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Começa agora o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o Major-General Álvaro Moura. Bom dia.

Olá, bom dia a todos.

Bem-vindo. Hoje trazemos para o nosso Domínio da Guerra um desafio quase impossível de superar , mas o general gosta dessas coisas. O desafio é como entender Trump, como entender a volatilidade das posições e declarações, como entender o desprezo pelos aliados e o namoro com os inimigos, como entender as motivações. General, afinal, qual é o algoritmo que faz funcionar o presidente dos Estados Unidos?

O programa de hoje começa com uma tese. Eu gosto muito das teses. Trump não é a origem do caos. Trump é a consequência de uma alteração de poderes no sistema internacional. Portanto, não é Trump que está a causar o caos. O caos já existe no sistema internacional e Trump já se apercebeu que é preciso mudar muita coisa no sistema internacional. Nos anos 80, o G7, que reúne as democracias mais industrializadas do mundo, dominava 50% da economia mundial. Hoje, domina menos de 30%. Já há 70% da economia mundial que está fora do controle das democracias industrializadas. Em 2040, é já amanhã, o poder de um grupo chamado E7, a China, Índia, Indonésia, Brasil, Rússia, México e Turquia, terá o dobro do tamanho do poder econômico do G7. É preciso ver que em 2015 eles tinham um poder econômico equivalente e que em 1995 este grupo E7 valia metade daquilo que era o valor do G7. Isto é, em pouquíssimos anos, estamos a falar no espaço de 30 anos, o E7, em termos de poder da economia mundial, passará de metade do valor do G7 para o dobro do valor do G7. Em 2050, é já amanhã também, a percentagem da economia mundial do Produto Interno Bruto da União Europeia valerá apenas 9% do Produto Interno Bruto mundial. Em 2050, um terço da população europeia terá mais de 65 anos de idade. Se descontarmos também os jovens, vamos ver que a população trabalhadora na Europa não vai ser capaz de sustentar nenhum modelo de natureza social. A conclusão é simples: o sistema ocidental e o seu estilo de vida vai estoirar nos próximos 15 a 20 anos. Trump já percebeu isto. Nós ainda não percebemos isto. A continuidade das políticas econômicas, sociais e demográficas do Ocidente vai conduzir-nos ao abismo. Isto é terrível.

Estou a ficar deprimida.

