fazer uma pergunta que me está aqui a pairar. É uma parceria muito bem estruturada, porque cada um faz uma coisa e sinto que o projeto tem muita força nessa componente da parceria. Como é que chegaram a vocês, como vocês chegaram à parceria, como é que foi esse processo?
Tudo começou com outro projeto anterior, que é muitas vezes assim que as coisas funcionam. Eu acho que o mais difícil é o primeiro e depois a partir daí, depois da pessoa entrar nos círculos e da organização entrar nos círculos, é muito mais fácil navegar. Mas tudo começou com um projeto anterior, que foi o Measuring CCS, que era um projeto que tinha a ver com estatística, em que nós queríamos muito participar, porque era estatística sobre o setor cultural e o gerador tem um estudo que faz anualmente, que é o Barômetro da Cultura, em que abordamos as pessoas para saber a sua opinião e a sua relação com a cultura em Portugal. E portanto, é um tema que já nos interessava e isto era uma oportunidade de expandir este interesse a nível europeu. Ficamos muito interessados em participar nesta call e ainda não tínhamos entrado em nenhum projeto europeu, e fomos à procura. Eu já tinha alguma experiência noutra organização em projetos Erasmus, e então já sabia um pouco onde procurar para conseguir encontrar parceiros. E foi um bocadinho uma questão de sorte. Encontrámos a ComediA.I, com quem imediatamente nos demos muito bem, temos uma relação ótima a nível profissional, trabalhamos muito bem em conjunto. Fizemos a candidatura e conseguimos ganhar esse projeto, que não era um projeto da Europa Criativa, aliás, era muito diferente. Mas como correu tão bem, depois quando eles estavam a começar a arrancar com este projeto do Manifesto, porque eles não são os líderes da candidatura, mas a ideia do projeto partiu deles, lembraram-se imediatamente de nós e vieram falar conosco e convidaram-nos para entrar. Portanto, foi por aí.
Dizes bem, de facto, quando se começa, criamos uma certa atração e acabamos por conseguir depois chegar a outras parcerias. Neste momento, o projeto está em pleno andamento, não é? E eu gostava de fazer uma pergunta que é a seguinte: o que é que foi mais difícil para a Gerador? Fazer a candidatura ou agora ser responsável por um conjunto de atividades que são realizadas cá e pelo acompanhamento global do projeto?
Eu diria que não tem sido particularmente difícil, porque o consórcio é, de facto, muito bom. Está muito equilibrado em termos de tipos de experiência diferentes, ou seja, cada um tem uma área de especialização que está muito definida, portanto, é muito claro quem é que faz o quê. Os líderes do projeto, a Khora, são muito bons e eu acho que isso tem sido uma sorte enorme para nós, porque foi o primeiro projeto da Europa Criativa que nós vimos aprovado, e nós sentimos que vamos levar daqui muito conhecimento para a próxima vez que formos nós a liderar um projeto, que até já nos temos candidatado. Vamos levar daqui muito conhecimento e o fato de termos um líder que é muito estruturado, organizado, muito acessível também, disponível, com capacidade de resposta, porque eles têm uma equipa grande, que às vezes é uma dificuldade quando as equipas são mais pequenas, dar resposta a estes projetos é uma coisa que exige muito de uma equipa. Eles são muito estruturados e portanto, isso faz toda a diferença, porque no momento em que nós temos uma tarefa, uma responsabilidade, está tudo articulado entre todos os parceiros. Nós nunca nos sentimos sozinhos. Se há uma coisa que é da nossa responsabilidade, mas nós temos alguma dúvida, não sabemos exatamente qual o caminho certo a seguir, nós sentimos sempre que há um canal de diálogo muito aberto entre os parceiros. O projeto já está a decorrer há mais de um ano, já há uma confiança também agora para falarmos uns com os outros. Talvez no início, quando ainda não conhecíamos toda a gente, há sempre assim um bocadinho, estamos na dúvida, ainda a medir as palavras e ainda por cima como este tópico se trata de um tópico muito sensível. Essa parte foi um bocadinho exigente na candidatura e eu diria que nesse