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Não se fala de outra coisa. Sou eu a queixar-me de dor nas costas, o Paulo dos joelhos por causa do futebol, a Carla das ancas por causa do spinning.
Onde é que isso vai?
É melhor não revelar mais podres aqui da equipa. Depois temos Betty Bromage, também conhecida como a gloriosa avózinha da máquina voadora.
Olá!
De certeza que já viram na televisão, nas redes sociais, imagens dela. A avózinha de 97 anos que acaba de renovar o seu próprio recorde mundial do Guinness. E como? A praticar wing walking. Para quem não sabe, significa prender-se, literalmente, ao topo da asa de um avião, neste caso, um biplano, e depois é levantar voo a 240 km/h a 900 m de altitude.
Ela vai lá em cima?
Vai lá em cima.
E cá fora.
Amarrada.
Era assim duvidosamente seguro.
Duvidosamente amarrada.
Portanto, é só ela, o arnês.
Amarrada, mas não contrariada.
Mas não contrariada. Da próxima vez que algum de nós se queixar do ar-condicionado, lembrem-se, por exemplo, da Betty a levar com o vento a 240 km/h.
Não deve ser nada simpático.
Se calhar, faz bem às rugas.
É aquela coisa que estica tudo, pode ser que fique lá. Mas há mais. No ano passado, a Betty sofreu um AVC e, em vez de ficar em casa a descansar, a recuperar, como qualquer pessoa normal faria, decidiu planear este voo, que fez questão de realizar precisamente no dia em que fez um ano desde o AVC. Chegou de andarilho ao aeródromo, depois subiu para a asa do avião, colocou os óculos e o arnês de segurança e lá foi ela. Não só cumpriu mais um sonho, tornou-se na mulher mais velha do mundo a fazer isto, como angariou fundos para a unidade hospitalar que a tratou em Inglaterra. Eu já fui dentro de um aviãozinho destes que fez um loop e eu ia morrendo. Só de ver as imagens. Ela está presa, portanto, do lado de fora do avião, faz um loop, faz uma rotação, depois tem de cá embaixo fazer...
Tem mais casos de prendê-las do que as torres do Ponte 25 de Abril. Dá para perceber.
Ainda bem, se não saía um membro qualquer.
Obviamente. Atenção, não estou a desvalorizar. Eu não estaria ali, seguramente.
Ela já fez isto seis vezes, desde que cumpriu os 87 anos. Quando lhe perguntam se não tem medo, a resposta é genial. Diz que já não vê muito bem.
Já não pode dizer.
Já não conduz.
Já não pode conduzir, que odeia ficar parada. Brincou até dizer que o mais difícil mesmo é subir para a asa, porque é baixinha, mas que andar num carrossel da feira é muito pior e dá mais tonturas.
Como é possível?
Ela já avisou que quando fizer 100 anos, quer fazer algo ainda mais radical. Não estou a ver. Saltar assim.
Mais radical que isso?
Não sei mesmo. Mas é maravilhoso ver estas imagens.
Sem dúvida. E o espírito, de facto.
E o espírito.
E o espírito. Também não se fala de outra coisa senão do eclipse. Até porque para a maioria de nós, isto vai ser um fenômeno único e irrepetível, em princípio. Porque o próximo, tu é que sabes tocar na próxima.
2144.
Sim, em princípio estaremos ocupados.
Já a Betty Bromage, não sei. A Betty vai estar lá no topo do avião.
A ver lá perto. Porque de facto, mas não é assim para toda a gente, o Observador, mais concretamente o Martim Andrade, falou com Paul De 米 le, que se identifica como um caçador de eclipses, não anda lá em cima, mas pertence a um grupo restrito de pessoas que juntam todo o dinheiro que conseguem para acompanhar pelo mundo estes fenômenos da trajetória conjunta do Sol e da Lua. Ele explica este fascínio. Ele tinha pouco mais de 10 anos quando viu um vizinho a mexer numa coisa que nunca tinha visto antes, que era um telescópio, e ele viu a Lua pela primeira vez e diz que essa experiência foi incrível e que o marcou para sempre. Então começou a levar isto a sério. Em 1970, viu o primeiro eclipse, ou melhor, vamos já aqui fazer um spoiler. Tentou ver o primeiro eclipse, tinha acabado de concluir os estudos universitários e decidiu, com um amigo, conduzir 1500 km para ver um eclipse pela primeira vez. Conta, fizeram não sei quantas horas e quando chegaram estava encoberto e a chover. Não conseguiu, só viu nuvens. Segunda tentativa no Quebec, o mesmo problema. Terceira tentativa, Colômbia, também não correu bem. Nove anos depois, organizou um grupo e foi até ao Canadá para tentar, pela quarta vez, observar um eclipse total e diz que foi perfeito. Estava um frio terrível, muita neve, mas correu muito bem. Diz que se sentiu maravilhado depois de ter visto a total escuridão, dois minutos e 47 segundos. Nunca mais parou. Ele trabalhou 40 anos na NASA como engenheiro de controle de voos espaciais. Agora, aos 79 anos, muito mais novo que a Betty, está reformado. Já viu 89 eclipses solares, vai ver o 90º agora. À conta deste hobby ou vício, já visitou mais de 300 países ou territórios. Diz que já viu de tudo, alguns totais, outros não correram muito bem. Umas vezes vai sozinho, outras vezes vai com a mulher, que conheceu numa das excursões que organizou. E desta vez criou uma viagem para 103 pessoas que vão ver o eclipse em Burgos, no norte de Espanha. Fiquemos só com o lema de quem sabe o que são estas coisas: não há dois eclipses iguais e as experiências são sempre completamente diferentes.
Este vai ser o meu primeiro eclipse.
Diz quem sabe.
Não digas que sim.
O primeiro completo, com esta intensidade, acho que sim, claro.
Sim, acho que em princípio, pelo menos não me recordo.
Vamos ver se conseguimos ver. Depois do Jornal das cinco, há novo episódio de guia para o Eclipse aqui na Rádio Observador. Hoje sobre a previsão do tempo para amanhã. Será que vai estar nublado? Será que não vai estar? Horários e também o kit sobrevivência. O que não podemos perder é depois do Jornal das cinco.