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Bem-vindo ao "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola", com Bruno Roseiro, Mariana Fernandes e comigo, Aníbal Rebelo. Hoje o desporto está de luto com o desaparecimento de Kobe Bryant, uma das lendas da NBA. Mais à frente neste programa vamos entrevistar também Marco Caneira, a propósito do momento atual do Sporting. Mas para já, começamos com a morte de Kobe Bryant. Bruno Roseiro.
Que para nós é ainda mais complicada por uma história que não está aqui propriamente no nosso guião. Eu e a Mariana estivemos a fazer a final da Taça da Liga no sábado à noite, e depois daquelas declarações de Sérgio Conceição, é normal perceber-se que teria de haver um follow-up sobre aquela questão do Foco do Porto. E então estivemos a falar exatamente do Kobe, porque era a noite onde o LeBron James iria ultrapassar o Kobe em termos de pontos. E estivemos até a ver também mais uma coisa para esta segunda-feira, de uma estatística do Manute Bol, aquele gigante que um dia jogou na NBA. E de facto, menos de 48 horas depois, acontece isto. O facto de ter sido uma queda do helicóptero torna ainda mais esta morte, por si só trágica, densa. Eu diria que entre aquilo que nós vimos nos jogos da NBA, entre aquilo que nós vimos no Open da Austrália, nas bancadas, entre aquilo que nós vimos também no Staples Center, que por curiosidade recebeu os Grammys exatamente na noite onde o Kobe Bryant acaba por morrer, vê-se sobretudo que ele era muito mais do que uma lenda do basquetebol e uma lenda do desporto. Era um ícone que inspirou muitas gerações de uma forma transversal. Até mesmo o poema que ele faz de despedida se conseguiu converter numa curta animação que ganha um Oscar. Portanto, parecia que tinha uma espécie de toque de Midas, onde ele tocava, saía ouro, fosse dentro de campo, fosse fora dele. Isto é uma coisa chocante para todos. Eu pessoalmente tenho uma coisa com o Kobe Bryant: sempre fui um ídolo do Michael Jordan por aquilo que ele representava e sempre fui um ídolo do LeBron James por aquilo que ele representava. Ou seja, era quase como se fossem os meus modelos de jogador século XX e século XXI, e o Kobe estava no meio. Enquanto os outros eu fiquei rendido, eu diria quase que o Kobe me foi conquistando por várias razões: pela liderança que ele tinha, pela capacidade que ele tinha de jogo, pelo fato de ter só representado uma equipe, que é uma coisa quase rara.
Senão mesmo rara.
Sim, é raríssimo.
Cada vez mais rara, pelo menos.
Sim, cada vez mais raríssimo. Acho que é uma perda grande para o desporto. E de facto, a única coisa que se pode também lamentar é que gostava de estar num país que fizesse capas de jornais desportivos como os espanhóis fizeram hoje, e não como aqueles que nós estivemos de ver esta segunda-feira.
E antes de passarmos ao resto.
Antes de passarmos ao Sporting.
Exatamente isso. E só para fechar a história do Kobe, que não fechou. A verdade é que não fechou. A história do Kobe não acaba ontem com o que aconteceu, mas a verdade é que o Kobe Bryant acaba por afastar-se um bocadinho do desporto, do basquetebol, em particular em 2016, quando acaba a carreira, num corte e numa espécie de procurar um segundo ato da vida com mais significado, mais ligado ao ativismo, mais ligado então à curta-metragem que acabou por lhe dar um Oscar. E a verdade é que é a filha, a Gianna, que acaba por morrer com ele ontem, que o traz um bocadinho de volta ao basquetebol pelo sonho dela, por querer também ser jogadora de basquetebol. Ela também já jogava na academia do Kobe Bryant. Portanto, volta um bocadinho ao basquetebol através da filha e através desse sonho da filha. E ontem, nas emissões especiais da CNN e da BBC, foi repetida muitas vezes uma história e uma conversa que acabava por acontecer entre o Kobe Bryant e a família mais próxima, entre os amigos mais próximos, que era o facto de brincarem muito com ele, com o facto de só ter quatro filhas, e de lhe dizerem muitas vezes que tinha de ter um filho para que o legado continuasse, para que fosse jogador de basquetebol. E a filha, a Gianna, dizia muitas vezes que ele não precisava nada de ter um filho, que a tinha a ela e que ela iria continuar o legado dele. Portanto, fica também essa nota de que Kobe tinha voltado e tinha se aproximado do basquetebol através da filha. E a verdade é que é uma perda, obviamente, gigantesca para o basquetebol, para o desporto no geral, para o mundo no geral, neste início de 2020.