aspecto foi diferente de outras candidaturas que nós já fizemos, porque é sempre exigente, mas esta aqui tinha uma componente histórica pesada e que exige muito respeito, exige muito conhecimento e foi um aspecto extra que nós tivemos que gerir na altura da preparação da candidatura, diria eu, porque normalmente nos outros projetos que temos participado, o tema não é tão pesado e portanto exige menos cuidado com certas palavras, com certos processos, e este exigia um pouco isso. Mas a nível da implementação, eu penso que se calhar a maior exigência é que, de facto, o Gerador tem bastante responsabilidade neste projeto, porque os artistas, além de irem realizar os seus trabalhos, têm um apoio na coprodução. Metade dos grupos, portanto seis grupos, têm o apoio da Khora para pegar nos seus trabalhos e produzir um material em realidade virtual ou realidade aumentada, e a outra metade tem o apoio do Gerador para produzir um material audiovisual, seja ele de que tipologia for. Portanto, imaginando que há um artista que é bailarino, se ele quer fazer um vídeo sobre a sua dança ou apresentar alguma coisa audiovisual durante a performance, é o Gerador que vai dar esse apoio. E nós temos tido que gerir não só esse apoio, mas com uma residência artística em Lisboa. E as duas coisas em simultâneo foi um bocadinho exigente para a equipa, mas acho que acabou por correr muito bem e sempre nos sentimos muito apoiados. Nós fizemos a residência artística, que durou 10 dias, e a maioria dos parceiros esteve presente, aliás, estiveram todos, e alguns ficaram mesmo durante o período todo da residência. E isso também nos dá uma sensação de apoio e E de fato, o consórcio é muito unido, no sentido em que todos estamos muito envolvidos nas tarefas uns dos outros, porque às vezes está dividida em work packages e portanto este work package é vosso, este é vosso.
Desrasquem-se.
Desrasquem-se, exatamente. Quando tiver terminado, digam, quando tiver planeado pra avançar, digam. E aqui, na verdade, nós vamos sempre falando sobre tudo o que todos estão a fazer. E por isso diria que isso foi mesmo uma grande vantagem e uma grande aprendizagem para projetos futuros.
Do ponto de vista da Gerador, é claro que ganham tudo isso que acabaste de explicar. Essa experiência toda, essa possibilidade de participar num projeto que eu brincava contigo dizendo que é o tema do momento. Eu acho que este tema colonização, descolonização, reinterpretação, reaprendizagem, processos históricos, é um tema que nos vai marcar. Não fosse as guerras, infelizmente, eu acho que isto ainda teria mais força, porque é um tema que toca muita gente. Mas o que achas que ganharam do ponto de vista interno? Os recursos humanos, os recursos financeiros, na presença de redes, como é que fez isso internamente na tua equipa?
O tópico do colonialismo era um tópico que o Gerador já vinha a falar há algum tempo, porque nós falamos muito de desigualdade social e inevitavelmente o racismo, desigualdades socioeconômicas que possam vir também do racismo estrutural e outro tipo de desigualdades, são temas que acabam por surgir no trabalho do Gerador. E portanto, nós percebemos, já há alguns anos, que isto era um tópico que nós iríamos ter que abordar, até porque não se fala o suficiente, apesar de já estar a ser muito falado, a nível da sociedade no geral, é ainda um tópico que infelizmente nem sempre tem tanto protagonismo como deveria ter e tanto reconhecimento, a nível de ser valorizado enquanto um tópico que merece ser discutido. E, portanto, este era um tópico sobre o qual nós nos debruçávamos. E por essa razão fez todo sentido quando a COMIGAF veio falar conosco, porque um projeto como este permite-nos aprofundar esta temática de uma outra perspectiva. Nós tínhamos um projeto chamado Luzotropicalismo, que falava precisamente do colonialismo português. E tem sido muito interessante conseguir cruzar perspectivas europeias, experiências de diferentes países e aliás, os artistas envolvidos na Open Call e que estão agora na Artistic Journey, são todos residentes de países participantes na Europa Criativa, mas