Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta semana no Isto Não Passa na Rádio, o tema é: versões dos Beatles. Sejam bem-vindos. Este é o Isto Não Passa na Rádio, esta semana dedicados aos Beatles e às versões dos quatro fabulosos de Liverpool. É possível falar de Beatles sem dizer quatro fabulosos de Liverpool?
Ou os quatro de Liverpool.
Ou os quatro de Liverpool.
Ou os quatro cavaleiros do pós-calipso, como surgiu na imprensa portuguesa nos anos 60. Não estou a brincar.
Isso é uma boa formulação.
Não estou a brincar.
Muito bem, eu sou o Nelson Ferreira e esta escolha de Bill Withers para "Let It Be", que abriu o Isto Não Passa na Rádio esta semana, foi do Gonçalo Correia. Bem-disposto, Gonçalo?
Ótimo.
Ótimo.
Isto não é muito habitual. Esta atitude, a resposta imediata.
Foi com energia. Se passou a má disposição. Gostei.
Ok. Podemos depois aprofundar esse tema.
É físico.
Este senhor que disse "ah" é o Tiago Pereira. Olá, Tiago.
Olá a todos, como é que estão?
Bem, esta semana vamos aqui também um pouco a reboque da disponibilização do documentário sobre os Beatles.
Não, atenção, nós vamos a reboque dos Beatles porque é isso que a humanidade faz. Ainda que o Nelson tenha algumas dúvidas sobre isto.
Tenho.
Pronto, tínhamos que chegar aqui.
A humanidade anda a reboque dos Beatles e fá-lo com gosto, meus amigos.
E muito bem!
E muito bem.
E a questão é...
E de forma inevitável, até diria.
Sim, sei lá, podia ser pior. Gonçalo, tu também escreveste no Observador sobre este, chama-se Get Back.
Chama-se sim.
Escreveu e muito bem.
Foi espetacularmente editado.
Sim.
Claro.
Isso fez a diferença.
Claro.
Mas sim, escrevi. Vi aquilo que são um pouco mais de sete horas, ali entre as sete e as oito horas, de documentário, porque ele está dividido em três episódios. Eu acho que há duas faces nesta série documental do Peter Jackson.
Que está disponível na Disney Plus.
Disney Plus Portugal. Uma delas, acontece uma coisa que acontece, acho eu, a toda a gente que trabalha em coisas que gosta, quando escreve um texto, por exemplo, no meu caso, ou quando faz rádio, no teu caso, ou quando faz maravilhas, no caso do Tiago Pereira.
Tu já quiseste dizer quando faz bolos.
Eu estava a pensar nisso. Se por acaso andas a fazer bacalhau à Brás.
Aquilo a dada altura já te parece tudo absolutamente espetacular.
Ok.
Não tens a capacidade de te distanciares um pouco e de dizeres: "Se calhar isto, na verdade, não importa assim tanto". Tu já ali, se calhar duas horas que podiam ter cortado.
Eu tenho sempre essa sensação com filmes e documentários sobre música. Se o tema é música, vai me interessar por mais desinteressante que até seja o conteúdo, mas neste caso, até nem é, não é? A obra do Peter Jackson.
Até nem é. Nota que ele está sempre a tentar.
Presumo que seja sumarento pra quem é fã de Beatles.
Sim, por que isso acontece? Porque a série documental mostra os Beatles em sessões de ensaio, depois gravação e finalmente num concerto, que foi o último concerto dos Beatles como banda, juntos. Um ano e qualquer coisa, um ano e três meses, até os Beatles oficialmente acabarem. Portanto, estamos numa fase final daquilo que era a vida dos Beatles e temos ali, de repente
Sete, oito horas condensadas a partir de 60 horas que o Peter Jackson teve de vídeo e mais de 150 horas de gravações sonoras dessas sessões. Portanto, de repente, é como se estivéssemos a viver com os Beatles no estúdio, na sala de ensaios, durante um mês, praticamente, porque aquilo vai acompanhando dia a dia aquilo que ia acontecendo. E vê-se coisas que nunca se viram. Por exemplo, quando o George Harrison sai da banda e depois regressa. Há ali uma série de momentos que nunca tinham aparecido. De resto, quem não conseguir ver ou não quiser "Get Back", pode sempre ler no Observador: "Get Back: o que sete horas no sofá com os Beatles nos dizem sobre o último ano da banda", é o artigo do Gonçalo Correia também, que nos guia para esta emissão do Isto Não Passa na Rádio, porque preferimos viajar para a forma como a obra dos Beatles foi recriada por outros artistas. Também na pesquisa para este programa percebi que é enorme, já sabia, mas que foi até bandas e até estilos que eu não imaginava. Rapidamente, Gonçalo, Bill Withers, "Let It Be", por que escolheste esta para início de programa?
