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É provável que já tenha ouvido a sua avó ou os seus pais dizerem a frase: "Laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata". Esta é uma das frases mais repetidas da nossa cultura popular sobre alimentação, mas será que faz algum sentido científico? Comer uma laranja depois do jantar é mesmo perigoso ou estamos perante mais um mito urbano sem qualquer fundamento? É o que vamos descobrir hoje no "Lado B da Terra". Seja muito bem-vindo. Este é o podcast em parceria com a B Rural. Eu sou o João Costa e Silva e hoje vamos espremer a verdade sobre a laranja com o Pedro Madeira, sócio-gerente da Fruasual e voz ativa também no setor através da Algar Orange. Pedro, seja muito bem-vindo. Há aqui uma grande missão hoje: desconstruir este mito. Vamos começar por tirar este elefante da sala. Laranja à noite mata ou podemos mesmo dormir descansados?
Eu tenho a certeza que podemos dormir descansados.
Boa.
E tenho a certeza porque eu como laranja à noite, como ao almoço, como de manhã.
Então temos aqui um exemplo prático.
Exatamente. Portanto, esta questão é um mito. Talvez por razões que tenham a ver com problemas de alguma pessoa que pudesse ter ou azias ou coisa do gênero, e que enquanto comia laranja e se deitava a seguir, teria alguns problemas. Eu tenho a certeza que não, a laranja é das boas coisas que se podem comer e não há qualquer base médica.
Científica, não é?
Exatamente, que apoie esse ditado, ao fim e ao cabo.
Então pronto, ficamos todos mais descansados.
Podemos ficar todos descansados e podemos comer a laranja à noite sem problema nenhum.
Desmontado este mito, vamos àquilo que a ciência nos diz. Quando comemos uma laranja do Algarve, o que estamos realmente a dar ao nosso corpo? Falamos muito da vitamina C, mas a matriz nutricional dos citrinos vai muito além da vitamina C, não é?
Sim, pois a vitamina C é um componente forte da laranja, mas há todos os outros nutrientes que acabam por fazer compensações a nível do organismo. Portanto, desde o potássio, que apoia e auxilia a parte muscular, a muitos outros, a própria água, que o sumo tem. Portanto, é um alimento completo.
Um superalimento?
É, é um superalimento. Podemos dizer que sim, principalmente para atletas.
E se for do Algarve, ainda melhor.
E se for do Algarve, então é um super superalimento.
Pedro, há também a questão do sumo versus a peça de fruta inteira. Há pessoas que gostam mais de beber, em sumos, o sumo de laranja que todos nós conhecemos. Outras pessoas comem laranja como se calhar o Pedro come de manhã, tarde e à noite. Os mais jovens e mais as pessoas que estão ligadas a atividades físicas, do fitness, discutem também muito isto nas redes sociais. A fruta inteira traz mais benefícios por causa da fibra ou não é uma realidade?
É uma realidade, sem dúvida nenhuma. Para nós, enquanto produtores, é muito mais interessante que as pessoas bebam o sumo. E muito mais interessante por quê? Porque a comer laranja, comemos uma laranja, na melhor das hipóteses, duas laranjas. A beber sumo, bebemos um copo, comemos duas ou três laranjas. Agora, a nível dos benefícios, é lógico que o comer laranja tem benefícios em relação ao beber a laranja.
E que benefícios são esses? Qual é a grande diferença?
Principalmente pelas fibras. Portanto, as fibras ficam todas no coador quando se faz o sumo de laranja. Se comermos a laranja, essas fibras são ingeridas e acabam por trazer benefícios à saúde. Isso sem dúvida nenhuma.
Ou seja, estamos a desperdiçar aqui propriedades que nos vão trazer benefícios.
Sem dúvida que sim, e basta ouvirmos os nutricionistas e podemos concluir que a laranja comida tem muita vantagem pro organismo em relação à laranja bebida.
Vamos aqui também ao lado B da produção. O Algarve, sabemos bem, é a capital dos citrinos em Portugal, mas também é uma das regiões que mais sofre com a escassez hídrica ou até mesmo as alterações climáticas. Pedro, como é que os produtores associados à Algar Orange e à Fruasual continuam a produzir laranjas tão sumarentas num contexto de seca?
