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Vamos às notícias. Jornal das 11, com Miguel Vilela. Está marcado para esta hora o discurso de abertura de Mariana Mortágua na Convenção Nacional do Bloco de Esquerda. A coordenadora do partido despede-se da liderança este fim de semana e José Manuel Pureza é o favorito à sucessão.

Os trabalhos da reunião magna do Bloco de Esquerda arrancam por volta desta hora, no Pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa. Mariana Mortágua vai fazer o discurso de abertura, momento que está agendado precisamente para esta hora, às 11h da manhã, sendo que há pouco, à chegada, deixou uma mensagem de otimismo relativamente ao futuro do partido e admitiu também que cometeu erros na liderança. Vamos de imediato até ao Pavilhão do Casal Vistoso, ao encontro do jornalista do Observador, Miguel Vilela Dias. Miguel, Mariana Mortágua já fala.

Sim, numa altura em que já disse que sai sem ressentimentos e com um agradecimento enorme para o apoio dado à flotilha humanitária. Vamos ouvir este último discurso de Mariana Mortágua enquanto coordenadora do Bloco de Esquerda.

Com o comunicado de 16 países que exigiram a proteção da flotilha. Foi esta a força que obrigou muitos governos, como o governo de Luís Montenegro, a tomarem alguma, por pequena que fosse, posição e a reconhecerem o Estado da Palestina. Senti a humanidade e o entusiasmo dos meus companheiros de viagem, que sabendo ao que iam, mas sem saber o que lhes ia acontecer, nunca vacilaram e nunca duvidaram das razões para estarmos ali. E conto-vos uma coisa, um segredo que vocês conhecem, com certeza, mas que os desalmados da extrema-direita e os mentirosos das redes sociais nunca irão perceber. É que as amizades nascidas na luta por justiça, na experiência partilhada dessa luta, são laços para sempre. São laços criados na coragem comum de árabes e europeus, africanos, americanos do Sul e do Norte. Juntos, toda essa gente, juntos fomos a expressão da consciência do mundo contra a barbárie que nos querem impor. Mas, acima de tudo, e esse é provavelmente o sentimento mais forte que trago, o que mais senti foi um respeito infinito pela resistência de um povo que carrega aos ombros toda a humanidade. Não me arrependo de nenhum desses dias em que não viramos a cara ao inimigo e sei que continuaremos com a mesma determinação. A Palestina será livre.

A dedicar, Mariana Mortágua, esta primeira fase à questão da flotilha humanitária e também à questão palestiniana, que marcou a ação política de Mariana Mortágua nas últimas semanas e a merecer aqui muitos aplausos do Congresso, alguns deles de pé.

Senti o apoio dos meus camaradas. A todas as moções que aqui estão e que vão estar nestes dois dias a disputar as escolhas políticas do Bloco, quero também agradecer terem tomado posição a uma só voz. O Bloco falou a uma só voz e eu não esperava outra coisa, mas foi reconfortante confirmar esse empenho que nos junta, tal como foi saber que os candidatos autárquicos estavam na luta, tal como foi saber que a Andreia tomava pela primeira vez a voz no Parlamento para confrontar o governo. Tal como foi saber que a Catarina mostrava o que uma mulher de combate pode fazer numa disputa presidencial.

Elogio também para Catarina Martins, candidata presidencial apoiada pelo Bloco depois de falhar uma solução de consenso à esquerda.

E todas se envolviam na preparação desta convenção. Nesses momentos em que estive longe, senti o que é este partido, determinado, que não desiste de nada. Nós sabemos o que somos. Somos a inquietação do que está por fazer, as perguntas que ainda não sabemos responder. Somos a impaciência de uma viagem que procura o seu horizonte com a força de quem deseja transformar a espera em torrente. E somos a firmeza das raízes profundas na vida do nosso povo. Aqui, neste partido, a combatividade não é defeito, é feitio. É a massa de que somos feitos e que queremos aprender juntos. Essa combatividade, essa firmeza na luta política. Somos insubmissas e desobedientes. Ao longo dos anos obrigamo-los a olhar de frente as mulheres, todas as mulheres. As que exigem respeito pelos seus direitos reprodutivos e que não recuam no direito ao aborto. As que falam alto, as que sabem que a vida é delas, as que lutam e que se recusam a remeter-se a um lugar que não escolheram. Somos feministas e insubmissas. Sabemos o que somos. Rompemos ao longo destes anos silêncios de gelo e muitas vezes com uma simples pergunta que mais ninguém se atreveu a fazer. Se em Portugal não há racismo, então por que continuam a matar negros em bairros pobres, como fizeram com Odair Moniz? E a espancar impunemente, como fizeram com Cláudio Simões? Somos antirracistas e insubmissas. Sabemos o que somos.

