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Tudo pronto para uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador. Miguel Pinheiro já está conosco. Bom dia, Miguel.
Bom dia.
Olá, Miguel. Quem é o bom desta terça-feira?
O bom desta terça é o bispo auxiliar de Braga. Dom Nuno Almeida publicou ontem um texto sobre os abusos na Igreja que é absolutamente exemplar. Em primeiro lugar, ao contrário de Dom José Ornelas, que se colocou numa atitude passiva e disse que era muito difícil fazer fosse o que fosse, investigar fosse o que fosse. Ao contrário dele, o bispo auxiliar de Braga defendeu, citando o documento oficial do Vaticano para estas matérias, que a Igreja tem de analisar e aprofundar ativamente todas as denúncias, independentemente da forma ou do canal utilizado. Depois, ao contrário da Conferência Episcopal, que entregou tudo nas mãos de cada uma das comissões diocesanas individualmente, consoante a origem da denúncia, o bispo auxiliar de Braga defendeu uma ideia sensata: a de que poderá ser conveniente que uma denúncia seja apresentada e recebida noutra diocese. Isto para evitar que a proximidade com o alegado agressor possa ter um impacto na investigação. E finalmente, o bispo auxiliar de Braga contrariou Dom Manuel Clemente. O Patriarca de Lisboa afirmou misteriosa e incrivelmente que a suspensão de um padre denunciado é uma pena grave que só pode ser tomada pelo Vaticano, mas Dom Nuno Almeida veio clarificar que antes de ser uma pena, o afastamento pode ser uma medida cautelar de tipo administrativo e que, além disso, pode ser tomada pelos bispos enquanto decorre uma investigação. E isto é básico numa suspeita de abuso sexual de menores, afastar enquanto se investiga. Isto deveria ser relativamente pacífico. A Igreja portuguesa precisa desesperadamente de mais pessoas como Dom Nuno Almeida. Elas têm que ter a coragem de falar e de agir para que a Igreja não fique nas mãos daqueles que querem que tudo fique na mesma e para que os fiéis não ouçam apenas aquela versão lava as mãos que saiu da Conferência Episcopal e percebam que dentro da Igreja há pessoas com responsabilidades que acham que isto pode ser feito de outra forma, que aqueles que defendem que isto pode ser feito de outra forma não são apenas uns mata-frades furiosos, saudosos da Primeira República.
Pois, sem dúvida. E há pessoas lá, de facto, que querem que isto seja mais do que uma operação de relações públicas da Igreja, que haja a ação no terreno mesmo.
Seguramente. E eu sinto que os fiéis precisam de ouvir estas outras vozes, porque de facto estão convencidos que tudo o que não seja aquilo que diz Dom Manuel Clemente é um ataque à Igreja por ateus que querem destruir até a última pedra do último altar.
Dom Nuno Almeida é o bom de hoje e quem é o mau?
O mau é António Costa. O primeiro-ministro apresentou há dias o célebre pacote de legislação sobre habitação, mas apesar de dizer que está a trabalhar nisso há anos, isto são anos e anos de trabalho sobre este assunto. Apesar disso, esqueceu-se que mesmo tendo maioria absoluta, não manda sozinho no país. A medida mais polêmica deste pacote sobre a habitação foi a do arrendamento forçado de casas devolutas. O governo decidiu que essa nova legislação seria aplicada pelas autarquias, mas não se lembrou que se calhar era capaz de ser boa ideia falar com os autarcas antes de lhes atirar isso para cima para ouvir a opinião deles. E por isso agora estamos num impasse. Ontem, tanto o presidente da Câmara de Lisboa como o presidente da Câmara do Porto vieram dizer que não querem ter nada a ver com o assunto. Moedas voltou a defender que a medida é inconstitucional e acrescentou que a Câmara, segundo ele, não tem meios para fazer de polícia das casas devolutas. Enfim, vamos tomar isto com um grão de sal. A Câmara não quer é fazer disto uma prioridade. Tudo bem. E Rui Moreira afirmou que a nova legislação é confusa e inexequível. A legislação sobre habitação está agora naquilo a que se chama a fase de consulta pública até 10 de março. E se o governo leva esta consulta pública a sério, se a consulta pública não é apenas uma coisa para se dizer que se faz, então parece-me que perante esta posição dos dois principais autarcas do país, pelo menos a proposta sobre as casas devolutas tem de ser radicalmente mudada ou até atirada pra gaveta de onde nunca devia ter saído.
E só fica mesmo a faltar o vilão.
O vilão é o governo, que sai terrivelmente mal do relatório da Inspeção-Geral das Finanças sobre a TAP, que foi revelado ontem. A TAP, uma empresa que António Costa quis renacionalizar e que Pedro Nuno Santos acompanhava à lupa, era gerida de forma amadora, com o chairman a não saber ou a não concordar com o que fazia a CEO e com a CEO a preocupar-se mais em afastar uma colega de administração do que em tomar boas decisões. Depois, o Ministério das Infraestruturas, ficamos a saber, era gerido de forma amadora, com o ministro Pedro Nuno Santos, o seu secretário de Estado e a sua chefe de gabinete a tomarem decisões através de WhatsApp, sem olharem devidamente para os papéis e sem pararem um minuto para pensar no destino que davam aos dinheiros públicos. Outras empresas públicas também eram geridas de forma amadora, com Alexandra Reis a ser escolhida para a NAV depois de ser despedida da TAP nestas circunstâncias e sem que as pessoas que a convidaram fossem investigar devidamente tudo o que se tinha passado. E o Ministério das Finanças é gerido de forma amadora também, com Fernando Medina a contratar Alexandra Reis para sua Secretaria de Estado, sem procurar saber o que tinha feito e como tinha sido avaliada meses antes. Não foi anos antes, foi meses antes, quando esteve na TAP. Há aqui amadorismo de alta a baixo, da esquerda à direita, de ponta a ponta. Enfim, o relatório da Inspeção-Geral das Finanças é um verdadeiro manual sobre como não governar. Espero que os futuros ministros e primeiros-ministros leiam isto na escola antes de se candidatarem aos cargos.
Estamos só a falar de uma empresa onde lá metemos 3.200 milhões de euros e que é dita estratégica, não é?
É coisa pouca. Atenção, e que estava entregue. Este governo quis ir buscá-la e, portanto, supostamente, sabia o que ia fazer com isto, afinal.
Vamos então ao resumo. O bom desta terça-feira é o bispo auxiliar de Braga, Dom Nuno Almeida, o mau, António Costa, e o vilão de hoje é o governo. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro.