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Não quis aceitar o diagnóstico e insistiu numa causa cardíaca para explicar os ataques de pânico. Gestora de sucesso, viu o medo transformar-se em fobias, até procurar ajuda e começar a aprender a viver com ele. Anabela Figueiredo é a convidada de Carla Jorge de Carvalho no "Labirinto", uma série de entrevistas que fazem parte do Mental, uma parceria do Observador com a FLAD e o Hospital da Luz.
Lembra-se do momento em que percebeu que não estava bem?
Lembro-me do primeiro momento em que eu deixei de estar bem. Foi quando estávamos a fazer os exames para o empréstimo para a habitação. Estava a fazer a prova de esforço, a correr, ia tentarem aumentar o ritmo cardíaco para ver se estava tudo bem. E a caminho de casa, eu não consegui desacelerar o ritmo cardíaco, que continuava a bombar, a bater. Eu tentava respirar e acalmar e de repente, vou para avisar o meu marido que não me estava a sentir bem. Quando eu me dei conta que não conseguia falar, tinha a língua enrolada, os braços e as mãos completamente enrolados e comecei a entrar um bocadinho em pânico. Quando o meu marido se deu conta, fomos a correr para as urgências.
Isso foi há quanto tempo?
Faz mais ou menos 16 anos.
Há 16 anos, numa viagem de carro, fisicamente não está bem. Os sintomas eram apenas físicos.
Os sintomas eram só físicos, o meu coração não parava de bater e de repente congelei. Os meus dedos dos pés encolheram, as minhas mãos ficaram presas, a minha língua ficou presa. Inclusive, a única coisa que eu me lembrava naquele momento é que estava a ter um AVC.
Vai a correr para o hospital.
Fomos a correr para o hospital.
E o que é que lhe dizem no hospital?
Vêm a correr, me levam, fazem todos os exames e mais algum, e depois dizem que eu tive um ataque de pânico.
Como é que reagiu, sabendo que teve um ataque de pânico?
Estava convencida que eles tinham-me enganado, porque não podia ter um ataque de pânico.
Por que não podia ter um ataque de pânico?
Por muitos motivos. Primeiro, os sintomas eram todos físicos. Era o coração, o corpo deixou de funcionar. Segundo, o ataque de pânico não tinha nada a ver comigo. Não podia ter uma doença mental, não encaixava com a imagem que eu tinha de mim própria.
A imagem que tinha de si própria não concebia que pudesse estar com problema emocional, mental.
De forma alguma.
Então perante esse diagnóstico, o que é que faz?
O que eu decidi? Decidi que tinha que ter um problema cardíaco, porque os sintomas eram muito cardíacos. Tinha uma aceleração muito grande, uma taquicardia registrada em N exames, sentia arritmias. Então percorri Lisboa à procura do cardiologista que ia conseguir descobrir qual era a minha doença cardíaca, que tinha que ter uma doença cardíaca.
Portanto, insistiu que teria uma doença cardíaca, não aceitou o diagnóstico.
Decidi que tinha que ser uma doença cardíaca, alguma coisa não estava a funcionar bem. Passei muito tempo na internet a analisar, a ver o que podia acontecer, os sinais do coração. Podia ser até no cérebro, uma ligação que pudesse estar a comandar de forma errada o coração. Mas sim, e continuei a insistir. Passei muitos meses a correr e a procurar, e a pesquisar os melhores cardiologistas, a fazer muitos exames, andava sempre ligada, fazer os exames 24, 48 horas. Fiz o Holter de uma semana. Portanto, sim.
E esses exames e os vários cardiologistas que consultou encontraram algum problema cardíaco ou o diagnóstico continuou a ser os ataques de pânico?
Eles não conseguiam justificar e dizer porque eu estava a ter aquelas taquicardias. Mas mais do que um, de facto, passou-me um conjunto de medicamentos para desacelerar a taquicardia, inclusive as arritmias que eu tinha. Mas, por outro lado, quando eu comecei a tomar os medicamentos, ajudava-me quando eu tinha as crises de ataques de pânico, mas quando eu estava normal, não me sentia bem. Tinha umas quedas de tensão muito agudas, sentia-me bastante em baixo, sem energia, também não conseguia andar. Continuei à procura de um cardiologista que me indicasse ou resolvesse o problema que eu tinha.
