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Cabrita é o convidado de hoje no ao vivo da Rádio Observador. É sempre assim à sexta-feira, com música ao vivo no nosso estúdio. E o Cabrita é um dos saxofonistas mais requisitados da música nacional. De resto, já o recebemos por alturas do lançamento deste que foi o seu primeiro disco em nome próprio, em 2020, "Cabrita", assim se chamava o disco. Já vamos falar de "Umbra", que chegou no final do ano passado e é o seu segundo trabalho. João Cabrita, muito obrigado por teres regressado à Rádio Observador.
Obrigado.
Tu e o teu saxofone barítono.
Exatamente.
Que maravilha de instrumento, ainda por cima tão bonito. Começaste com uma canção do anterior disco, este é o "Whatever Blues", não é?
Exatamente.
Com o Gui.
Sim, exatamente. Foi feito em parceria com o Gui, que é a única pessoa que eu consideraria pôr a tocar saxofone num disco meu.
Sim, é o outro grande saxofonista da música nacional.
Claro, o meu companheiro.
Para além da música em nome próprio, e lembro-me que na altura que vieste cá, falámos dos mil projetos onde já tinhas colaborado, até tinhas umas histórias muito engraçadas sobre os Cusum do Lola.
É verdade.
Como o Cabrita anda aqui há tantos anos. Mas recorda-me com quem é que tens colaborado agora mais assiduamente nos últimos anos. Legendary Tigerman.
Sim, Legendary Tigerman. Agora saiu uma catrefada de discos que no ano passado não apareceu quase nada feito por mim, porque estive a gravar discos atrás de discos e eles estão a sair, começaram a sair todos agora na segunda metade do ano.
Uhum.
Além dos caras do Drephun Connection, que estamos a trabalhar no próximo disco, estamos a mais de meio já, já saiu o disco do Paulo Furtado, o Tiger Man. Depois saiu logo o dos Paus também, o Paus e o Caos, em que eu faço parte da secção do caos.
Ok.
Também gravei um disco com o Jorge Cais, que é um baterista de jazz do Porto muito interessante, que é um disco de dirty afrobeat com malta toda do Porto, que também é um projetinho interessante. E que mais?
Já chega.
É engraçado é que todos estes projetos mostram também vários géneros. Tu não te cinges a um género só. Eu lembro-me, por exemplo, no Cabrita, no primeiro disco.
Sim.
Tinha até umas coisas, ia do blues ao reggae.
Sim.
Não sei se neste também é assim.
Talvez seja um bocadinho menos leque, porque foi feito já com a ideia de um disco, então há uma espécie de história que o cola todo e que lhe dá um sentido estético. Se calhar não foi uma compilação de temas como foi o primeiro.
E é um disco mais denso, mais melancólico?
Sim, talvez um bocadinho mais difícil, se calhar, para quem o apanha à primeira audição.
É daí o título, mais escuro.
Sim. Tem a ver, de certa forma, umbra é um sinônimo de sombra, que é uma coisa que eu, a partir dos 40, 45 anos, comecei a sentir muito, que é estas ausências que se vão acumulando, estas perdas dos amigos. Primeiro das referências. Começa uma coisa muito vaga, tipo o Bowie, o Prince, o Michael Jackson, os atores, os escritores, essa malta que é mais distante, basicamente são bonecos na nossa cabeça. Depois começam a vir os avós dos amigos. No meu caso, o meu pai também morreu há bastante tempo. Depois começo a perder alguns amigos, desde o Zé Pedro, o João Guardela, o Pedro Gonçalves, o Elídio dos Ornatos, a Sara agora, mais recentemente, a Sara Tavares.
O João Guardela passou um aniversário esta semana ou ontem.
Sim, foi esta semana.
Estava a recordar o projeto Megaphone, que era uma coisa tão engraçada.
É muito interessante.
Eu estava aqui a pensar se sombra não seria do facto de um saxofonista no nosso panorama musical estar sempre um bocadinho à sombra.
Também podia ser.
Nessas colaborações. Neste disco tens menos colaborações, isso torna o disco mais pessoal, é um momento também de afirmação.
Sim, foi um processo que eu queria mesmo pensar e passar por ele, porque estou com 51 anos e estas coisas-
Ninguém diria.
É verdade.
Diriam?
Agora estou melhor. Depois de ter feito o disco até fiquei melhor.
Estás com 41, 42, no máximo.
Mas foi pensar nestas coisas e processá-las, geri-las e trabalhá-las através da música, foi muito importante. Aliás, um pormenor engraçado que foi quando eu acabei a pré-produção e fui para Leiria trabalhar com o meu produtor, o Rui Gaspar, dos First Breath. Na primeira noite saiu o disco de despedida do Sakamoto e foi a minha banda sonora nessa noite e aquilo deu-me logo o mote para fazer o resto do disco. Claro que não é um disco todo horrivelmente obscuro.
É engraçado tu teres falado aí de Leiria, porque os discos têm saído pela Omnicord Records, que é uma editora de Leiria. Os First Breath também fazem parte. É uma espécie de coletivo, porque depois tem o Casota Collective, que faz os videoclipes. Como é que te inseres ali? Encontraste ali uma boa casa também para a tua música?
Sim. Na verdade, foi o incrível Hugo Ferreira, que é o gestor daquelas pessoas todas, que me viu num concerto.
É o Tony Wilson de Leiria.
Exatamente.
