Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Começa agora mais uma edição do "Nem tudo o que vai a rede é bola" na Rádio Observador, com Bruno Roseiro, Mariana Fernandes e comigo, João Filipe Cruz. Na segunda parte, a estrela vai ser João Almeida e o pódio no Giro. Contamos com Delmino Pereira, o presidente da Federação de Ciclismo e também o primeiro treinador do terceiro classificado na Volta à Itália, José Pedro Fernandes. Recordamos o passado, analisamos o presente e projetamos ainda o futuro de João Almeida. Tudo isso na segunda parte. Para já, vamos aos destaques. Começamos por um marco repetido dos últimos anos. O Benfica ganhou ao Santa Clara, sagrou-se campeão pela 38ª vez e aconteceu há quatro anos com o mesmo adversário.

Sim, tem essa particularidade de ter sido exatamente o mesmo adversário, Santa Clara, também no Estádio da Luz. E tinha sido exatamente o mesmo adversário que o Benfica tinha vencido para conquistar o último campeonato, há já quatro anos. Este era o desfecho esperado e a verdade é que o Benfica também neste jogo nem sequer deixou que os mais sonhadores do lado do Futebol Clube do Porto tivessem muito tempo para cogitar possibilidades, abrindo o marcador logo aos sete minutos, venceu tranquilamente por 3 x 0 e com tempo até para Grimaldo marcar uma grande penalidade e despedir-se de vez do Estádio da Luz, para Samuel Soares também ter alguns instantes de jogo e ser também campeão nacional, porque até aí Vlachodimos era completamente totalista no que toca a minutos e a jogos no campeonato. É um título que só peca por tardio, porque chegámos a pensar que o Benfica iria ser campeão ainda em abril pelo andamento das coisas. A verdade é que tivemos que esperar pela última jornada, mas que acaba por coroar aquela que foi a equipa mais consistente, mais coerente e que mostrou também a maior qualidade, maior assertividade ao longo de toda a temporada. E para isso basta olharmos para o facto de ter sofrido apenas a primeira derrota da temporada em dezembro, na Pedreira, com o Sporting de Braga, e ter também conseguido ultrapassar aquele período de três derrotas seguidas, de quatro jogos sem ganhar, em que tudo ficou um pouco em caos, em que tudo pareceu tremer. Eu acho que esse período, essa fase, esse mês, digamos assim, também com a Liga dos Campeões ao barulho para o Benfica, acaba por atribuir para os adeptos e para a própria estrutura um significado maior a este título, que até aí parecia um autêntico passeio no parque, e que teve esse obstáculo grande que a equipa conseguiu dominar. Para mim, na minha ótica, acho que é a ótica de todos, saltam à vista três grandes figuras. Rui Costa, que assumiu pessoalmente a decisão de contratar um treinador estrangeiro e que conseguiu levar o Benfica de regresso aos troféus depois de quatro anos de jejum e de um período particularmente difícil para o universo encarnado, na sequência da saída de Luís Filipe Vieira, etc. E salta-me à vista uma das frases de Rui Costa ontem na receção na Câmara Municipal de Lisboa, o facto deste título ter sido conquistado para o Benfica, pelo Benfica e não contra ninguém, que é uma narrativa muitas vezes repetida por Sérgio Conceição, também o facto de o Futebol Clube do Porto correr e lutar contra tudo e contra todos. A segunda figura, Roger Schmidt, que compreendeu o clube desde o primeiro dia, que conseguiu surpreender o futebol português com uma dinâmica ofensiva, diferente, goleadora, e esse é o grande obstáculo para a próxima temporada, o facto de agora já o conhecerem, de agora já saberem a forma como atua. E aqui duas figuras que fazem um grande bolo, António Silva e João Neves, que de forma um pouco mais específica personalizam a aposta contínua na formação e a ideia de que, apesar dos investimentos que vão sendo feitos, e vão sendo feitos, e sabemos que sim, o Benfica vai continuar a olhar para dentro e para o Seixal sempre que precisar de soluções.

Esse pode ser, Bruno, o desafio de Roger Schmidt, que caiu que nem uma luva nas aspirações dos adeptos. Ontem na Câmara de Lisboa isso foi notório.

Sim, e o próprio discurso do Rui Costa foi muito mais virado para Roger Schmidt do que tinha sido.

A lembrar aquela mítica frase da chegada a Lisboa.

Exatamente.

"Quem ama futebol ama o Benfica".