Até encontrar um que lhe chegou para outro diagnóstico. Mas antes disso, esses meses que andou em consultas, foi tendo outros episódios semelhantes?
Tive muitos episódios. Eu diria que na altura, não me recordo exatamente, mas diria que duas, três vezes por semana era normal ir às urgências, porque era a única forma de passar.
Duas, três vezes por semana tinha esses sintomas de língua travada, os membros bloqueados?
Não, isso deixei de ter, não era tão grave. Tinha era o ataque de pânico, os sintomas de taquicardia e o medo avassalador de: "Vou morrer. O coração não pode estar a bater tão depressa, porque ele há de parar, porque isto é impossível estar a bater assim tão depressa". Ia a correr para as urgências.
E nas urgências continuava a ouvir dizer que estava com ataque de pânico.
Entretanto, já me iam conhecendo, já olhavam por mim. Diziam que é um ataque de pânico. "Vamos recomendar aqui uma psicóloga ou um psicólogo".
E nunca aceitou.
E eu durante algum tempo não aceitei, até que houve um ataque de pânico qualquer que eu tive e: "Bom, se calhar é melhor investigar também esta pista em paralelo". E comecei a procura da psicóloga.
Portanto, sempre num crescendo. A sua vida mudou muito com dois a três ataques de pânico por semana. Sentiu limitações na sua vida pessoal e profissional?
Eu tive muitas limitações. Eu comecei a ter medo dos ataques de pânico. Comecei a ter medo de ter os ataques de pânico em qualquer sítio. Eu deixei de andar de carro, deixei de andar de comboio, andar de avião era muito difícil, mesmo só com bastante medicação. Deixei de ir a centros comerciais, não me sentia bem, contava com muitas pessoas e tinha medo também. Deixei de andar em jantares, deixei de aceitar jantares com amigos. Tinha medo de ter um ataque de pânico num jantar e especialmente no restaurante. Deixei de receber pessoas. Nós gostávamos imenso de receber pessoas em casa e fazer festas e passava a minha vida a dizer: "Hoje não, estou cansada, hoje não há jeito, hoje tenho que dormir."
Portanto, já com alguma vergonha do que estava a sentir?
Na altura ainda não era vergonha. Na altura, tinha mesmo medo de ter um ataque de pânico, se calhar com alguma vergonha, com alguma exposição. Tinha medo de ter um ataque de pânico no meio de um centro comercial. Acho que era uma mistura, mas também era um bocadinho de medo. Eu ainda estava convencida que era um problema cardíaco. Tinha medo de me dar um ataque e de não me acudirem a tempo e eu ficar ali deitada no meio de um centro comercial ou de um restaurante. Eu lembro quando nós viajávamos, numa vez que fomos atrás dos montes ver a família do meu marido e uns amigos. Eu antes de sair de Lisboa, fui verificar onde eram os hospitais e como é que se ia para as urgências. Onde nós viajávamos, íamos passear para o Alentejo e fizemos uma viagem com várias paragens e eu ia vendo onde é que eram os hospitais perto, no percurso, porque tinha medo de dar alguma coisa, do coração parar, de morrer, de ter um ataque cardíaco, não sei.
Portanto, muito preocupada e com a vida social afetada. Profissionalmente, deixou de trabalhar?
Não. A única coisa que eu nunca deixei de fazer foi trabalhar.
Tem alguma explicação para isso?
Eu, na altura, não tinha explicação nenhuma, nem pensei muito sobre o assunto. Só recentemente, quando eu comecei a pensar o papel do trabalho com a doença mental e vice-versa, é que eu de facto me questionei, porque o normal é quando há uma doença mental, as pessoas param e vão para casa. E eu comecei a refletir, a pensar: "Bom, por que é que eu não parei e eu não fui para casa?" Várias coisas. Primeiro, para mim, o trabalho era o refúgio. Eu quando estava a trabalhar e estava concentrada, eu não tinha ataques de pânico.
