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Vamos saber quem está no esplendor e na infâmia esta semana com Pedro Jorge Castro. Olá, Pedro, bem-vindo.

Olá a todos, como estão?

Olá. Bem. Estamos bem. Estamos bem. Tu estás bem?

Estou bem, estou ansioso pelo orçamento amanhã.

Eu também. Estou a contar as horas. Olha, vamos começar pelo esplendor?

Vamos a isso.

E no esplendor, tu chamas de as sete maravilhas do escândalo Ronaldo.

Pois é. Este documento que conhecemos ontem. É raro nós estarmos perante um documento da atualidade ao qual podemos logo conferir um valor histórico relevante. Este vai ser dos documentos mais importantes.

É para guardar na Torre dos Clérigos.

Maiores tesouros da história do futebol português, seguramente daqui a muitos anos, creio que ainda terá esta importância. E tem, porque permite-nos vislumbrar, ilumina quase, é um documento que vem com uma lâmpada incorporada, para vermos uma série de coisas que estaria às escuras ou que normalmente não conhecemos. E eu chamo-lhe sete maravilhas por isso mesmo. Porque são coisas que eu acho que nós merecíamos saber e ver, e estavam ocultas de certa forma. Então a primeira é a soberba assumida. Nós já tínhamos ideia disso, de certa forma, mas ver transposto desta forma num documento, a tão grande conta em que Cristiano Ronaldo se tem é, para mim, surpreendente. Repara que isto não é impulso, isto não é uma entrevista, não é uma declaração em que ele é apanhado e que lhe sai assim uma coisa tonta. Isto é um texto escrito, ele teve seis dias, não para o escrever, para o rever, porque podemos presumir que não foi ele que escreveu. Portanto, são 144 horas para rever aquilo que está aqui. E mesmo assim saiu isto, saiu esta tremenda falta de noção. Ele tinha prometido uma longa explicação, tinha prometido uma explicação aos portugueses. E de facto saiu este longo texto, onde tem estas duas frases que, como é que é possível achar isto, verbalizar isto e permitir que isto seja dado a conhecer ao mundo? São aquelas duas frases que estavam encomendadas para o selecionador ler ou dizer de alguma forma, que é a comparação com a dimensão de Pelé ou de Maradona. Crer que Jesus lesse, que tinha errado ao colocar alguém da dimensão de Pelé e Maradona, àquele ser para depois não o colocar em jogo. E esta outra logo a seguir, que é: "Eu quero o Cristiano na seleção nacional. Aliás, não quero pouco, quero muito". Isto é estranho. Imaginar o desligamento da vida real. Qualquer um de nós, que até nos todos vem muito boa conta, mas nunca.

Mais ou menos.

Não nos compararíamos a grandes glórias desta maneira, mas sobretudo, mesmo que comparássemos, nunca permitiríamos que alguma coisa destas fosse dita. Se tivéssemos a possibilidade de fazer uma encomenda a alguém, o que é outra coisa, já lá vamos. Nós, por vergonha alheia, por pudor, pediríamos: "Epá, não digas isto, isto é horrível. Não digas isto, por favor, não digas isto. Mesmo que tu aches isso, não digas, por favor, não é preciso". Esta é a primeira maravilha. De facto, nunca tínhamos visto a soberba assumida desta forma. Segunda maravilha é o duplo Donaltinho. Se calhar alguns ouvintes nossos não se lembram disto.

Vais ter de enquadrar.

Sim, nas tardes gloriosas da RTP, do tempo em que ainda não havia televisão privada, eram animadas muitas vezes. A nossa infância foi feliz, não é, Ricardo?

Foi. Temos que ter outra casa.