Com essa particularidade, e foi isso que explicamos depois do título, não é o Benfica que vai à procura de Roger Schmidt, é o Roger Schmidt que basicamente se coloca à disposição de um Benfica, não só pelo clube, mas também pelo projeto em si. E depois foram conversas fevereiro, março, abril, até à viagem de Rui Costa no avião privado até Düsseldorf, que é quando fecha essa contratação. Diria que o Rui Costa tem esse mérito. Para mim, o maior mérito de todos, além de Schmidt, é ter recuperado Lourenço Pereira Coelho, que mais uma vez, se nós olharmos com atenção para toda a festa, basicamente não aparece. Ontem, de uma maneira muito fugaz, estava lá na Câmara Municipal de Lisboa, mas é uma peça fundamental para todo este êxito. Há também essa questão do risco de Rui Costa, nesta época, apostar num perfil de Roger Schmidt, que é de facto um risco, mas que correu bem. Há, na ótica de Roger Schmidt, a capacidade de, depois das duas piores semanas que tem na época e que podia ter feito tremer muito mais a equipa do que afinal fez, criar um plano B dentro do plano A, ou seja, mudar alguns jogadores, neste caso em concreto, recolocar Áurens em campo e lançar o João Neves como titular. Naquela altura em específico, foi o que estabilizou a equipa. Ainda assim, uma última nota, dizer que este campeonato fecha com um filme, em termos paralelos, que podia ter sido completamente diferente, e que tem a ver com o jogo do Benfica com o Futebol Clube do Porto e com a hipótese que havia de o Benfica se ter colocado a 13 pontos. Não só fechava a luta do título mais cedo, ou seja, era campeão mais cedo, muito provavelmente. Acabou por ser, não é por aí, é pelo impacto que isso poderia ter em termos de Futebol Clube do Porto, não só a nível de classificação, porque o Sporting Braga iria estar mais perto, até o próprio Sporting poderia andar mais perto, mas também o impacto que teria na perceção que é o Futebol Clube do Porto perder o campeonato. E nós chegamos ao fim e percebemos que, em termos do universo Futebol Clube do Porto Acabar em segundo lugar ganhando a taça, depois de já ter ganho a Taça da Liga e a Supertaça, poderá ser uma época quase boa, embora toda gente admita que é má. E aquilo que eu consigo imaginar é: se esse resultado não aparece na luz, muito provavelmente o Estádio do Dragão teria 20 mil pessoas a menos na última jornada, seria tudo completamente diferente e o FC Porto com essa vitória em específico, mudou a outra história, para mim, paralela deste campeonato.

E no próximo domingo joga frente ao Sporting Braga, no Estádio Jamor, na final da Taça de Portugal. Vamos à figura incontornável. Vamos falar desta figura na segunda parte. João Almeida terminou o Giro no terceiro lugar, tornou-se o primeiro português no pódio numa grande competição depois de Agostinho.

E ainda abriu a expectativa de um bocadinho mais depois daquela vitória de Monte Bondone, porque pela primeira vez nós vimos João Almeida a atacar, que é uma coisa que não é muito normal. Ele na etapa anterior, que foi antes do descanso, já tinha dado alguns sinais. Acho que a etapa de Monte Bondone é um hino em termos de equipa, a própria Emirates, a maneira como trabalha para a vitória, acho que é fantástico. Na etapa a seguir de montanha no Val di Zoldo, percebe-se que é aquele dia mau que ele também teve, da mesma maneira como o Roglic também tinha tido. E mesmo assim, nesse dia mau e não tendo aquelas boas sensações que os ciclistas gostam muito de falar, consegue só perder 20 segundos. E depois em Tre Cime di Lavaredo, que é a etapa rainha, percebe-se que o melhor João Almeida, porque aquilo era o melhor que ele podia dar naquela altura, conseguiu tentar ir para a frente, conseguiu responder a um primeiro ataque do Roglic, já não conseguiu responder a um contra-ataque do Thomas. E depois fechou com um contrarrelógio, para mim, formidável, apesar de ter acabado em terceiro. Ou seja, isto tudo para dizer o quê? Ele conseguiu essa marca de 44 anos depois de Joaquim Agostinho, há um português no pódio de uma grande volta. Consegue a sua etapa que andava à procura já há muito tempo. Consegue ganhar também a camisola branca, que não é propriamente a coisa mais importante do mundo, mas não deixa de ser algo assinalável. E em termos monetários também ajuda sempre mais um bocadinho, embora o dinheiro no final seja todo para um bolo, que depois é dividido por partes iguais por todos os outros corredores. Portanto, não é por uma questão de dinheiro, mas é sempre uma simbologia da camisola branca. Agora, aquilo que se percebe é que quer, sobretudo, o Roglic, que faz um contrarrelógio que é monstruoso, é um contrarrelógio de canibal, quer o Thomas, de facto, eram nesta altura melhores do que João Almeida. E isso é também valorizar aquilo que foi o terceiro lugar do João Almeida, que ao mesmo tempo consegue ser o terceiro a ganhar também uma etapa no Giro, não deixa de ser importante. E eu diria que nesta altura não é em 2024 que ele vai ganhar a sua grande volta, porque me parece que em 2024 vai mesmo fazer o Tour e é importante que o faça também para ter essa experiência de ser o número dois, quase de Pogacar. Mas parece-me que 2025, 2026 poderão ser os anos indicados para ele ganhar uma grande volta, seja ela o Giro, seja ela a Vuelta. Em 2024, convém não esquecer uma questão, e o João Almeida está sempre atento a essas coisas: o Tour vai acabar uma semana antes dos Jogos Olímpicos. E o traçado dos Jogos Olímpicos é muito mais com as características de João Almeida do que era, por exemplo, em Tóquio, e parece-me que ele também vai estar a pensar nessa possibilidade.