Nunca aconteceram enquanto trabalhava?
Se me aparecessem, era a hora do almoço. Quando eu estava focada, os ataques de pânico não chegavam. Para mim, eu tentava sempre trabalhar e na altura trabalhava bastante, eu acho que essa é a primeira coisa. A segunda é: eu estava a trabalhar, provavelmente, com uma das melhores chefes que alguma vez tive e num ambiente cultural muito positivo. Não era um sítio onde eu ia ter mais estresse. Tinha estresse pela exigência, tinha estresse pela responsabilidade, tinha estresse pela quantidade de trabalho, mas essas três coisas só me permitiam estar mais focada. Ambiente, modelo de liderança, modelo cultural era muito positivo.
Tinha um bebê, na altura.
Tinha um bebê. Tinha um bebê e dois anos depois tinha dois.
Ainda não totalmente diagnosticada.
Diagnosticada, sim. Quando eu tive a Sofia, já tinha diagnosticado. Eu acho que fui diagnosticada mais ou menos já seis meses depois do primeiro ataque de pânico.
Quando é que aceita que está perante episódios de ataque de pânico?
Como?
Quando é que aceita que, afinal, está com problemas?
Depois de falar pela primeira vez com a psicóloga com quem eu fiquei.
Como é que chega então à psicóloga? Do ponto de vista mais clínico, estamos na fase em que procura cardiologistas, em que experimenta medicação que não lhe serve. Quando é que passa para a fase em que começa a encontrar um caminho, uma explicação para o que está a acontecer?
Olhe, tive alguns médicos que me recomendavam. Tinha uma gastropedologista que me agrada muito bem e eu fui lá pedir ajuda. "Eu não estou bem. Arranje-me um cardiologista bom." E ela disse: "Ok, eu arranjo, mas também vou arranjar aqui um psicólogo." E na verdade, foi algo também curioso, que fiz várias entrevistas. Eu lembro de entrar no consultório e não sentir que aquela pessoa me conseguia ajudar. E fui na internet. Eu entrei, comecei a fazer Google, procurei uma psicóloga, achei que a forma como ela se apresentava era um bocadinho diferente, então marquei a primeira consulta. Tive a primeira consulta com ela e adorei. Acho que ela era a personalidade perfeita, não anda ali com paninhos quentes. Ralha comigo de vez em quando, ainda ralha comigo de vez em quando.
Adorou por quê? O que ela lhe trouxe que os outros psicólogos não trouxeram?
Ela conseguiu trazer a explicação científica. Eu sou engenheira, eu sou muito matemática, eu sou muito racional. Eu preciso que me expliquem o que está a acontecer. E ela conseguiu explicar perfeitamente o que estava a acontecer, até cientificamente. O que eram os sintomas cardíacos, por que eu me sentia assim, quais eram os sintomas físicos, por que eu não me sentia doente mentalmente, mas como é que aquilo tudo funcionava. E depois ela começou a me dar alguns truques. Retirou-me completamente a medicação. Ela, na altura, disse que se eu continuasse a ser medicada, que me deixava de tratar e começou-me a ensinar a conviver com os ataques de pânico.
O que sentiu quando teve de assumir para si própria que, afinal, não estava com uma doença física, mas sim com uma doença mental? Foi um processo difícil de aceitar?
Foi um processo muito difícil. Eu acho que não cheguei a ter muita vergonha, porque só haviam duas pessoas que sabiam: o meu marido e a minha melhor amiga
Não contou a mais ninguém?
Não. Não contei aos meus pais, não contei à minha família, não contei aos meus amigos, não contei a ninguém.
Por quê?
Porque tinha vergonha, porque não encaixava com a imagem que eu tinha de mim própria.
Tinha vergonha, portanto, tinha o preconceito todo em relação à doença mental.
Todo. Tinha todo o preconceito. E seria a minha melhor amiga, porque meu marido viajava na altura e como eu tinha medo de ficar em casa sozinha com os meus filhos, eu precisava que alguém viesse passar a noite comigo.