Fica na imagem de Kobe Bryant nas homenagens que se vão seguir durante os próximos dias. Regressamos ao nosso mundo do futebol, a Taça da Liga a abrir uma crise no Futebol Clube do Porto com Sérgio Conceição, ele que colocou o lugar à disposição. Depois veio Pinto da Costa dizer que mantém a confiança no técnico. Temos crise aberta neste Futebol Clube do Porto?
Sim, diríamos que sim, pelo menos uma crise momentânea e uma crise que terá de ter uma reação já amanhã contra o Gil Vicente. Portanto, Pinto da Costa, a verdade é que segura Sérgio Conceição, que coloca o lugar à disposição depois da derrota com o Braga na final da Taça da Liga. Pinto da Costa logo na manhã seguinte Numa nota publicada no site do clube, acaba por segurar o treinador, diz que acredita no treinador, que tem confiança na equipa também. A verdade é que pede também, ao mesmo tempo, uma demonstração de força no jogo de amanhã. São estas as palavras usadas por Pinto da Costa. A verdade é que o Porto entra amanhã com o Gil Vicente em campo, não só pressionado pelo facto de o Benfica ter ganho e da vantagem ser agora, ainda que à condição, de dez pontos para esse segundo lugar do Porto, mas entra também obviamente pressionado por tudo aquilo que foi este fim de semana. O Braga venceu pela segunda vez a Taça da Liga. Rúben Amorim, nesta altura, leva cinco jogos, cinco vitórias e um troféu. É também a primeira vez a ser a competição como treinador e o jogador, e acaba por ser esta uma aposta ganha de António Salvador, do presidente do Braga, que diz ainda no relvado que sempre soube que Amorim seria um grande treinador. Se alguns pensaram que a opção por Rúben Amorim seria ali uma espécie de penso rápido para substituir Sá Pinto até ao final da temporada, tendo em conta que os objetivos internos já não eram propriamente grandes, tendo em conta o lugar do Braga no campeonato, a verdade é que Salvador tenta, pelo menos, deixar claro que a aposta em Rúben Amorim era uma aposta de futuro e está a revelar-se uma aposta de futuro. Pelo meio, e depois de ter sido eliminado na meia-final da Taça da Liga, num jogo que acabou por mostrar também a instabilidade que se vive, obviamente, no balneário, o Sporting recebe o Marítimo ainda hoje e pode então aproveitar a derrota do Famalicão para subir ao terceiro lugar. E o Benfica ganhou em Paços de Ferreira sem grande dificuldade, continua a somar vitórias. E a verdade é que Rafa marcou, assistiu e volta a comprovar o regresso em grande depois dessa lesão que o afastou dos relvados durante alguns meses.
Sobre o Sporting e as dificuldades que está a atravessar, falaremos ainda neste programa, na segunda parte, com o Marco Caneira. Agora vamos lançar as cartas com o Ás, o Joker e a Carta fora. Bruno, não poderia deixar de ser o nosso Ás, Kobe Bryant.
Sim, para não estarmos a repetir aquilo que já falámos no início, vou agarrar só na última intervenção pública que ele tem, que é através das redes sociais, dar os parabéns ao LeBron James depois de ter sido ultrapassado como o terceiro melhor marcador de sempre na NBA. Acho que é uma atitude do tamanho do ícone que nos deixou ontem. E não deixa de ser curioso que o LeBron James, com quem ele não teve uma relação fácil nos primeiros anos, assim como, por exemplo, não teve com o Shaquille O'Neal, e eram companheiros de equipa e só depois de acabarem as carreiras é que perceberam a importância que cada um teve um para o outro. O LeBron James, a primeira reação, não consegue aguentar as lágrimas e, portanto, até por aí se percebe que Kobe era muito mais do que um jogador.
Kobe que, em termos estatísticos, fica com 3699 lançamentos, com 33.643 pontos. Mas apesar de tudo isto e apesar destes números monstruosos, parece que vai sempre saber a pouco. Parece que ficamos sempre com pouco de Kobe Bryant. E a verdade é que eu acho que todos nós estávamos também à espera de o ver já velhinho, já grisalho, ali na primeira fila, normalmente ao lado de Jack Nicholson, a ver os jogos dos Lakers.
E o Joker para o ténis de mesa, Mariana.
