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Começa agora uma nova edição de "O Bom, o Mau e o Vilão". Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. O teu bom é o Presidente da República.
Finalmente, alguma coisa certa. Depois de ter voltado da sua viagem ao Vaticano, claro, íamos lá agora deixar de ir ao Vaticano. Mas depois disso, o Presidente da República foi finalmente fazer o seu trabalho. Partiu para Ourém, onde se reuniu com vários autarcas pra perceber como é que as coisas estão e, no final, teve o bom senso de reconhecer o óbvio. E eu acho que, depois de ter pensado muito sobre este assunto ao longo dos anos, acho que esta é uma das principais características de um presidente da República, porque falta-nos muito, no espaço público, pessoas a reconhecerem o óbvio, a terem esse bom senso. E em declarações aos jornalistas, Marcelo Rebelo de Sousa disse isto: "Há coisas em que o Governo esteve melhor e coisas em que esteve pior, e a explicação às pessoas, em muitos casos, não correu bem". E atenção, Marcelo não disse uma vez, nem duas, repetiu três vezes: "Não correu bem." E aqui está uma boa lição pra o Governo. Em momentos difíceis, nós devemos admitir aquilo que toda a gente vê e ouve. Toda a gente viu, toda a gente ouviu. Não vale a pena negar. Em vez de tratar as pessoas como tontas que não percebem as coisas, mais vale assumir aquilo que não corre bem, porque, como diria a Ministra da Administração Interna, isto é uma aprendizagem coletiva. Portanto, o Governo aprende que fez coisas erradas, admite que fez coisas erradas e desejavelmente modifica a forma como olha pra estas coisas.
Sem dúvida, o primeiro passo pra corrigir é reconhecer o erro. Qualquer manual nos diz isso, não é? De autoajuda.
Senão as pessoas ficam a olhar pra aquilo. Não me estás a chamar Gustavo Santos, pois não?
Não, Miguel, longe de mim tal ideia.
Mas senão as pessoas olham pra isto e pensam: ou eu estou maluco ou eles estão malucos. E eu acho que isso não é bom pra nenhum governo, não é bom pro poder político, e acho que fez muita falta Marcelo Rebelo de Sousa vir dizer isto. Se não tivesse ido ao Vaticano, podia ter dito mais cedo.
O teu mau não está maluco, mas anda perdido.
Anda perdido o INEM. Ontem o presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica esteve no Parlamento e ao falar sobre os problemas que têm existido nos últimos tempos, disse que o sistema é composto por pessoas e como tal existem falhas. Eu acho que há aqui um equívoco, porque o problema do INEM não tem principalmente a ver com falhas das pessoas. Com certeza que as pessoas individualmente cometem aqui e ali falhas. O problema não é esse, e foi o próprio presidente do INEM quem deu um exemplo disso, porque segundo ele, uma das dificuldades atuais, e vou citá-lo, é que o INEM tem de saber onde andam as ambulâncias e neste momento não sabe onde andam as ambulâncias. De fato, parece-me básico que a organização que gere as ambulâncias saiba onde é que elas estão. Parece-me básico. Luís Cabral continuou, disse isto: "No passado, o INEM já foi um dos institutos tecnologicamente mais desenvolvidos do país. Hoje em dia, infelizmente, perdemos essa capacidade. Em 2004, 2005", portanto tempo que já lá vai, "quando fui trabalhar pro CODU, tínhamos um quadro onde víamos a ativação das ambulâncias. Não era geolocalização, mas havia umas transmissões de rádio pra nós sabermos. E hoje essa situação perdeu-se." Eu peço desculpa pela citação longa, mas ajuda-nos a perceber que aquilo que se perdeu no INEM foi por motivos bem mais complexos do que simples falhas de pessoas. E um dia alguém vai ter de nos explicar por que o INEM acabou assim. Como é que passamos de um organismo que era um dos tecnologicamente mais avançados do país pra um organismo que não sabe onde é que andam as ambulâncias.
Se estás à espera que alguém venha explicar ou que venha assumir responsabilidades, eu aconselho um sofá confortável pra esperar.
Não, eu já não peço responsabilidades, Paulo.
Só quer saber. Só quer que expliquem.
Só peço aprendizagem coletiva.
Amigo.
Vermos o que é que correu mal, corrigirmos e não repetirmos. Só isso. O resto, vão à vossa vida.
Só falta o vilão, quem é?