Por um ventríloquo chamado José Freixo, que tinha o Donaltinho, e era ele que fazia as vozes do Donaltinho, e aquilo para crianças é espetacular. Pois bem, neste momento, nós na verdade, não temos a certeza se estivemos a assistir a um ventríloquo com dois Donaltinhos, porque na verdade, há a hipótese de os textos, tanto o que era para ser lido por Jorge Jesus, como este texto de Cristiano Ronaldo, terem sido escritos pela mesma pessoa, que é Tiago Craveiro, que é consultor de Cristiano Ronaldo, que é um jornalista com quem eu e tu, Judite, trabalhamos no início da carreira.

Há 25 anos.

E depois entrou na política, mas tenho muita estima pelo Tiago. Apesar de não falar com ele há algum tempo, temos de pôr-nos em contacto outra vez. Mas há a possibilidade de ter sido ele a escrever exatamente as mesmas falas para os dois elementos da contenda, o que é uma coisa extraordinária também. Eu imagino o Tiago com dois bonecos ao colo, um a fazer de Ronaldo, outro a fazer de Jesus, e é ele que faz as vozes dos dois, na verdade, é ele que está a guiar aquilo que os dois estão a dizer. A terceira maravilha é o amadorismo e o descontrolo da federação e de Pedro Proença. Uma federação milionária, cheia de dinheiro, que tem conseguido ter alguns lucros fantásticos, com tantas presenças em fases finais. Como é que permite que isto aconteça? Como é que permite que haja estas conversas sem estar ninguém da federação ao lado de Jorge Jesus? Como é que permite tanta gente do Al-Nassr ou de Cristiano Ronaldo com tanta influência em tudo aquilo que está a acontecer? Aquilo que dá a entender é que Cristiano Ronaldo era quase um presidente sombra da federação, que fazia tudo aquilo que queria. É quase como se tivesse sido ele a decidir quem é que seria o selecionador, além de uma série de outras coisas que vêm ali descritas. E depois, que está ligado a isto, quarta maravilha, é a sombra da zanga e das birras.

Da zanga e das birras?

Da zanga e das birras. Porque ele diz três vezes. Descreve coisas que o desagravaram e depois acrescenta: "Sem nenhum problema". Mas quando ele escreve isto, nós percebemos que houve problema, mas que ele conteve o problema.

Isto é como a situação em que a mulher diz ao marido: "Sim, se quiseres ir, vai à vontade".

