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Este é o Bom, o Mau e o Vilão das manhãs 360, sempre com Miguel Pinheiro. Olá, Miguel, bom dia.
Bom dia.
Bom dia. O teu bom é António José Seguro.
Sim, porque no discurso da cerimónia do 25 de Abril, o novo Presidente da República explicou que, vou citá-lo: "Não há verdadeira liberdade sem transparência no exercício de cargos públicos." E este sempre foi o tema que definiu a carreira política de Seguro, que quando era deputado, tomou iniciativas legislativas pra aumentar o escrutínio sobre os titulares de cargos políticos. Nós nas últimas semanas temos ouvido várias vozes do PSD criticarem aquilo que dizem ser o excesso de transparência. Aliás, na cerimónia do 25 de Abril, José Pedro Aguiar-Branco falou mesmo antes do Presidente da República e esteve longos minutos a criticar aquilo que diz ser o reality show em que se transformou a vida dos políticos. Atacou aquilo que vê como uma preocupação excessiva com as portas giratórias e com as consequências dos registros de interesses e das declarações de rendimentos. Eu não sei o que está na cabeça do PSD. Hugo Soares, por exemplo, disse numa entrevista que este tema precisa ser revisitado. Portanto, não sei o que anda ali pelo PSD, mas é bom que o Presidente da República torne muito claro que com ele não haverá recuos no escrutínio dos políticos.
E era bom que quem acha que de facto isto está a ir por caminho que já é pouco eficaz, talvez seja por aí, que diga quais são as alternativas então. Onde é que são os limites? Onde é que acaba aquilo que é legítimo e começa o reality show?
É, e que depois confrontem isso com episódios que têm acontecido em que vemos políticos, por exemplo, usarem familiares próximos para esconderem dinheiro da corrupção.
Por exemplo.
Miguel, o teu mau falou sobre história.
Olha, sim, no mau e no vilão, quero falar um bocadinho sobre. Eu não gosto nada daqueles que manipulam a história com objetivos políticos e por isso não gostei nada de ouvir Fábio Figueiredo, do Bloco de Esquerda, na cerimónia do 25 de Abril, a citar Natália Correia. É um hábito do Bloco, já na cerimónia dos 50 anos do 25 de Novembro, no ano passado, Mariana Mortágua tinha falado de Natália Correia como uma das heroínas do partido, enquanto dizia que a história é teimosa. E realmente, a história é teimosa, por isso é que me incomoda ver um partido que sempre elogiou o processo revolucionário como sendo a verdadeira expressão do 25 de Abril. "É o processo revolucionário é que era, que foi incrível, tudo aquilo, as nacionalizações, aquilo foi incrível." E estarem a usar o nome de Natália Correia, porque Natália escreveu um livro inteiro chamado "Não Percas a Rosa", a denunciar o PREC. Nesse livro, ela ataca a paranoia gonçalvista, chama a Otelo "o anão castro-comunista". O que o Bloco tem a dizer disto? O anão castro-comunista. E nesse livro, que é um diário do PREC, tem um capítulo inteiro, uma entrada inteira do diário, imaginem lá, a denunciar a existência de presos políticos durante a revolução, que foi o grande tema destes últimos dias. Natália Correia fala sobre o santo ofício da legalidade revolucionária e escreve isto: "É interminável e sombria a ementa de monstruosidades servidas nesses quartéis à fúria do poder popular por militares atacados de paranoia progressista." Portanto, em vez de evocar o nome de Natália Correia, o PAN também falou em Natália Correia, o Bloco de Esquerda devia ler Natália Correia. Se bem que pode ser difícil descobrir algumas coisas, porque no PREC, Natália Correia escreveu um artigo pro jornal "A Capital" a denunciar o MFA, mas a comissão de trabalhadores censurou o artigo, portanto, acabou por não sair no "A Capital". Depois teve que sair em outro jornal, e o diretor da "Capital" também teve que se demitir. Enfim, histórias do PREC.
Pois, e com pessoas que já cá não estão pra se defenderem, de alguma forma.
É, pois é. Já pra não falar no fato de Natália Correia, depois em 79, foi deputada. Foi por quem? Foi pela AD.
É verdade.
Miguel, o teu vilão também falou sobre história, como dizia.
Depois ela saiu da AD. E irritou-se quando Francisco Sá Carneiro saiu. Mas enfim, lembrar a história toda, de facto. Diz lá, o meu vilão.
Também falou sobre história.
Também falou sobre história, outro que tal? Rui Tavares. Manipuladores da história. Então, o líder do LIVRE, nós enfim, nos últimos dias algumas pessoas têm feito comparações entre a ditadura do Estado Novo e o 25 de Abril. Rui Tavares é uma alma criativa, portanto não foi pra aí e fez todo o seu discurso na cerimónia do 25 de Abril à volta do contraste entre a ditadura do Estado Novo e o regime que antecedeu a Primeira República, que segundo Rui Tavares, que ainda por cima é historiador, a Primeira República foi uma democracia maravilhosa, com um Parlamento eleito de uma forma que nos deve orgulhar. Aquilo era um regime incrível. E a tal altura afirmou, fez lembrar também aqui um bocadinho Mariana Mortágua, ele disse: "Não tenhamos medo da história." Ora, se Rui Tavares não quer ter medo da história, devia explicar que os historiadores, uma parte muito substancial dos historiadores, já mostraram à exaustão, pra lá de qualquer dúvida, que a Primeira República foi um regime repressivo, assente num partido em que a violência política fazia parte do dia a dia. Olha, foi, por exemplo, um regime, e isto deve interessar a Rui Tavares, que perseguiu sindicalistas e grevistas. Logo na primavera de 1911, as forças da autoridade dispararam contra um piquete em Setúbal, mataram dois trabalhadores e a partir daí foi sempre a piorar. Greves eram boas, mas não durante a Primeira República e contra o regime. E os dirigentes da Primeira República, Rui Tavares também sabe disso certeza, aplicaram leis restritivas da liberdade de imprensa, leis restritivas da liberdade de reunião, suspenderam garantias constitucionais, permitiram a atuação da chamada Formiga Branca, que eram milícias civis armadas que corriam as ruas de Lisboa à procura de adversários políticos pra depois os espancarem, os prenderem com as autoridades a fazerem de conta que não percebiam nada do que estava a passar. E Rui Tavares podia também ter lembrado aquela que ficou conhecida como a Noite Sangrenta, que aconteceu de 19 pra 20 de outubro de 1921, em que foram assassinados vários políticos, incluindo políticos que tinham participado na implantação da República, mas que entretanto se tinham tornado indesejáveis. Entre os políticos assassinados estava o primeiro-ministro. Coisa pouca, o chefe do governo. Vamos aqui dar-lhe uma lição, matá-lo. E portanto, pra denunciar a ditadura do Estado Novo e defender o 25 de Abril, o líder do LIVRE não precisava de fazer esta manipulação da história, mas não é a primeira vez. Rui Tavares já nos habituou a isto e, portanto, olha, é o que há.
Sim, não é preciso grande coisa para defender uma coisa.
Não, basta dizer.
E criticar outra, é claro.
A ditadura do Estado Novo era tão horrível que é muito fácil criticá-la, não é preciso inventar.
Vamos ao resumo. O bom é António José Seguro, o mau é o Bloco de Esquerda e o vilão de hoje é Rui Tavares. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro no episódio que também pode ouvir em podcast. Agora são 08h35, já a seguir atualizamos a informação.