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Este podcast é da responsabilidade da Fundação GDA. O que sabem os artistas e o setor cultural sobre fundos europeus? Quais os truques e as dicas que podemos partilhar para alcançar o tão desejado financiamento? Isto não é mais um podcast. São conversas inspiradoras sobre financiamentos europeus, com o objetivo de quebrar mitos e passar à ação. O meu nome é Francisco Cipriano e sou o vosso anfitrião. Olá, bem-vindos mais uma vez ao nosso espaço de conversas: Isto Não é Mais um Podcast, um podcast dedicado ao financiamento europeu pra arte, pra criatividade e para os artistas. Hoje tenho comigo o Hugo Branco, da Associação Cultural Navalha, de Aveiro, que nos vem falar do seu projeto Break In Case of Emergency, que só pelo título nos dá muita vontade de saber um pouquinho mais, e que foi apoiado pela iniciativa MusicARRE, na componente Digital Recovery. Bem-vindo, Hugo. Estamos muito contentes de ter-te aqui.

Olá, Francisco. Também estou contente de cá estar e obrigado pelo convite. Antes de mais, não sei se queres que comece por falar um pouco do que é a nossa estrutura.

Sim, eu ia justamente perguntar-te o que é a vossa estrutura e o que é que foi em particular este projeto. Mas antes, e porque o nosso podcast é muito informativo e gostamos de dizer às pessoas o que estamos a fazer e, sobretudo, para os incentivar a concorrer também, dizer apenas que o MusicARRE decorre de uma iniciativa da Europa Criativa, que se chama Music Moves Europe, que teve uma determinada fase, que já terminou, e que agora tem um novo fôlego, com outro nome, que é o Live Mx, que por acaso abriu candidaturas no passado dia 5. Portanto, é o timing perfeito pra nossa conversa. Mas sim, por favor.

Sou o presidente da Associação Cultural Navalha, que é uma associação cultural de Aveiro. E o que é a Navalha? A Navalha surgiu no contexto da VIKAveiro Art House, que é um espaço que nós dinamizamos em Aveiro, no centro de Aveiro, e que é uma espécie de ecossistema criativo, composto por uma residência artística, uma guest house, um auditório na cave, que era um antigo cinema clandestino na altura da ditadura, onde fazemos uma série de concertos intimistas e de projeções de cinema, com conversas com realizadores, lançamentos de livros, etc. Uma guest house também, uma pequena loja galeria, e onde funciona uma série de projetos, como uma editora, por exemplo. Organizamos pequenos festivais também, ou seja, temos estes projetos mais de cooperação internacional também. A VIKAveiro Art House era a casa dos meus avós, na realidade, que esteve em risco de ser vendida em 2016. E basicamente, nós agarramos num problema e transformámo-lo numa oportunidade, porque o meu avô, embora fosse farmacêutico, era um pintor, cineasta, escritor e ceramista que deixou um legado artístico impressionante, e era um legado que se ia perder. Então, todo o projeto foi construído um pouco à volta da memória dele, da vida e da obra dele, e trabalhamos muito na conservação deste patrimônio e na promoção e reinterpretação deste patrimônio, à luz dos nossos próprios objetivos, mais contemporâneos, se calhar, mais experimentais, mas que têm sempre um pé nessa tradição. A Navalha surgiu enquanto associação cultural responsável pela ação cultural e artística ligada à VIKAveiro Art House, e que acabou depois por sair para fora de portas e começar a trabalhar numa série de outros projetos. Portanto, isto no fundo é a organização da qual estamos a falar. A Navalha existe desde 2018, penso eu. 2018, 2019. 2018, penso eu. E entretanto, é isso, começou-se primeiro a dedicar a estas questões mais ligadas às residências artísticas, à programação da casa. Depois começámos a trabalhar com a Câmara Municipal também numa série de pequenos eventos e de programação e criação de conteúdos para os eventos municipais. E depois acabamos por nos atirar a outros projetos, alguns mais de caráter comunitário, e começámo-nos, recentemente, de alguma maneira, a envolver mais em projetos de cooperação internacional.