Agora a entrar na política nacional, com estes casos de abusos policiais, aos quais o Bloco sempre se associou também.

Mas mostraramos as mentiras das maravilhas, dos contratos a prazo, dos falsos recibos verdes, a precariedade. Envergonhámo-los em praça pública por roubarem ao povo e começamos pelos ladrões camuflados sob fato e gravata. Somos anticapitalistas. E finalmente, estou convencida que desta não nos perdoam mesmo. Cometemos o pior dos crimes: obrigámos a pagar impostos e a devolver à comunidade uma pequena parte do que levaram à força do privilégio. Foi uma pequena parte. Mas sabíamos que bastaria isso para que nunca nos perdoassem. E claro que escolhemos não os agradar. Nunca lhes demos descanso, nunca lhes damos descanso e isso, sempre soubemos, eles não perdoam. Camaradas, quase todas as batalhas estão por travar, mas devo confessar-vos que já saboreei um pouquinho do travo da missão cumprida, por saber que o fundo público de pensões recebeu mais de mil milhões vindos do imposto adicional sobre imobiliário do luxo, que o Bloco avançou e que a direita ainda não conseguiu reverter. Valeu a pena.

Este imposto que ficou apelidado até como imposto Mortágua.

E valeu a pena não largar as canelas da EDP até que pague cada cêntimo dos impostos que deve ao povo da Terra de Miranda pela venda das barragens. Valeu a pena. Vale a pena. Vale a pena, mas o Bloco tem que ser mais forte e tem que recuperar. E pra crescer, temos de aprender e temos de mudar. O mundo mudou, a política mudou e o Bloco tem que mudar quase tudo, e quase tudo não é demais. Só não mudamos a fibra de que somos feitos, porque nestes tempos quem não tiver uma âncora forte, vai ser arrastado pela corrente. E é dessa mudança que falará esta convenção. O plano da extrema-direita é expandir os limites do aceitável, contaminar o chão por onde passa, arrastar consigo os políticos da oportunidade e os comentadores da situação. Eles querem e estão mesmo a conseguir apodrecer o senso comum. E quanto mais o capitalismo falhar em garantir mínimos de vida, e quanto mais o individualismo esfarelar o sentido de comunidade, as relações entre as pessoas, mais o autoritarismo será convidado a vir manter a ordem, a proteger a oligarquia e a impor à sociedade a regra das desigualdades. Eles são os cães de guarda do regime econômico. A extrema-direita não é o fim do privilégio e da corrupção. Ela é, na verdade, a sétima vida desse regime, desse sistema, a pior versão de todas as misérias e violências da sociedade. O truque mais antigo do autoritarismo é a invenção do seu inimigo próprio. Quando atacam os imigrantes, o verdadeiro alvo é outro, porque ao puxar para baixo uma parte da classe trabalhadora, os trabalhadores migrantes, a extrema-direita arrasta para baixo toda a classe trabalhadora. E quem fica à tona, como sempre e mais do que sempre, é a oligarquia que a extrema-direita quer proteger e que venera. São os príncipes do privilégio. Acontece que pra vencer esta cruzada contra os migrantes, é preciso calar e até criminalizar todas as expressões de humanismo, de igualdade, solidariedade e de comunidade. E é daí que vem o ódio à esquerda. É daí que vem o ódio ao povo da liberdade. Mas daqui garanto a toda a direita radicalizada e caceteira: não se livram de nós. Estamos aqui pra lutar. Somos o povo da liberdade. Estamos aqui pra vencer. Não se livram de nós.