Sim, vai para o ténis de mesa português. A equipa masculina garantiu pela terceira vez consecutiva a presença nos Jogos Olímpicos por equipas, uma quarta, se contarmos com o quadro de singulares, depois de um jogo muito emotivo contra a Bélgica em Gondomar, com muita alternância de resultados, o resultado final sempre incerto, mas que acabou por terminar da melhor forma para a equipa portuguesa. E destaque também para Fu Yu, que já tivemos aqui no nosso Golo Fora, que conseguiu a qualificação pela segunda vez no quadro individual feminino. E a verdade é que se olharmos para aquilo que tem sido o ténis de mesa português nos últimos anos, é sempre uma boa notícia estar nos Jogos Olímpicos, porque é sempre também uma boa notícia e é sempre também uma possibilidade de medalha para a comitiva portuguesa.
E só mais aqui uma nota, que são as duas medalhas de bronze da Patrícia Sampaio e da Rochelle Nunes em Telavive. Nesta altura é importante somar pontos porque temos uma qualificação olímpica à vista. E também nunca esquecer o feito histórico do andebol. Já falámos aqui muito, não vale a pena estar a falar mais, mas aquele sexto lugar no Europeu, que me parece que vai ser o início de uma história completamente diferente do andebol português.
Colocou, pelo menos, nas primeiras páginas, o andebol português outra vez.
Mesmo assim, não foi bem, foi num cantinho, sempre. São sempre questões laterais, aparecem sempre no cantinho.
É um caminho. E a carta fora, Diego Simeone, que já está a ser posto num cantinho este mesmo.
Sim, e só não é literalmente uma carta fora porque se está a tentar ali ter alguma paciência, mas depois da derrota com o Eibar, depois da eliminação a meio da semana com o Cultural na Taça do Rei, com uma equipa do terceiro escalão. Não existe grande futuro nem para Simeone, nem para o cholismo, ou seja, aquela ideia de jogo que ele conseguiu enraizar no clube, sobretudo que não soube reinventar. Não houve uma versão 2.0, é uma equipa que não tem o mínimo de fantasia do meio-campo pra frente. Sobretudo, perdeu a agressividade, que era a sua imagem de marca. E eu diria mesmo que se não fosse o Oblak, se calhar o Simeone não era uma carta fora, em termos figurativos, era mesmo a carta fora, literalmente.
E agora vamos aos números com os Três Toques. Começamos com o Barcelona, Mariana.
Sim, o Barcelona que pela primeira vez em sete anos perdeu com o Valência no Mestalla. Quique Setién sofreu a primeira derrota desde que substituiu o Ernesto Valverde e parece que nem o regresso àquela identidade do clube, ao ADN de Barcelona e ao tiki-taka que tinha desaparecido um bocadinho com o Valverde, recupera aquilo que está a faltar, que é a falta de química e a falta de entrosamento na equipa. Messi falhou o que não costuma falhar, teve mais de 10 remates à baliza e não conseguiu marcar. Griezmann, a verdade é que mal se vê, mal aparece. Se nós ouvirmos o relato inteiro de um jogo do Barcelona, ouvimos falar em Griezmann três ou quatro vezes. Ansu Fati, obviamente, sendo um virtuoso, não é substituto para Suárez. O Barcelona anda à procura de um nove para substituir exatamente Suárez, que se lesionou e que vai estar de fora até o final da temporada, mas não tem números suficientes para fazer bingo, mesmo tendo esse nove. É uma equipa que recuperou uma identidade, mas que precisa de se recuperar a si mesma interiormente. Neste momento, os jogadores do Barcelona parece que estão afastados uns dos outros e a verdade é que nem esta mudança de paradigma e esta entrada de Setién acabou por mudar aquilo que estava a falhar no Barcelona.
E o Real Madrid, que ninguém dava nada por ele, que tem o melhor número nove da liga, que se chama Benzema. Ganhou com um golinho do Nacho e a verdade é que são mais três pontos e já está na liderança isolada do campeonato.
E seguimos para o Cristiano Ronaldo. Lá está mais uma vez.
Sim, a única coisa que diria aqui é que a Juventus não ganhou. A única diferença é que a Juventus não ganhou. Ele, como sempre, picou o ponto. São 14 gols em 10 jogos, oito jornadas seguidas a marcar. Não deixou de ser surpreendente, porque sinceramente, dou muito pouco ou quase nada por Gattuso no Nápoles. Aliás, acho que a era dos treinadores do "vamos lá, vamos com muita força" acabou. Acho que é preciso um pouquinho mais. O Gattuso, para mim, é só isso enquanto treinador. Foi um fantástico jogador. E não deixa de ser curioso, o Ronaldo faz isto numa semana onde a imprensa italiana vem recordar um vídeo onde o Rio Ferdinand e o Anderson, o brasileiro, diziam que o Maradona era o melhor de sempre e o Ronaldo disse: "Não, desculpem, eu é que sou o melhor de sempre."