Como é que chegaram, em particular, ao MusicARRE? Que responsabilidades é que a tua instituição tem? Como é que chegaram às parcerias? Como é que conseguiram esta possibilidade?

A minha primeira experiência com financiamentos, se calhar vamos um pouquinho atrás, foi no âmbito da Viral Agenda. Não sei se ouviste falar do projeto, que é um projeto que está ativo neste momento em Portugal, em Espanha e na Costa Rica, do qual eu fiz parte enquanto membro fundador e trabalhei durante muitos anos. E nós tivemos o financiamento em 2015 para desenvolver a aplicação móvel gratuita, e foi o primeiro financiamento que eu ajudei também a desenvolver conteúdo para. Entretanto, a VIKAveiro Art House/Navalha arrancou em 2016, mas até 2019 nós não tivemos qualquer tipo de financiamento. Fomos, sim, contratados por instituições para desenvolver alguns projetos, mas não propriamente um financiamento. E em 2019, entra uma estagiária, que se chama Lana Gunic, da Sérvia, e que é uma pessoa muito ligada à conservação do patrimônio, mas também à parte mais da cultura. Ela começa a trabalhar conosco enquanto estagiária e entretanto decidimos atirar-nos, ela tinha mais experiência nas partes mais formais das candidaturas E eu sempre tive facilidade em sistematizar ideias e em bater texto, mas faltava-me um bocado essa componente mais de timelines e budgets, etc. E critérios, muitas vezes entender os critérios, que foi uma parte que ela veio trazer e também o próprio lado de estar atenta. Concorremos pela primeira vez a um apoio pontual da DGARTES, que conseguimos, na altura. Tentamos concorrer aos sustentados, mas ainda faltavam uns dois meses de idade, então acabamos por desistir, mas o projeto está lá para ser atualizado.

Agora já passaram os dois meses.

Sim, já. E entretanto, acabámos na altura por começar a concorrer a uma série de apoios, porque nos sentimos motivados nesta sinergia que houve. E nesta equipa da Navalha e da Vica Aveiro de Artes, tenho cruzado com pessoas mesmo extraordinárias, das quais a Alana Gonical é uma. E criou-se ali uma sinergia muito boa ao nível de, ao mesmo tempo, haver sistematização de ideias e haver a capacidade técnica para as colocar no papel. Então, concorremos a uma série de apoios do foro municipal, regional e nacional, incluindo o Garantir Cultura, cujo projeto nós acabámos há dois anos e nos foi pago há cerca de uma semana.

Sim, acho que é comum.

Colocou-nos numa posição muito precária, porque enquanto organização pequena, tivemos que nos chegar à frente com 50%. Tu sabes como é que são essas coisas com 50%. E tivemos que pedir empréstimos, tivemos que pedir extensão dos empréstimos, estivemos quase em incumprimento com o MusicARe, por causa de questões. Mas já está, aconteceu.

Já passou.

Sim, fizemos uma festa para celebrar. Por acaso ainda não fizemos, mas vamos fazer.

Mas acho que merecem.

Desculpa, voltei-me um bocado atrás, mas esta questão dos financiamentos também não é uma coisa óbvia para mim, e é uma coisa que me aterrorizava um pouco também até há uns anos, até 2019, em que as coisas começaram efetivamente a funcionar. Mesmo antes da Alana Gonical, chegámos a participar num Tandem Europe, não sei se ouviste falar, que era um programa de cooperação e networking. E fizemos um projeto muito bonito nas Minas da Borralha, no norte, perto de Monte Alegre, em que foi um projeto comunitário. Estivemos lá uma série de meses a trabalhar com a comunidade, com muito pouco dinheiro, mas com muito boa vontade. E fizemo-lo em colaboração com uma associação espanhola, com a Ecopera, que estava mais ligada a desenvolvimento rural. E fizemos um projeto com a comunidade muito interessante. Portanto, foi o nosso primeiro contacto com projetos mais de caráter europeu. Isto também nos deu alguns contactos. E depois, mais tarde, já com a Alana Gonical, tivemos o projeto Iportunus, que era um projeto de mobilidade também, no nosso caso, Iportunus Houses, que era para anfitriões, ou seja, para organizações anfitriãs, em que recebemos três artistas em residência que vieram trabalhar conosco práticas contemporâneas. Trabalhar, investigar práticas contemporâneas ligadas ao património. Ou seja, basicamente pegámos um pouco no nosso património artístico e eles estiveram a desenvolver investigação e prática artística à volta disso. E depois, entretanto, surgiu esta questão do MusicARe, e eu penso que deve ter sido a Alana que nos falou disto, e achámos que se enquadrava perfeitamente na nossa atividade e decidimos avançar com isso.