Mariana Mortágua, aqui apreciada também pelo apoio dos militantes do Bloco, depois de dizer que o partido tem que mudar quase tudo.

Pra responder a este ataque, aprenderemos e mudaremos. Cresceremos. Construiremos um partido comunidade e uma militância com espaços permanentes. Criaremos unidade na luta. Estamos na barricada da classe trabalhadora pela cultura aberta, pela solidariedade, pelo direito à diferença, pela igualdade entre homens e mulheres, pelo direito à segurança social, pelo direito a cuidar e a ser cuidado em cada fase, em cada momento das nossas vidas. E fazemo-lo porque sabemos que é possível, que o socialismo é a política da esperança, é um caminho, é uma escolha que fazemos hoje e amanhã outra vez, e depois de amanhã outra vez, e assim faremos sempre, porque é a certeza que Portugal pode ser um país mais justo. É uma proposta de um percurso, de um caminho pra lá chegar, pra chegarmos juntos. Uma esquerda que avança pra vencer. É isso que o Bloco será. Confiança na esquerda, a luta toda, é essa a responsabilidade do Bloco de Esquerda. Camaradas, termino com a certeza mais importante desta convenção: a de que procuraremos as perguntas certas. Que partido queremos ser? Como moldaremos este nosso instrumento de ação para fazermos a parte que nos cabe enfrentar uma vaga autoritária mundial, enfrentar o caos geopolítico, a catástrofe climática? Com que prioridades, com que alianças vamos avançar? Façamos desta inquietação a força de uma convenção clarificadora, que contribua para dar um novo impulso à esquerda em Portugal. Vamos à batalha de ideias. As ideias são força, elas abrem o caminho, afastam o nevoeiro. As ideias são estacas e depois pilares, e depois paredes e tetos, e elas tornam-se a vida do mundo que queremos construir. Somos socialistas porque queremos o fim da exploração, e essa ideia que nos move tem um nome, que é também a nossa luta: socialismo. As ideias contam mesmo. A política é o que as coloca em movimento e pode transformar tudo. Vamos fazer a disputa política em todos os espaços: na escola, na universidade, no trabalho, na rua, nas artes, na junta de freguesia, na associação do bairro. O que nos move é a cooperação, em vez do individualismo que corrói. A utilidade da esquerda no dia a dia, na vida concreta do nosso povo, será medida pela capacidade de lançar sementes, de criar raízes nos sítios onde estamos, no terreno onde trabalhamos todos os dias. Camaradas, nós não escolhemos o tempo em que vivemos, mas escolhemos como queremos vivê-lo. E a persistência, o labor, a paciência impaciente serão as fundações das próximas voltas da história. Estaremos prontos para o futuro que desejamos e pelo qual lutamos uma vida boa para o nosso povo. Viva o socialismo, viva a democracia, viva o Bloco de Esquerda. Boa convenção a todos.

O discurso de Mariana Mortágua, o último enquanto coordenadora do Bloco de Esquerda, no palco do Pavilhão do Casal Vistoso, onde decorre esta 14ª Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, com a Mariana Mortágua a terminar aqui com esta indicação da vida boa, que foi o mote há dois anos neste congresso e na forma como o Bloco queria encarar também a ação política. Para analisar este discurso de abertura, já a seguir, com o Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador, e também com o Miguel Pinheiro, diretor executivo, e ainda com o Pedro Gonçalves, vai arrancar uma edição especial de E o Vencedor É. E o Vencedor É, a partir do Pavilhão do Casal Vistoso, onde nos últimos minutos estivemos também a acompanhar na Rádio Observador a intervenção de Mariana Mortágua. Vamos analisar esse discurso de despedida da ainda coordenadora do Bloco de Esquerda. Miguel Pinheiro, aqui esta mensagem de que a esquerda, o Bloco, aliás, não só a esquerda, mas o Bloco em especial, tem que mudar praticamente tudo. Mudar a liderança chega para mudar praticamente tudo?