Isto numa semana em que o Sarri voltou a dizer, à meia da semana, quando a Juventus ganhou à Roma de Paulo Fonseca para a Taça de Itália, que quer dar a sexta Bola de Ouro a Cristiano Ronaldo e até fez uma nota de rodapé onde agradeceu à mãe de Cristiano Ronaldo, a nossa conhecida dona Dolores, por ter criado, palavras dele, "um espécime destes". Fica também o agradecimento do Sarri à dona Dolores Aveiro.
E seguimos para a Premier, com o Liverpool.
Um Liverpool que é um papa recordes, não é? Que parece que continua com esta estrelinha de campeão e ganha, até quando não é a melhor equipa em campo, como aconteceu à meia da semana com o Wolverhampton de Nuno Espírito Santo, que acabou por ser a equipa que esteve mais perto de ser a segunda, depois do Manchester United, a roubar pontos ao Liverpool esta temporada na Premier League. Feitas as contas e numa altura em que tem 16 pontos de vantagem para o City, a verdade é que o Liverpool pode chegar a bater 10 recordes da Premier League. Já tem o melhor arranque de sempre, mas pode conseguir, por exemplo, a maior série de vitórias em casa, a maior série de vitórias fora, o menor número de derrotas numa temporada. O recorde mais fácil de atingir acaba de ser mesmo desta maior série de vitórias em casa. Basta ganhar os próximos dois jogos em Anfield com o Southampton e o West Ham. Os mais complexos e aqueles que seriam talvez os mais assinaláveis, são mesmo o de maior número de pontos numa temporada, superando o do City no ano passado e, claro, do maior número de dias sem derrotas, que ainda pertence ao arsenal dos Invencíveis de 2004, com Wenger, Henry e companhia. Ainda assim, um Liverpool completamente papa recordes, que tem esta estrelinha de até quando não é incrível em campo, consegue um golinho e consegue ganhar no final dos 90 minutos.
Contas feitas, vamos a outras, seguimos para o túnel. Já afloramos aqui no início do programa a crise do Futebol Clube do Porto e a ameaça de Sérgio Conceição. Vêm por aí nuvens negras para o Dragão?
Eu diria que não vêm, acho que já lá andam. Vou tentar ser sintético como os 80 segundos em que o Sérgio Conceição lançou uma bomba na flash interview após a final da Taça da Liga. De acordo com aquilo que nós conseguimos saber, o Sérgio Conceição já levava um discurso preparado para a Taça da Liga, mas era em caso de vitória. Se o Sérgio Conceição tivesse ganho a Taça da Liga, aquilo que ele iria dizer é: "Estou feliz que quebrámos este jejum" e iria abrir a porta à saída no final da época. Isso é uma coisa que nós podemos garantir. E por que isso está a acontecer? Porque quer o Sérgio Conceição, quer os Super Dragões utilizam a mesma frase, que é "Pinto da Costa é intocável" e tudo o resto é quase como se fossem funcionários ou adeptos do Futebol Clube do Porto. Só existe uma figura intocável que se chama Pinto da Costa. A questão é que enquanto o Sérgio Conceição começou por utilizar essa frase para mandar alguns recados para a estrutura interna e sobretudo pessoas que não estavam ligadas ao futebol e que no espaço público falavam de futebol, coisa que o Sérgio Conceição ficou completamente louco quando viu, ele agora utiliza esta frase mais como resposta para uma espécie de pressão que começa a sentir por parte da claque e que sente que está a começar a chegar ao balneário. Por outro lado, temos os Super Dragões que começam a opinar muito sobre o futuro de Sérgio Conceição. Nesta altura, Pinto da Costa tem os dois pratos da balança com equilíbrio muito complicado de gerir, porque existe uma ligação extrema também aos Super Dragões, mas também ao Sérgio Conceição, que ele revê muito na questão do exemplo de José Maria Pedroto. Eu diria que só os resultados é que poderão mostrar ou não essas nuvens negras, a começar logo com o Gil Vicente. O jogo-chave vai ser a receção ao Benfica. Não me parece que o Sérgio Conceição tenha muitas más condições para ir além do final da época no Futebol Clube do Porto. Não me parece também que o Futebol Clube do Porto tenha muitas soluções melhores do que o Sérgio Conceição.
Só se vier por aí aquele nome que vai surgindo sempre.
Não, esquece isso. Risca.
É só por lembrar.
Confia, pode riscar.
Volta e meia vai aparecendo Jorge Jesus a saltar sempre.
Por uma razão: R$ 5 milhões de ordenado e objetivo ganhar a Liga dos Campeões, não é Futebol Clube do Porto.
Vamos ao Golfo Óleo. E desta vez, Mariana, vamos conhecer a história da camisola 14 do Sporting Braga.
