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O Major-General José Ramon Moreira já aqui está conosco. Começa agora mais um Domínio da Guerra. Bom dia, General.
Olá a todos.
Bem-vindo. Esta manhã estamos em direto no YouTube e Facebook, na rádio. Este episódio vai passar depois da síntese das 14h30. Claro, tem sempre a hipótese de nos ouvir em podcast. General, faz precisamente hoje uma semana que foram disparados pela Ucrânia dois mísseis de cruzeiro que atingiram e destruíram parte do quartel-general da Frota do Mar Negro, em Sebastopol. Como é que um edifício tão simbólico e um alvo militar, naturalmente óbvio, se mostrou tão vulnerável? E depois disso, ainda seguiu aquela discussão sobre se o almirante Sokolov, comandante da frota, teria ou não sido atingido.
É verdade. Este foi, provavelmente, de todos os ataques conduzidos pelas forças ucranianas até o momento, o mais simbólico. Na verdade, aquele edifício é um edifício majestoso, até imperial, muito bem localizado e portanto traz consigo também associado o simbolismo da importância que é dada pela Federação Russa à sua Frota do Mar Negro. Traduz tudo isso. E ao atingir aquilo que é o quartel-general desta força, a Ucrânia está certamente a dar um ou dois sinais. O primeiro sinal é o da vontade. Esse é um sinal importante, sinal de que está disponível, que está disposta a reconquistar a Crimeia. E o segundo é da capacidade, que tem capacidade de atingir mesmo os alvos mais importantes disponíveis dentro da Crimeia. Bom, este ataque merece-me quatro observações. A primeira é que aquele quartel-general é um alvo absolutamente legítimo. Legítimo, porque os quartéis-generais são locais de onde se exerce o comando e onde se faz o planeamento das operações e, portanto, não há dúvida nenhuma que do ponto de vista legal da guerra, aquele quartel-general podia ser atingido como foi atingido. A segunda observação tem mais a ver com o aspeto de uma certa surpresa. Então será que um quartel com esta visibilidade, esta localização, estaria a ser utilizado em permanência para reuniões do almirante com o seu Estado-Maior? Isto é que já parece mais estranho e difícil de perceber. Que um alvo destes, com esta dimensão, pudesse estar a ser utilizado correntemente para planeamento, para reuniões, para ações em pleno conflito. Bom, na verdade, este ataque teve uma característica: foi feito durante o dia, o que nos leva a crer que os informadores ucranianos teriam certamente recolhido indícios de que estariam a decorrer reuniões no edifício. E é por isso que ele foi atacado durante o dia e não como é normal, muitas vezes normal nestes casos, durante a noite. A intenção não foi apenas destruir o edifício, foi o de eliminar um conjunto de comandos e do Estado-Maior que estariam eventualmente reunidos. Depois, a terceira observação tem a ver com o facto de o planeamento da guerra necessitar de um conjunto de ações sucessivas para se atingir um objetivo na profundidade. Isto é, os ucranianos não decidiram pura e simplesmente: "Vamos enviar dois mísseis de cruzeiro sobre este edifício". Não, isto resulta de um conjunto de ações que nós temos vindo a assistir ao longo das últimas semanas e que passaram pela utilização de forças de operações especiais para alvos muito específicos, que passaram pela eliminação dos meios de vigilância e de alerta que estavam nas tais plataformas petrolíferas, na eliminação de pelo menos parte das baterias S-400 que protegiam a Crimeia. E, portanto, isto foi trabalhado ao longo do tempo para ter este resultado. Provavelmente, se não tivesse havido este trabalho anterior, planeamento, mas também de execução, provavelmente não estariam reunidas as condições para que um ataque destes tivesse sucesso. A quarta observação tem a ver com o seguinte: eu ontem estive a olhar pro mapa para ver a localização dentro da cidade, onde é que fica exatamente este quartel-general. Este quartel-general fica naquilo que eu diria que é a zona nobre da cidade e fica a poucas centenas de metros do local onde está o porto militar de Sebastopol, com toda a Frota do Mar Negro ali. Isto é, se os ucranianos tivessem querido afundar a Frota do Mar Negro, era um bocadinho, umas centenas de metros mais para o lado. E, portanto, isto significa que os ucranianos conseguiram, entretanto, obter um conjunto de capacidades muito