Isto é terrível. Portanto, a continuidade, o que significa que enquanto têm poder, os Estados Unidos vão acabar com esta continuidade. É por isso que Trump é o elemento disruptor de todo o sistema internacional. Enquanto os europeus continuam a apelar à continuidade das políticas, a continuidade das políticas vai conduzir-nos a todos ao abismo da civilização ocidental. A solução não está, portanto, e Trump já percebeu isto, na continuidade das políticas, mas na disrupção das políticas enquanto há tempo e enquanto há poder. E na Europa ninguém percebe isto. Estão todos ofendidos com Trump, não percebendo o cerco econômico, social e militar a que em breve todos estaremos sujeitos. É por isso que Trump é o disruptor do sistema internacional e deixou de acreditar nos seus aliados europeus. Trump prepara-se para criar uma superfortaleza América, criar um sistema antibalístico que a proteja e criar o maior poder aeronaval que o mundo conhece. O investimento norte-americano em defesa, em tecnologia espacial e em inteligência artificial não vai deixar de crescer, porque são as áreas onde os Estados Unidos não querem perder a liderança. Os Estados Unidos de Trump querem dar luta, não se querem acomodar ao sistema internacional. E eu acho que já não contam com os europeus. Portanto, primeiro aspecto, houve uma alteração nos últimos 30 anos brutal, não no sistema, mas nas tendências do sistema. Se não houver disrupção, se continuarmos a apostar na continuidade, o abismo está já aí em 10 ou 15 anos. Primeiro aspecto. Segundo aspecto é a figura do salvador. A 4 de agosto de 1578, o jovem Dom Sebastião teve um desastre militar maior em Alcácer Quibir. Sobrou o mito de que voltaria a Portugal para salvar o país Todos os países em crise procuram figuras de salvador. É uma forma da sociedade se desligar das responsabilidades e entregar as responsabilidades a um salvador que apareça por aí. Isto é característico de uma sociedade em crise. Ora, numa América que está super polarizada entre valores conservadores e cristãos, e um setor progressista cada vez mais assertivo, Donald Trump apareceu aos olhos do eleitor americano como o salvador da América. Colocou a sua cara em memes bíblicos, dando também e reforçando esta ideia de que ele tem uma missão quase divina de salvar a América. O problema dos salvadores num país em crise é que a nossa complacência para os exageros é enorme. Uma vez que elegemos um salvador, também nos demitimos das nossas responsabilidades e, portanto, entendemos que ao eleger um determinado salvador, os fins justificam os meios. Isto é, diminuímos a nossa capacidade crítica sobre os salvadores que colocamos no poder. Muitas das causas de Trump estão certas. Aliás, ouçam o programa "O Sonho Americano", que fizemos aqui há 15 dias, para ver que a Europa vai seguir exatamente as mesmas políticas dos Estados Unidos, porque a tese que eu na altura defendi foi que a política europeia é igual à política americana, só que com 10 anos de atraso. Isto é, vamos ter muros na Europa, vamos ter redefinição de nacionalidade, vamos rever os pedidos de asilo, vamos deportar para países terceiros e até poderemos vir a ter polícias especializadas. A política europeia é a política americana com 10 anos de atraso. O problema de Trump não são as causas, ou não são sobretudo as causas, são sobretudo os métodos. Os métodos podiam ser mais pensados e mais consensualizados, mas da mesma forma que dispensa os consensos com os europeus, que sente que são incapazes de dar um tiro que seja, também dispensou os democratas que acha que foram conquistados por uma vaga progressista a que importa pôr termo. A figura de salvador, que ele próprio veste com um enorme à vontade, insufla-lhe o ego e permite-lhe justificar tudo. Ele é o salvador da América. Terceiro aspecto, o manipulador de curto prazo. Trump não fala para nós, comentadores de política internacional. Ele despreza esta coisa dos comentários da política internacional. Não lhe interessa nada. É tudo fake news. Nada. Se alguém quer perceber estratégia americana, tem que ouvir o Departamento de Estado e Marco Rubio. É quem fala sobre o futuro e sobre a estratégia presente da América. Trump não é o porta-voz dessa área, não é o porta-voz para entendermos a política norte-americana. Trump fala para os mercados e para as cotações de petróleo. É por isso que está sempre a disparar tweets e frases bombásticas, porque os mercados reagem imediatamente. O mundo de Trump é o mundo do curto prazo, é o mundo do valor das ações hoje e do preço do Brent amanhã. Esse é o mundo de Trump e toda a sua energia está concentrada nisto. Trump é o homem das 24 horas e se tiver que fazer declarações diferentes em 12 horas, vai fazê-lo, porque ele não fala para os comentadores internacionais. Ele fala para o curto prazo. Ele é um influenciador de mercados, de cotações, de valor de petróleo. Vamos perceber Trump, não vamos entender Trump no sentido definidor da grande estratégia norte-americana. E para isso ele precisa de um método. E qual é o método que ele utiliza? É o método que é o desporto favorito nos Estados Unidos, o wrestling.

Parece que foi concebido para a Casa Branca.

Aliás, no seu aniversário promoveu o wrestling. O wrestling é uma coisa extraordinária. Os europeus veem o wrestling, como eu aliás também vejo, como uma encenação de um combate em que aquelas figuras parecem saídas da banda desenhada. Mas não é de uma banda desenhada qualquer, é dos cómics da Marvel. O Capitão América, o Hulk, o Thor, o Super-Homem, tudo isso são as figuras do wrestling, são encaradas pelos lutadores do wrestling e são também as imagens em que Trump se revê. Não é nas figuras da Disney. As figuras da Disney é para consumo dos fofinhos dos europeus. Trump, o que lê são os cómics da Marvel. Eu julgo que por estes papéis seja mais fácil entender Trump.

Nem um mês passou da assinatura do memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irão e regressaram as hostilidades militares, as sanções ao petróleo iraniano e voltamos a ver o Estreito de Ormuz bloqueado. General, como é que cada um dos lados sai deste impasse?