Porque senão nem à melhor amiga teria contado.
Se calhar não lhe conseguia esconder, porque ela de facto é muito próxima, mas se calhar tentava.
Portanto, fez uma caminhada muito longa no trabalho. Nunca ninguém soube que estava com este problema.
Não. Eu recentemente fui ter com a minha chefe e perguntei: "Olha, curiosidade. Tu conheceste-me antes disto e durante. E até me conheceste durante o período mais difícil, antes de eu aprender a controlar os ataques de pânico. Notaste alguma diferença, falta de produtividade? Não era boa profissional, o que sentiste?" E ela: "Nunca me passou pela cabeça. Não imaginava, não sentia nada no teu trabalho, nem na qualidade de trabalho, nada." Depois ficou zangada comigo por não lhe ter contado.
Mas isto era porque no trabalho disfarçava ou porque efetivamente no trabalho não sentia estas crises, não tinha estes ataques?
As crises não chegavam quando eu estava a trabalhar. Portanto, eu não tinha nenhum ataque.
Sempre foi assim?
Estou concentrada, estou focada. E quanto mais exigente, quanto mais trabalho, quanto maior a pressão para entregar, mais focada eu estava e os sintomas não apareciam.
Isso é quase contraintuitivo, não é?
Eu acho que é contraintuitivo com a ideia generalizada que nós achamos que é verdade. Eu acho que nós não falamos com o número suficiente de pessoas para descobrir exatamente qual é a resposta certa para cada pessoa. Eu acho que cada pessoa tem necessidades diferentes para conseguir resolver o seu problema. Acho que todas as pessoas também estão em contextos de trabalho diferentes, com culturas organizacionais e com lideranças diferentes. Portanto, eu acho que é uma questão de contexto. Para mim, quanto mais focada estava, melhor estava.
Fale-me um pouco, o que mudou com essa psicóloga, com essa terapia? O processo, já percebemos, foi acabar com a medicação para problemas cardíacos.
Para problemas cardíacos, para doença mental, portanto, os ansiolíticos também acabaram.
Acabou a medicação?
Sim, a minha psicóloga não me tratava se eu tomasse qualquer medicação para doença mental.
Então, o que fez de diferente?
Olhe, a primeira coisa que nós começamos a fazer, e ela quando vir isto vai se chatear comigo, porque eu não vou lembrar dos nomes de todas as terapias, mas lembro que fizemos CBT, "Cognitive Behavioral Therapy", não lembro como se chama em português. Portanto, isso foi uma das coisas que começamos a fazer. Fizemos um outro tratamento que é MDR, e eu não sei explicar muito bem cientificamente como é que funciona, mas lembro-me que ela punha aqui uns coisos na cabeça.
Uns sensores.
Uns sensores, e aquilo dava uns sinaizinhos e ela ia me fazendo perguntas, íamos desfazendo os nós ou as memórias que estavam guardadas. Não sei explicar cientificamente, eu confiei nela, porque ela tinha que fazer o que se fazia. Começou-me a ensinar a aceitar o ataque de pânico. O pior que podemos fazer é tentar controlá-lo ou evitá-lo. Portanto, é deixá-lo passar e aprender a passar. E quanto mais aprendemos a conviver com o ataque de pânico, deixamos de ter medo do próximo. Então começamos aqui a reduzir o número de vezes que os ataques de pânico começam a aparecer. Depois ela começou a insistir naquilo que hoje já sabemos que é mais do que normal: exercício físico, dormir bem, alimentação, distrair com coisas positivas, não ser só trabalho e sobreviver aos ataques de pânico. E ela começou a ser bastante insistente que eu começasse a introduzir coisas diferentes na minha vida.
Coisas diferentes como mais atividade física?