É que estamos mesmo nesse nível. Mas a mulher é que tem a fortuna toda aqui. E, portanto, o marido está muito intimidado. Ele diz duas vezes "sem nenhum problema" e depois na terceira ainda diz: "Ninguém ficaria zangado". Como quem diz ficaria, mas disfarçaria, engoliria. Na verdade, aquilo que nós estamos a ver é a tensão toda acumulada que ali estaria dentro, e a forma como isso é assumido, desta forma cristalina num documento escrito. Quinta maravilha: apesar de tudo, no meio disto tudo, incrivelmente, a capacidade técnica, espontaneidade e a firmeza de Jorge Jesus. Aquilo que aconteceu, que é aquilo que deve ser normal e é aquilo que nós esperamos que aconteça em qualquer lado, que é um treinador que tem opções no banco, põe a aquecer e depois consoante o jogo, decide se joga ou não joga. Acho incrível, com aquilo que nós sabemos agora, com esta pressão toda que ele estaria sujeito, a coragem que ele teve para não pôr o Ronaldo. Eu nunca imaginei que fosse tanto. Uma coisa é as consequências que isto teve, mas ele já sabia que isto ia acontecer. Ele já sabia, ele já imaginaria, não podia não imaginar, com tanta coisa, tanta tensão aqui, ele já sabia que isto vai dar asneira. E mesmo assim, não foi seguramente para ir à procura de um problema desnecessário, porque ele, a seguir a isto, tem aparecido com ar agastado de quem dispensava tudo isto que está aqui a acontecer. Portanto, ele, apesar de tudo, foi fiel àquilo para que foi contratado, que é para ser selecionador e treinador, portanto, tem de interpretar a forma como está a correr um jogo e tem de tomar decisões em função disso. Nós todos vimos aquele vídeo dele a pedir ao Gonçalo Ramos para avançar para a área. Isto parece que não é nada, mas o Jesus, de facto, tem muitas destas coisas pequenas de quem está perto do campo. Ele sabe estes pormenores, sabe comunicar com os jogadores sobre estes pormenores e se calhar, não vimos outros selecionadores a fazer isto desta maneira. E portanto, esta decisão, de não pôr o Ronaldo em campo, exigiu uma coragem que eu não imaginaria que tivesse sido necessária ao selecionador e portanto, acho que ele merece um louvor ainda maior do que aquele que já tem neste momento. E atenção, isto está tudo a acontecer depois de ter ganho quatro jogos. Como é que se ganharam quatro jogos com esta tensão toda, com os jogadores, provavelmente, que em vez de estarem a jogar às cartas, estão a trocar mensagens todos uns com os outros, num clima de intriga à volta disto e a pensar quem é que tem a culpa, quem é que não tem a culpa, e se o treinador é de confiança, se não é de confiança. O que é certo é: quatro jogos ganhos no meio desta podridão. Sexta maravilha: despedida. Já há uma carta escrita da despedida de Ronaldo, ele já admitiu isso e já está a pensar nisso, já pensou fazer isso e continuou, porque o presidente da federação lhe pediu, não porque qualquer selecionador o tenha convocado, mas a primeira condição era o presidente da federação. E ele diz que não está a pensar nisso, que ninguém dá nada a ninguém, não está a pensar em jogos de despedida, quer é competir. Claro, eu percebo, ele não quer voltar agora para fazer um jogo de despedida e pronto, ainda quer criar condições para ganhar o título da Liga das Nações de alguma forma, e se reconciliar com os portugueses, provavelmente não com Jesus. Mas ele já fala nisso. Haverá tempo para isso, haverá um ou mais jogos de despedida, promete isso a todos os portugueses. E a sétima maravilha são os dilemas que isto deixa para o futuro, que também são espetaculares e que vamos todos assistir com muita atenção. O mais imediato é o que vai fazer o presidente da federação e Jorge Jesus. Não sei se chega esta coisa de umas respostas assim no carro, a dizer que vão trabalhar. Talvez eles gostassem de ver se isto passava, mas acho que vai ser muito difícil e também vai ser muito difícil alguém se sentir são Guião, como já se viu. Ninguém vai estar propriamente a ler.

Até porque o Guião é longo, não dá para decorar.

Mas então vai haver um castigo, não vai haver um castigo? Tudo isto é um problema. Que castigo? Como é que vai ser instruído este processo disciplinar? Vão ser ouvidas testemunhas? Os jogadores vão ser todos chamados a falar? Não vão ser todos chamados a falar? Todas estas pessoas vão ser ouvidas? E depois, vai ser convocado ou não? E como é que isso vai influenciar depois toda a dinâmica da equipa? E claro, depois já sabemos. Se a bola não entrar, devia ter convocado, obviamente, porque afinal ainda fazia falta. Se a bola entrar, o Ronaldo não estava lá a fazer falta nenhuma. Mas vamos tirar a limpo quem manda nisto tudo. Entre Jesus, Proença, Ronaldo, e isto deixa grandes dúvidas. Eu acho que isto vai ser muito interessante ainda de seguir durante algum tempo.

E isto foi o esplendor.

Não foi esplendoroso.

Agora é que vamos à infâmia. E na infâmia, Trump e a condenação de um militar à morte por fuzilamento, algo que não se via nos Estados Unidos desde 1961.