Certo é que este terceiro lugar no Giro, Mariana, fez com que dezenas de pessoas fizessem uma pausa na sua rotina para receberem o nosso João Almeida no aeroporto.

Sim, algumas dezenas de pessoas foram ao Aeroporto Humberto Delgado receber João Almeida, família, amigos, também alguns entusiastas do ciclismo, obviamente. E ele manteve aquela postura muito simples, até às vezes um bocadinho cerebral e calculista do lado positivo da palavra, em que aborda as perguntas e as dúvidas de forma muito pragmática. Ele explicou que o que faltou para apanhar o Thomas e o Roglic foi um bocadinho de pernas, simplesmente, foi esta a expressão, e disse que o que falta para chegar à vitória é tempo, é dar tempo ao tempo. E sublinhou essa importância de ter crescido nos últimos dias, ou seja, prova e deixa sempre claro que vê cada corrida e que vê cada grande volta em que participa como também uma oportunidade para crescer e para aprender. E é importante também o facto de, apesar de ser tímido, e sabemos isso, e ele não esconde propriamente, ou seja, de não gostar propriamente desta exposição, das entrevistas, deixa sempre algumas pistas sobre o quão difícil é fazer estas corridas de três semanas e explica que as pessoas não têm noção dos sacrifícios que implica ser ciclista profissional, ter resultados regulares, ter resultados consistentes. Falou sobre as quantidades absurdas de comida que se come em competição, que tudo tem de ser pesado, de regular as horas de sono e de recuperar física e psicologicamente, obviamente, ao longo de 21 dias e de quase 80 horas na estrada. Portanto, deixa sempre este toque para explicar que aquilo que fez, sem ele precisar do dizer, que aquilo que fez com este terceiro lugar foi realmente extraordinário.

Deixa-me só acrescentar uma coisa que foi, para mim, das coisas mais importantes que eu vi no aeroporto, que é ver um jovem, que devia até ser mais novo do que o João Almeida, dizer já João Almeida e António Morgado. Ou seja, António Morgado é outra das grandes promessas que está agora a chegar. Vai fazer em junho o Giro sub-23, que vai ter uma passagem pelo Stelvio, e eu acho que nós vamos perceber aí que o António Morgado tem pelo menos capacidade para ser outro João Almeida e é bom perceber que a geração mais nova já tem essa noção, porque é sinal que o ciclismo está mesmo a crescer.

E vai ser um assunto em destaque na nossa segunda parte, João Almeida e também o ciclismo português, obviamente. Passamos para o nosso número, nosso, ou melhor, o do Bayern.

O deles.

O deles, que é o 11, o número de Bundesligas consecutivas do Bayern de Munique, ainda que esta Tinha sido ainda a última.

Mas foi, é esse o truque.

E curioso, 11 é também o número total de campeonatos do Paris Saint-Germain, que teve uma recepção de campeão no aeroporto aqui há uns tempos, meio tímida.

Sim, esta temporada parecia apresentar esta possibilidade de tanto a Liga Francesa como a Liga Alemã terem campeões mais prováveis. Quebrarem um bocadinho a hegemonia do PSG e do Bayern de Munique. A verdade é que no momento das decisões, a lógica do mais forte concretizou-se mesmo. O Lens foi praticamente perfeito na segunda metade da temporada, só não ganhou um jogo nos últimos dois meses e meio, desde o início de março, precisamente o jogo contra o PSG.

Que é que ele tem que ganhar.