Mais atividade física, mais lazer, ler. Fizemos muita terapia do sono, porque na altura eu dormia muito mal, portanto, aquilo que ela chamava de higiene do sono, eu aprender o que é deixar a televisão no quarto, se acordamos à meia-noite, não ficar na cama, levantarmo-nos, ler um livro, fazer uma atividade qualquer. Portanto, bastante disciplina, eu acho, no dormir e bastante disciplina no exercício e na componente da alimentação. E ela sempre a insistir para trazer outras atividades para o dia normal.
E começou a sentir logo efeitos práticos dessa mudança de estilo de vida? Porque foi isso que lhe foi sugerido.
Sim. Mas demorou tempo. Mas comecei a sentir logo. O que eu comecei a sentir foi menos medo dos ataques de pânico aparecerem. E isso foi gradual. E ia ter com ela uma vez por semana.
Ia ter com ela uma vez por semana, tinha esses tratamentos concretos em consultório e depois tinha uma prescrição para o resto da sua vida. Como é que se dominam ataques de pânico? Como é que se deixa ter medo dos ataques de pânico?
Não se domina. Eu acho que é exatamente o contrário. É que aprendemos a aceitá-los e não ter medo deles. É: "Ok, o ataque de pânico está a chegar, estou a sentir o coração em taquicardia, estou a sentir os sintomas todos esquisitos." Isto já foi há algum tempo, graças a Deus, mas é tentar perceber que não vou morrer disto Isto não é um problema cardíaco, o meu coração não tem problema nenhum. Isto é um ataque de pânico, isto demora normalmente, no máximo, 20 minutos. Parece que é uma eternidade. Demora no máximo 20 minutos. Eu acho que é 20 minutos, tenho que verificar. E lembrar no tempo todo: "Ok, eu não vou morrer. Isto não tem problema nenhum no coração, o coração não vai parar. Já faltam 15 minutos."
Portanto, a tratar por tu os ataques de pânico.
Quase. Sim.
Quanto tempo dirá que começou a sentir, de facto, um maior controle sobre a sua vida depois desse diagnóstico?
Eu comecei a ter, não era controle, mas aceitação dos ataques de pânico, que fez com que eles começassem a diminuir significativamente. Eu deixei de ter que ir ao hospital para resolver os ataques de pânico. E aprendi, seja onde tivesse, no carro, a dar um passeio, estou a ter, stop, dizia à família, dizia ao marido: "Preciso daqui a meia hora." Já passa, sei lá, seis meses, um ano depois, comecei a conseguir. O que é que aconteceu? Aconteceu aqui um outro tema, eu acho que é o efeito colateral, que por causa dos ataques pânicos, desenvolvi um conjunto de fobias. E essas é que demoraram mais tempo a desfazer. Deixei de andar de carro, deixar de andar de-- de andar de carro, não, conduzir, que eu tinha medo de conduzir e ter um ataque de pânico e depois tinha um acidente. Deixei de andar de comboio, evitava viagens, só aquelas mesmo obrigatórias. E isso é que demorou tempo a desfazer. Demorou bastante tempo. Ainda me lembro a primeira vez que eu fiz uma viagem de carro daqui a Coimbra.
Sozinha?
Sozinha. Lembro-me, foi um evento da empresa onde eu estava a trabalhar na altura. Estou tentando me lembrar, minha filha nasceu em 2008, deve ter sido por volta de 2011, 2012. Portanto, vamos lá ver, 2006 até 2011, 2012, eu ainda não fazia uma viagem para Coimbra sozinha, de carro. Tivemos muito tempo em que minha vida não era normal.
E aí, disse que isso foi o mais difícil de ultrapassar, as fobias que criou à volta.
As fobias ultrapassam-se com exposição. Depois tive a sorte que me inscrevi no MBA em Londres, e então tinha que viajar para Londres semana sim, semana não. Foi fantástico, porque foram 14 meses de viagens de avião semana sim, semana não. As primeiras foram absolutamente horríveis. Meu marido ainda foi comigo nas primeiras viagens. Depois comecei a aprender a ir sozinha, horríveis. E entretanto, a exposição fez com que tenha desfeito a fobia a andar de avião.
Portanto, acredita que em situações difíceis é importante esforçar-se para passar por elas?