Porque eu acho que uma das provas de génio dos Beatles é que há muitas versões dos Beatles, há muito poucas versões dos Beatles que sejam melhores do que as originais. Em minha opinião, daquilo que vi. Esta é um dos casos em que, se calar, vou ser vergastado, chicoteado pelos vassalos de Paul McCartney, mas eu acho que a "Let It Be" na voz do Bill Withers é uma canção ainda melhor. E o mais curioso é que o Bill Withers gravou isto para o primeiro disco de estúdio dele, o "Just As I Am", que era o disco da "Ain't No Sunshine", o grande hit dele. É um tipo muito peculiar, porque olhamos para o Bill Withers e imaginamos, mal vemos a imagem dele, um cantor de soul ou de R&B.
Eu olho para Bill Withers e vejo um pai. Até na forma como ele canta. Aquele ar tem qualquer coisa de paternal na melodia que ele traz sempre nas canções.
E um lado até de mistura de música negra com música branca. Porque a coisa da guitarra acústica, era folk, da country, e ele movia-se muito por aí. Portanto, foi por isso que trouxe aqui o Bill Withers.
Foi uma ótima maneira de começar o programa.
Sim. E além disso, o Bill Withers tem uma coisa espetacular que é, nesse disco, a "Ain't No Sunshine", ele dizia uma coisa muito engraçada: "Todas as mulheres que conheci antes dos anos 70 acham que 'Ain't No Sunshine' é sobre elas".
Ok.
Portanto...
Safado.
Safado.
E era talvez um dos tipos, de toda a história da humanidade, com mais pinta a usar uma camisa de gola alta.
Verdade.
Isso é importante.
É importante.
Até porque é uma coisa que eu gosto.
Tal como o McCartney, curiosamente.
Mas não é fácil rocar um bigode.
Não, mas o McCartney de gola alta. Se vires agora o Planetário, o McCartney está os dias praticamente todos de gola alta.
Até porque estava frio.
E com a sua barba.
Sim, mas, epá.
Mas está bem. Não é o Bill Withers, mas está bem.
Podemos fazer um programa um dia dedicado a canções de vozes com gola alta.
Bem, vamos avançar neste programa com outra sugestão e já vos falo desta, mas vamos primeiro escutá-la.
Outro dos clássicos famosos na carreira dos Beatles, aqui recriado pelos Sparks. A banda é uma das mais estranhas do panorama da música mundial. De resto, eles são superprodutivos, já devem ter editado mais de 20 ou 30 discos ao longo da carreira. Raramente fizeram pausas. São um duo, ao que consta de irmãos. Os Sparks fizeram "I Want to Hold Your Hand" em 1975 pro álbum Indiscreet. De resto, nesse disco há uma canção também dos Sparks, "How Are You Getting Home?" que foi usada no Holy Motors, do Leos Carax. Talvez tenha aqui nascido esta parceria artística entre os Sparks e o Leos Carax, que deu origem, mais recentemente, ao Annette, um musical que também foi escrito por esta banda. Uma banda de art pop, dizem as críticas.
É uma banda de tudo.
Sim, eu acho que eles são espetaculares e pouco reconhecidos.
Uma banda, Nelson, de que tu gostas mais do que os Beatles. Estou certo?
É assim.
É a minha suspeita.
Se ele hesitou.
Terei curtido mais ao som de Sparks do que de Beatles.
Amigo, às vezes é o melhor critério.
É o critério. Ok. Gosto muito de Sparks.
Mas também em dez novo, também não sabes o que é que ainda vais fazer ao som dos Beatles.
