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Começa agora uma nova edição do Bom, Mau e o Vilão das manhãs 360. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia.

Bom dia, Miguel. O teu bom de hoje é André Ventura.

Sim, ele de facto não poderia pedir a Deus um adversário político melhor do que Luís Neves. A falta de jeito do ministro da Administração Interna está a tornar-se lendária. Sempre que fala para se defender, Luís Neves acaba por oferecer mais munições aos seus adversários e o líder do Chega, claro, aproveita. Os americanos têm uma expressão que traduzida literalmente quer dizer: "atira-lhe tudo menos o lava-louça da cozinha." Mas André Ventura está a atirar tudo ao ministro da Administração Interna, incluindo o lava-louça da cozinha. Ele atira-lhe uma comissão parlamentar de inquérito, atira-lhe provocações constantes nas redes sociais e nas televisões, que pelos vistos resultam, atira-lhe o Presidente da República e tudo indica que também lhe vai atirar uma moção de censura. O líder do Chega percebeu rapidamente, depois da tomada de posse, que Luís Neves parecia forte, mas é fraco. Parecia blindado, mas mete água por todos os lados. E com as contradições de sempre e com os exageros de sempre, André Ventura está a fazer o trabalho dele, porque ser líder da oposição tem de fazer oposição, diria eu.

Parece que Luís Neves aceitou jogar nos termos de André Ventura, o que é sempre mau, porque André Ventura, nos seus próprios termos, é imbatível.

Mas a sensação que fica aqui é de que se André Ventura não falasse, ninguém falava. E isto realmente planta nas pessoas uma ideia de que, se calhar, André Ventura faz falta, porque senão estava tudo caladinho.

E será que o teu mau vai agir?

Lá está, precisamente. Essa é a grande dúvida em relação ao Presidente da República. André Ventura está a fazer o trabalho dele, António José Seguro não. Ele tem dito algumas coisas, mas falta agir. E para usar uma frase estafada, o Presidente da República não é a rainha de Inglaterra, ele tem poderes, ou neste caso o rei. Já não temos rei em Inglaterra. Ele tem poderes relevantes e tem de saber e querer exercer esses poderes. A eleição de António José Seguro, vamos lá ver, juntou muita gente muito diferente. Juntou pessoas de esquerda e pessoas de direita, juntou pessoas do PS e pessoas que odeiam o PS, juntou pessoas que querem um presidente interventivo e pessoas que querem um presidente cauteloso. Muita gente muito diferente. A única característica de António José Seguro que une todos os seus eleitores é a exigência ética. Claro, na altura também o combate a André Ventura. Mas a coisa pela qual António José Seguro é conhecido é esta. A maior parte das pessoas não conhece um único pensamento sólido de António José Seguro sobre nada, mas apesar disso, toda a gente sabe que quando era deputado, quando era líder do PS, defendeu a aplicação de medidas que pretendiam aumentar a exigência ética na vida política. E por isso, o agora presidente Seguro pode ficar calado sobre muitos temas, mas não pode ficar calado sobre o caso Luís Neves, porque se não fizer nada, se não mostrar que este é o tema onde ele se impõe, então a presidência fica totalmente esvaziada. Porque se Seguro não servia para acabar com isto, com uma questão em que estão envolvidas dúvidas éticas, então não serve para nada. E por isso a grande dúvida é: o presidente está à espera de quê? De que ele está à espera?

Há uma frase antiga de Seguro que pode responder aí: qual é a pressa?

Mas sabe, senhor Paulo, essa frase na altura correu mal. E se calhar, passados estes anos todos, volta a correr mal. Eu teria a esperança de que ele tivesse aprendido que essa frase não é incrível.

Até porque há assuntos que só se resolvem rapidamente ou então nunca se resolvem.

Ora nem mais.

E quem será o teu vilão?

Quem será?

Quem será?

E quem será?

Não estou a ver nenhum tema.