vêm de muitos países diferentes. E, portanto, tem sido muito interessante conseguirmos aprofundar uma temática que no trabalho do Gerador já era tão importante, através deste cruzamento. Por outro lado, como eu estava a dizer, desenvolver competências, desenvolver competências de liderança, de gestão de projeto, que nós já tínhamos em pequena escala, mas conseguir aprofundar isso tem sido muito benéfico. Também diria que a nível de recursos, nós estamos a começar agora a ter uma equipa mais dedicada especificamente a estes projetos, e portanto, como este foi o primeiro projeto, foi agora que nós percebemos como é que as coisas realmente funcionam, qual é a exigência, e portanto, agora isso vai nos permitir moldar um pouco a nossa estrutura para acomodar mais projetos destes, porque nós sentimos que de fato vale muito a pena, até porque tem sido muito enriquecedor conhecer outras organizações, por um lado, algumas muito parecidas conosco noutros países e, por outro lado, algumas completamente diferentes. Nós até temos outro projeto, que também é da Europa Criativa, mas é da vertente transsetorial, acho que é assim que se chama, na área do jornalismo, que não tem nada a ver com este, é uma coisa completamente diferente, mas que também tem sido muito interessante, porque é um consórcio só de entidades ligadas ao jornalismo e entidades independentes. E portanto, nesse aspecto, também tem sido muito enriquecedor perceber como é que outras entidades que fazem o mesmo que nós fazemos a nível do jornalismo e que são independentes, como é que elas se financiam, como é que elas se gerem. Percebemos que há algumas que também têm estas componentes que nós temos diferentes da educação, do jornalismo, da cultura. E portanto, aprendemos muito também a cruzar perspectivas, acima de tudo.
É muito interessante o que tu estás a dizer, este processo de capacitação, e depois eu ainda queria falar um pouquinho mais sobre isso mais à frente. O vosso projeto tem uma particularidade que é estar assente num tema, não só como eu digo, que é o tema do momento ou um dos temas do momento, mas é esta preocupação que a Europa Criativa tem, que são os temas transversais, isto é, a questão ambiental e a questão da inclusão, da diversidade. O vosso projeto é por si só um projeto desta natureza. Mas eu gostava de perguntar e a outra questão, a questão da sustentabilidade e das alterações climáticas enquanto contributo do projeto na sua execução. Tem vos pesado muito?
Diria que nós temos tentado também abordar essa prioridade. O Gerador também tem um projeto que quando começamos a pensar nesta candidatura também naturalmente surgiu, que é o Sobressalto, que é um projeto que tenta interligar a arte e a cultura com a sustentabilidade. E portanto, logo quando nós começamos, fizemos questão de dizer que nós podemos disponibilizar aos artistas recursos que os possam ajudar a produzir trabalhos de maneira mais sustentável, que iríamos procurar nós próprios, na nossa parte da coprodução, ter sempre em conta recorrer a fornecedores materiais locais, a não ter grandes peças a viajar. Nós dissemos logo que convinha que as peças que os artistas fossem produzir, no caso artistas visuais e plásticos, fossem coisas que não exigissem muito a nível de transporte Portanto, tem sido uma coisa que nós temos ido abordando junto dos artistas. Ao mesmo tempo, como muitos destes tópicos são interligados, acaba por haver, dentro dos próprios projetos selecionados, alguns que para além de abordarem a questão do colonialismo, da escravatura, também vão buscar a relação que isso tem com questões ambientais e com a sustentabilidade. E isso foi muito interessante e foi uma coisa que também foi importante no processo de seleção, que procurássemos ter trabalhos que conseguem mexer nestes dois tópicos que são muito relevantes. E acho que tem corrido muito bem esse nível, porque acaba por ser um tema que naturalmente surge nos debates que nós organizamos, porque de facto, não só os tópicos que estão interligados, como os próprios artistas e o próprio consórcio conseguiu fazer essa ligação.