Não gosto de dar aqui uma receita generalista, porque cada pessoa é diferente, mas daquilo que eu aprendi, as fobias ultrapassam-se com exposição. Eu tinha um medo horrível de andar de avião. No meu último emprego, quando eu vivia em Londres, eu fazia entre seis a oito viagens de mais de 12 horas. Dormia com os toule bancos, já não fazia confusão nenhuma.
Quando é que resolve contar ou quando é que as pessoas do seu círculo ficaram a saber que passou por um processo destes?
Olha, a maioria das pessoas ficaram a saber do meu círculo quando eu publiquei a tal entrevista na Forbes.
Porque antes não tinha contado a ninguém?
Não, não tinha contado. Eu comecei a contar a história em Londres. Tinha e tenho um amigo e um colega que trabalhava no banco em Londres, que me entra uma manhã em lágrimas. E eu pergunto-lhe o que é que se passa e ele: "Não estás a perceber. Este fim de semana, minha filha tentou suicidar pela segunda vez, no mesmo mês." E eu: "Percebo, vamos lá tomar café. Eu percebo o que estás a passar." "Não percebes, não." E começou a me contar a história. E eu: "Percebo, que eu também tive uma coisinha."
Uma coisinha?
Uma coisinha. Tive uma pequena perturbação. E ele: "Não percebes." E eu comecei a contar um bocadinho mais. E eu percebi que a única forma que eu conseguia criar ali uma ligação e mostrar que eu percebia, era contando tudo. Então contei tudo, os momentos mais difíceis e quase o rock bottom da história. E ele que disse: "Ok, então afinal percebes." E depois ele perguntou-me como é que foi desde então, como é que eu consegui viver depois do processo de saída, e a normalização. Ele disse: "Ok, acabaste de me dar esperança. Conheço a vida que tu fazes, passas a vida a andar de avião, andas em Hong Kong, andas nos Estados Unidos, na América do Sul, esse trabalho super exigente, continua, a vida corre-te bem aqui no trabalho, aqui no banco. Se este é o outcome, depois da crise que passaste, vamos ter esperança sobre a nossa filha." Ele foi para casa, contou à esposa. No dia seguinte, tinha um e-mail da esposa a agradecer por termos partilhado a história e que eu passei a ser a cara de esperança para a família. E eu achei: "Ok, isto afinal pode servir para algo positivo e não só para os anos negativos que teve na minha vida." E comecei a contar. Entretanto, envolvi-me num conjunto de organizações que promoviam a saúde mental no local de trabalho e começámos a perceber que as histórias É que ajudavam a reduzir o estigma e a normalizar a conversa. Então comecei a contar em fóruns, convidaram-me para fazer a tal entrevista na "Forbes" e foi na altura que eu mandei o link para a minha família, inclusive a que está na maioria nos Estados Unidos.
Como é que a família reagiu?
Uau! Mas reagiu normalíssimo.
Portanto, o estigma estava na sua cabeça.
Está na cabeça, mas ainda está na sociedade. Aquilo que às vezes não percebemos ou temos medo, é que a nossa família nos julgue. Eu acho que a família está muito mais aberta a aceitar-nos com as imperfeições todas que nós temos, do que às vezes nós julgamos.
Como é que está hoje em dia?
Estou ótima. Eu não tenho um ataque de pânico, pelo menos desde 2014.
Mas continua a contar o tempo que passa desde o último ataque de pânico? Ainda é importante perceber que já passou.
Eu só sei dizer que foi em 2014. Quando tento me lembrar da última vez que eu tive, não me lembro. Lembro-me da última vez que eu pensava que ia ter um ataque de pânico, porque estava a fazer umas mudanças, estava com o coração acelerado e pensei: "Oh, não! Já há quatro, cinco, seis meses que eu não tinha, pensava que me tinha livrado disto. E lá vem aqui outro ataque de pânico." E sei que me sentei durante uns minutos e ele não chegou. Esse é o único momento que eu me lembro. E lembro quando é que foi, porque lembro-me que coincidiu com a minha mudança para Londres, porque senão nem tinha lembrado. Não registei. Comecei a viver a minha vida normal.