Sim, a Dolores, que é jogadora de futebol do Sporting Braga, é uma das jogadoras mais internacionais pela seleção nacional, é um símbolo do futebol feminino português. Jogou na Alemanha em três clubes diferentes, mas também no Atlético de Madrid, até que decidiu voltar a Portugal no verão passado. Entre os dois países em que jogou, Alemanha e Espanha, sentiu-se mais em casa na Alemanha, até porque esteve mais tempo no país.
Acho que Alemanha, porque estive seis anos lá e em Espanha acabou só por ser um ano. Acho que dos dois, na Alemanha foi onde Onde me senti mais em casa.
Ela explica que os problemas de adaptação tiveram principalmente a ver com a questão da língua.
Ao início, na Alemanha, sim, devido à língua, mas acabou por ser até mais fácil do que eu pensava. Acho que fui sempre bem recebida em todos os clubes por onde passei e depois acabou por tornar a adaptação mais fácil.
Dolores saiu aos 19 anos para a Alemanha, mas não acha que tenha sido demasiado cedo.
Não, acho que não. Acho que é uma coisa do momento e às vezes são oportunidades que surgem e naquele caso eu não queria desperdiçar. O campeonato alemão estava no seu auge e sendo nova e tendo o sonho de vir a ser profissional, só era possível nessa altura no estrangeiro e quando surgiu essa oportunidade eu não quis hesitar e por isso aceitei.
A jogadora do Sporting Braga explica que ainda existem várias diferenças entre o futebol feminino português e aquele que se faz no resto da Europa, apesar da evolução nos últimos anos.
Sim, em algumas coisas ainda se nota diferença, embora desde que saí, quando era mais nova, já se nota uma diferença abismal, muito grande, devido ao fato de também já haver clubes profissionais. Claro que essas ligas levam vantagem lá fora porque têm mais clubes profissionais, mas é passo a passo e acho que tudo está a ser feito para que a evolução continue a existir.
A experiência de Dolores contada na primeira pessoa nesta entrevista que deu à jornalista Mariana Fernandes. Antes de fechar, fica também essa informação de que a antevisão do jogo Futebol Clube do Porto de Gil Vicente, que deveria ser feita por Sérgio Conceição, Sérgio Conceição não vai dar na conferência de imprensa de antevisão. Termina aqui esta primeira parte do Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola. Voltamos já a seguir com a entrevista a Marco Canheira. Segunda parte deste Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola. Junta-se agora aqui a nós Marco Canheira. Marco, bem-vindo ao "Rádio Observador".
Muito obrigado, bom dia também.
Olha, arranco já aqui com a primeira pergunta. Veio o campeonato a meio, começou agora a segunda fase desta liga. O Sporting de Braga ganhou a Taça da Liga e o Benfica está, para já, isolado com 10 pontos de vantagem em relação ao segundo lugar do Porto, que só joga amanhã. Isto vai ser um passeio simples e fácil para o Benfica até ao final ou não, ainda há muito campeonato?
Não, eu penso que ainda vai haver muito campeonato. Obviamente que nesta primeira fase consegue-se perceber muito daquilo que tem sido para mim o grande problema, e continua a ser um grande problema em Portugal, que é a grande diferença das equipas mais baixas. A questão financeira acaba por se refletir cada vez mais dentro das quatro linhas. Nós reparámos ontem, o Benfica fez um excelente jogo, tivemos um Paços Ferreira também com alguma qualidade, mas como o seu treinador referiu no fim, Pepa, faltou-lhe aquilo que muitas vezes no futebol é o mais importante, que é o número 10 ou número nove, e isso custa dinheiro, isso é a parte financeira.
Mas esse fosso também está a existir nesta altura entre o Benfica e os três grandes, o Sporting e o Futebol Clube do Porto.
Sim, isso vai continuar a existir, até pelas políticas que penso que mais à frente falaremos daquilo que é o Sporting Clube de Portugal e o seu projeto, aquilo que é também o Futebol Clube do Porto e também aquilo que é o abrangente, aquilo que vão ser os próximos anos a nível europeu daquilo que a UEFA está a tentar implementar. Nós em Portugal temos que olhar um bocadinho mais pela questão estrutural, senão vamos ficar muito aquém daquilo que são as expectativas das pessoas em Portugal e pelo futebol, pela qualidade que nós temos, pela questão da nossa formação, por termos sido campeões da Europa e não termos tirado partido algum nisso e ficaremos reféns daquilo que é a questão financeira.