Aliás, esse é o nosso maior objetivo. Gostei muito da tua resposta, porque é mesmo isso que se pretende. O nosso objetivo aqui no podcast é muito inspirar as pessoas e de certa maneira explorar as dificuldades. Percebemos que é uma Europa Criativa, mas qual é a dificuldade, como é que se ultrapassa e por isso não leves a mal o tipo de perguntas que eu vou fazendo, mas a lógica é mesmo essa. Um problema, quase sempre, é a questão do cofinanciamento. No vosso caso, o Manifest é uma Europa Criativa de média escala, portanto, estamos a falar de um cofinanciamento de 70%. Significa que tudo o que fazem têm que alavancar com 30%. Isto às vezes é um problema. Como é que foi no vosso caso?
No nosso caso, eu penso que também tivemos sorte nesse aspecto, porque a DG Art lançou recentemente, penso que no início deste ano, um apoio para projetos cofinanciados pela Europa Criativa e na nossa opinião, isso é uma iniciativa excelente. Até fomos informados pela Sara Machado, da Europa Criativa, e candidatámo-nos. O processo foi relativamente simples e foi muito importante para nós esse cofinanciamento, especialmente porque veio a tempo da residência em Lisboa. E foi importante também para a DG Art poder dar esse apoio a uma atividade que estava a decorrer em território nacional e que trazia artistas internacionais e também artistas nacionais, porque alguns dos artistas selecionados também residem em Portugal. Portanto, esse apoio foi fundamental. O restante tem sido, de facto, o investimento do Gerador, porque nós temos já projetos e iniciativas desenvolvidos que são financiados através de outras fontes. Nós desenvolvemos muitas iniciativas próprias para as quais temos clientes e portanto temos esse outro financiamento que acaba por conseguir complementar este projeto. E como este é um tema que não sai das nossas atividades habituais, e eu acho que isso talvez também seja muito importante, como é um tema que nós habitualmente já tratamos, é um tema para o qual faz sentido, em termos de gestão, alocar financiamento e recursos. Por isso, se calhar se estivéssemos a fazer um projeto que não tem tanto a ver com as nossas atividades do dia a dia, é um pouquinho mais difícil ires encontrar um financiamento específico para isto, porque sai muito fora do nosso campo habitual. Neste caso, não, fazia todo o sentido e por isso tem sido assim que nós conseguimos contornar essa questão.
Sim, essa regra que referes é essencial. Não fazer algo que seja fora, mas usar os financiamentos europeus para fazer, de facto, aquilo que está no nosso core business e usar as equipas que estão vocacionadas e pensadas para esse objetivo. O contrário é, na minha opinião, catastrófico, que é fazer algo que está fora do nosso objetivo e pôr uma equipa a fazer uma coisa que nem sequer tem vocação, com tudo o que ela tem que fazer normalmente. Portanto, essa dica é de facto muito boa. Olha, terminando aqui este bloco de projeto e de objetivos, há, de facto, outra dinâmica para a qual os projetos têm que corresponder, que tem a ver com a disseminação. Chegamos aos resultados, disseminar os resultados e ancorar esses resultados naquilo que eu costumo dizer que é o coração dos projetos europeus, que é o chamado valor acrescentado europeu. Afinal, o que nós estamos a fazer interessa ou não interessa aos outros e como é que nós passamos essa informação para os outros? Não sei se sabes isto, é um bocadinho difícil no sentido de não termos os projetos na cabeça, mas tens presente quais são as ações de disseminação que vão depois fazer na fase seguinte?