Exatamente, que acabou por ser bicampeão francês este sábado, mesmo empatando com o Estrasburgo. E na Alemanha, a expressão que eu acho que tem de ser utilizada é que o Borussia Dortmund capitulou por completo. Na última jornada, empatou com o Mainz em casa, quando dependia apenas de si próprio para ser campeão, com o Bayern a aproveitar para vencer em Colónia e conquistar então o campeonato pela 11ª vez consecutiva.

O Reus tem uma maldição, de certeza.

Sim, é quase triste, para quem gosta de futebol, olhar para este Dortmund, olhar para as lágrimas daquele treinador, olhar para as lágrimas do Reus, mas a verdade é que-

Até do Rafael Guerreiro.

Fica essa ideia de que no momento em que foi preciso fazer o xeque-mate, o Borussia não conseguiu lá chegar, não conseguiu dar esse passo. De um lado, na Alemanha, existem esses 11 campeonatos consecutivos. A última vez que existiu um campeão alemão que não o Bayern foi o Dortmund, precisamente em 2012. E do outro lado, o PSG então chegou aos 11 títulos de forma global e superou tanto o Marselha como o Saint-Étienne, enquanto clube com mais campeonatos em França, têm ambos 10. São duas das principais ligas europeias, mas são também duas das ligas do mundo com menor competitividade, pelo menos no que toca à luta pelo título. A Bundesliga é muito competitiva, a verdade é essa, se calhar dos campeonatos mais competitivos da Europa, mas dos dois primeiros lugares para baixo, no que toca à luta pelo título, não há propriamente competição. E este até foi dos anos em que as corridas foram mais até ao fim, mais até às derradeiras jornadas. A capacidade financeira entre uns e outros não pode ser comparável. Uns são clubes compradores, outros são clubes vendedores. E parece que, pelo menos em França e na Alemanha, a balança tomba quase sempre pro lado do Golias e raramente pro lado do David.

E Bruno, este despedir pessoas importantes antes de decisões dá sorte?

Há sempre uma cereja no topo do bolo, cada um com a sua. O Bayern teve a cereja no topo do bolo que conseguiu despedir o CEO e o diretor desportivo, portanto o Kahn e o Salihamidžić. Agora nós sabemos que não foi logo a seguir ao jogo, tinha sido antes, já tinha havido conversas. Por uma questão de segurança pública, o Kahn não foi a Colónia porque sabia o que é que iria acontecer e o Kahn não é propriamente uma pessoa que tenha muito bom feitio. E não deixa de ser curioso, aquilo que podia novamente juntar os cacos todos do Bayern acabou por ser aquilo que destruiu ainda mais aquilo que já é um balneário em cacos. Em relação ao Paris Saint-Germain, três adeptos à espera de uma equipa que é campeã, acho que diz tudo sobre isso. E diz também muito sobre por que eu prefiro casos como o Luton. Este é um texto que se pode ler.

Estádio inacreditável, vamos ter.

O Heidenheim do Francisco. O Luton que conseguiu subir à Premier League, o Heidenheim, que com os adeptos do Hamburgo já a celebrar em campo, também conseguiu subir. E é por isso que nós gostamos do futebol muito mais do que os Bayerns e os Paris Saint-Germain.

Um fim de semana inacreditável. Vamos para a nossa citação, que é de Jorge Mendes, o antigo agente de Cristiano Ronaldo, que diz que, para ele, Cristiano foi e é o melhor jogador da história do futebol mundial.

Sim, esta é a primeira vez que ele fala da separação com Cristiano Ronaldo, sempre com palavras ainda mais elogiosas do quando o representava, o que não deixa de ser sintomático. Agora, a verdade é que também se percebe que existe ali alguma tristeza pela maneira como Ronaldo seguiu pela Arábia Saudita. Sabendo Jorge Mendes que está de consciência tranquila, ele tentou todos os clubes imaginários do top cinco. Por uma ou outra razão, o Ronaldo não poderia ir para nenhum deles. Ele nunca esperou que viesse aquela entrevista ao Piers Morgan, que é o fator diferenciador desta relação e aquilo que promove uma quebra. Ainda assim, não deixa de elogiar um Ronaldo que, quer se queira, quer não, aos 38 anos, ainda consegue marcar gols, mas teve a sua pior época de sempre, porque até no Al-Nassr, por muitos milhões que estivessem envolvidos, havia uma parte desportiva. Ele queria ser campeão, queria ganhar a taça, queria ganhar a Supertaça. Não ganhou nada e foi o Nuno Espírito Santo que ganhou com o Al-Ittihad.