Bom, já estamos provavelmente na sexta e vamos aí Nada garante que os ataques americanos e as retaliações iranianas tenham terminado por agora. Não foi há muito tempo que a guerra Estados Unidos, Israel e Irão se iniciou. Foi a 28 de fevereiro, passaram quatro meses e tal. Também não foi há muito tempo que Donald Trump assinou em Versailles o memorando de entendimento, conhecido pelo memorando de Islamabad, a que chegou com o Irão e que deu origem ao cessar-fogo. Foi a 17 de junho, faz hoje-

Precisamente um mês.

Depois disto, já houve vários incidentes com troca de ataques e de retaliações. Todos eles não ultrapassaram em média os dois dias. Ao fim de dois dias, cada uma das partes acomodou aquilo que tinham sido os ataques do outro e o cessar-fogo continuou em vigor. Durante este período de ataques e retaliações anterior, nunca chegamos à dimensão a que chegamos neste momento dos seis dias, das seis noites. E portanto, significa que houve aqui uma alteração muito significativa na forma como ambos olham para o memorando de entendimento. Eu gostaria de voltar ao memorando. Isto agora é uma bomba. O memorando é um belíssimo documento diplomático, porque permitiu que cada uma das partes o interpretasse à sua maneira. Dizemos nós, os tais comentadores das fake news, mas isto podia ter sido redigido de uma forma clara. Isso é impossível! Nunca haveria memorando se ele fosse redigido de uma forma clara. Ele foi propositadamente redigido de uma forma ambígua.

Assim cada um faz a sua interpretação junto dos seus.

Para que cada uma das partes pudesse fazer a sua interpretação e cantar vitória. Portanto, esta ideia peregrina que nós temos, fake news, mais uma vez, de que a culpa é do memorando, porque o memorando não foi escrito de uma forma clara. Não, não é isso. Ele não foi escrito de uma forma clara de propósito, para permitir que cada uma das partes fizesse o entendimento que quisesse disso. Qual é o resultado disso? Em que fase nós estamos? Olhando do ponto de vista macro, não é do ponto de vista do ataque aqui e ali. Do ponto de vista macro, o que estamos agora a fazer é tentar resolver as diferenças de interpretação. Isto é, um interpretou de uma maneira, o outro interpretou da outra, e agora temos que chegar a uma conclusão sobre isso. Aquilo a que assistimos neste momento, através desta fase de ataques e retaliações, é procurar fazer prevalecer uma interpretação sobre cada um dos pontos do memorando. É nessa fase que estamos. Nós não estamos na fase de guerra, estamos na fase de forçar interpretações. A minha interpretação vai prevalecer sobre a tua interpretação. Ninguém vai mudar o memorando. O memorando provavelmente seria impossível de redigir, se o quiséssemos redigir de novo. Seria absolutamente impossível. Nenhuma das partes estaria em condições de redigir um novo memorando. Portanto, o que as partes estão a fazer é procurar fazer prevalecer a sua interpretação do memorando e fazer com que a outra parte possa acomodar uma interpretação mais estrita, que favorece, certamente, uma das partes em detrimento da outra parte. O memorando está morto? Não. Do meu ponto de vista, o memorando não está morto porque não há substituto a este memorando, nem há capacidade de fazer essa substituição. O que ele está é, neste momento, suspenso até que prevaleça uma das interpretações. E essa questão é a que estamos a assistir agora. Este conjunto de ataques e de retaliações tem a ver com isto: tem a ver em fazer, dar ímpeto, dar força, dar vitória a uma das interpretações sobre a outra interpretação. Nada disto exige que o memorando seja revisto. O que é preciso é ser interpretado de acordo com aquilo que uma das partes quer. Os Estados Unidos têm mais opções de pressão sobre o Irão do que o Irão tem sobre os Estados Unidos. O Irão não tem capacidade de se defender neste momento. Isto é, todo o ataque norte-americano atinge os seus alvos. O que o Irão tem é capacidade de suportar, de acomodar o grau de destruição que vai tendo proporções cada vez mais gigantescas e que vai contar depois para a recuperação, um dia, do Irão. Há muita coisa destruída no Irão. O Irão pode alegar, portanto, que tem capacidade de encaixar, mas a verdade é que todos os dias, depois de cada um destes ataques, há novas infraestruturas destruídas. Aparentemente, os Estados Unidos terão começado agora na fase das pontes.

Sim, aconteceram esta noite.