Pois, de facto, Mariana Mortágua usou essa frase, mas eu não consegui entender porque é que é preciso mudar alguma coisa, porque todo o discurso foi de elogio. Quer dizer, na realidade, fez-me lembrar um bocadinho, nós já não ouvíamos Mariana Mortágua há algum tempo, porque ela esteve discreta nesta fase, depois de anunciar a sua saída, e fez-me lembrar, de facto, aqueles momentos em que nós reencontramos alguém que não vemos há muito tempo e a primeira coisa que dizemos é: "É pá, estás igual!" Não é? Já nos aconteceu a todos. E Mariana Mortágua está igual, está com o lenço palestiniano, fez questão de trazer o keffiyeh para a convenção e todo o primeiro terço do discurso, eu ia dizer metade, mas se calhar a mim é que me pareceu demasiado longo, acontece às vezes, foi a falar sobre a flotilha, aliás, a primeira frase é "quero agradecer-vos o apoio à flotilha", depois esteve ali longamente a explicar porque a flotilha afinal foi incrível, porque ela não se arrepende de um único dia passado na flotilha, como ela mesmo estando longe percebeu que o partido estava fervilhante. Estava fervilhante, o partido estava tão fervilhante que nas autárquicas foi o que se viu. Foi o fervilhar do partido. E por isso eu não saio daqui, para mim não saio daqui uma ideia clara do que é que tem de mudar. Só de destacar mais duas coisas. Mariana Mortágua disse claramente uma coisa que muitas vezes é escondida por dirigentes do Bloco. Eu lembro-me sempre de uma entrevista que Catarina Martins deu ao Observador em que disse que o Bloco tinha um programa social-democrata. Aqui Mariana Mortágua informa-nos: somos anticapitalistas, portanto, o Bloco é anticapitalista, presumo que com todas as consequências que isso tem. E depois só um último ponto de uma contradição, que me parece a mim uma contradição, porque Mariana Mortágua vem agora apresentar uma nova tese. Enfim, o Bloco teve algumas causas e foi criticado por se esquecer dos trabalhadores. E agora Mariana Mortágua tenta misturar as causas umas com as outras, mas sai dali uma contradição. Por exemplo, ela diz-nos que quando a oligarquia ataca os imigrantes, o verdadeiro alvo é outro, é toda a classe trabalhadora. Então os ataques aos imigrantes não tinham como base o racismo? Então, afinal, é um ataque de classe. Já não é uma questão de racismo, é classe. Os imigrantes são atacados por serem trabalhadores, por serem os trabalhadores mais fracos, o que está em causa é atacar a classe trabalhadora. Então, afinal, estamos perante o quê? Racismo ou classismo? Ou luta de classes? Porque Mariana Mortágua ao mesmo tempo tenta lançar esta mudança por uma nova linguagem do Bloco, que é do regresso à luta de classes. Por isso, este discurso foi um misto de confusão Com reafirmação orgulhosa de tudo aquilo que fez, realmente Mariana Mortágua, ao contrário do que diz, acha que não cometeu nenhum erro e, por isso, voltando à tua pergunta, que é o mais importante, ela não explicou porque é que é preciso mudar quase tudo.

Miguel Santos Carrapatozo, faltou aqui um ato de contrição maior de Mariana Mortágua na hora da despedida? Foi um apontar demasiado para o combate à extrema-direita?

Pois, é essa a sensação com que ficamos quando ouvimos Mariana Mortágua, porque se é verdade que diz que o Bloco tem de mudar tudo ou quase tudo, ao mesmo tempo ouvimos Mariana Mortágua a dizer que tudo foi bem feito e que foram eles, a expressão usou, repetiu várias vezes o "eles". Eles oprimiram-nos, eles atacaram-nos, eles perseguiram-nos. Não ficamos exatamente a saber quem são eles, possivelmente os eleitores que não deram grande confiança ao Bloco de Esquerda e reduziram o Bloco de Esquerda a um deputado. Se calhar eles são o povo que não viu com particular bons olhos o programa político e as ideias do Bloco. E esse ato de contrição, de facto, não existiu. Mariana Mortágua começa por dizer que sai sem qualquer ressentimento, eu não duvido, não cabe a mim duvidar disso, mas sai claramente em negação. Isso parece evidente ouvindo-a começar um discurso desta importância, falando da flotilha e acabando a dizer que o Bloco, afinal, tem de estar no terreno, porque é no terreno que se criam as raízes e as fundações do partido. Andou muito longe do terreno e o terreno é o país. O país, Portugal, e Mariana Mortágua, quando o Bloco mais precisou dela, estava muito longe do terreno, estava em mar alto. E, portanto, como o Miguel Pinheiro dizia, há aqui uma série de contradições que não se resolvem com Mariana Mortágua. Acho que é evidente que era a entrada da convenção em que também disse que a esquerda tinha de pensar, mas que o problema era o avanço da extrema-direita e a esquerda tinha de pensar, mas pensar em quê e como.