É verdade. Há esperança pra os Beatles na minha vida. Há uma descrição que encontrei, já não me lembro onde, mas num artigo na imprensa que falava desta versão dos Sparks pra esse clássico dos Beatles e que dizia: "Corny, yet compelling". É um bocado escorregadia, mas ficamos sensibilizados com ela.
Eu gosto. Também gostei.
Os Sparks têm muitos momentos no seu percurso que têm isso. Estão a dirigir-se perigosamente para uma poça de azeite.
É isso, é exatamente isso.
E de repente, molham só o bico do pé e depois saem de fininho com imensa classe. E é muito difícil ter essa habilidade.
Eu não diria melhor. Só explicar que "I Want to Hold Your Hand" é uma canção que foi gravada em 63. Consta que foi a primeira canção dos Beatles gravada em quatro pistas, com equipamento de quatro pistas. Não tinha acontecido até aí.
Pois é. Alta tecnologia na altura.
Sim, e consta também que foi o primeiro número um na América dos Beatles, o "I Want to Hold Your Hand". E é até hoje, de resto, uma das canções, um dos singles mais vendidos da carreira dos Beatles. Em 2018, a Billboard colocou este tema no 48º lugar dos melhores número um de sempre da tabela norte-americana. Aqui fica também esta recriação um bocadinho diferente para "I Want to Hold Your Hand" dos Sparks em 1976. E agora vamos à primeira sugestão do Tiago Pereira. Tiago, tiveste algum critério na escolha de versões de Beatles?
O Tiago tem sempre critério.
Analisada ao detalhe durante toda uma semana, com cuidado nas pequenas folgas que tenho de todas as tarefas impossíveis que arrasto ao longo dos, enfim. Sim, tive um critério que foi: vou escolher versões portuguesas. E foi isso que eu fiz. E inevitavelmente, as duas versões que eu vou trazer aqui esta semana estão ambas incluídas num álbum, uma compilação que se chama "All You Need Is Lisboa".
Espetacular.
Sim, que foi editada em 2004 e que foi organizada pelo Luís Pinheiro de Almeida.
Melhor especialista em Beatles deste país.
Que é o quinto Beatle português.
É.
Não é?
Sim, acho que é.
Ou o sexto, ou o sétimo, se contarmos depois com os outros que fizeram parte dos Beatles.
Um tipo que entrevistou o Paul McCartney e o Ringo.
E que tinha aquele, não sei se ainda tem, mas tinha aquele blog do Yeah Yeah, dos gedilhudos. E foi ele que organizou e, portanto, é a melhor fonte pra ir encontrar versões totalmente inesperadas.
Ou encontraste um disco e ficaste por esse?
Naturalmente, mas não encontrei um disco, encontrei o disco. Essa é que é a questão. Portanto, eu chego aqui.
Eu não conhecia.
Vês só o que eu te digo. Eu chego aqui e além de sugerir duas canções, sugiro um disco inteiro pra descobrirem.
Ótimo. Não conhecia.
Se isto não é um privilégio, não faço ideia. Vamos ao que interessa. Primeira versão. Se vocês achavam que esta versão do "I Want to Hold Your Hand" era especial, então não sei se queres passar já, caro Nelson. Esta versão chama-se "Agora Vou Ser Feliz" e é do Ouro Negro e é de 1964. Vamos ouvir e depois falamos sobre isto.
Vamos fechar a primeira parte daqui a pouco.
Falamos sobre isto no início da segunda?
Falamos sobre isso no início da segunda parte. Do Ouro Negro, "Agora Vou Ser Feliz". O Isto Não Passa na Rádio esta semana está à descoberta de versões dos Beatles. As serriá. Cantam o nosso amor. E o coração está em festa. Como se fosse um arraial. Tudo é sublime em meu redor. E a lua. Tão prateada a brilhar. Para nós, para nós, para nós. Eu vou ser feliz. Com o meu novo amor. E a primavera vem sorrindo. E eu quero cantar. Deixo nova canção em mim. Nova canção para o nosso amor. Nova canção para o nosso amor. E no "Isto Não Passa na Rádio" desta semana estamos a descobrir versões dos Beatles, também aqui ancorados por Get Back, o novo documentário da banda que está já disponível na Disney+ e que tem um belo artigo escrito pelo Gonçalo Correia, basicamente a contar-nos tudo sobre o que está nesta obra do Peter Jackson.
