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Não se fala de outra coisa desta guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irão. Na verdade, são mais de 70 anos de história dividida entre amizades e inimizades entre o Irão e os Estados Unidos, que conduziram agora a este ataque. Pelo meio, houve revoluções, sanções, assassinatos, tentativas de negociações, tem definido a geopolítica do Médio Oriente. Em junho do ano passado, tivemos a operação Midnight Hammer, que depois ficou também conhecida pela Guerra dos 12 Dias. O objetivo era destruir a ameaça nuclear do Irão. E agora esta operação a que Israel chama o Rugido do Leão e os Estados Unidos, Fúria Épica. Bruno Cardoso Reis, como é que se chegam a estes nomes e como é que existem dois nomes pra mesma operação?

Porque realmente são operações conduzidas de forma autónoma, embora coordenada. As diferentes Forças Armadas, muitas vezes, têm essa prática. Por um lado, é uma prática antiga, esta questão de designar operações com um nome, com algum som. Talvez uma das origens é a questão do desembarque da Normandia. Sabemos que havia um nome militar, vamos dizer assim, mas que se achou que não era adequado, Round Hammer ou coisa assim, e depois decidiram que devia se chamar Overlord, que é Senhor Supremo, portanto, uma coisa mais épica, mais sonante. E isso acho que alterou um pouquinho a prática. Até aí, e mesmo depois, muitas vezes as operações militares são nomeadas pelos militares, pelos comandos militares que fazem o planeamento. No entanto, de facto, há muitas décadas que se começou, e lá está um primeiro exemplo é o desembarque da Normandia, começou a haver aqui depois algum trabalho político, porque se percebe, por exemplo, depois a imprensa também tem interesse em saber.

E simplifica.

E realmente, em termos de comunicação estratégica, é importante pra imagem.

E todos nós nos lembramos da Desert Storm, não é?

Exatamente. Nos Estados Unidos, a prática é muito essa. Sabemos, por exemplo, no caso de Israel, os militares israelitas tinham dado outro nome à operação, é o primeiro-ministro Netanyahu que decide que se vai chamar Roaring Lion, portanto, Rugido do Leão, vamos dizer assim. E nos Estados Unidos, foi o secretário da Defesa, agora secretário da Guerra, Pete Hegseth, que anunciou, de facto, o nome. Isso gerou logo muitos comentários também online, que aquilo é um nome bastante infantil.

Por causa do Call of Duty. Sim, tem qualquer coisa a ver com vídeo game.

Exato, tem a ver com jogos. Mas a verdade é que, também pra ser claro e ser justo, a verdade é que isso é uma prática que se tornou habitual. Ou seja, os militares podem dar um nome que não soa tão bem, mas depois aquilo passa sempre pelo crivo político do secretário da Defesa e do presidente, para ter a certeza, por exemplo, em coisas no Médio Oriente, não convém usar palavras do gênero cruzada. O presidente George W. Bush, por exemplo, enganou-se no início do conflito depois do 11 de setembro. Justifica-se esse escrutínio político.

Bruno, o facto destes dois países darem dois nomes diferentes também significa que têm objetivos diferentes nesta intervenção?

Eu acho que esse é um ponto muito pertinente. Exatamente. Por exemplo, para Israel, a questão crucial é destruir a capacidade militar iraniana, mas a prazo, por exemplo, um cenário de um Irão fragmentado, guerra civil, não é propriamente muito mau do ponto de vista dos interesses de Israel, pelo menos do governo atual. No fundo, a ideia de enfraquecer um potencial adversário, custe o que custar. Já para os Estados Unidos e para os seus aliados na região, os países do Golfo, é fundamental também evitar uma espécie de cenário de caos. E portanto, por muito que se queira que o regime caia, a ideia do caos potencialmente não é muito interessante e, de facto, aí, em termos de objetivos políticos, pode-se dizer que há objetivos diferentes. Em termos militares, a diferença não é muito significativa. No fundo, é destruir o programa nuclear o mais possível, destruir a capacidade de mísseis, que é a grande ameaça, e destruir também a marinha, os meios que possam, por exemplo, impedir a navegação. Isso é mais importante para os Estados Unidos.

E a mudança de regime é mais interessante para os aliados fora do território do Médio Oriente.

A mudança de regime, ou seja, uma estabilização, é importante para os Estados Unidos e para os seus aliados, inclusive árabes, na região. Para Israel, a mim parece-me que é relativamente indiferente, e que um cenário até de um certo caos, de um enfraquecimento crônico do Irão, não seria provavelmente algo que Israel se importasse ter em cima da mesa também.