Vamos ver, a laranja, à semelhança do que acontece com qualquer outra cultura e com praticamente tudo que nós comemos, se não tiver água, não existe. Portanto, a laranja é um consumidor d'água, como todos os outros produtos, sem dúvida nenhuma. O Algarve tem sofrido problemas de seca recentes e que foi do conhecimento público, foi das regiões do país que mais sofreu com isso. E nós, agricultores, sofremos bastante com cortes d'água que nos vieram prejudicar fortemente as produções, principalmente as produções do ano seguinte, não tanto as do próprio ano, mas as do ano seguinte, porque os cortes que tivemos que fazer no abastecimento aos pomares acabaram por criar problemas de desenvolvimento e ainda hoje estamos a pagar um pouco por isso. Agora, é lógico que não foi de agora, ao longo dos anos, ao longo das duas últimas décadas, a citricultura no Algarve, bebendo também muita informação daquilo que se passa em Espanha, que quer queiramos, quer não, é um dos maiores produtores de laranja do mundo, é o maior produtor da Europa. Portanto, à semelhança do que eles fazem em Espanha, nós fomos bebendo Muito dessa informação e desse conhecimento. E esse beber trouxe para a nossa citricultura um desenvolvimento gradual que nos veio trazer benefícios em termos de produtividades, em termos de qualidade, não a qualidade organoléptica, que essa é natural pelas condições que nós temos, mas a qualidade em termos de calibre, em termos de pele. Temos tudo isso que toda essa tecnologia nos veio trazer. E dentro dessa tecnologia está a poupança da água, a maior eficiência da água.
Para quem duvida da questão da sustentabilidade, não é?
Exatamente.
A água tem aqui uma forte gestão também da vossa parte.
Exatamente, porque eu lembro-me ainda antigamente, de se regar em pomares de caldeira aberta, com água a correr e a encher caldeiras. Hoje em dia, e já de há bastantes anos para cá, começou com a rega gota a gota, depois começámos a ser apoiados por sondas, já mais recentemente, por sondas que nos vão dando as necessidades nos vários pontos dos pomares, as necessidades hídricas, e hoje em dia, com centrais meteorológicas, com o reforço das sondas e melhoria da qualidade das sondas, com sondas que nos dá necessidades a várias profundidades. Portanto, já há uma tecnologia que acaba por nos permitir fazer mais com menos.
Até porque não é da vossa exigência, vamos dizer assim, esgotar este recurso tão natural, porque está a comprometer a cultura da laranja.
Como é lógico, nós somos os maiores defensores do menor consumo possível de água em qualquer cultura. Nós dependemos da água, como se costuma dizer, como de pão para a boca. Portanto, nós dependemos da água. Nós fazemos produtos, os produtos agrícolas, são produtos que sem água não existem.
A vossa produtividade e rendimento dependem disso.
Exatamente, é a nossa produtividade e é o consumo da nossa população. Nós produzimos fundamentalmente para consumir no país. Também fazemos exportação, mas principalmente para consumo do país. Sem isso, temos que comprar fora e nós não teremos as melhores condições para andarmos a comprar tudo. É muito mais necessário fazermos e produzirmos internamente e os recursos ficarem cá, do que andarmos a comprar e a descartar tudo o que temos, ao fim ao cabo, a descartar em benefício de negócios paralelos.
Pedro Madeira, a marca Citrinos do Algarve tem certificação IGP, Indicação Geográfica Produzida. O que torna esta laranja tão diferente e mais saborosa do que aquela que vem de Espanha, por exemplo, ou até do Norte de África?
São situações diferentes. A que vem de Espanha é uma laranja mais parecida com a nossa. A do Norte de África, não. São características já completamente diferentes.
As horas do sol têm influência?
Tem o sol, tem os terrenos, tem a nossa exposição atlântica. Os espanhóis têm uma exposição mais mediterrânica, mais calma. Nós temos uma situação um pouco mais agreste e isto dá-nos vantagens e dá-nos desvantagens. As vantagens é que conseguimos o tal sabor que os espanhóis não conseguem tanto e à medida que se vão afastando de Portugal, vai diferindo mais a qualidade. A desvantagem tem a ver com estarmos mais sujeitos a ventos, e ao estarmos mais sujeitos a ventos, estamos mais sujeitos a defeitos epidérmicos, aos rameados, porque a laranja roça mais e tudo aquilo cria defeitos de pele que o nosso consumidor tem tendência para repudiar. Chega ao supermercado e anda escolhendo as que estão limpinhas, as que não têm nada.
A tendência é sempre essa, não é? Escolher aquela que está mais limpinha, entre aspas.