Tenho de uma maneira geral, mas acho que consigo responder. O projeto foi muito pensado já tendo isso em conta e tem que ser assim, de facto, porque eu penso que quem está a financiar tem que sentir que está a financiar mais do que aquele projeto. Como este também é um tópico tão importante, que vai continuar a ser relevante depois deste projeto terminar, também se torna quase essencial ter essas atividades de disseminação. Por isso, uma das primeiras coisas que acho que surge quando falamos disto, tem a ver com a parte do desenvolvimento dos recursos de suporte histórico. O parceiro que ficou responsável pela parte do background histórico, desenvolveu um conjunto de recursos que cobrem este tema de uma maneira bastante abrangente e que são acessíveis, são fáceis de compreender, estão em inglês e estão em francês neste momento, mas podem vir a ser traduzidos para outras línguas e que estão de acesso livre no site e que vão continuar. É um conjunto de artigos, mas também é um pequeno livro, um pequeno PDF, que pode ser enviado, replicado, pode ser distribuído por escolas, por universidades, por outras associações, e isso é uma das coisas que está pensada. Aquilo que está ali é conhecimento que foi criado não só pelos parceiros franceses, mas com recurso a historiadores europeus de vários países e que portanto acaba por ser um material valioso para quando se quer falar desta questão e que pode continuar a ser disseminado. Depois, o facto de os artistas terem obrigatoriamente uma componente digital nos seus projetos, também permite que os projetos vão além da exposição, que vai acontecer uma exposição final, mas como todos vão ter uma componente digital, seja ela de realidade aumentada, realidade virtual, vídeo, áudio, é possível depois que exista uma versão digital representativa de cada projeto e que também pode ser mais facilmente disseminado. Para além disso, tanto a Cora como o Gerador e a ComediAI têm redes no campo artístico, networks já muito desenvolvidas e estabelecidas. Tem sido sempre um objetivo ir desenvolvendo conversas com estas entidades fora das atividades do projeto, para que os trabalhos dos artistas possam continuar a circular depois do final do projeto. Isso também é uma coisa que é muito importante para os artistas. Isto é um laboratório de desenvolvimento do projeto deles, que termina com o evento final, mas a ideia é que as obras artísticas continuem, ou na forma final que vão assumir neste projeto, ou que sejam desenvolvidas para além disso. Há muitos artistas para quem este é o primeiro passo num projeto artístico mais alargado que eles estão a desenvolver. Como criamos uma boa relação com esses artistas e com o trabalho deles, também sentimos uma certa responsabilidade de lhes dar ferramentas para que eles possam continuar para além deste projeto, porque infelizmente o projeto só tem dois anos.
Quem sabe pode vir para outra iniciativa.
Pode. Sim, também podemos falar disso, se quiseres. Mas para já, o projeto só tem dois anos e nós sentimos que é importante que estes trabalhos que estão a ser desenvolvidos, e que têm muita qualidade e muito pensamento por trás, continuem para além daqui. Eu diria que o essencial tem sido o desenvolvimento destas redes, o acompanhamento dos artistas, já numa preparação para após o projeto, e a divulgação tanto dos trabalhos a nível digital como da publicação de recursos de apoio.
É isso mesmo que se pretende. Obrigado. É difícil esta pergunta no sentido em que, para quem tem isto mais presente, esta é a última pergunta do formulário, o que vai acontecer a seguir, e esta justificação do valor acrescentado europeu com as lógicas de disseminação, às vezes são óbvias, mas nós não conseguimos transformá-las em palavras e, sobretudo, não conseguimos passá-las a quem está a avaliar o nosso projeto. Por isso, a mensagem é um pouco essa. Acho que o que tu disseste faz todo sentido e é replicável, ou seja, é uma boa prática. Olha, queria agora olhar um bocadinho para a instituição Gerador. Tu já referiste várias candidaturas, umas do passado. Disseste uma coisa no meio do percurso que me chamou a atenção, que foi: "Algumas que não ganhámos". Esta ganharam, tiveram a experiência transsetorial. Penso que tiveram a experiência Erasmus, não estou certo. Não ganharam ou não tentaram?
Tentámos um bocadinho só.
Tentaram um bocadinho só. Mas o que eu te queria perguntar era esta lógica: como é que no contexto da vossa instituição tratam este tema? Tem uma pessoa que está sempre a olhar para as calls, tem uma pessoa que prepara os projetos, como é que se organizaram para conseguir? E também tu disseste que era uma valência que queriam de certa maneira desenvolver. Como é que estão a pensar tratar este tema do financiamento europeu?