O vilão obviamente é Luís Neves. Ontem o ministro da Administração Interna voltou a falar e voltou a fazer tudo errado. Primeiro, a forma. Luís Neves discursou sobre os seus casos éticos para uma plateia de agentes da PSP fardados. No fim, ele estava a voltar ao palco e foi cumprimentado por dois, imagino que dirigentes da PSP, que estavam ali fardados a cumprimentá-lo com um sorriso. Enfim, a polícia não pode nunca, de maneira nenhuma, ser arrastada para a luta partidária. A PSP não é um bibelô que o ministro usa para enfeitar os seus ataques aos adversários políticos e jamais deve estar rodeado de polícias fardados a falar de forma exaltada e agressiva sobre adversários políticos. Digamos que é uma imagem que não fica propriamente bem, já nem a ele É à polícia. Nós já temos a PJ arrastada para isto, ainda vamos arrastar a PSP? Acho que era altura de parar com isso. Depois, a desculpa. Todo aquele discurso serviu para Luís Neves construir a sua tese da cabala. Claro, ele está a ser perseguido por pessoas que têm inveja dele e por pessoas que ele afastou, presume-se que na PJ. O ponto dele é o de que são pessoas que o invejam que estão a ser as fontes das notícias. Eu pergunto-me quantas pessoas com inveja é que terão sido fonte de denúncias à Polícia Judiciária quando ele era diretor da PJ? Quantas investigações terão começado e terão acabado bem e que terão começado com pessoas que se queriam vingar? Se ele quiser pôr assim, quiseram vingar de outras pessoas que tinham informações e que foram denunciá-las. Não parece que nessa altura o diretor nacional da PJ as mandasse embora dizendo: "Amigo, isso é tudo inveja, não quero cá saber, não venha cá com coisas, com papéis, nem com informações." Por fim, há as consequências políticas, porque Luís Neves explicou que o seu grande objetivo enquanto ministro é derrotar o populismo, ou seja, é derrotar o Chega, ou seja, é derrotar André Ventura. E há aqui um problema: Luís Neves quer derrotar André Ventura e o Chega, mas Luís Montenegro quer conversar e negociar com o Chega e com André Ventura. Como o governo não tem maioria absoluta no Parlamento, se cortar relações políticas com o Chega, então sobra-lhe o quê? O PS. Fica totalmente dependente do PS para aprovar as suas iniciativas. E é por isto que, ao falar da maneira como falou, o ministro da Administração Interna se comportou como se fosse o primeiro-ministro e tomou decisões que só o primeiro-ministro é que pode tomar. E por isso, se calhar, Luís Montenegro vai ter que lhe explicar quem é que manda no governo, quem é que toma as decisões em relação a conversas ou cortes de relações com partidos. Não sei, se calhar era útil. Há empresas que têm o chamado processo de onboarding. Sempre que entra alguém, explicam como é que as coisas funcionam lá dentro. Eu acho que se calhar o governo precisava ter um processo de onboarding. Chegava um ministro e diziam: "Olhe, muito bem-vindo, está aqui este senhor, chama-se Luís Montenegro, nós chamamos-lhe primeiro-ministro. Não sei se isto lhe dá uma dica, ele é o primeiro entre os ministros, ele é que toma assim as decisões. Portanto, daqui para a frente, veja lá, tenha isto em conta." Se calhar não explicaram isto, faltou o processo de onboarding.

Pois, e Luís Montenegro também, já agora que aproveite para explicar isso ao país, que eu acho que o país já começa a ter também necessidade de ter essa explicação.

A algumas pessoas, se calhar.

Miguel, é quarta-feira, é dia de Realpolitik, do que vais falar depois do jornal do meio-dia com o Sérgio Sousa Pinto?

Vamos falar, obviamente, do caso Luís Neves, com certeza, sobre o papel do Presidente da República, sobre a possibilidade de uma moção de censura. Vamos ver se daqui até lá há alguma confirmação. E depois também queremos falar um bocadinho sobre o que se está a passar na Rússia. Houve esta declaração de Putin, que foi citada esta semana na Economist, em que ele dizia que se não conquistasse o Donbass, o enforcavam. E vamos falar um bocadinho sobre o que se está a passar por lá.

Realpolitik para ouvir depois do jornal do meio-dia. Quanto ao bom, o mau e o vilão de hoje, o resumo é: o bom é o André Ventura, é André Ventura, o mau é o Presidente da República e o vilão de hoje é Luís Neves. São as escolhas do Miguel Pinheiro, num episódio que daqui a minutos também fica disponível em podcast.