Envaideces-me, Nelson.
É sincero, acredita. Há pouco escutávamos o Duo Ouro Negro. Bela versão para "I Want to Hold Your Hand". Adorei.
1964.
A letra.
1964, o Duo Ouro Negro, Raul Indíbil, Milo McMahone, a mostrar que tinham todas as influências possíveis num universo e num contexto em que se calhar essas referências não eram assim tão fáceis ou imediatas de assimilar. Dado o contexto em que vivíamos.
Porque era a modernidade.
Era a modernidade e o Duo Ouro Negro apontava precisamente essa modernidade e ao longo da década de 60 teve uma obra notável a favor dessa vontade e dessa vanguarda. Não é só a adaptação instrumental, não é só a harmonia de que as duas vozes eram capazes, que aqui é óbvia, é essa criatividade lírica, porque a letra não é uma tradução da letra dos Beatles, é uma letra nova.
Adoro quando ele diz: parece um arraial.
Exato.
Adorei.
E, portanto, eu desafio os meus caros colegas de companhia.
Companheiros de painel.
Os companheiros de painel e os caros ouvintes, a dedicarem, assim que puderem, algum tempo a esta versão do Duo Ouro Negro e a analisarem a fundo a lírica desta canção, que se chama, na versão do Duo Ouro Negro, "Agora Vou Ser Feliz".
Ótimo. E vamos a uma outra sugestão do Gonçalo Correia. Ele que foi aqui buscar a "Across the Universe", é uma das músicas dos Beatles mais recriadas, mas tu escolheste a versão da Fiona Apple.
Sim. Até aqui é a segunda escolha de canções que aparecem no Let It Be, no disco. Pode parecer uma coincidência, mas na verdade é fruto de aprofundado planeamento.
Contigo não há coincidências.
O facto de a série documental da Disney+ ser sobre as sessões que viriam a culminar na gravação e na edição do Let It Be, portanto, também trouxe aqui um pouco mais dessa estética e desse álbum. O que é que acontece? A Fiona Apple foi contratada, recrutada, convidada, o que quisermos, pelo Gary Ross, realizador, a fazer a banda sonora de um filme chamado Pleasantville. O filme é do final dos anos 90, é de 1998, e o primeiro tema da banda sonora que a Fiona Apple viria a fazer, da banda sonora do filme, seria uma versão da "Across the Universe", que é uma das minhas canções preferidas dos Beatles. Talvez não seja a minha canção preferida, mas é uma das que mais gosto e acho que a Fiona Apple vai muito bem.
Words are flowing out like endless rain into a paper cup, they slither while they pass, they slip away across the universe. Pools of sorrow, waves of joy are drifting through my open mind, possessing and caressing me. Jai Guru Deva, om. Nothing's gonna change my world. Nothing's gonna change my world. Nothing's gonna change my world. Nothing's gonna change my world. Images of broken light which dance before me like a million eyes, they call me on and on across the universe. Thoughts meander like a restless wind inside a letterbox, they tumble blindly as they make their way across the universe. Jai
Nothing's gonna change my world. Nothing's gonna change my world. Nothing's gonna change my world. Nothing's gonna change my world. Sounds of laughter, shades of earth are ringing through my open ears, inciting and inviting me. Little sun dial love which shines around me like a million suns and calls me on and on across the universe. Jai Guru Deva Om.
Eu tenho para mim que a Fiona Apple, se quiser fazer uma versão do "Malhão Malhão", será igualmente sedutor.
Quer dizer, se eu tivesse esta voz.
Sim, podias cantar tudo.
E esta bagagem.
Sim. Mas há um lado engraçado, acho eu, nesta versão, que é nós associamos muito, e associamos, acho eu, com alguns motivos, a Fiona Apple a uma certa neurose nova-iorquina na forma como escreve canções e como canta e no universo musical dela, há um bocado desse caos.
É desse caos também, porque a vida dela é muito um caos.
Sim.
Portanto, é inevitável.
Sim, mas eu acho que também retrata um bocadinho esse ambiente meio frenético. E aqui ouvimos a Fiona Apple muito calma.
Em maré baixa.