E pelo meio ainda voltou a ser convocado por Roberto Martinez.

Sim, desta vez, e muito rapidamente, acho que já nem havia propriamente dúvidas sobre a convocatória de Cristiano Ronaldo. Foi novamente convocado agora para o duplo compromisso da Seleção Nacional contra a Bósnia e Islândia, jogos para o Euro 2024. O mais expectável, o mais provável, o quase certo é que mantenha a titularidade, mantenha a braçadeira de capitão, numa altura em que, por tudo isso que o Bruno também explicou, parece-me que mais do que nunca é na cidade do futebol, é na seleção e é junto da estrutura da federação, que Cristiano Ronaldo se sente bem, se sente confortável e mais importante do que tudo isso, se sente acarinhado.

Vamos em passo apressado pro túnel. E vamos à pergunta que está ainda à espera de resposta: que razões levaram João Mário a abdicar da seleção aos 30 anos, tal como já tinha feito Rafa?

Sim, tem alguns pontos de contato com o Rafa. Não é completamente igual, ou seja, no Rafa havia também a questão com alguns jogadores que ainda estão na seleção, que Rafa já não estava propriamente com muita disposição para o aturar. Neste caso, João Mário foi chamado na primeira convocatória do Roberto Martínez. Entra como suplente utilizado num jogo que ainda hoje lhe custa muito digerir, que foi aquele jogo com o Liechtenstein, onde foi assobiado em Alvalade e por mais frases de apoio e de solidariedade que tivesse, aquilo foi algo que o marcou. Não jogou com o Luxemburgo e pela primeira vez sentou-se com algumas pessoas próximas e conversou e falou sobre esta possibilidade de deixar a seleção, algo que já estava a ser ponderado há algum tempo, algo que só foi confirmado agora depois do Benfica ter sido campeão, algo que se deve à falta de minutos, ou seja, João Mário acha que por estar a fazer a melhor época no Benfica, também devia ter o reflexo disso na seleção e caso João Mário fosse opção na seleção, isto não iria acontecer. Ainda assim, fica uma questão que é: não é normal, num lapso tão pequeno de tempo, haver dois jogadores a renunciar à seleção com esta idade e esperemos que isto seja uma exceção e não a regra, porque convém estancar essa situação.

Há dois jogos no final de junho da seleção nacional. A primeira parte do "Nem Tudo Que Vai à Rede é Bola" fica por aqui. Na segunda parte, recebemos dois convidados para falarmos de ciclismo e de João Almeida. Segunda parte do "Nem Tudo Que Vai à Rede é Bola" e como prometido, vamos falar de ciclismo. Vamos falar de João Almeida, o primeiro português, depois de Joaquim Agostinho, a chegar ao pódio de uma grande volta. Juntam-se a nós Delmin Pereira, presidente da Federação de Ciclismo. Boa tarde. Junta-se também José Pedro Fernandes, o primeiro treinador de João Almeida. E começo por si, José Pedro. Muito boa tarde. Obrigado aos dois por terem aceitado o nosso convite. José Pedro Fernandes, como é que vê esta confirmação do João Almeida como um voltista capaz de lutar e chegar a um pódio de uma grande volta como a Volta à Itália e como se sente por ter sido o primeiro treinador do nosso João Almeida, neste caso?

É verdade. Muito boa tarde a todos, a todos os ouvintes e a todos que estão aqui presentes. É um orgulho muito grande termos o João a fazer o que está a fazer. E o único que eu penso é que não vai ficar por aqui. Eu acho que ele vai continuar a dar-nos algumas alegrias enquanto ciclista.

No início, quando começou a trabalhar com o João Almeida, ele até queria ir para o downhill, mas não conseguiu na altura por causa da idade. Foi bom ser assim ou acha que ele ainda estaria a ganhar mais se tivesse mesmo ido para o downhill?

Não. Se tinha que ser mesmo, tinha que estar mesmo ao nível downhill, ainda superior do que está agora no ciclismo de estrada. Acho que era um bocadinho impossível. Mas, de facto, é uma das nossas valências como treinadores tentar cativar os miúdos para se conseguirem manter no desporto. Ele queria fazer downhill e a única coisa que eu tenho mais parecido com o downhill terá de ser o cross. Mostrei uns vídeos, ele ficou fascinado e aceitei. Mas eu também tenho bichinho de estrada, porque eu já fui ciclista de estrada e vou tentando empurrar um bocadinho. Eles começam no BTT normalmente, porque é um bocado mais fácil. Para os pais. Só que eu depois, no percurso do caminho que eles estão a ter comigo, eu vou sempre colocando sempre a eles também fazerem estrada. Embora a federação tenha uma coisa boa que "não obriga", mas incentiva as equipes de ciclismo das escolas a participarem nas duas modalidades. E é o que eu faço desde o início, desde que tenho a escola em 2010, tem sido assim sempre.