O que sentes que para vocês, enquanto instituição, e sendo uma associação, se torna mais complexo? É a questão do processo de candidatura ou mais uma fase de mãos na massa, de gestão, de pôr tudo isto a funcionar?

Eu acho que o mais complicado não é nenhuma dessas coisas. Eu acho que o mais complicado é a falta de estrutura permanente. Ou seja, nós desde esta altura, mais ou menos, que temos apoios pontuais, aos vários níveis, municipal, regional, nacional, europeu, como eu te disse, normalmente estão ligados à realização de projetos específicos. Por exemplo, este projeto, a participação no MusicARe, deu-nos a possibilidade de ter, anos mais tarde, a Alana Gonical de novo a trabalhar conosco, a trabalhar a tempo inteiro, contratada. Uma pessoa que tinha estado em estágio conosco uns anos antes. Mas eu acho que para nós o grande problema, e que eventualmente apoios como o da DGARTES sustentado podem colmatar, é a falta de apoios sustentados que permitam manter uma estrutura, porque senão estamos sempre aos altos e baixos. Eu acho que isso não só cria dificuldades nas dinâmicas de funcionamento das estruturas, como cria uma série de ansiedades, porque nunca sabemos como é que vai ser o futuro. Ou seja, acaba este projeto e depois o que temos? Normalmente, o que as pessoas fazem, antes de acabarem, já estão a candidatar-se ao próximo. Mas é um lugar de incerteza e de ansiedade.

Sim, é pesado.

É.

Já falámos dos recursos financeiros, já falámos um pouco dos recursos humanos que vêm por inerência aos recursos financeiros. E o que é que sentes que ganharam em termos internacionais, em termos da valência da vossa instituição, uma nova vontade para concorrer a outro tipo de projetos? O que achas que ficou instalado?

Eu vou dizer um bocado onde é que isto vai, tendo como base o Breaking Case of Emergency e o MusicARe e para onde é que isto vai.

Tens que falar um bocadinho sobre o projeto em si.

Sim, sobre o projeto em si, é isso. Nós com o que é que concorremos ao MusicARe? O MusicARe era um programa cujo objetivo era facilitar a recuperação do setor musical na Europa pós-covid. Em quatro áreas, que era área verde, justa, era recuperação verde, justa, resiliente e digital. Nós fomos sobretudo para a digital, justa e resiliente Isto tem a ver com questões nossas também a que nós estamos muito ligados. Ou seja, nós temos uma editora pequenina de música independente, que se chama VikNik. Nós lançámos oito discos até agora, alguns em formato digital, outros em vinil. Um deles é uma cerveja, fizemos uma colaboração, ou seja, compras a cerveja, tens um código de download, bebes e ouves o disco. Agora estamos a lançar outro disco num formato hidrofone, que é um microfone que pode usar debaixo d'água, que foi um disco feito com esse hidrofone, de um amigo nosso colombiano. Também gostamos de lançar coisas em formatos estranhos.

Uma certa experiência também, não é?