Tocaste agora na questão do Futebol Clube do Porto. Sérgio Conceição acabou por deixar uma bomba aquela declaração no final da Taça da Liga, mas se calhar é uma bomba que só vai mostrar uma evidência que já se vinha a sentir. Nunca jogaste no Futebol Clube do Porto, mas percebendo como é aquela casa e sabendo como é que é Pinto da Costa, o que é que vai acontecer a partir daqui? A corda terá de partir para algum lado, não é?
Sim, eu tive ocasião até ontem num programa de televisão de sermos questionados sobre isso. A experiência, o que me diz é que aquilo foi o terminar ou culminar de algumas tentativas de Sérgio Conceição, eventualmente com a sua estrutura, para tentar corrigir alguns problemas. Normalmente, há uma estrutura e aquilo que Sérgio Conceição entende é que não está a remar toda em prol daquilo que é o seu conjunto. Eu penso que devem ter havido bastantes reuniões com o seu presidente ou com a sua estrutura no intuito de transmitir isso mesmo. E aquela questão do flash, porque não é muito normal, nós conhecemos Sérgio Conceição, que é um treinador com essa capacidade e com essa forma de viver o futebol, mas foi muito rápido, muito pragmático e no Futebol Clube do Porto isso não acontece.
Isto agora passando um bocadinho para a crise, mas de outro clube, do Sporting. Marco apoiou Bruno de Carvalho e depois fez parte da lista de Maria Ricciardi já no ato eleitoral, que acabou por eleger Frederico Varandas. Como é que olha para o momento atual do clube?
Eu não apoiei Bruno de Carvalho. Estava na lista de comissão, que colocaram sem a minha autorização, mas isso lá vai.
Nunca sequer perguntaram nada?
Não, não houve uma pergunta, se pediam ou não. Mas isso é uma questão que é do passado. Sobre aquilo que foi o passado recente com o José Maria Ricciardi, nós começamos a perceber hoje que neste momento o Sporting talvez precisasse de alguém como o José Maria Ricciardi, porque as coisas e aquilo que eu referi anteriormente, a questão financeira, eu acho que o Sporting passará graves problemas ou vai continuar com graves problemas financeiros, até porque não há uma estrutura, não há um projeto. E nós conseguimos perceber, e as novas eras também nos dizem isso, também na política, que a questão do populismo acaba por desfragmentar aquilo que são as estruturas de uma sociedade, neste caso de um clube de futebol, do Sporting Clube de Portugal. Eu acho que o Sporting tem que olhar muito para dentro. A estrutura não é uma estrutura que neste momento as pessoas se sintam capacitadas, se sintam à vontade para entender que se consegue resolver esse problema. E depois temos aqui algo também importante e social, que na minha opinião, que são vários programas televisivos ou de rádio, pessoas afetas ao clube e que não dizem a verdade. Eu acho que aqui a questão do Sporting e dos seus adeptos é de a sua estrutura não dizer a verdade, o que é que se passa e de termos que alterar o projeto, porque o projeto desta forma não vai chegar a bom porto.
O que é que tem pesado mais aqui nesta balança? Ou seja, falou-se aqui na questão financeira e na falta de capacidade financeira, mas também existe aqui uma parte desportiva e a construção de um plantel dentro dessas limitações. O que é que falhou mais aqui? A maneira como não se conseguiu contornar essa parte financeira ou a forma como não se investiu tão bem com o pouco que se tinha?
Não, eu acho que temos que voltar atrás à eleição e àquilo que foi, por unanimidade, este presidente, Frederico Varandas, que disse que estaria tranquilo e que dormiria tranquilo quanto àquilo que era as finanças do Sporting. E nós, na realidade, percebemos todos, mesmo aqueles que não são do Sporting, que as coisas financeiramente não estão favoráveis. E depois, a questão desportiva acaba por ser também o culminar de algo que não começa bem. Nós olhamos para aquilo que foi ou para aquilo que são estas decisões de mercado do Sporting e não conseguimos entender. É porque se o Sporting não tem essa capacidade financeira, que sejam transparentes com os adeptos e que digam que não podemos investir. Não podemos é contratar jogadores no último dia do mercado, jogadores que são emprestados, que têm um custo brutal salarial. E depois, há uma coisa muito importante que nós deixamos para trás, que é a formação do Sporting. Sempre foi um pilar para sustentar aquilo que era o futebol profissional e aquilo que era uma grande vertente do clube de Alvalade.
O Sporting que se deixasse ultrapassar, nesse teu ponto de vista, pelo Benfica. Antes era o Sporting que dava os jogadores, era o Sporting que criava os jogadores e agora tem sido o Benfica a surgir. E este é um problema que tu vês, como é que pode ser resolvido? Com eleições antecipadas, mudança?