grandes sobre Sebastopol e a Frota do Mar Negro é certamente um dos grandes objetivos, a sua eliminação ou pelo menos a redução da sua capacidade de operação no Mar Negro, um dos grandes objetivos da Ucrânia. Depois, há a questão da gestão mediática. Mas afinal, o que aconteceu ao almirante Sokolov? Porque logo a seguir ao ataque, houve um silêncio por parte de Putin. Putin não disse nada sobre este ataque. Aliás, os meios de comunicação social na Federação Russa estiveram bastante ausentes desta questão e fizeram aparecer Pouco tempo depois, fizeram aparecer uma imagem de uma reunião de Shoigu com as estruturas militares, em que aparecia no vídeo o almirante Sokolov. Só que o almirante aparecia sem mexer os olhos, nunca se mexeu durante o vídeo todo e não disse nada. E claro, logo nas redes sociais começou a dizer: "O homem nem vivo está, colocaram-no ali para aparecer na imagem". Bom, com base nestas coisas, dois dias depois apareceu um vídeo em que ele aparece a falar. Mas agora também se diz que o vídeo não tem data atribuída, que ele pode estar ou não estar vivo. Isto talvez não é o mais importante. O que é importante é a gestão mediática que, entretanto, a Federação Russa fez sobre isto. Isto é, ao manter o suspense sobre o que tinha acontecido, o almirante Sokolov desviou todas as narrativas para a discussão-
Do ataque em si, não é?
Do ataque em si.
E das baixas que existiram.
Exatamente. Já ninguém falou do ataque ao quartel-general e passou tudo a falar sobre o almirante Sokolov. Portanto, é muito interessante ver como se lançam e se geram estes temas que não são importantes para desviar a relevância que teve o ataque ucraniano ao quartel-general da frota do Mar Negro. Vamos ver se haverá próximos vídeos com o almirante Sokolov para ficarmos sem dúvidas sobre isto.
Vamos continuar no terreno, depois de na semana passada termos falado aqui da conquista de duas povoações muito disputadas a sul de Bakhmut. Esta semana não houve anúncio de qualquer conquista, general, como é que estão as coisas no frente de combate?
Continuam muito dinâmicas, porque a Federação Russa continua com vontade em não perder nenhum metro de terreno e, portanto, sempre que tem uma desfeita do ponto de vista militar, tenta depois reconquistar através de um conjunto de contra-ataques localizados. Mas não tem tido sucesso, na verdade. Cada vez que a Ucrânia tem conquistado um ponto importante, ou uma aldeia, ou uma povoação, a Federação Russa não tem mostrado capacidade de a reconquistar. Nós temos que realçar aqui um ou dois aspectos que me parecem importantes. O primeiro é este: nós não podemos estar numa operação ofensiva sempre a atacar. Isto é, as forças depois de obterem, de um ponto de vista tático, um determinado resultado e conquistado um determinado objetivo, têm que se reorganizar. Isto é, é preciso fazer uma pausa operacional nesse local para que as forças possam reorganizar, possam evacuar os feridos que têm, tenham capacidade de se tornar a rearmar, possam receber, eventualmente, reforço, etc., para continuar a operação. Portanto, isto não é um rolo compressor.
Não é como os filmes, não é sempre a andar.
Não é como nos filmes, não é sempre a andar. E, portanto, para não tornarem a perder o terreno que conquistaram, têm que parar e reorganizar esse terreno e organizar a sua defesa, porque sabem que a Federação Russa vai realizar um contra-ataque depois sobre esse terreno. É por isso que isto não é sempre em contínuo, isto precisa de pausas operacionais também para estes momentos de natureza tática. Mas, por outro lado, porque ela está a atacar, na verdade, em duas frentes dentro desta grande bolsa que vem de Orikhiv, uma em relação a Novoprokopivka e a outra em relação a Verbove. Verbove é uma povoação relativamente importante que está num dos flancos do ataque e, portanto, estes ataques que a Ucrânia está a conduzir para sul, estão a expor também os seus flancos. E, portanto, esta bolsa que é conquistada tem que ser alargada para que as ameaças estejam longe daquilo que são os flancos. É por isso que ela umas vezes tem mais progressos no ataque para sul, outras vezes tem que reorganizar a sul para expandir esta bolsa de forma a garantir a segurança dos flancos. Está a correr de acordo com o normal daquilo que são os procedimentos táticos deste tipo de operações.