Sim, e se o tal da cerveja era uma coisa mais ligada à fruição, o disco é a própria ferramenta com que o disco foi criado. Portanto, parece-nos interessante esta ideia de dar continuidade às coisas. Muitos de nós somos músicos e artistas audiovisuais, etc., e temos esta questão da editora independente. E a indústria musical sempre foi um animal, neste momento é um animal quase insondável a muitos níveis. Então nós, enquanto profissionais ligados à música e ao som, enquanto editora, enquanto pessoas que promovem projetos também ligados a outros músicos, etc., estamos bastante cientes de quais são os principais problemas e questões levantadas neste tipo de andanças. Então nós começamos a pensar: "E se sondássemos um bocado também a comunidade que está à nossa volta e tentássemos perceber se estes problemas são comuns a toda a gente e quais são os mais urgentes para resolver, e se desenvolvêssemos um projeto baseado nestas questões?" E então fizemos um seminário internacional com 14 masterclasses, eu penso quatro workshops e quatro mesas redondas, à volta de quatro temas, que foram os temas que nos pareciam mais urgentes, que era a tecnologia, isto não ligado à criatividade, mas ligado à indústria. A questão da tecnologia, a questão da edição e distribuição propriamente ditas, a questão dos direitos dos músicos. Eu continuo sem perceber, eu já tive imensas conversas e li imensa coisa e digo: "Façam um desenho, por favor".

Sim, é muito complexo, de facto.

É muito complexo e há muitos tipos de direitos que se interligam de formas estranhas e depois funcionam de forma diferente nos territórios. E depois a questão da promoção e da comunicação, ou seja, como é que num mundo em que o ruído é cada vez maior e em que a quantidade de informação é cada vez maior, como é que conseguimos fazer passar uma mensagem? E o que fizemos foi convidar 25 oradores e moderadores de cada uma destas áreas. Tentámos convidar pessoas que viessem de pontos de vista diferentes, por exemplo, na área da comunicação, não chamámos 10 marketeers. Chamámos um marketeer, duas pessoas dos media, duas pessoas de empresas de PR, por exemplo. Tentámos ter alguém da rádio, alguém da imprensa e tentar ter essas pessoas à conversa, porque são pontos de vista diametralmente opostos e que podem gerar discussões interessantes. E fizemos isto em todas as áreas, tentámos criar contrapontos para surgir alguma coisa, para se tentar encontrar nas entrelinhas e nos cruzamentos entre estas coisas, alguma coisa interessante. Isto aconteceu fisicamente e tivemos pessoas a participar, à volta de 30 pessoas, inclusivamente uma pessoa veio da Índia para participar neste programa. E depois fizemos isto em streaming também, e está tudo disponível no YouTube em formato gratuito. Há uma questão que nos incomoda um bocado às vezes nestes projetos, que é a efemeridade deles. Inclusivamente, eu estive a ouvir aqui há uns tempos o episódio aqui do podcast em que estava o Ofício e a Saber Fazer, que foram nossos parceiros também no Break, e grandes parceiros. E entretanto, eles falavam desta questão de querer deixar legado, ou seja, que os projetos não acabem no limite do projeto, mas que possam servir para o futuro. Nós, nesse sentido, além dos tais episódios de vídeo, que foram transmitidos em streaming, mas continuam gravados no nosso YouTube, lançámos uma publicação que era para ser um folheto, e terminou numa coisa de 250 páginas, que eu passei os três meses a seguir ao projeto a desenvolver, e que resume todas as 14 masterclasses e workshops, etc. E que acaba por dar um pouco de continuidade ao projeto e é uma coisa que pode ainda hoje ser consultada. Não chegámos a fazer publicação física, porque não tínhamos orçamento para isso, mas gostávamos de a fazer um dia, portanto, poderá haver uma segunda edição disto. Ainda relativamente a isto, nós convidámos algumas pessoas para escreverem alguns textos para esta publicação. Uma delas foi o Rui Miguel Abreu, e há uma coisa muito interessante que ele dizia neste texto, que é só o facto de nós estarmos aqui a editar coisas e a ter uma trabalheira imensa, sem qualquer ânimo de lucro, mas que já é de alguma maneira um statement político. E no momento em que às vezes nós nos questionamos um pouco de por que fazemos as coisas ou: "Ok, isto é porreiro, mas em que estamos a contribuir? Estamos a contribuir, sim, tanto para um mundo melhor ou não", etc. É isso, às vezes em pequenos gestos e em pequenas E em pequenos projetos acaba por haver uma dimensão política intrínseca, mesmo que ela não seja explícita.