Não, aqui eu acho que o Sporting sempre teve isso e aqui também é normal. Os outros e o Benfica, neste caso, quis ir buscar daquilo que foi aquele começo do Sporting, da formação dos jogadores. O Benfica viu nisso um grande plano de negócios a longo prazo. Está muito bem naquilo que é também a formação e depois, estando na Liga dos Campeões, estando noutra competição ou tipo de competições, consegue cada vez mais inflacionar e valorizar os seus ativos. Eu acho que não é uma questão de eleições, porque se nós vamos a eleições, eu deixo também aqui um repto às pessoas ou a quem se queira candidatar. Por que o Sporting ou alguém que tenha intenção de voltar ou de querer estar na administração, por que não se junta dois ou três elementos? Porque depois temos uma questão muito importante no clube de Alvalade, que é uma questão dos egos. As pessoas não conseguem repartir os egos em prol daquilo que é a necessidade do clube neste momento.
O Marco foi jogador, esteve do lado de dentro de tudo isto. Como é que acha que os jogadores do Sporting nesta altura reagem ou lidam com tudo aquilo que é falado lá fora, principalmente numa altura em que ainda está a decorrer o julgamento de Alcochete, que também foi um episódio marcante na história recente do clube.
Sim, é uma história que vai ficar marcada para o clube. É uma história que a partir desse dia, eu acho que se tinha que criar um novo Sporting e isso não aconteceu. Eu acho que era o momento ideal para quem estava à frente ou para quem veio depois, cortar com o passado naquilo que é a questão dos projetos. Obviamente que as pessoas e os adeptos querem ter essa emoção de poderem ser campeões. Isso é legítimo, mas as condições não estão para isso. Acho que esse era o momento ideal e é claro que os jogadores vivem o dia a dia normal. Como são profissionais, têm grande capacidade e têm demonstrado que têm grande capacidade.
E como é que é gerir também a situação de haver um capitão que não se sabe se sai, se não sai, se tem de reestruturar a equipa toda, porque jogar com e sem Bruno Fernandes, até em termos de ideia de jogo, muda tudo. Também é complicado, ou seja, se calhar o Silas é mais vítima do que culpado também neste processo todo.
Não é mais vítima. Eu penso que Bruno Fernandes tem sido não só o capitão, tem sido o líder, tem sido o homem que tem dado a cara em prol do Sporting. Mas depois também digo que o Sporting não é Bruno Fernandes. O Sporting não pode viver e o plantel e todos os seus adeptos não podem viver em volta desta novela, se sai, se não sai, se criamos uma equipe à volta de Bruno Fernandes ou não. Eu acho que nós já nos percebemos e a minha opinião é que Bruno Fernandes é um grande ativo, é um grande capitão, é um grande líder, tem sido o líder do Sporting, mas o Sporting terá que vender Bruno Fernandes, até porque o melhor negócio é o negócio possível e não tentarmos alimentar cada vez mais esta novela que não ajuda em nada o clube.
O Marco já disse também em entrevistas que sempre sentiu maior vontade e maior propensão para ser dirigente do que propriamente para ser treinador quando deixasse os relvados. Tem o desejo real de desempenhar essas funções no Sporting?
Sim, eu tenho o desejo real para algo que penso ter alguma capacidade. Eu acho que muitas vezes é preciso sentires essa capacidade, como a capacidade de tu perceberes que vais ser treinador. Eu nunca enveredei por isso. Acho que todos aqueles novos treinadores que foram jogadores há poucos anos atrás têm essa capacidade, que foram se formando. Eu acho que na parte de fora, naquilo que é do dirigismo ou naquilo que é relação com os jogadores, há muito a fazer, porque os jogadores são pessoas normais como outras quaisquer. Têm, neste momento, e sempre, uma profissão com algum desgaste, com alguma pressão, e eu acho que era importante muitas vezes ter quase o coaching dos treinadores e também do humano.
Quando vais a Alvalade, quando encontras pessoas do Sporting, e és mais recordado por aquele gol ao Inter em 2006 na Liga dos Campeões, lembram-se de outros episódios. Falam, por exemplo, não sei se recordas, uma final de infantis, não sei se recordas, que tiveste que sair.
Foi a primeira.
A primeira com o Boavista. O que falam, o que se lembram mais de ti enquanto referência do Sporting?