Quando consegue desviar o João Almeida do cross e do BTT para a estrada, a primeira prova dele não é propriamente a mais famosa, ou seja, foi um dos últimos, até porque tinha também uma bicicleta pesada. Pergunto-lhe, nesse momento, como é que o conseguiu convencer que a estrada é que era o futuro e não voltar para trás para cross ou BTT, ou até eventualmente desistir?

Não, a primeira prova do João foi numa bicicleta downhill superpesada. Vendo aquilo, só me impressionou foi a consistência dele, o ritmo que ele tinha, não perdeu, ficou assim com um passo muito certo e eu fiquei um bocadinho impressionado. E quando cheguei, liguei ao pai. O pai já estava em Espanha. Disse a ele que ele não ia fazer mais nenhuma prova com aquela bicicleta. E depois a partir daí foi sempre em frente. Logo na segunda prova que ele fez, ou muito perto disso, ele passou para o segundo lugar. Acho que a primeira foi 19º e daí foi para segundo. Também no Nacional de Escolas faz quinto. Foi vice-campeão de cadetes também em cross e depois a evolução dele tem sido muito certinha e constante.

Deixe-me chamar à conversa o Delmin Pereira, o presidente da Federação de Ciclismo. Delmin, como viu esta participação do João Almeida no Giro? E depois daquela vitória no Monte Bondone, também acreditou que era possível mais ou mesmo no contra-relógio?

Ora boa tarde a todos. Sim, nós vivamos com grande entusiasmo e grande paixão o Giro d'Italia deste ano. O João apresentou-se logo na primeira etapa em grande forma, fez logo um excelente contra-relógio. E depois, em todos os momentos decisivos que foram surgindo, ele apresentou e demonstrou sempre que estava em grande forma Foi uma corrida também delicada, porque nas primeiras semanas teve muita chuva e frio, houve algumas lesões e também existiu sobre todo o pelotão o risco de ficarem doentes ou de caírem e terem que sair. A verdade é que em todos os momentos decisivos os homens corresponderam sempre de forma positiva e sempre com grande nível. Ao ganhar uma das etapas rainhas ou mais importantes do Giro perante aquele leque de adversários, a última semana da prova em que ele esteve sempre bem, perdia uns segundos, diferenças insignificantes. A atitude dele em prova modificou-se, ele passou a ser mais atrevido, apareceu mais vezes na frente, atacou algumas vezes. Tudo isto fez com que ele demonstrasse outra personalidade, uma personalidade mais ofensiva. E no último dia, no contrarrelógio duríssimo, superexigente, ele demonstrou que é um corredor de futuro, em extensão, e um corredor que pode, deve e tem todo o direito e toda a legitimidade de ambicionar vencer uma grande volta. Estamos aqui a falar de uma diferença ao fim de 22 dias de 1 minuto e 15. Quer dizer, 1 minuto e 15 é uma diferença perfeitamente ultrapassável. E vimos o grande nível que ele esteve em Roma no último dia, perante muitas pessoas que são especialistas em ciclismo, e todos reconheceram o elevado potencial, o grande prestígio, muita regularidade e muita classe na forma como está em competição ao João Almeida. É, neste momento, efetivamente uma figura do ciclismo mundial e afirma-se como um grande voltista. No ciclismo, as provas por etapas são os eventos de excelência das nossas histórias. Existem as clássicas, existem contrarrelógios, existem depois as outras vertentes do ciclismo: de montanha, de pista, de BMX, muitas outras variantes. Mas a essência do ciclismo nasce com grande prestígio nas grandes voltas, a Volta a França, Volta à Espanha. Principalmente o Giro e a Volta à França já têm mais de 100 edições e são eventos de referência na modalidade. E põe à prova, no fundo, uma qualidade absolutamente rara, que é a capacidade de recuperação. Ou seja, um ciclista pode chegar um dia muito mal à meta e no dia seguinte tem que estar outra vez recuperado. E isto é que é a grande qualidade e a qualidade mais apreciada pela comunidade. Então termos um corredor voltista é algo interessante, porque isto no fundo é um namoro. Nós vamos vivendo uma história, todos os dias há um episódio e tudo isto apaixona e aumenta a audiência. Toda a audiência e o interesse por estas corridas é crescente e depois tem um desfecho sempre emotivo. Imprevisível também. Estamos aqui perante um corredor muito bom, que fez o seu percurso normal de jovem, como viram, entrou no ciclismo de forma descontraída, numa vertente de montanha. É a vertente por onde entra o maior número de corredores na atualidade. Os pais deixam os filhos virem para o ciclismo, mas preferem que eles andem em locais onde não há carros e por isso é que eles entram facilmente via ciclismo de todo-o-terreno e depois têm uma evolução natural. Aos poucos, os treinadores vão percebendo as suas características e eles vão percebendo onde se sentem mais confortáveis. E fazem este percurso. Há os ciclistas que são mais vocacionados para provas de um dia, outros mais vocacionados para sprints ou para o contrarrelógios. E depois há os voltistas, que é efetivamente uma qualidade já mais rara.