Sim, isto é tão importante o que estás a dizer, que nos últimos parágrafos das candidaturas da Europa Criativa, o que nos perguntam é mesmo qual é o legado do projeto. E termos alguma capacidade de ir um pouco mais além, como acabaste de dizer, e explorar esse legado, que vai para além do financiamento. Isso é mesmo um ponto importante aqui neste contexto de financiamentos europeus. O que eu te queria perguntar, e passando a vossa instituição por esta experiência MusicAER, sentes que isto já abriu portas para novos projetos, para novas iniciativas neste contexto europeu do financiamento?

Sem dúvida. Primeiro, a questão da experiência em si, porque eu acho que nós fomos pouco realistas e fomos um bocado megalômanos no desenvolvimento do projeto. E nós fizemos isto: nós fizemos três sessões físicas por dia, com streaming, todos os dias em espaços diferentes em Aveiro. Nós tínhamos de montar a técnica todos os dias às 8h da manhã, foi um filme. Mas a equipa era incrível, e correu mesmo a extra mile. Portanto, só esta experiência da montagem e da execução foi incrível. E apercebemo-nos também de muitas questões em que estivemos muito bem, em que podíamos estar melhor, em que estávamos redondamente enganados. Mas sim, foi uma experiência muito positiva. Por exemplo, esta questão que eu estava a falar da publicação. Eu cheguei ao fim da publicação já quase em burnout. Porque entretanto meteram-se outros projetos pelo meio e eu ainda estava a acabar este. E então também, nós este ano fizemos uma pausa, de alguma maneira, a nível de candidaturas. Por acaso fomos chamados para uma série de outros projetos, e é aí que eu quero chegar também. Por um lado, há os resultados do projeto propriamente dito, que nós achamos efetivamente que demos o nosso contributo para este ecossistema da música independente. Por outro lado, nós fomos convidados, já a partir deste projeto, para penso que dois ou três outros projetos.

Programas-chave?

Sim, um deles é um projeto da Europa Criativa, que foi selecionado, que vamos estar a desenvolver entre 2025 e 2026, que se chama AMP, e que é um projeto desenvolvido por uma organização polaca, e é um consórcio entre sete países, dos quais nós somos um dos parceiros. Um projeto superinteressante, também ligado à formação e à colaboração entre músicos de vários países, mas com uma componente de filmagens 3D para realidade virtual. Parece-me um projeto superinteressante, no qual nós vamos estar envolvidos em duas edições em 2025 e 2026, que nos vai permitir não só receber uma série de músicos estrangeiros, para fazerem colaborações com músicos nacionais, mas também exportar alguns músicos nacionais para as edições.

Que é fundamental também.

Para nós é superimportante. Aliás, um dos nossos últimos discos, que nós lançámos, foi um projeto muito interessante chamado Rajada, em que nós pomos 16 projetos musicais da região de Aveiro a colaborarem entre si. E o nosso objetivo para a continuidade desse disco era um projeto em que, neste momento, já não fossem bandas de Aveiro a colaborar com bandas de Aveiro, mas a colaborar com bandas de fora, exatamente para dar um pouco mais de visibilidade e de mobilidade. E este projeto veio mesmo a calhar para isso. Portanto, fomos convidados para esse projeto. Outros projetos ligados a este projeto acabaram também por receber um Live MX e um apoio do Ministério da Cultura polaco. Portanto, isto vai ser uma série de projetos interligados, que têm um apoio da Europa Criativa, um deles, outro tem o apoio do Live MX. E entretanto, fomos também convidados pela Universidade de Aveiro para sermos parceiros. Uma coisa mais pequena, o projeto é muito interessante, chama-se Shores e é um projeto também ligado à música e ao som e às questões que estão a atravessar agora as regiões costeiras. E fomos convidados só para organizar um workshop, mas também veio um bocado na sequência de um protocolo que realizámos com eles e no facto de eles terem sido nossos parceiros no Break. Eu penso que sim, foi um projeto que, num ano em que nós decidimos: "Bora não fazer candidaturas este ano, porque o ano passado foi muito pesado. E finalmente temos tempo para projetos pessoais e para acabar os projetos que deixámos". Nós este ano já acabámos quatro ou cinco projetos que ainda estavam nas caldinhas a abanar, e decidimos dedicar o ano a isso, e ainda assim acabamos por ser puxados para outros projetos, felizmente não na componente de coordenadores.