Bruno, tu que és historiador, pra história, que nome é que vai ficar da operação? Vai ficar o Rugido do Leão ou Fúria Épica?

Provavelmente, vai ficar a Fúria Épica.

Porque Donald Trump vai usar muito.

Os Estados Unidos têm sempre um peso muito grande, os acadêmicos americanos têm sempre um peso muito grande, as universidades americanas são bem financiadas, portanto, têm uma enorme capacidade de produção acadêmica e isso tende a marcar o nome oficial. Mesmo nas operações na Segunda Guerra Mundial, quando havia nomes distintos, britânicos, etc, geralmente prevalece o nome americano.

E independentemente do nome das operações, o que temos aqui, e tivemos no sábado, foi a eliminação não só do principal líder do Irão, mas também de outros responsáveis de topo iranianos, e isto demonstra a enorme capacidade dos Estados Unidos e de Israel de conseguirem usar a informação para determinar as suas ações e também uma grande flexibilidade, porque inicialmente o ataque não estava previsto para ser de manhã, mas para ser à noite, mas a informação que a CIA obteve de que haveria uma reunião que juntaria algumas das principais figuras do regime iraniano, incluindo o líder, obrigou a essa mudança ou permitiu essa mudança de planos. Estamos a falar aqui de informação que já vinha a ser acumulada nos últimos meses, depois da tal Guerra dos 12 Dias. Estava a ser feito o rastreio das movimentações de Ali Khamenei, e isto demonstra também uma grande interação entre os responsáveis israelitas e norte-americanos.

Sim, é das alianças mais próximas que nós temos a nível global, em termos militares e em termos de informações. sobretudo a Mossad, sabe-se que há muitos anos que tem uma presença enorme no Irão, desde informadores, pessoas ligadas ao regime que, até por dinheiro, de facto se prestam a colaborar com Israel, de vez em quando são apanhados e executados. Depois há também suspeitas sobre a vigilância de tudo o que tem a ver com eletrónica, "pagers", smartwatches.

Como aliás vimos há uns meses.

Exatamente, pacemakers. Muitos dos líderes iranianos mais velhos têm problemas de saúde, há muita especulação a esse nível, mas é bastante evidente que sim. Por exemplo, para esse tipo de ataque é absolutamente crucial a questão da qualidade das informações. Um aspeto também importante, eu às vezes fico espantado com as pessoas que têm grandes certezas sobre "vai começar a guerra". Muitas vezes a minha suspeita, ou quase certeza, diria, é que é achismo. Eu acho que era possível dizer na sexta-feira, por exemplo, ou há uns dias, que havia sinais crescentes de que havia uma grande probabilidade de um conflito armado, de uma ação militar de Israel e dos Estados Unidos. Agora, dizer: "Vai acontecer e vai acontecer de certeza e quando é que vai acontecer?" Bem, como estavas a dizer, sabemos que inclusive já havia algum planeamento para aquele dia, mas o ataque acaba por ser antecipado, porque há uma informação relevante que leva a que um alvo absolutamente prioritário apareça como possível e, portanto, a operação toda é antecipada.

Daí a questão da oportunidade.

Exatamente. No planeamento, isso é uma coisa crucial. O planeamento é muito importante, mas não pode ser rígido, senão o problema é que perde-se oportunidades. E aí, por exemplo, o contraste com a Rússia é bastante evidente. A tradição de comando, quer em Israel, quer nos Estados Unidos, mas em Israel ainda é o chamado "mission command". O comando dá instruções, explica qual é o objetivo da missão, mas depois dá autonomia inclusive aos comandantes a níveis mais baixos para tomarem iniciativa se acharem que há uma iniciativa que vale a pena aproveitar em linha com a missão e não ficarem à espera de ordens de cima. Ora, no caso russo, evidentemente, não é essa a tradição. É uma estrutura muito hierárquica, muito rígida e torna atingir este tipo de objetivos muito mais complicado. Além de que, obviamente, também têm problemas em termos de informações, não têm claramente as mesmas capacidades que os Estados Unidos ou que Israel.

E depois há contratempos também com operações preparadas e basta uma mudança do estado do tempo, por exemplo. Aconteceu na "Batalha de Stavela", se não me engano, houve um adiamento de algumas horas.

A questão da meteorologia é muito importante. Aliás, no desembarque da Normandia também é um exemplo disso. Mas sim, o planeamento não pode ser rígido, porque tem precisamente de se adaptar às circunstâncias e tentar ser rígido geralmente dá maus resultados.