Entretanto, Viktor Orbán, o primeiro-ministro há mais tempo neste cargo da União Europeia, disse que esta semana, enquanto membro dos 27 e da NATO, não vai apoiar a Ucrânia enquanto esta não proteger os direitos étnicos da minoria húngara. General, ao remorar isto, soa um bocadinho à argumentação de Putin sobre o Donbass, não soa?
Eu fiquei muito preocupado. Estou sempre preocupado com as declarações de Viktor Orbán, mas desta vez fiquei especialmente preocupado. Há aqui talvez uma ou duas observações que me parecem importantes. Primeiro: é impressionante como nós temos critérios absolutamente rígidos para a adesão de um país a uma organização onde estão os países que são democracias liberais, e depois, a partir do momento em que esses países aderem, já podem mudar completamente de regime sem nunca sobre eles impender a questão de poderem eventualmente ser afastados outra vez da organização. Nós criamos este conjunto de organizações, a NATO também é a mesma coisa, a União Europeia é assim. Temos uns critérios muito apertados para a adesão, mas depois dos países estarem do lado de dentro, não apenas deixam de respeitar aquilo que são os princípios normais das democracias liberais e que lhes permitiram aceder, como mais grave do que isso, utilizam o seu poder de veto dentro dessas organizações para impedir que outros que cumpram os critérios das democracias liberais possam entrar. Isto realmente é muito estranho, a forma como nós criamos organizações para as quais as democracias que não são liberais impedem a entrada de óbvias democracias liberais outra vez dentro deste sistema. Mas a questão de Orbán é mais complicada, porque Orbán o que vem dizer é que a Hungria não apoia a entrada Da Ucrânia nestas organizações, porque está preocupado com a forma como são tratadas as minorias étnicas húngaras que vivem na Ucrânia. Ora, isto foi exatamente a argumentação que foi utilizada por Putin para invadir o Donbass e a Crimeia. Ou seja, isto levanta-nos uma dúvida para a qual Viktor Orbán nos devia vir imediatamente esclarecer. A sua aliança com Putin é apenas de natureza ideológica ou a Hungria alimenta a vontade de uma expansão territorial sobre uma Ucrânia desintegrada, em que possa vir a ficar com as partes que são habitadas pela sua minoria húngara? Isto é, o apoio de Orbán a Putin é apenas de natureza ideológica ou existe aqui uma visão imperial em que acha que se a Ucrânia perder a guerra e se desintegrar, ainda vai sobrar um pedacinho para a Hungria? Isto é gravíssimo e era importante que Viktor Orbán nos esclarecesse disso. E ainda há uma coisa aqui para a qual nós tardamos a acordar. É que a Hungria, por causa do esquema rotativo da presidência do Conselho da União Europeia, vai ser em 2024, vai ter a presidência disto. Ora, eu acho que é preciso encontrar maneira de impedir que a Hungria, com as posições que tem tido anti-Europa, seja ela a liderar as grandes reuniões que sobre este tema, certamente vão ter que ser discutidas em 2024. Vamos ter que encontrar aqui uma solução política mais complicada.
General, o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, disse esta semana perante as câmaras, numa reunião alargada com as chefias militares, que a implementação dos planos de ação previstos até 2025 vai permitir atingir os resultados fixados para a operação militar especial na Ucrânia. Portanto, parece que já nem em 2024 será.