Diz até que cometeu erros, mas não foram determinantes.

E perante a insistência dos jornalistas, mas tem de mudar o quê? Não foi capaz de dizer à entrada da convenção, no discurso também não o disse e portanto eu acho que o ciclo de Mariana Mortágua terminou, a página está voltada e um novo senhor segue José Manuel Pureza. E é ele de facto que tem de resolver esta questão. O Bloco percebe que falhou ao longo dos últimos anos e eu recordo que esta crise dos resultados eleitorais não começou com Mariana Mortágua, começou com Catarina Martins.

Que está agora noutra luta.

Que está agora numa luta e ontem deu um belíssimo espetáculo na televisão, mas foi com Catarina Martins que o Bloco de Esquerda, por duas vezes, nas legislativas e nas europeias, ficou abaixo dos 5% e nas presidenciais para lá caminha. E portanto, ou o Bloco quer ser esse Bloco, de Catarina Martins e de Mariana Mortágua, com os resultados que poderá ter, enfim, é uma decisão do Bloco, ou quer ser outra coisa e caberá a José Manuel Pureza definir esse rumo. Não me parece, neste momento-

Já vamos explorar José Manuel Pureza. Miguel Pinheiro, é essencial esta mudança de líder ou a entrada de José Manuel Pureza para limpar a mensagem do Bloco de Esquerda?

Olha, nós ainda só ouvimos José Manuel Pureza aqui à entrada da convenção e ele não quis de maneira nenhuma aparecer como ligeiramente crítico sequer da anterior liderança ou da futura anterior liderança de Mariana Mortágua. Mais uma vez, ele falou ouvindo aqui duas grandes linhas, e ambas passam por diálogo, falar com a militância e por isso vai ser criado um novo órgão de apoio à liderança e que faça a ligação mais direta com as estruturas do partido.

Era uma das queixas feita a esta direção administrativa centralizadora.

Se bem que atenção, mas eu recordo que o Jorge Costa saiu da direção do partido precisamente para fazer esse trabalho, se bem me lembro, para fazer esse trabalho junto das bases de reconstrução do partido. Portanto, não é propriamente como se não houvesse ninguém. Havia alguém e havia um dos principais dirigentes ideólogos do Bloco que saiu precisamente para fazer esse trabalho. O que é que aconteceu? O que é que correu mal? Bem, mas agora vão criar um novo cargo. Tudo muito bem. Mas José Manuel Pureza fala desse diálogo com a militância e depois fala do diálogo à esquerda. O diálogo com as outras forças de esquerda, com quem aí estiver e com quem se possa falar. Mas quando os jornalistas lhe perguntam: então, mas portanto isso é uma mudança, quer dizer que esse diálogo não existiu. Ele é incapaz de reconhecer que não existiu esse diálogo. E por isso, mais uma vez, se tudo está bem, por que vão mudar? Há um problema com o Bloco que o distingue de todos os outros partidos, exceto, claro, o PCP, que é o Bloco tem sido uma longa continuidade. Ou seja, é o mesmo grupo das mesmas pessoas que pensam da mesma maneira que têm comandado o partido praticamente desde o início. No início, o partido conseguiu ultrapassar grandes divergências históricas e juntou três correntes, mais uma da extrema-esquerda, que se odiavam, e conseguiu fazer isso. E tu poderias antecipar que ia ser um partido permanentemente partido nessas três partes, mais uma, mas eles conseguiram de facto criar uma unidade, especialmente a partir de dada altura, numa convenção célebre em que deu um 50/50. E, portanto, tu tens um contínuo de liderança, de facto. Enquanto, por exemplo, no PSD, quando vem um novo líder, é um líder que tem realmente ideias diferentes do anterior e critica-o brutalmente. E o mesmo no Partido Socialista e o mesmo no CDS. E por isso há uma renovação das ideias dos partidos e os partidos têm a capacidade de começar de novo E de realmente trazer novas ideias e novas atitudes. No Bloco, não, porque são sempre as mesmas pessoas. Mesmo José Manuel Pureza é a mesma linha, exatamente. E por isso é que José Manuel Pureza tem esta dificuldade. Quando no Bloco dizem: "Nós não assacamos responsabilidades individuais a fracassos", eles têm razão. Eles têm razão porque, de facto, a culpa não é só de Mariana Mortágua, porque é uma massa que pensa toda da mesma maneira.