São exatamente iguais depois de descascadas. Exatamente iguais.
Mais um mito.
É mais um mito. Portanto, essa situação acaba por nos trazer alguns prejuízos comparativamente com Espanha. Agora, há uma outra situação que nós temos e que nos cria então uma diferença ainda maior. Nós consumimos fruta madura, os espanhóis consomem fruta verde. Portanto, eles como trabalham muito com exportações a distâncias longas, e têm que o fazer pelas quantidades que têm, precisam de se estender. Nós, menos exportação, mais consumo interno, somos um país que as pessoas conhecem a fruta, as pessoas conhecem a laranja, sabem o sabor da laranja e não querem uma laranja de início de campanha porque ainda não tem índices de maturação, os quais nós estamos habituados. Nós maturamos a laranja na árvore e ao maturarmos a laranja na árvore, quando a colhemos, está em condições ótimas de colheita. Tem o tal sabor, tem o equilíbrio entre o açúcar e a acidez, que nos permite fornecer ao consumidor uma laranja que pode não ser tão bonita, porque está mais envelhecida por estar na árvore, mas que garantidamente é muito mais saborosa.
E nisso estamos em primeiro lugar. Pedro, para um jovem que possa estar a pensar no seu futuro profissional, vocês precisam de engenheiros de dados, especialistas em robótica de embalamentos, gestores de qualidade. Que mensagem é que deixa aos jovens que possam estar a ouvir também este podcast, "Do Lado de Pé da Terra", sobre as oportunidades que existem ou que vão poder existir no futuro, também no setor dos citrinos?
Ainda existe hoje em dia algum Há algum constrangimento da malta nova, principalmente malta que não vem de famílias ligadas à agricultura, a ir para essa área. A agricultura foi toda a vida o parente pobre da economia. É o setor primário. As pessoas parece que têm algum receio de entrar nessa área.
É uma espécie de preconceito que existe?
É um preconceito.
E muitas vezes alimentado nas escolas, no nosso dia a dia.
Exatamente. Normalmente alimentado como muitas outras coisas que vão surgindo, alimentadas por quem está fora e que por razões que muitas vezes ninguém compreende, resolve dar palpites e fazer considerações de questões que deviam aprofundar mais. Isso tem muito a ver, por exemplo, com o que sai com os consumos da água. Olha-se para um consumo de um citrino, que um hectare gasta, por exemplo, em termos médios, entre os seis e os sete milhões de litros por ano. Um hectare, claro. E pensa-se: "Isto é uma barbaridade". Mas são realidades, é o que acontece, é o que existe. Portanto, há sempre notícias que vêm cá para fora, que acabam por deturpar as realidades e inverter situações. Isso acontece também quando se encaminha um jovem para uma determinada atividade. Hoje a agricultura é uma atividade que tem um desenvolvimento já muito grande. A agricultura hoje é feita por profissionais. Esses profissionais, hoje em dia, têm na sua grande componente malta licenciada, não só em agronomia, mas noutras áreas. E eu penso e continuo a apostar e a acreditar que a agricultura é uma atividade de futuro e que a pouco e pouco tem que ser melhorada. Vamos evoluindo, vamos mecanizando, vamos automatizando. Tudo isso vai acontecendo e para isso precisamos de gente com formação, gente capaz. Eu posso lhe dizer, por exemplo, os quadros da Frosual têm 12% de licenciados. Portanto, se calhar, se disséssemos isso há 20 anos, diriam: "Isto está tudo louco. Para quê tanta gente?" Mas é uma realidade. Hoje em dia, vamos agarrando em ferramentas que nos vão aparecendo, que essas próprias ferramentas vão obrigando a que a malta tenha um outro nível de formação para poder tirar rendimento delas, ao fim e ao cabo.
Muito bem. E é preciso também visão de futuro para reinventar, não é?
Também, fundamentalmente.
Pedro Madeira é sócio-gerente da Frosual e também ligado à Algar Orange. Muito obrigado por ter vindo aqui ao "O Lado B da Terra", na Rádio Observador. Ficámos a saber que o único perigo de comer uma laranja à noite, neste caso, laranja do Algarve, é se calhar comer outra, não é? E ser um ciclo vicioso.
Eu penso que sim, pode correr esse risco.
O "Lado B da Terra" hoje fica por aqui. Já sabe, subscreva o podcast na Rádio Observador e siga todas as novidades do projeto B Rural. Estamos de regresso para a semana com um novo episódio.