Delminho, aqui sobre o futuro mais a breve prazo do João, perguntava-lhe o que é que acha que ainda pode ser possível fazer esta temporada, principalmente na Vuelta, e sobre a próxima época, se concorda que o melhor será mesmo optar pelo Tour, até por ser muito colado aos Jogos Olímpicos de Paris.

Sim, eu acho que ele este ano ainda vai participar na Volta à Espanha. É uma outra grande corrida. Certamente haverá outros protagonistas, outros adversários, mas certamente que o João vai se apresentar em grande nível, até porque ele habituou-nos a ter sempre desempenhos muito regulares em todas as provas que ele participa por etapas. Ele praticamente faz em todas nos 10 primeiros. Isto desde 2020 que ele tem esta regularidade. Teremos, certamente, a não ser que haja algum azar, um João Almeida outra vez a disputar. A opção de no próximo ano ir para a Volta à França, penso que é uma opção natural, porque para nós acaba por ser positivo, porque vai fazer coincidir a sua forma da Volta à França ser aproveitada também para os Jogos Olímpicos. Para nós parece-nos bastante assertiva e positiva para Portugal, para a seleção nacional, caso ele venha obviamente a ser selecionado, mas tudo indica que assim será. A verdade é que é uma opção natural. A Volta à França é a corrida que apesar de tudo, apesar do Giro ser excecional, a Volta à França está um degrau acima e é normal que eles tenham esta ambição e é normal que o João goste da postura dele. Ele tem noção que está numa equipa que tem um outro grande campeão da atualidade, mas ele vai com toda a mente aberta, tranquila, que é uma das suas grandes marcas, e por isso quando eles encaram este tipo de corridas. Com esta tranquilidade, normalmente tem mais sucesso.

Deixe-me recuperar aquilo que estava a dizer em relação a 2020. Quando nós olhamos de 2020 para cá, tivemos quarto lugar do João Almeida no Giro, depois fez sexto, fez quinto da Vuelta também. Entretanto, tivemos também vitórias do Rúben Guerreiro, do Rui Costa, do Nelson Oliveira, do Rui Oliveira. Pergunto: todos estes sucessos recentes do ciclismo português estão a ter também reflexo no número ou no aumento do número de praticantes, seja profissionais, seja pelo menos miúdos já federados?

Sim, tem o aumento. Nós estamos com um crescimento, não diria que é exponencial, mas é um crescimento regular de 3%, 4%, 5%. Mas estamos aqui numa alteração no perfil e no percurso dos atletas. O ciclista jovem que entra na modalidade atualmente tem uma perspectiva e uma ambição internacional. Nós fizemos uma forte aposta na internacionalização do ciclismo no início de 2000, há 25 anos. Começamos a ter logo bons resultados com esta internacionalização com o Sérgio Paulinho, ganhou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos em Atenas, depois com o Rui Costa, foi campeão do mundo, ganhamos a Taça das Nações por equipas. Todo este trabalho veio a despertar na nossa comunidade, nos nossos jovens, um espírito internacional. E nós hoje temos um conjunto de ciclistas com muita frequência, ainda na categoria de sub-23, primeiro ano ou segundo ano, já estão a ambicionar fazerem uma carreira internacional. Obviamente que entrando no circuito internacional, eles entram num mundo de alta competição que nos garante continuidade de resultados. É por isso que nós, além de termos agora estes resultados excepcionais, nós temos também resultados bons com muita regularidade na pista, no ciclismo de pista, no ciclismo da montanha. Também já tivemos um campeão do mundo, o Tiago Ferreira. Já vamos frequentemente aos Jogos Olímpicos com o ciclismo de cross-country olímpico. Estamos com uma grande campanha no ciclismo de pista. Nós temos também ciclistas femininas. Nos últimos jogos em Tóquio, participamos pela primeira vez com uma mulher, que foi a Maria Martins. Toda esta juventude tem hoje uma amplitude internacional e essa foi, de facto, uma mudança que aconteceu em relação à minha geração de há 30 anos para a geração atual. Os jovens hoje ambicionam ter sucesso internacional.

