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Hora de Não Se Fala de Outra Coisa. Há uma coisa de que não se fala falando, ou fala-se não falando. É de mais um encontro Bilderberg. O grupo mais discreto do mundo, que há também quem diga que é o mais influente e é ali na penumbra que tudo se decide. Decorreu mais um no final da semana passada, como sempre, à porta fechada em Washington, e nestes casos, as notícias são sempre muito gulosas. Ou seja, há sempre grandes teorias sobre o que se passa lá. Há várias razões para que isso aconteça. Este grupo começou a reunir-se desde 1954. Reúne a elite mais rica, mais poderosa do mundo ocidental, para discutir temas. Os temas às vezes são conhecidos. Mas é sempre à porta fechada, não há atas, é tudo muito discreto. E perguntamos sempre quais são os portugueses que vão. Durão Barroso tem lugar assente. Depois da saída de Francisco Pinto Balsemão, em 2015, Durão Barroso faz parte da comissão diretiva do grupo e desta vez tiveram mais dois portugueses, Duarte Moreira, que é também um investigador discreto. Paulo deve saber bem quem é no sentido em que é uma pessoa muito influente na área, é um investidor que vive na Suíça, com origem em Barcelos, já tinha participado noutras reuniões.

Muito discreto também.

Muito discreto mesmo, também. E depois a grande novidade é a gestora cultural Guta Moura Guedes. Esta reunião foi a número 72, teve cerca de 130 participantes e estou a socorrer-me de uma notícia do Expresso. Quem lá estava também Mark Rutte, vários CEOs de gigantes norte-americanas de investimentos, de gestão de ativos, os grandes líderes das farmacêuticas, o que também sugere sempre grandes teorias, como a Pfizer, o secretário do Interior dos Estados Unidos e também um antigo representante comercial norte-americano, que é considerado o cérebro da estratégia protecionista de Donald Trump. Mas o Expresso questiona o que é que quer dizer a presença de Guta Moura Guedes neste meio. O perfil, à partida, não corresponde assim tanto àquilo que são os participantes habituais. Será que a cultura está a ser cada vez mais vista nestes encontros como o soft power do futuro? Será que é isso? Ou será, antes, a sua esfera de influência e de contactos que sugere a presença dela? São perguntas que ficam sempre muito em abertas, porque são as próprias regras do encontro que impõem esta confidencialidade do encontro. Não há decisões formais e por isso o mistério aguça a imaginação.

E quanto mais secreto, mais mistério.

Mais mistério e mais interessante.

E provavelmente se soubéssemos o que se lá passa, esvaziava-se muito o balão.

Também é a alma do negócio. Não alimenta só as teorias da conspiração, mas alimenta também o fascínio da própria reunião.

Dá a ilusão de um encontro que pode ser semelhante, mas esse como é aberto, enfim, não gera tanta curiosidade.

Não gera tanto. Eu lembro-me de Balsemão dizer em entrevistas: "Não é nada de especial."

Nada, vamos só passar umas horas a conversar um bocado.

Tocar umas ideias sobre o assunto.

Eu só acredito quando for lá, quando me convidarem. Fica aqui a dica.

Mas de uma forma muito mais explícita, quem dirige ou tenta dirigir o mundo é, de facto, o presidente norte-americano Donald Trump. E vamos olhar para a popularidade dele, isto a partir da sondagem YouGov para a Economist. No fundo, o homem que faz da ideia de vencer a sua marca registada, vencer em qualquer coisa em que ele se meta, está aqui a enfrentar agora um choque de realidade. A sua popularidade caiu para níveis que até há pouco ele próprio usava para ridicularizar Joe Biden. Vamos aos dados: no dia 1 de abril de 2026, a taxa de aprovação de Trump atingiu, de facto, um novo mínimo. Estamos a falar aqui de uma descida que o coloca pela primeira vez neste mandato, exatamente no ponto mais baixo que Joe Biden registou durante a sua presidência, a barreira psicológica dos 36, 37%, portanto, pouco mais do que um terço do eleitorado.

Isto deve abalar.

Lembre-se como ele atacava Biden. Trump atacava Biden, chamava-lhe o presidente mais impopular da história, entre outras coisas. Isto era o mais simpático que ele conseguia dizer dele. Pois bem, aqui o espelho acaba de volver a imagem. E segundo este modelo de média de sondagens do Economist, a lua de mel de Trump com o eleitorado não só acabou, como parece que o divórcio, de facto, está a ser litigioso. O declínio não é apenas um desvio estatístico, é uma tendência sólida que atravessa estados norte-americanos decisivos. Começa a afetar a sua base mais fiel também e lança muitas dúvidas para as intercalares de novembro. Bom, o que é que mudou aqui? Os dados apontam para três fatores críticos. Primeiro, a economia, a inflação, que, como nos lembramos, foi uma espécie de carrasco de Joe Biden.

Portanto, o bolso, a carteira, normalmente pesa.

Os preços, tal e qual. E continuam agora a ser um fantasma de Trump e ele não consegue afastar esse fantasma. Aliás, ele próprio está a contribuir para isso, com os preços da energia a subir. O ataque ao Irão é grande responsável por isso. Os bens de consumo também estão a aumentar e aquela retórica do fazer a América grande de novo está a esbarrar, de facto, na fatura de supermercado. Em segundo, o desgaste institucional, as políticas económicas mais agressivas e as tensões comerciais estão a começar a ser percepcionadas pelo americano médio, não como uma força, mas como um fator de instabilidade. O eleitor independente, aquele que decide eleições, está a fugir precisamente por causa disso. E em terceiro, há aqui um efeito de saturação, dizem os dados. Trump vive do conflito, permanentemente a arranjar conflitos com toda a gente, mas as sondagens mostram que o público está a ficar exausto disso, o que antes era visto, de facto, como uma espécie de carisma disruptivo, o tipo forte, alguém que enfrenta, que diz as verdades, aquela coisa: "Eu vim cá para dizer as verdades." Hoje começa a ser visto como um ruído constante. E esta queda de popularidade, de facto, é geradora de instabilidade nos mercados. Quando um presidente americano enfraquece desta forma, a capacidade que ele tem para fazer passar reformas, para fazer aprovar leis que provoquem mudanças no Congresso, vai desaparecendo. Ele, por exemplo, não consegue manter o apoio popular, nem sequer nos próprios republicanos neste momento, ou numa parte deles.

É que o confronto com o Papa caiu muito mal no movimento MAGA.

Completamente, porque ainda por cima são setores muito católicos, para quem isso tem muita importância. E para o investidor e para o consumidor, esta incapacidade de fazer aprovar leis, seja corte de impostos, mudanças na administração americana, significa basicamente paralisia legislativa, e as suas promessas de cortes de impostos, por exemplo, ou planos de investimento em infraestruturas, ficam congeladas. Portanto, a incerteza política é aqui o inimigo muito grande dos mercados, e os americanos sentem isso particularmente. Portanto, a grande questão para os próximos tempos é se Trump consegue encontrar um novo inimigo para galvanizar as hostes ou se este declínio é só o início de um isolamento político que é irreversível. Para já, por aquilo que se conhece, o Irão não está a ser esse inimigo e esta guerra não está a ser aquele fator de desviar atenções que é habitual na América.