Na verdade, não por fuzilamento. Em 61 foi por enforcamento. Por fuzilamento foi em 45, na Segunda Guerra. Eu já lá ia. Mas eu sei que com Trump, nós nunca sabemos até onde mais falta ir, o que mais ainda vamos ver com ele. Mas só nestes últimos dias, deixa-me recordar, que temos aqui coisas de várias dimensões. Temos a promessa de pagamento de $5 mil a cada eleitor adulto, caso os republicanos vençam as eleições, onde ele não é candidato, mas claro, o Partido Republicano tem muito em jogo nestas midterms, que estão a chegar muito em breve. Mas isto é uma compra de votos. Não há outra maneira de olhar para isto, mas todos achamos isto normal. Siga. Depois este suposto equívoco, que a Casa Branca considerou um equívoco, mas quem vir as declarações, aquilo é aterrador, a forma como ele num comício, está a falar das consequências da guerra para os agricultores do Nebraska, do custo dos combustíveis, a dizer que estão um dano colateral disto tudo. E depois diz Eles podem arrasar uma cidade, eles o irão. "Deixem-nos arrasar Los Angeles, deixem-nos arrasar San Diego, é um pequeno preço a pagar e isto vai acabar muito em breve." Eles tentarão fazer controle de estragos, eles, Casa Branca, sobre isto, mas não me parece que haja muita volta a dar numa coisa dessas. Ele falou, de facto, com grande leveza para um presidente de um país e com grande desprendimento da hipótese de isto acontecer, como se não fosse algo com uma gravidade extraordinária, como se por ele isto também fosse um preço a pagar pelo fim da guerra e não houvesse problema nenhum com as milhões de pessoas que vivem lá e com duas cidades desta magnitude. E depois, sim, esta decisão de autorizar o fuzilamento de um militar que está condenado à morte por ter matado 13 pessoas numa base militar em 2009. Não está em causa a gravidade do crime, que é gravíssimo, está em causa a forma. Já nem vou à questão da pena de morte.

A forma como é aplicado o castigo.

A forma como é aplicado o castigo, a crueldade de decretar o fuzilamento. E eu fui ver como é que isto se faz. Já está definido o dia, entretanto, já é 3 de dezembro, vai ser no local onde ele cometeu o crime e vão alinhar 12 militares com uma munição falsa. Vai haver uma munição falsa para ninguém ficar com a certeza de que foi esse militar que disparou o tiro fatal. Na verdade, todos podem pensar que não era deles a munição verdadeira e não são tão responsáveis por aquilo que está ali a acontecer. Vamos estar a assistir a isto. E isto é de uma crueldade enorme, como exemplo para o mundo, é uma coisa absolutamente terrível. Fez-me lembrar o início de um livro que eu imagino que vocês também tenham lido e apreciado, que é "Os Anos de Solidão", do Gabriel Garcia Márquez. Começa com: "Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento." Eu pensei que estas histórias do coronel Aureliano Buendía, não imaginei que estivéssemos tão perto de voltar a assistir uma coisa destas na vida real. Com Trump nunca sabemos o que isto vai dar, mas pelos vistos ainda pode sempre piorar.

E do baú também tiramos uma história de fuzilamento, o último condenado à morte por fuzilamento em Portugal.

Pois é, nós tínhamos abolido já a pena de morte no século XIX, mas por ocasião da Primeira Guerra Mundial, isto foi reinstituído. E então houve este soldado, João Augusto Ferreira de Almeida, 23 anos, que tentou fugir das posições em direção às linhas inimigas alemãs com mapas e esboços das posições do setor português. Foi apanhado, foi levado ao tribunal de guerra e foi fuzilado por 11 soldados portugueses, comandados por um sargento. O sargento tinha que dar o tiro de misericórdia, ou seja, caso os 11 soldados falhassem por alguma razão, tinha que ir lá o sargento dar-lhe um tiro mais de perto. Houve um incidente aqui, o sargento tinha o travão de segurança colocado na arma e ainda foi investigado sobre se não quereria correr o risco de ter de disparar. Depois acabou por ser arquivado. Há esta história, mas atenção que isto já lá vão mais de 100 anos, 109 anos. Nos Estados Unidos vai ser daqui a um mês que vamos assistir a esta barbárie.

E para a semana há mais "Esplendor e Infâmia" com Pedro Jorge Castro.