Olha, entrou mesmo muito recentemente uma pessoa para a equipa que vai estar 100% focada nesta dimensão. Até agora, não. Até agora era uma coisa que nós íamos gerindo em paralelo com outros projetos, mas percebemos que o valor acrescentado para nós destes projetos é muito grande e é muito benéfico. É uma área que nós queremos tentar desenvolver mais e sentíamos necessidade de ter alguém que pudesse estar atento, ter uma calendarização muito presente de que calls é que vão abrir e quando, quais é que são os âmbitos destas calls, que pudesse olhar para elas e dizer: "Isto faz sentido para o Gerador ou isto não faz sentido para o Gerador". Porque também é uma coisa que leva o seu tempo, porque há muita coisa.
Ouvi dizer que há um curso muito bom.
É verdade, há um curso ótimo na Academia Gerador com o Francisco Cipriano sobre esta temática, precisamente. A pessoa que entrou já fez esse curso, portanto, recomendo. E entrou precisamente para estar focada nisto. Agora, a nível das equipas de gestão do projeto, nós para já ainda não temos capacidade de ter uma equipa 100% dedicada só a isto. Por isso, para já vamos continuar a integrar isto dentro das nossas atividades habituais e dentro dos nossos recursos habituais. Mas como eu disse, também não é assim tão difícil, porque são atividades que normalmente nós já fazemos no nosso dia a dia, que têm só um âmbito transnacional. São competências que a nossa equipa também está a adquirir e até agora isso tem corrido bem. Mas quem sabe, se continuarmos a envolver-nos neste tipo de projetos, talvez faça sentido crescer para nos focarmos mais só exclusivamente, uma parte da equipa, nos projetos europeus.
Sim, mas se me permites a opinião, é muito importante que esses dois polos existam. Tem que haver alguém que está de facto a tratar a questão do financiamento, sobretudo a olhar para as novas oportunidades e a preparar as candidaturas naquelas pequenas nuances que as candidaturas têm, mas nunca se pode perder de vista quem tem a mão na massa, isto é, quem desenvolve as atividades, porque as duas coisas às vezes não são fáceis de juntar. É bom termos uma equipa que faz as atividades, depois outra pessoa ou pessoas que olhem para as oportunidades de financiamento e que se concentrem naquele momento das candidaturas. Por isso, não é necessariamente mau que essas duas coisas convivam e não se misturem. É um pouco a minha opinião pessoal de quem já passou pelo processo.
Faz todo sentido.
O projeto é ganho, há ali uma fase de kickoff que ainda estamos um pouco in between, mas depois passamos para quem gere. Já não faz muito sentido a pessoa das candidaturas continuar ali. A pessoa das candidaturas tem que partir para outra
Exatamente, não faz todo sentido. E é importante haver esse contato entre os dois polos, porque senão é muito fácil a pessoa que está a redigir as candidaturas escrever coisas que se calhar ninguém consegue implementar. Por isso é muito importante haver uma comunicação constante e sabermos exatamente o que a pessoa está a escrever e o que as pessoas conseguem pôr em prática. Eu acho que isso é muito importante, acho que tens toda razão.
É isso mesmo. Olha, de todas as pessoas a quem eu fiz a pergunta que vou fazer a ti, tu, por maioria de razão, és talvez quem tenha uma visão mais articulada, que é: eu sinto que o setor cultural e criativo, para além de ter que perceber de fundos europeus, ainda está ali numa fase um bocadinho, às vezes, frágil no que diz respeito à preparação de projetos ou de preparação de orçamentos, ou de pensar produção. Ou seja, antes de chegarmos ao projeto financiado, ainda há ali um momento para ensinar. Vocês na Academia Gerador têm essa preocupação, têm várias ferramentas para isso, mas o que tu achas que ainda falta fazer? Vou dizer-te aquilo que eu às vezes ouço as pessoas dizerem, que é: eu digo "ah, mas tens que preparar um projeto" e a pessoa responde: "Mas eu sou criativo. Eu não sei fazer essas coisas". Mas eu acho que também têm que saber fazer essas coisas, porque nós também temos que saber explicar o que queremos fazer. Como é que vês esta problemática?