Uma espécie de Tony Wilson da Factory de Manchester, é o Tony Wilson de Leiria.
Exato. Ele viu-me fazer um showcase no Indigent Lives, o calado há muitos anos, e ficou maluco com os temas e quis editar a coisa. Abriu a exceção, neste caso, de não ser um artista de Leiria, embora tenha um baterista que é de lá. E essa foi a desculpa para fazermos este trabalho juntos. Aliás, todos os meus convidados, tirando o NBC, neste disco.
O NBC também é do Oeste.
Também é do Oeste. São todos da Omni, são artistas da Omni.
No disco não tens apenas saxofone.
Sim, tenho eletrónica. Neste disco, por acaso, não gravei guitarras.
E percussões também são criadas por ti?
Sim, algumas sim.
Esses instrumentais.
Sim, quase tudo é feito por mim. O Rui Gaspar, por acaso, nesse aspeto, foi um produtor muito inteligente. Nos temas que ele sentia que podia contribuir, ele contribuiu e em alguns casos até bastante dramaticamente, alterando algumas coisas de estrutura e acrescentando instrumentação.
E quase se chateavam? Não.
Nada. Aliás, eu quis trabalhar com o produtor exatamente para ver se a coisa dava um salto para o outro lado, para me surpreender um bocadinho também, porque já estava à volta daquilo há dois anos. Mas houve temas em que ele não lhes tocou. Por exemplo, o "Fortunate Birthday Blues", que foi o primeiro single, que eu depois vou tocar no fim. Esse tema saiu de lá da produção como entrou.
Esse é um tema inspirado numa ilustração, pelo que percebi.
Não, o vídeo é.
O vídeo, ok, já percebi. Tinha lido isso.
Exatamente, foi o mote para o videoclipe do argumentista, do animador.
Este disco, "Umbra", vai ser apresentado agora em fevereiro. Há concertos no dia 1 de fevereiro no Music Box, em Lisboa, 2 de fevereiro no Maus Hábitos, no Porto, e 3 de fevereiro no Salão Brasil, em Coimbra.
Exato.
Como é que é apresentado este disco em termos de banda que te acompanha? Estou curioso para perceber como é que isto está.
No primeiro disco tinha uma formação maior. Tinha uma formação com um trio, que era um baterista, um teclista/guitarrista, eu, e depois mais três saxofonistas, tipo os coros, os meus coristas de saxofone. Desta vez vamos reduzir a formação, vamos só o trio e a coisa fica um bocadinho menos orquestral, mas ao mesmo tempo fica um bocadinho mais selvagem, ficamos um bocadinho mais libertos para interagir mais e para ajavardar mais a parte rock'n'roll do espetáculo.
Como é que tens olhado também o trajeto que o saxofone tem tido nos últimos anos? Parece-me que tem sido um bocadinho mais presente em outros géneros e tem acontecido uma coisa que é o novo jazz londrino, que eu acho que tem trazido o saxofone muito. Ainda há pouco estava-me a tentar lembrar, acho que é o Mercury Prize, o maior prémio da música que foi entregue ao Ezra Collective, que é uma banda e é um coletivo que faz grande uso do sax.
Mais, a Núbia Garcia é um monte de malta fixe.
A Núbia Garcia, the comet is coming. Há uma série de-
Ele deixou de tocar saxofone, o Xavante.
A sério?
Dedicou-se à flauta, tipo ronquial.
Isso é tipo o Andre 3000 dos OutKast, também faz um álbum só de flauta.
Exato.
Mas dizem que é fixe, ainda tenho que ouvir esse disco. Mas há uma nova fase na vida do saxofone que passa a ser protagonista em alguns destes projetos que falamos.
Eu acho que finalmente a malta perdeu aqui um bocadinho.
Matamos o Kenny G, não é, no fundo?
Exato. Como na guitarra elétrica, tu tens malta tão icónica lá para trás, que fez tanta coisa que pouco mais já consegues descobrir Consegues ultrapassar. Acho que a malta finalmente perdeu esse medo de: "Já não há nada a fazer." Não, claro que há a fazer, porque tu enquanto tens uma vida, uma vivência e uma história, no teu instrumento, isso vai-se traduzir na tua música, isso vai passar e não vai ser igual a um Coltrane ou a um Charlie Parker ou outro qualquer. É outra conversa, é outra história, outra cultura.
Nós cá estamos para ouvir as tuas novas canções. "Umbra" é o novo disco de Cabrita, em nome próprio, também continua a colaborar com esses mil projectos. Não consegue dizer não, se calhar é um problema que tu tens, não consegues dizer não às pessoas.
Eu também tenho algum tempo livre, sou bastante organizado.
Ótimo. Vamos à última canção. Cabrita, muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador.
Não há obrigadisse.
Vamos escutar uma das que faz parte de "Umbra" e relembrar aqui as datas de Cabrita a apresentar "Umbra": 1 de fevereiro, Music Box em Lisboa, 2 de fevereiro, Maus Hábitos no Porto, 3 de fevereiro, Salão Brasil em Coimbra. Continuem também a acompanhar o Cabrita nas redes sociais. Mais concertos vão surgir para apresentar estas novas canções. O nosso palco é teu. Muito obrigado por teres vindo. Quando quiseres. Cabrita, nosso convidado hoje no ao vivo, aqui com os cuidados técnicos do Artur Costa. Acompanhem nas redes sociais o Cabrita. Vai apresentar no início de fevereiro o seu novo disco, "Umbra".