Não é a primeira vez que nós trazemos Shoigu aqui para a cortina de fumo. Não é a primeira vez, porque Shoigu, primeiro, tem um estilo muito particular, que eu chamaria o estilo anti-heroico. Isto é, nós quando ouvimos os discursos de Shoigu, saímos desmotivados. E nós não somos russos, muito mais os russos hão de sair completamente derrotados depois de ouvirem os discursos de Shoigu. Shoigu tem um discurso anti-heroico. Isto é, cada vez que lhe colocam uma pergunta, as suas respostas, em vez de serem mobilizadoras, são altamente desmobilizadoras. Ele foi apanhado no outro dia numa entrevista, houve um jornalista que se aproximou e lhe fez a seguinte pergunta: vamos ganhar? E ele abriu os braços numa atitude como quem diz "não faço a mínima ideia" e disse assim: "Não temos outra possibilidade". Isto não é nada heroico, nem motivador de um ministro da Defesa. Ora, o que acontece agora nesta reunião, foi uma reunião com o Ministério da Defesa e alargada a chefias militares, é que ele vem dizer uma coisa ainda mais estranha. Vem dizer que o conjunto de medidas que estão a ser tomadas vão ter efeito em 2025. Isto é, então 2024 já está posto de parte, ninguém espera nada do ponto de vista militar significativo da Federação Russa durante 2024. Isto tem a ver, do meu ponto de vista, com duas coisas. Primeiro, Shoigu conhece melhor a realidade do que Putin e, portanto, reconhece que há muitas dificuldades do ponto de vista militar à frente da Federação Russa. Essa é uma questão. E a segunda, e talvez isso seja aqui a grande cortina de fumo, é que ele, na verdade, está a tapar aquilo que é a incapacidade militar da Federação Russa de resolver, por meios convencionais, uma guerra na qual não se devia ter metido. E, portanto, ele, de alguma maneira, está a baixar as expectativas junto da população russa relativamente àquilo que são as possibilidades militares desta guerra.
Esta semana temos no nosso Ponto de Mira Ramzan Kadyrov, o líder checheno, que parece beneficiar de uma enorme impunidade. Até Peskov se recusou a comentar as últimas da família Kadyrov, em que um dos filhos é filmado a bater numa pessoa indefesa que aguarda julgamento e o pai publica o vídeo com muito orgulho, como se fossem os primeiros passos de uma criança.
Exatamente.
General, o que está a passar na relação entre Kadyrov e o Kremlin?
Há aqui duas questões que são muito interessantes. Em primeiro lugar, é porque neste momento também se discute se Kadyrov está ou não está internado num hospital em Moscovo e se o último vídeo em que Kadyrov aparece a falar com Putin, se na verdade foi filmado também recentemente ou é uma tentativa de Moscovo de mostrar que Kadyrov tem de se falar muito sobre o estado dele. Mas o grande problema aqui e que nos coloca a família Kadyrov no ponto de mira, é esta ação, que foi uma ação que foi absolutamente preparada. Isto é, deixaram sozinho um desgraçado de um jovem, ele é acusado de ter queimado o Corão. Não sabemos se isso ocorreu ou não, ele não foi julgado também, mas ele estava na sala de espera e foi deixado sozinho com o filho de Kadyrov Mais ou menos fardado e que vem dar umas joelhadas, uns pontapés nesta pessoa indefesa. E o pai publica isto nas redes sociais como se fosse um dos acontecimentos mais notáveis do filho.
Um feito extraordinário.
Um feito extraordinário do filho, que aparentemente tem 15 anos, que vai bater numa pessoa indefesa e publica isto nas redes sociais. É claro que isto, mesmo para os standards da Federação Russa, foi um escândalo. E houve muita gente que chamou a atenção para o facto de o homem ainda não ter sido julgado nem condenado, ninguém tem que exercer sobre ele um conjunto de represálias de natureza física com aquela violência. O próprio Peskov ficou sem saber o que dizer sobre isto, porque não queria atacar a família Kadyrov e chutou para canto esta questão. Mas isto revela um ponto que me parece absolutamente fundamental. Aliás, dois pontos. O primeiro é a tolerância que existe na Rússia para o emprego da violência. Isto é, a violência, a força é um sinal admirado pela generalidade da população, que vê no emprego da força a solução para os seus problemas. Este é um problema que me parece transversal à sociedade russa. E o segundo tem a ver com a grande impunidade que Putin e o seu regime atribuiu ao líder checheno. Ele pode fazer tudo, a família pode fazer tudo. Que ele continua a publicar vídeos em que recebe Kadyrov com a maior empatia com o líder checheno. Ele sabe que tem que proteger Kadyrov na Chechênia, porque aquilo que pode acontecer na Chechênia pode ser muito desagradável no caso de Kadyrov não ser protegido.
Isso não vai ter o lado dele, não é?
E, portanto, toda esta impunidade da família Kadyrov é absolutamente visível numa enorme tentativa do Kremlin de proteger Ramzan Kadyrov e o seu regime na Chechênia.
General Arnaldo Moreira, muito obrigada por mais um domingo da guerra. Voltamos na sexta à hora do costume. Muito obrigada.
Obrigado.