Sabes que eu te fiz a pergunta, porque eu tenho muito esta convicção. Eu acho que quem passa pela experiência de um projeto internacional, quase sempre, segue caminho para outras ideias com o mesmo grupo ou com alguns parceiros desse grupo. E, portanto, é um bocadinho essa a ideia que eu queria explorar, é que às vezes só custa começar e a seguir as coisas acabam por acontecer de forma um pouco natural. Aqui neste contexto do financiamento europeu, também há um pouco a ideia de que as coisas não se sabem, que são complexas, que as pessoas não têm informação. O que é que sentes que falta fazer? O que é que sentes que se podia fazer mais? Enfim, o podcast eu acho que é um contributo para isso. Mas o que é que se podia fazer mais para dar a conhecer às estruturas artísticas e aos artistas esta questão do financiamento europeu?

Pronto, é isso. Eu acho que as plataformas oficiais onde estes programas são anunciados e onde estes programas aparecem, para quem não os conhece, às vezes absolutamente insondáveis, a vários níveis. Ao nível tanto da arquitetura das próprias plataformas, como ao nível, muitas vezes, da terminologia. E depois o grau de complexidade vai dependendo do tipo de projeto Há outros projetos, por exemplo, ligados mais a financiamentos para recursos humanos, etc. Eu que já estou habituado a fazer candidaturas, eu li o enunciado e não percebia do que aquilo tratava e não sabia o que me era pedido, ou seja, em 90% das questões. E depois de já ter passado por uma série delas, eu tive que me socorrer de uma consultora, de uma empresa de consultoria, para poder fazer esta candidatura de recursos humanos. Ao nível da cultura, eu acho que é isso. Mas acho que, por outro lado, cada vez há mais newsletters, podcasts e veículos de informação, onde a informação está relativamente mais condensada, porque depois também há essa questão de há tantos financiamentos de tantos sítios diferentes, que é difícil estar a par de tudo, mas felizmente, hoje em dia, e cada vez mais, já há meios em que eles vêm condensados. E eu acho que há aqui duas dinâmicas: uma é se as pessoas efetivamente têm interesse, acho que devem descobrir, ou devem tentar procurar descobrir, quais são esses meios, newsletters, podcasts, etc, que condensam essa informação, que lhes são mais favoráveis e que lhes são mais acessíveis. Por outro lado, acho que esta questão do desenvolvimento de mais workshops e sessões de esclarecimento nestas áreas parece-me super importante. Acho que há uma série delas pelo país fora, acho que podia haver mais, e acho também que elas podiam ter mais participação, porque muitas vezes já fui a uma série de programas super interessantes que me abriram os olhos para uma série de financiamentos e de formas de concorrer a eles, que tinham muito pouca participação também, e muitos deles gratuitos. Acho que é uma questão das pessoas efetivamente estarem atentas. E não se pode ganhar todas as batalhas, ou seja, não se pode lutar em todas as frentes ao mesmo tempo. É ter um bocado de direção e perceber o que me interessa.

Sim, há um pouco os dois lados. O lado do setor, que também se tem que emancipar e também tem que fazer o seu trabalho, e o lado dos financiamentos ou dos financiadores, que também se têm que dar a conhecer. Concordo contigo. Olha, a terminar, e assim de uma forma um bocadinho mais pessoal, da tua experiência, o que é que dirias a uma entidade ou a um artista que vai começar nestas andanças, de modo a motivá-lo? Qual é que era o teu conselho pessoal?