Sim, e eu gostei.
Eu acho que esta canção também transmite-me sempre uma sensação, que não sei se é mais ou menos correta, entre a letra e a melodia, parecem que estão impostos. Isto é, eu fico sempre dividido se esta é uma canção de esperança e de vamos lá pra frente com isto, ou se é uma exaltação do enterrar-se num buraco. Eu gosto destas duas.
Eu sempre achei que é uma canção do John Lennon, é o momento de esvaziar a mente. É um momento de meditação.
Tipo cassete de limpeza. Aliás, acho que há um mantra qualquer.
Sim, Jai Guru Deva Om.
Jai Guru, sim.
E toda a canção é sempre numa escala que está muito próxima daquela coisa da música tradicional indiana. As notas são muito próximas, portanto é uma escala muito curta, é uma coisa muito repetitiva, é um ciclo. Faz-me sempre lembrar um exercício de meditação, de regresso a um ponto de calma e tranquilidade. E o que faz muito sentido nisso que estavas a dizer, Gonçalo, da Fiona Apple, da possível serenidade no meio do mundo frenético. E eu acho que ela, por exemplo, o Rufus Wainwright tem uma versão desta canção.
Gosto muito, quase tanto como esta ou mais.
Mas eu acho que a Fiona Apple transmite mais aquilo que eu acho que o John Lennon estaria a pensar quando escreveu esta canção. Acho que resulta muito bem.
Há também a versão de David Bowie para "Across the Universe". Não é má.
Essa eu não gosto tanto como destas duas.
Mas gosto de vos ouvir dizer: "Não é má", sobre o David Bowie. Não é má.
Bem, vamos avançar com uma outra reinterpretação de Beatles. Esta eu não conhecia, descobri há dias quando preparava o programa, que é a "Get Back" pelo Ike e pela Tina Turner. É um tema que foi editado em 1970 no álbum "Working Together". Nesta dupla, de resto, viriam a ganhar um Grammy com o "Proud Mary" dos Creedence Clearwater Revival, outra versão que faz parte do "Working Together". E a "Get Back", também na carreira dos Beatles, tem algumas particularidades. Ela faz parte do "Let It Be". Ela é anterior, mas depois surge no "Let It Be" com uma mistura nova.
Sim, deixa-me só, sobre essa canção, é muito curioso que, por exemplo, no documentário aparece a forma como a canção vai sendo construída e inicialmente o Paul McCartney só tem a parte de refrão, essas expressões "get back, get back". E de repente, eles estão a discutir sobre o que a canção significa e o Paul McCartney está ali a tentar dizer alguém que sai embora e que depois volta. Bom, na verdade, não é sobre nada. E acho que, salvo erro, é o George Harrison que dá ali uma achega, dá ali uma canelada a dizer que as canções têm que ter significado, por aí. E de repente, eles começam a pensar no que é que podem fazer com aquilo e na altura os jornais ingleses retratavam muito o crescimento de um movimento anti-imigrantes no Reino Unido, um movimento xenófobo, discriminatório. Então de repente eles decidiram: "Não, vamos tornar a 'Get Back' numa canção, quase uma canção de protesto, sobre este ambiente, este caldo cultural em que estamos".
Há pouco falávamos das quatro pistas pela primeira vez usadas no "I Want to Hold Your Hand", exato. E a "Get Back" também aparece aqui como tendo sido a primeira canção dos Beatles e a primeira canção lançada nos Estados Unidos em stereo. E é engraçado isso. E é também uma das únicas canções dos Beatles que tem créditos de outras pessoas para além dos Beatles. Eles próprios pediram para que nos créditos da canção surgisse: "The Beatles with Billy Preston".
Sim, que fez o último concerto com eles e que era um amigo deles. Eles convidaram pra ir pro estúdio nessas sessões de janeiro de 69 e ele chegou lá e é exatamente aquilo que os Beatles precisavam, precisavam de um músico a mais e de um teclista a tempo inteiro.
Ike e Tina Turner na recriação de "Get Back" dos Beatles. Que tal? Nada mau esta versão de Get Back.
Ótimo.
A Tina dá-lhe aqui sempre um certo nervo, não é?