Nelmino Pereira, já agora, deixe-me perguntar-lhe, de forma sucinta: estamos a atravessar o melhor momento do ciclismo nacional? Com Rúben Guerreiro, Nelson Oliveira, Rui Costa, Ivo e Rui Oliveira, temos o João Almeida, claro, a Maria Martins, já referiu, Iúri Leitão e agora o António Morgado, que é apontado por muitos como uma grande esperança.

Estamos a viver um bom momento do ciclismo. Os ídolos são fundamentais. Corredores que conseguem atingir resultados de excelência são absolutamente fundamentais. E esta onda positiva que decorre sobre o sucesso destes nossos corredores potencia muito o ciclismo e faz com que a modalidade, apesar de nós termos pontualmente alguns problemas e termos as nossas dificuldades, tenha esta capacidade de superação. E neste ano estamos outra vez a crescer e estamos outra vez a ter mais corredores, mais equipas e também mais corridas.

José Pedro Fernandes, recuperamos o primeiro treinador do João Almeida e também voltamos atrás no tempo. Pergunto-lhe se já na altura, quando lhe apareceu à frente um João Almeida muito mais novo, já via as qualidades que agora têm feito a diferença, aquela cadência muito regular. Onde é que acha que ele pode ainda melhorar, tendo em conta que nunca vai ser um corredor capaz de fazer grandes esticões?

Não, eu acho que uma coisa que ele era o atrevimento, era um bocado mais atrevido. Pronto, apostar, acreditar, porque ele tem potencialidade para fazer e ele vai conseguir fazer melhor do que fez até agora. Que já é bastante.

José Pedro Fernandes, peço-lhe só que se chegue um bocadinho mais perto do microfone, nós estamos com alguma dificuldade em ouvi-lo.

Ok. E agora está bem?

Agora está melhor.

Sim, e eu aproveito para lhe perguntar: quando é que nós vamos deixar de nos habituarmos só a Almeidadas e vamos começar a ver mais vezes um João Almeida como no Monte Bondone?

Eu por acaso este ano, como estava a dizer o senhor Nelmino, ele vê-se que está totalmente diferente, está muito mais maduro e está cada vez mais consistente nas corridas. Eu acho que é apostar e acreditar que ele vai conseguir o feito mais importante, que nós também juntamente com ele queremos, que ele venha a ser um campeão de uma grande volta.

Também nota muito a diferença na maneira como ele se coloca no início das subidas. Ou seja, era um dos pontos a melhorar que se apontava muito era colocação no início das subidas e também nas zonas a descer quando tinha muitas curvas que ele se deixava ficar demasiado na cauda.

Isso também tem a ver um pouco com o técnico, porque ele não pode agora ter de ir para a frente, então tem que se afastar para ir para a frente. Não pode ser. De facto, ele tem que ter um bocadinho mais de atenção em certas situações, mas eu acho que mesmo, por exemplo, ele desta vez esteve muito bem e correu tudo bem e continuará a ser assim. Ele cada vez está mais maduro naquilo que está a fazer Mas acho que melhorou bastante em relação a essa pergunta.

José Pedro, onde é que consegue ver mais facilmente uma possível primeira vitória do João Almeida numa grande volta? No Giro, na Vuelta ou até no Tour, caso aconteça alguma coisa ao Pogačar?

Olhe, eu sou sincero. Se calhar em termos de subidas, para a maneira de correr do João, eu acho que, por exemplo, a Volta à França tem subidas mais prolongadas e mais ao estilo do João. Também depende de daqui a dois anos uma grande volta estar na mão dele, tanto uma como a outra. Agora tem que se ver o calendário que ele vai fazer. Acho que vai fazer o Tour para o ano, pelo menos é o que está previsto, é o que se tem estado a falar. Mas esse Tour também pode ser uma preparação para vir ganhar o Giro, nunca se sabe.

E ficamos a torcer pela eventual vitória de João Almeida numa grande volta. José Pedro Fernandes, o primeiro treinador do nosso João, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite. Delmino Pereira, presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo, obrigado também. Foram os nossos convidados nesta segunda parte do "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola". Daqui a pouco pode ouvir este episódio em podcast e em observador.pt. Nós voltamos para a semana. Até lá.