As estratégias que aprendeu, e quando falo de estratégias, falo desse estilo de vida, com mais do que o trabalho, com momentos de relaxo, com preocupação com a atividade física e com a alimentação, isso mantém? É uma regra para a vida?
Isso mantém. Não sou tão disciplinada como um Cristiano Ronaldo. Também tenho os meus jantares, também bebo o meu vinho, também há semanas em que não apetece ir ao ginásio, e há semanas também que não me porto bem com o sono, mas tenho consciência de: "Ok, já chega. Já estamos há uma semana a dormir mal, bora lá organizar aqui um bocadinho e voltar a introduzir as técnicas de higiene do sono, porque eu sei que não se deve estar muito tempo sem dormir bem." Ou a fazer viagens no trabalho, por exemplo, quando estava a fazer viagens, eu tinha noção que eu própria não aguentava mais do que uma viagem para Hong Kong no mês. Quando se está lá, está-se em jet lag, não se dorme. Quando me pediam, eu dizia: "Para o mês que vem." Portanto, começamos a autorregular e criar alguma disciplina na nossa vida. Como te disse, não sou assim tão disciplinada, mas sei quais são os meus limites que introduzo.
E por isso dirá que hoje é uma pessoa diferente do que era antes de 2006?
Completamente. Eu acho que em 2016 ainda era muito workaholic. Também vivia muito do presentismo, que é muito uma moda, faz muito parte do trabalho corporativo, que vale é que está a desvanecer um bocadinho aos poucos.
Está?
Eu estou com esperança que sim. Já estou a conhecer líderes suficientes para me dar a esperança que está a reduzir. E não tinha a preocupação de: "Ok, já são demasiados dias a dormir mal, tenho que fazer alguma coisa. Monitorizar há quanto tempo é que eu não faço exercício." E eu agora faço. Faço e garanto que arranjo forma de ir e de fazer alguma coisa.
Portanto, já passou, é uma história do passado. Considera-se uma espécie de uma sobrevivente?
Eu considero-me uma sobrevivente e uma sortuda. Eu lembro-me quando comecei a trabalhar com os psicólogos, a minha pergunta era: "Quanto tempo é que isso vai demorar a resolver, para eu voltar ao meu normal?" E a maioria dos psicólogos dizia-me: "Bom, quando se tem um ataque de pânico pela primeira vez, normalmente depois fica para a vida. Resíduo, vão aparecendo para o resto da vida." E eu: "Não, assim não dá." E não sei se vou ter amanhã, mas pelo menos desde 2014 que não tenho. E eu acho que isto é raro, encontrar pessoas que não voltam a ter ataques de pânico durante tanto tempo. Portanto, sobrevivente e sortuda.
E sortuda. Conseguiu perceber por que lhe apareceu o primeiro ataque de pânico? E quando é que apareceram os outros? Consegue encontrar um contexto para que isso tenha acontecido?
Sim, isso demorou algum tempo. As primeiras fases do tratamento, daquilo que eu me recordo, a primeira fase era aprender a conviver quando o ataque aparecia e não ter medo do ataque de pânico. A segunda fase foi introduzir, de facto, estas melhorias na vida. O exercício, o sono, algum lazer. A terceira, lembro-me, foi pelo menos dois, três anos depois, que na altura ela disse: "Ok, vamos agora tentar fazer aqui um trabalho para tentar perceber o que é que podia estar na origem." E à altura eu disse: "Nem sempre se descobre." Então, mais uma vez, ela vai zangar-se comigo, que eu não me lembro qual é que foi a técnica que ela implementou. Mas era algo regressivo, em que tentava encontrar, andava para trás na memória, tentando encontrar qual é que era o nó dessa memória que estava alojado, para desbloquear essa memória. Não me lembro exatamente como, mas sei que fizemos a ligação entre o parto do meu primeiro filho e uma cirurgia que eu tive quando tinha seis anos. Pelos vistos, essa cirurgia, que eu não achava que era traumática, era traumática e tive aquilo que se chama um post delayed traumatic experience, que para mim manifestou-se através dos ataques de pânico.