É a Proteção Civil. Nós ontem ficamos a saber pela sábado que o Comandante Nacional da Proteção Civil esteve fora do país no pior momento desta tragédia das tempestades. Ele partiu pra Bruxelas numa viagem de formação na segunda-feira, 26 de janeiro, às 7h, e voltou ao país na quarta-feira, dia 28, às 20h. Ou seja, saiu do país a meio da Depressão Joseph e voltou só quando parte do país já estava devastado pela tempestade Christine. A viagem foi devidamente autorizada, atenção, teve as autorizações todas, e a Proteção Civil acha isto normal pelo seguinte motivo, e eu vou citar: "O Comando Nacional de Emergência e Proteção Civil é uma estrutura hierarquizada, tendo estado permanentemente assegurada a presença do segundo comandante nacional e dos cinco adjuntos nacionais, que garantem naturalmente as ausências e impedimentos." Eu gostei muito deste naturalmente, como quem diz: "Ó seus tontos, como é natural, estavam aqui os campeões a tomar conta disto."
Queria ver se os apanhavam.
Essa, agora. Alguma vez ia o primeiro comandante, o segundo e os cinco que vêm a seguir pra Bruxelas? Não, foi só o comandante que mandou nisto. O resto ficou tudo cá. Bem, há aqui duas coisas que me deixam Perplexo. Primeiro: se no dia 26 de janeiro, que foi a data da partida, nem a Proteção Civil fazia ideia da gravidade daquilo que ia acontecer dali a umas horas, porque foi na madrugada de 27 pra 28, então como é que nos podem dizer que foi feito um trabalho incrível de prevenção da tempestade? Como? Se, pelos vistos, a própria Proteção Civil foi apanhada de surpresa, de tal forma que o comandante apanhou um avião pra ir pra Bruxelas, então como é que eles fizeram o trabalho de prevenção? Como é que isso foi feito? Foi por magia? Eles não sabiam o que estavam a fazer, mas estavam a fazer prevenção? Não entendo. Em segundo lugar, se o segundo comandante nacional e os cinco adjuntos nacionais trataram de tudo sozinhos e tudo correu muito bem, então pergunto eu: pra que precisamos do comandante nacional da Proteção Civil? Então, se calhar, em vez de termos sete pessoas, basta termos seis. O sétimo está lá a fazer o quê? Não está lá a fazer nada. Menos um nível hierárquico, que é sempre importante. Ora nem mais, não há entropias, não há nada disso. Tudo flui de forma mais eficaz e rápida. Cá está, mais uma vez, bom senso. Perante isto, o que é que custava à Proteção Civil dizer: "Olhem, foi azar. Foi um grande azar. Esta viagem já estava marcada há muitos meses, as viagens de formação são importantes pra Proteção Civil melhorar, contactar com organizações semelhantes no estrangeiro. Isto estava tudo combinado. Tivemos muito azar." Pronto. De facto, se soubéssemos hoje o que viemos a saber dali a umas horas, o comandante não tinha ido. O que é que custa? Por que nos estão a tratar como tontos, dizendo que não há problema nenhum, está tudo ótimo? São estas coisas que deixam as pessoas incomodadas. Será que é assim tão difícil perceber isto? Não, mas lá está a falta da tal aprendizagem coletiva. Falta, sem dúvida. Temos muito o que aprender.
Miguel, regressas depois do meio-dia pra mais um "Realpolitik", é quarta-feira, com o Sérgio Sousa Pinto. Do que vão falar?
Como ficou evidente, espero eu, nestes últimos minutos, o sistema voltou a falhar e, portanto, queremos olhar politicamente pra isto. Eu e o Sérgio não somos técnicos de proteção civil, olhando politicamente pra isto, tentar perceber se este novo falhanço do sistema ajuda André Ventura. Convém não esquecer que vamos ter umas eleições presidenciais no domingo. Depois também queremos perceber se a eleição de seguro, que todos dão como inevitável, é boa pra esquerda ou se os presidentes acabam por prejudicar os seus espaços políticos. E finalmente, queremos tentar perceber e falar um pouquinho sobre se depois das presidenciais, a direita vai ter algum novo líder e se sim, quem.
Muito pra ouvir no "Realpolitik", depois do jornal do meio-dia. Quanto ao bom, mau e vilão desta quarta-feira: o bom é Marcelo Rebelo de Sousa, o mau, o INEM, e o vilão é a Proteção Civil. São as escolhas do Miguel Pinheiro, num episódio que daqui a minutos também fica disponível em podcast.