Olha, em relação a isso, começando por esse teu último ponto, naturalmente, eu acho que também nos assustava um pouco no início esta questão dos formulários e aquela sensação de que estas perguntas não são apropriadas para o meu projeto. Eu não consigo pôr o meu projeto nestas palavras, isto só tem cinco campos para explicar e o meu projeto não responde a nenhuma destas. E pode não ser a opinião de toda a gente, é provável que não seja, mas eu, por acaso, sinto que a mim, este tipo de estruturação das perguntas me tem ajudado a pensar e a criar de outra maneira. Eu sinto que o facto de eu ter que saber responder com o meu projeto a determinadas questões, que não são nunca aquelas que eu faria a alguém, se eu estivesse a perguntar: "Ah, teu projeto é sobre o quê?" Eu não lhe iria perguntar, se calhar: "Como é que distribuíssem work packages?"
O que são os seus objetivos específicos.
Exatamente. Isso é um bocadinho fora, mas eu sinto que quando se percebe, depois das primeiras vezes, que ajuda a pensar e ajuda, sobretudo, a ter a certeza que nós conseguimos fundamentar aquilo que estamos a propor. É claro que tem que se saber falar naquela linguagem, tem que se saber um bocadinho perceber o que nos estão realmente a perguntar, naquelas perguntas meio complicadas. Mas quando se percebe isso, e o curso da Academia Gerador mais uma vez é muito bom para isso, quando se percebe isso, eu sinto que acaba por nos ajudar a nós. Nós se calhar conseguimos pôr aquilo a funcionar a nosso favor se pensarmos: "Ok, eu não tinha pensado nesta vertente. Eu não tinha pensado como é que o projeto vai continuar depois". Porque isso, por exemplo, como estavas a dizer há bocado, é muito normal, porque a pessoa está focada no que quer fazer, o que quer fazer agora. E a primeira vez que eu vi essa pergunta, até me fez um bocadinho de confusão do gênero-
Tipo se não há dinheiro, não há projeto.
Exatamente. "Então, mas o projeto já acabou? Como assim, agora tem que fazer coisas depois?" E às vezes é apenas uma questão de pensar como é que eu posso rentabilizar aquilo que já foi feito. E isso é vantajoso para mim também, mesmo que seja depois do final do projeto. Isto é um projeto em que eu já investi tempo, já investi recursos. Então vamos tentar que o projeto continue a ser benéfico para a organização a seguir. Pronto, então eu diria que tentar olhar para as coisas um bocadinho de outra maneira, em vez de pensar que perguntas tão complicadas são estas que me estão a fazer, tentar perceber o que eu posso acrescentar ao meu projeto através destas perguntas às quais tenho que responder e que valor é que eu posso acrescentar. E acho que isso às vezes pode ser benéfico. Depois, estar atento a tudo que são sessões de esclarecimento tem sido muito útil para nós também. Sessões de pitches, conhecer outros projetos, perceber como é que outras organizações estão a fundamentar os seus projetos e as suas ideias. Acho que acaba por desmistificar um bocadinho, porque às vezes nós vemos alguém apresentar um projeto e pensamos: "Ah, mas isto já é muito parecido com o que eu faço, mas aqui. Muito se calhar não faço em parceria com cinco entidades, mas faço uma coisa muito parecida. Então espera, se calhar se eu conseguir arranjar uma entidade que também tem esta filosofia, que pelos vistos existe, porque eu estou a ver aqui que existem". Porque às vezes nós sentimos que estamos um bocadinho sozinhos no trabalho que fazemos, ser muito específico em determinadas coisas. Ou seja, temos uma abordagem específica e sentimos: "Não há ninguém a fazer isto como nós".
Sim, claro que há, nós é que não sabemos quem são.
Exatamente. Há centenas, milhares de organizações pela Europa fora que fazem coisas muito parecidas e é muito benéfico conseguir às vezes encontrar alguém que está muito alinhado conosco em muita coisa e acho que pode ser muito enriquecedor. Vale a pena tentar ultrapassar esse medo.