Tenho alguns, vou tentar ser sucinto, mas tenho alguns. O primeiro, eu penso que é: sejam realistas. Sejam realistas com as vossas expectativas, sejam realistas com os orçamentos, sejam realistas com os resultados que propõem e que estão à espera. E atenção, isto é fruto de tentativa e erro, a maior parte destes conselhos. Nós temos um bocado a tendência para over deliver. E muitas vezes, pronto, isso feremos, a equipa sofre com isso. É bonito, porque depois as coisas ficam bem feitas e acabamos por ter outras oportunidades, se calhar, acaba por abrir outras oportunidades, mas é desgastante. E, por exemplo, a questão de sempre que consideramos um orçamento, há sempre derrapagens, portanto, considerar isso, considerar uma porcentagem para imprevistos, é super importante em qualquer tipo de projeto. Quanto maior o orçamento, maior a derrapagem, normalmente. Outra questão é: não se esqueçam quais são os vossos objetivos enquanto organização. Porque muitas vezes nós vamos atrás de um projeto só para ganhar o financiamento. Já vi muita gente fazer isso. E de repente estamos a afastar completamente os objetivos da organização. Estamos a trabalhar para uma coisa só porque nos deram 30 mil €, ou 60 mil €, ou 90 mil €. O que isso interessa se vos está a colocar num caminho que não é o vosso caminho? Mais uma vez, também falo por experiência, já aconteceu, abraçarmos determinados projetos, porque nos pareceram oportunidades interessantes, mas depois acabamos por ser arrastados num caminho que não era o nosso. Portanto, tentem adequar os projetos a que se candidatam àquilo que é o vosso ADN enquanto organização e que são os vossos objetivos enquanto organização. Para acabar, a questão da equipa. Isto é equipa. O vosso projeto, a ideia pode ser muito boa, o financiamento pode ser porreiro, etc, mas eu acho super importante não só rodearmo-nos das melhores equipas para isto, ou seja, não só pessoas que são de excelência a nível profissional, mas também pessoas que partilham dos nossos valores, que partilham eventualmente das nossas metodologias ou que lhes acrescentam algo, pelo contrário. Mas eu acho que a parte da constituição da equipa é super importante. E muitas vezes nós preocupamo-nos demasiado com o valor que vamos ter para programação ou que vamos ter para marketing, que vamos ter para aquilo, e às vezes acabamos por fazer pagar a equipa. Andamos todos a lutar por menos precariedade e por melhores condições, e às vezes somos nós próprios, enquanto gestores de projeto, a propor condições à nossa equipa que são tudo menos aquelas que achamos justas. Portanto, pensem melhor nisso, porque é isso. E sinto-me super abençoado da quantidade de gente incrível com quem tenho vindo a trabalhar ao longo dos tempos, tanto a nível de equipa, como a nível de parceiros. E atenção, o que eu digo para a equipa, digo relativamente aos parceiros também. E cada vez mais, e eu já fiz esse erro, a Ana Gunitz, que falámos há pouco, quantas vezes ela me disse: "Não podes gastar mais em programação. Estamos todos aqui a trabalhar muito mais e a ganhar muito menos só para tu poderes ter caos não sei quando". E eu: "É, tens razão". Mas uma pessoa tem essa tendência de: "Não, quero fazer melhor, quero fazer maior". Mas e se fizermos mais pequeno e estarmos todos contentes, e trabalharmos todos bem e sem estresse, e a sentirmo-nos valorizados, e chegarmos ao fim e dizer: "Hurra, grande projeto, bora fazer outro".

Olha, Hugo, eu nem vou comentar, porque estou completamente de acordo contigo nesta fase final da nossa conversa, porque falaste aí três pontos que são absolutamente centrais para fazer um bom projeto europeu, designadamente não sair do foco, a questão da equipa e a questão dos objetivos da instituição. Portanto, eu acho que acertaste em cheio. Vou-te apenas agradecer muito a tua presença aqui na nossa conversa e dizer que foi uma conversa fantástica. Muito obrigado.

Obrigado, Francisco, gostei muito também. E obrigado pelo convite.

Obrigado por estarem desse lado e até uma próxima conversa. Prometemos continuar a dar informações sobre financiamentos europeus para arte, cultura e criatividade e a partilhar convosco mais projetos inspiradores. Este podcast é uma iniciativa da Fundação GDA, no âmbito da formação e desenvolvimento. Estamos juntos no mesmo palco.