Isto é muito complicado. O Ike Turner é um dos tipos responsáveis pela criação do rock'n'roll, assim diz a história, quando lançou o Rocket 88 ainda no final dos anos 50.
É ao mesmo tempo um patife.
E depois uma besta.
É isso.
Uma besta. Mas uma besta com algum génio lá pelo meio, que é sempre uma coisa angustiante de reconhecer.
É.
É extraordinário, porque ele é um dos tipos responsáveis pela invenção do rock'n'roll, mas depois ele, mal ou bem, abre caminho para que a Tina Turner faça uma espécie de reinvenção do rock'n'roll. É como se o rock'n'roll tivesse ali um outro nascimento, porque ela dá uma liberdade ao rock'n'roll que nunca se tinha ouvido e eu acho que nunca mais se voltou a ouvir. Se ela não tivesse existido, há uma lista interminável de coisas que nunca tinham acontecido no rock e na pop, e é tudo culpa dela. E ela, de facto, podia cantar qualquer coisa. É inacreditável o talento desta mulher.
E de repente tu ouves a tensão, quase, entre os dois na música e pensas: eu não devia gostar disto, porque o tipo era uma besta, mas isto transposto para a música, dá ali um lado meio...
Claro, e há sempre aquele exercício do que é o indivíduo e o que é a vida privada, e depois o que é a obra e a arte, etc.
E musicalmente-
Mas atenção, inevitavelmente aqui, a grande responsabilidade desta versão ser o que é, é da Tina Turner. Não há volta a dar.
Ela faz ali uns twists em partes da letra que eu acho que fica tipo é a Tina a cantar e esta canção pertence à Tina Turner. Esse exercício foi muito bem feito.
O Al Green também tem uma bela canção.
Sim, aliás, rapidamente, uma das coisas que eu gostei de descobrir foi a quantidade enorme de versões que há desse tipo de artistas. Al Green, Bill Withers, Marvin Gaye, a Ella Fitzgerald tem a Savoy Truffle, que eu estive quase para trazer para aqui e gosto muito. Não foi a única canção que a Ella Fitzgerald "cobriu", dos Beatles, mas havia ainda também a Diana Ross com a Come Together, Marvin Gaye com a Yesterday e todo este universo Motown e Stax a recriar Beatles foi uma coisa que me surpreendeu e que eu gostei muito. Tiago Pereira, para fechar o Isto Não Passa na Rádio esta semana, continuamos nesse fabuloso disco que eu não conhecia, chamado All You Need Is Lisboa.
All You Need Is Lisboa, 2004. Organização de Luís Madeira Almeida. Bandas portuguesas, artistas portugueses nos anos 60 a recriar Beatles. Conseguem encontrar Simone de Oliveira, conseguem encontrar o Paulo de Carvalho. Enfim, há imensa gente.
O disco é de 2004, mas é com gravações mais antigas do que isso.
Sim, é praticamente tudo dos anos 60. Tal como esta canção que eu aqui trago, uma versão do tema Ob-La-Di, Ob-La-Da, famosa canção incluída no White Album.
Sabes o que é que aconteceu? Rapidamente. Eu gostava muito dessa canção porque era o genérico também de uma série que dava à tarde ali nos anos 80 e 90, que era o Life Goes On.
Claro, exatamente.
Que tinha aquele ator, o Corky, que tinha síndrome de Down e era delicioso ver essa série à tarde, e era o genérico.
Esta versão é de 1969 Pop Five Music Incorporated, que incluía gente como o David Ferreira, Tozé Brito, Paulo Godinho, irmão do Sérgio Godinho, e que refizeram o "Ob-La-Di, Ob-La-Da". Desta vez com a letra original, portanto é uma cover do mais tradicional que pode existir, mas é bom para percebermos que, mais uma vez, que havia gente atenta ao que se passava no mundo.
E que até os Beatles chegavam aqui. Malta ligada chegava aqui.
E que uma boa canção é uma boa canção.
E é com esse mantra que fechamos o "Isto Não Passa na Rádio". Esta semana dedicamo-nos a versões dos Beatles, Pop Five Music Incorporated, a sugestão do Tiago Pereira. Para a semana regressamos com outro tema seguramente espetacular. Um abraço. Até para a semana.
Até para a semana.