Eu próprio estou a sentir muita empatia no que tu estás a dizer, porque já sinto que estás a dominar uma linguagem que também é muito próxima da minha, isso também é muito engraçado. Olha, estamos a terminar. Foi uma conversa superrica, do ponto de vista até mesmo das aprendizagens. E se calhar gostava de terminar perguntando, talvez numa lógica assim mais motivacional, com base na tua experiência, até talvez pessoal: o que é que dirias a uma instituição que nunca fez nada disto e que está a começar a pensar participar? Qual é que era o conselho que davas assim de imediato?
Um bocadinho aquilo que acabei de dizer agora, vão às sessões de pitches. E vão às sessões de esclarecimento Às vezes é difícil sermos nós a arrancar com uma ideia, sermos nós a arrancar com a liderança de um projeto. Também pode acontecer e acho que se as pessoas tiverem disponibilidade e recursos para isso, por que não? Mesmo que se calhar à primeira não consigam, nós também já nos tem acontecido não conseguirmos ter certas candidaturas aprovadas, mas o feedback que dão é sempre útil para desenvolver futuras ideias. Mas às vezes, se as pessoas não tiverem capacidade, porque isso é uma coisa que exige muito esforço, para isso, acho que pode ser útil simplesmente ir ouvir outros projetos e outras ideias e saber, não é bem vender-se, mas saber valorizar a sua organização e a sua associação para que outros projetos que estão em desenvolvimento percebam que pode ser vantajoso convidá-los para um consórcio. Nós temos aquilo que muitas vezes até é visto como uma desvantagem em certos contextos, mas eu acho que neste contexto pode ser uma vantagem, que é o fato de estarmos aqui no cantinho da Europa. Muitas vezes os projetos precisam ter um alcance geral da Europa e que atinja vários pontos. Muitas vezes eles estão à procura de alguém que esteja neste cantinho e, portanto, pode ser benéfico a nível geográfico. E se as pessoas tentarem perceber: "Ok, a minha organização faz isto e isto pode contribuir", nem que seja em tarefas específicas do projeto, se calhar começar por uma coisa pequenina, não tem mal nenhum. Por exemplo, o projeto que eu estava a falar, que nós fizemos há bocado, o Measuring CCS, que foi o primeiro, nós tínhamos um papel relativamente pequeno comparativamente com todos os outros parceiros. Estávamos a dar apoio no work package da disseminação. Nem sequer éramos líderes, estávamos só a dar um apoio. E a verdade é que isso abriu muitas portas para depois. Por isso, se calhar, tentar começar por ouvir as ideias dos outros, os projetos dos outros, perceber como é que nós podemos contribuir, como é que nós podemos mostrar que a nossa entidade pode contribuir para aquele projeto. E depois, a partir daí, procurar absorver o máximo de informação possível, procurar aprender e a partir daí eu acho que se torna muito mais simples, até porque se tivemos a sorte de conseguir trabalhar com uma entidade que já tenha trabalhado neste tipo de projetos e que saiba o que está a fazer, isso faz toda a diferença a partir daí, porque a partir do momento em que se vê uma candidatura bem escrita, em que se percebe como é que ela se estrutura, a segunda vai ser muito mais fácil. Se calhar não se vai conseguir, e não se vai conseguir sempre.
A exigência também está muito alta neste momento.
Exatamente, a exigência está muito alta.
Em termos de pontuação.
Está. Nós já temos tido alguns projetos que passam o mínimo para serem financiados e depois não conseguimos, porque há muitos. Mas a partir do momento em que se faz a primeira, torna-se muito mais fácil entender as próximas. Por isso, se calhar, o meu conselho geral era esse.
Muito obrigado. Foi uma conversa muito enriquecedora. Acho que cumprimos aqui os objetivos, que é de explicar, de apresentar, mas também de inspirar. E se quiserem aprender mais, vão ao curso da Geradona. Já estou eu a brincar. Clara, muito obrigado, gostei muito de ter-te aqui na nossa conversa.
Obrigada eu, foi um prazer.
Obrigado por estarem desse lado e até uma próxima conversa. Prometemos continuar a dar informações sobre financiamentos europeus para arte, cultura e criatividade e a partilhar convosco mais projetos inspiradores. Este podcast é uma iniciativa da Fundação GDA, no âmbito da formação e desenvolvimento. Estamos juntos, no mesmo palco.