Saber a origem dos ataques de pânico ajudou-a no processo de cura ou nem por isso?
Eu acho que para mim ajudou completamente, porque tinha algo.
Fazia-lhe sentido.
Fazia sentido e tinha uma explicação e ok. Então vamos lá resolver o trauma. Vamos então desfazer, já que sabemos qual é, vamos lá desfazer o trauma, ver se resolvemos isto de vez. Que é muito mais fácil a gente saber qual é a origem. A origem consegue-se tratar. Quando não se sabe qual é a origem, é muito mais difícil.
E agora frequenta o psicólogo como frequenta o dentista?
Ao longo dos anos, tenho estado anos sem falar com ela. Mesmo quando estava em Londres, volta e meia pedia uma consulta, não porque me estava com doença mental. Mas eu achei que aquilo que comecei a aprender é que o psicólogo é como um PT. Eu agora voltei ao ginásio e estou com o PT para me ensinar a fazer tudo muito direitinho. E vejo o psicólogo quase como um PT. Sei lá, estava numa coisa qualquer no trabalho que me estava a chatear ou que me estava a tirar noites de sono. Tinha uma consulta com ela e ela conseguia mostrar uma outra perspectiva. Não é obrigatoriamente este o cenário, se calhar há outras alternativas que estão aqui em cima da mesa. Tento olhar para a situação de outra forma. E ajudava que não estivesse ali a ruminar aquilo que muitas vezes fazemos, que é: temos uma chatice qualquer ou no trabalho, na vida pessoal, estamos a ruminar, acordar a meio da noite a pensar sobre o tema. E aquilo que eu aprendi foi que quando eu estou muito tempo a ruminar, o melhor é sentar um bocadinho com a psicóloga, que isso resolve-se de vez. E resolve. Haviam anos em que raramente não era preciso, volta e meia não me lembrava e achava que outras vezes: "Estou com tempo, apetece-me falar com ela, ver se ela me ajuda a ultrapassar." Ultimamente, tenho frequentado mais. Uma razão muito simples e até estou a fazer como forma preventiva, que ela bate-se a rir comigo, que eu fiz agora uma interrupção de carreira. Eu sempre trabalhei, comecei a trabalhar aos 13 anos e fiz uma interrupção agora de carreira e eu nunca não trabalhei. Eu pensei: "Bom, eu não sei como é que isto me vai afetar. Vou deixar de ter um pilar para mim é fundamental. Antes de eu descobrir daqui à frente que é algo que me vai ter um impacto na minha forma de pensar e nos meus dias, vamos começar a marcar algumas consultas com a psicóloga de forma preventiva. Depois logo se vê."
Portanto, agora antecipa eventuais problemas de saúde mental.
Sim.
É um novo respeito pela saúde mental.
Sim. Para mim, a psicóloga é a personal trainer da mente. Sei lá, nós quando temos que fazer uma maratona ou fazer um conjunto de coisas, há um treino maior que nós fazemos para preparar o corpo. Eu acho que nós também podemos olhar para a nossa exigência emocional e mental da mesma forma. Se nós sabemos que vamos passar por um período muito exigente, e para mim deixar de trabalhar eu sabia que ia ser muito exigente. Workaholic, sempre trabalhei. Eu achei: "Ok, não vou sequer correr riscos." Eu ainda me lembro quando eu marquei uma série delas, a gente faz online. E ela: "Então, o que se passa?" Eu: "Nada, estou ótima". E ela: "Então?" "Está a acontecer isto e isto. E eu estou com medo que isto me tenha um impacto e que eu não consiga lidar bem com não ter esse pilar profissional. Portanto, marquei aqui uma série de sessões para tratamento preventivo."
Portanto, como dizia, para quem rejeitava poder ter um problema mental, agora tem a maior abertura perante esta realidade.
É como a PT que nós temos no ginásio, é o dentista que nós temos que ir, para mim faz parte da saúde holística. É uma questão de saúde.
Muito obrigada, Anabela.
Obrigada eu.