Não me parece que a maior facção opositora interna nem sequer está representada. A questão da convergência que se dissolveu com Pedro Soares.

Isso não existe. E isso tira capacidade de renovação ao partido, porque o partido realmente não incentiva a diversidade. E José Manuel Pureza tem dificuldade. Luiz Montenegro tinha alguma dificuldade em criticar Rui Rio? António Costa teve alguma dificuldade em criticar António José Seguro? Como fomos todos relembrados. Não, mas Pureza tem muita dificuldade em criticar Mariana Mortágua e por isso é que acho que pode haver este receio de que isto seja tudo mais do mesmo. Mas enfim, vamos dar o benefício da dúvida.

Miguel, na sequência desta pergunta, é uma questão de limpeza de mensagem ou o problema é mais profundo? O Bloco precisa de ir à procura de novas mensagens e novas causas.

Nós tivemos a oportunidade de entrevistar Alessandra Abreu na Vixi e Suaso desta quinta-feira no Observador, e Alessandra Abreu, que apoia José Manuel Pureza e foi candidato à Câmara de Cascais nas últimas eleições autárquicas, disse uma coisa muito interessante: o Bloco tem de falar para e com o povo. Isso do ponto de vista de um partido, faz sentido. Os partidos servem para falar com as pessoas e para as pessoas. Durante muito tempo, o Bloco convenceu-se de que os eleitores é que estavam errados. Eles estavam certos, os eleitores estavam errados. Correu mal. O que se espera agora com José Manuel Pureza é que dentro, evidentemente, dos ideais do Bloco de Esquerda, haja um sentido de humildade de perceber onde é que falharam, o que têm que corrigir e onde é que estão os eleitores. Porque esta ideia de que o Bloco desapareceu porque há um avanço da extrema-direita a nível nacional e a nível internacional, tem um problema de princípio: é que o LIVRE cresceu. É verdade que o espaço da esquerda recuou, mas houve um partido à esquerda capaz de crescer. E há outro problema mais pequenino, mas é verdade que existe, que é os eleitores mais jovens começaram a votar mais no PCP do que no Bloco de Esquerda. Portanto, até o PCP conseguiu, a um nível muito reduzido, é verdade, renovar a sua base eleitoral. Portanto, o problema está mesmo no Bloco de Esquerda. E ora, ou o partido muda de vida ou os eleitores fazem o favor de dizer que o partido não serve para os representar. É assim mesmo em democracia. E portanto, José Manuel Pureza tem de fazer esse caminho, procurar perceber onde é que estão os eleitores, perceber o que é que eles esperam de um partido com as características do Bloco e falar sobre problemas concretos e não problemas abstratos sobre o avanço de Donald Trump. Nós tivemos nas últimas eleições Francisco Louçã a dizer que se candidatava para combater um fascista na Casa Branca. Se isso não é um nível de alienação total em relação ao que se passa no país, eu não sei o que se pode dizer que seja alienação. Portanto, o Bloco tem de descer à Terra primeiro e tem de perceber a sua utilidade e para quem é que está a falar. Se não conseguir perceber isso, eu acho que se arrisca a desaparecer do Parlamento.