A própria economia local do Irão vai ressentir-se também disto. Depois, o Irão pode continuar a exercer o bloqueio do estreito pelo medo, mas ele está já a destruir o valor estratégico do estreito. O valor estratégico do estreito de Ormuz é agora muito menor do que era no início. E a continuidade do bloqueio pelo Irão vai continuar a fazer diminuir o valor do estreito O Estreito de Ormuz vale hoje menos, do ponto de vista estratégico, do que valia no início de março, porque os países do Golfo já começaram, em passo acelerado, a encontrar sete projectos de pipeline para retirar o petróleo do Golfo Pérsico sem ter que depender do Estreito de Ormuz. Em 2028, daquilo que eram os cerca de 23 milhões de barris, 16 milhões já poderão transitar por estes pipelines. Os pipelines continuam a poder ser alvos do Irão? Podem, mas a equação muda, porque o Irão diz que o estreito é seu, porque as suas águas territoriais estão lá e os pipelines não estão em águas territoriais do Irão. Isto muda também a face da guerra. E também porque o mundo se adaptou rapidamente a esta falta de petróleo do Golfo. Isto é, também já desenvolvemos um conjunto de outros mecanismos, nomeadamente alterações muito substantivas na China, que reduziu imensamente as suas importações de petróleo. Portanto, o mundo também se adaptou. Isto é, o Irão está a diminuir o valor estratégico do Golfo de Ormuz. O Irão não ganhou um único aliado durante esta fase. E no espaço de um mês, Trump ficou mais amigo de Erdogan, Trump ficou mais amigo do presidente da Síria, Trump ficou mais amigo do presidente do Líbano, Trump recebeu esta semana o primeiro-ministro do Iraque. O cerco ao Irão continua a apertar-se. O Irão está a caminhar, do meu ponto de vista, para uma situação de um beco sem saída muito complicado.

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Ghalibaf, diz que se o Irão não vai beneficiar do tal memorando de entendimento, então não tem qualquer razão para o cumprir. General, isto é mesmo assim ou é uma continuação?

Não é assim. Isto são aquelas afirmações de valentia que vão caracterizando os dirigentes do Irão. Trouxe aqui três dados para percebermos o que é o Irão hoje em dia. São dados internacionalmente reconhecidos por instituições de credibilidade. O Programa de Alimentação Mundial das Nações Unidas calcula que o preço da farinha de trigo em maio subiu 124% comparado com o de novembro. É mais do dobro num período de seis meses. A farinha. O Fundo Monetário Internacional estima que a inflação este ano no Irão possa atingir os 68,9%. Uma inflação brutal. E espera que a economia do Irão tenha uma contração da ordem dos 6,1%. Portanto, a valentia das declarações iranianas continua no seu expoente máximo, mas a degradação da situação económica, que trará certamente consequências de natureza de instabilidade social no Irão, continua a agravar-se todos os dias. Todas estas declarações heróicas estão condenadas a um dia chocarem com a parede da realidade. Todos os regimes revolucionários terminam um dia, normalmente, num banho de sangue, porque há sempre alguém mais revolucionário do que o revolucionário que está. E é por isso que todos os movimentos revolucionários acabam por se dividir em fações que vão acabar por se digladiar entre si e fazer jorrar muito sangue, infelizmente iraniano.

Hoje trazemos para o nosso ponto de mira o mar de Azov, sobre o qual a Ucrânia tem desenvolvido nas últimas duas semanas uma campanha militar particularmente eficaz. O que é que se está a passar aqui no mar de Azov?

O mar de Azov, antes da invasão de 2022 da Federação Russa, era repartido entre a soberania da Ucrânia e a soberania russa. A invasão através do sul do território ucraniano, o que quis fazer foi tornar o mar de Azov um mar inteiramente russo. Pois isso durou três anos. Neste momento, não há trânsito naval dentro do mar de Azov. A Rússia acabou de proibir esta semana o trânsito no canal que liga o rio Don ao mar de Azov e o trânsito através da ponte de Kerch, o trânsito marítimo. Isto é, a Ucrânia, num período de nove dias, afundou 130 e tal navios russos. Controla hoje em dia, não territorialmente, mas controla pelo fogo uma artéria que era fundamental para as exportações da Federação Russa.

General Arnaut Moreira, muito obrigada por mais um Bom Fim-de-Semana da Guerra para si também. Obrigada, até para a semana.

Obrigado