Felizmente, eu vou a Alvalade, sou muito bem recebido. Eu tenho essa vertente. Eu acho que eu sou em prol daquilo que é a indústria. Em Alvalade sou muito bem recebido, as pessoas lembram-se. E também acho que onde faço alguns comentários televisivos, eu sou em prol da indústria, sou em prol dos clubes, sou em prol daquilo que tem que ser a continuação daquilo que é o projeto em Portugal do futebol, que não é só futebol, é muito mais social. Eu acho que isso é muito importante, tu ires a qualquer estádio e teres também as pessoas a falarem contigo e a perceberem que a tua mensagem é uma mensagem pró-ativa, uma mensagem que traduz aquilo que muitas pessoas pensam e muitas delas não conseguem passar a mensagem.
A experiência como diretor desportivo no Torriense acabou por ser positiva, ou seja, foi uma boa experiência inicial então para depois talvez saltar para voos maiores?
Sim, é sempre uma experiência. Sabe que são outras realidades. O Torriense tem um grande projeto, obviamente que eu aceitei, foi o meu primeiro projeto. O projeto continua na mesma, as pessoas têm sido incansáveis. Nós nunca sabemos qual é o próximo projeto. Eu acho que se tivermos essa capacidade de poder muitas vezes querer aprender, porque muitas vezes o problema das pessoas e de nós portugueses é não perguntarmos como é que se faz ou o porquê disto ou o porquê daquilo. Eu acho que no futebol, a experiência que eu vivi dentro das quatro linhas não me dá essa bagagem toda para poder ser um grande dirigente, mas dá-me uma grande parte daquilo que é necessário para poder aprender.
Terminaste a carreira no Videoton, ainda tiveste a dar uma perdinha depois no Negrais. Perguntava, é aquele bichinho, é complicado deixar a modalidade? E depois perguntava-te uma outra coisa. Nós há pouco estávamos ali a falar fora também em relação ao Kobe e a realidade dos Estados Unidos. Onde é que estão as principais referências com que foste aprendendo também nessa parte do dirigismo e de olhar para a indústria como um todo?
Essas partes do dirigismo em Portugal acabam por estar muitas vezes fora daquilo que é o futebol. Eu cresci, não havia a informação que há hoje, nós não sabíamos a quantidade de dirigentes que existiam nas federações, nas associações. Haviam dois ou três elementos sempre que apareciam e tu ias lendo a imprensa, porque era muito mais escrita do que é hoje em dia, e ficavas com essa capacidade. Eu também sou uma pessoa que gosto de cultivar. Eu gosto muito de aprender, gosto muito de ler e há grandes referências, não só nacionais, mas também internacionais.
Mas em termos de indústria, por exemplo, e tu passaste por Itália, que também em termos de futebol também acaba por ser uma referência, revês-te mais nos modelos europeus ou, por exemplo, na realidade dos Estados Unidos, que também conheces bem em termos de desporto, como é que eles funcionam em termos globais?
Sim, eles funcionam de outra forma. É uma realidade completamente diferente, porque eles vão muito àquilo que é a essência da indústria. Eles conseguem vender muito bem o produto, mesmo não tendo a qualidade que nós temos na Europa. Eu acho que nós aqui na Europa temos muito a aprender e nós em Portugal, que é a nossa realidade, nós teríamos muito a aprender porque conseguíamos talvez captar mais investimento e vender cada vez melhor o nosso produto, porque já vendemos Portugal muito bem como turismo.
Mas aquela ideia de que a Primeira Liga está a cair de qualidade ao mesmo tempo que, por exemplo, o Benfica se junta um bocadinho às principais equipes da Europa, é verdade ou é um bocadinho uma teoria falsa?
Isso é uma verdade. O Benfica não se junta às equipas da Europa, até porque a diferença financeira nessas grandes equipas acaba por fazer a diferença. Mas a verdade é que a nível nacional acaba por fazer a diferença, porque nós temos orçamentos muito díspares entre as primeiras três, quatro equipas em Portugal e as outras, e o restante. E isso não é bom, porque nós não conseguimos ver jogos do sétimo ou do oitavo, um exemplo em Portugal, com o estádio com mais de 3 ou 4 mil pessoas, e isso é insustentável para a indústria.
Vamos agora ao tempo de desconto, vamos às perguntas rápidas. Posso começar já eu. Cozido à portuguesa ou leitão?
Leitão.
Negrais, Milão ou Lisboa?
Negrais.
Jogador, treinador, dirigente ou comentador?
Comentador.
Se não tivesse sido jogador de futebol, tinha sido o quê?
Caçador de leitões.
O Sporting a ganhar a Liga dos Campeões ou o Negrais um dia a chegar à Primeira Liga?
O Negrais à Primeira Liga.
Muito bem, fim de jogo, apito final neste Nem Tudo o Que Corre é Bola. Marco, obrigado por teres vindo. Daqui a pouco em observador.pt já pode ouvir este programa em podcast. Até já.