Pode ser grave ainda mais. Só mesmo para fechar, uma nota para este discurso de despedida de Mariana Mortágua.

Uma nota? De zero a 20?

Podes usar a escala que quiseres.

De zero a 20.

Não serei eu a impor-te limites.

Não quero ser excessivamente duro, mas um cinco.

Ia perguntar só ao Miguel primeiro.

Sim, na hora da despedida não devemos também ser demasiado duros.

Ninguém guarda ressentimentos.

Não, isto não é pessoal. Longe de nós, não é esse o caso. Mas vou acompanhar Miguel no cinco, porque é um resultado arredondado em relação às últimas europeias e às últimas legislativas.

Miguel Santos Silva e Miguel Pinheiro, nesta edição especial de "E o Vencedor É", a partir do Congresso do Bloco de Esquerda, depois do discurso de encerramento de Mariana Mortágua.

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São agora 11h32. Miguel Vieira, muito bom dia. Que notícias estão a marcar a atualidade a esta hora?

Bom dia, João. Começamos com os destaques da intervenção de Mariana Mortágua, a abrir a 14ª Convenção Nacional do Bloco de Esquerda. Ainda coordenadora, que está de saída, afirma que o Bloco tem de mudar quase tudo, sem no entanto concretizar. No discurso de despedida na Convenção Nacional, Mortágua reafirmou que o Bloco é feminista e que vai continuar a lutar contra a extrema-direita. Ainda coordenadora, a bloquista pede uma convenção clarificadora e uma batalha de ideias durante este fim de semana. A convenção, essa a expectativa, deve eleger José Manuel Pureza, antigo deputado, como novo coordenador do partido. A TAP afirma que o impacto da atualização de aparelhos, a atualização de software da família Airbus A320, é reduzido e que não há cancelamento de voos. É isso que dá conta ao Observador, fonte oficial da empresa. Não adianta, no entanto, quantos aparelhos vão ser afetados ou quando vai ser feita a atualização de software dos aviões. A Airbus anunciou ontem a recolha de perto de 6 mil aviões A320 para fazerem uma atualização urgente do software de controlo de voo. A empresa descobriu que o software atualmente instalado é vulnerável à radiação solar, uma situação que está a levar a cancelamentos e atrasos de voos um pouco por todo o mundo. Não é o caso de Portugal. As competências da Comissão de Combate à Fraude no SNS sobrepõem-se a outro organismo que já existe em Portugal há 12 anos. Trata-se do Centro de Controlo e Monitorização do Serviço Nacional de Saúde. Este centro funciona na Maia, analisa milhares de documentos por mês, sobretudo ao nível da prescrição de medicamentos e exames. A nova comissão anunciada esta semana pelo governo também vai ter esta competência. Terá, no entanto, um âmbito de atuação mais vasto. Fonte conhecedora explica que vai atuar em todas as áreas da saúde, desde os recursos humanos à compra de medicamentos ou equipamentos por parte dos hospitais. Os administradores hospitalares alertam, ainda assim, que as duas entidades podem sobrepor-se. Na Guiné-Bissau, o PAIGC denuncia a invasão da sede do partido por homens encapuzados e armados. O porta-voz do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, Munir Conte, diz que estes homens fazem parte da Polícia de Intervenção Rápida. A Agência Lusa ouviu relatos que dão conta de agressões a dirigentes e colaboradores. Munir Conte sugere que o objetivo é introduzir armas no local, na sede do PAIGC, para depois acusarem o partido. Partido que considera esta intervenção um atentado à estabilidade, à democracia e ao Estado de Direito na Guiné-Bissau. Chega hoje a Portugal a seleção sub-17 que venceu o Mundial de Futebol no Qatar. A chegada está prevista para 13h50, o Aeroporto General Humberto Delgado, em Lisboa. A comitiva vai depois ser homenageada em Belém, no Palácio de Belém, pela Presidência da República e também na Cidade do Futebol. Momentos que vamos acompanhar a par e passo com reportagem em direto aqui na antena do Observador.

5 de notícias com Miguel Vieira.