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E por ser quinta-feira, o lado bom da vida é sobre cinema. Os tempos não estão para grandes fitas. Ainda assim, Catarina, há sugestões de filmes. Bom dia!

Bom dia.

O que nos trazes hoje? Deixa-me adivinhar: propostas para ver no sofá.

Cá estamos de volta à casa, não é? Tem de ser. E como foi acontecendo ao longo dos últimos meses, temos mais um festival a decorrer exclusivamente online. Trata-se da 18ª edição da Kino, a mostra de cinema em língua alemã, que leva 16 longas-metragens à plataforma Filmin, a partir de hoje e até à próxima quarta-feira. A maioria desses filmes são estreias nacionais e o tema que os une é o conceito de Heimat ou Zugehörigkeit.

Como? Estás bem? Engasgaste. Estavas a comer alguma coisa?

Não, estava só a tentar entrar no espírito do festival.

Ok. E em português, achas que é possível? Por favor.

É. Vamos lá. Heimat ou Zugehörigkeit significa pertença.

Tu sabes mesmo falar alemão. Isso não é de quem olhou pra isso três vezes e se pôs a dizer.

E vem pra aqui humilhar-nos depois.

Sim, a fingir que tinha alguma dificuldade, aquela hesitação inicial.

Não, são resquícios-

E depois sai uma pronúncia perfeita.

Resquícios de um secundário há muito tempo ido. Já são muito poucas palavrinhas que sobram.

Isto é um palavrão, se calhar. É daquelas que uma pessoa acaba-

Não é um palavrão.

Ok.

Soa sempre a isso, mas não é. Quer dizer pertença, e é este conceito de identidade e de alguma autodescoberta que guia toda a programação do Kino.

Então orienta-nos lá por esse cardápio germânico.

Vamos lá. A abrir, temos já esta noite, "Berlim Alexanderplatz", do realizador alemão de origem afegã Burhan Qurbani. O filme é uma adaptação do romance de Alfred Döblin, que tinha sido publicado em 1929, naquela fase entre as duas grandes guerras. No original, a história desenvolvia-se em torno de Franz, um homem acabado de sair da prisão e a tentar começar uma vida nova em Berlim. Nesta nova versão, esse lugar é ocupado por Francis, um refugiado africano em situação ilegal, que sobreviveu por pouco a um naufrágio no Mediterrâneo.

E Catarina, dizias que o enredo central da história mantém-se ou o livro é só o ponto de partida e depois o filme cresce noutro sentido?

O espírito da narrativa e as questões que levanta são muito semelhantes, mas numa época e num meio completamente diferentes. A personagem dos anos 20 do século XX e a de agora querem o mesmo: encontrar trabalho, ter paz, amor e normalidade. Muito simples. Francis tenta trabalhar legalmente e fracassa. Depois, envolve-se com um criminoso e entra num mundo clandestino e perigoso. Acaba por conhecer uma prostituta e apaixonar-se. Há aqui vários paralelismos com o original. A obra de Döblin já tinha sido adaptada antes para o cinema por Phil Jutzi, em 1931, e para uma série televisiva por Rainer Werner Fassbinder em 1980. Mas agora, embrulhada com este contexto atual, ganha toda uma nova frescura e relevância.

Catarina, e uma vez que isto é online, como é que é? Os filmes ficam lá disponíveis ou faz sentido perguntar a que horas é que o filme abre o festival?

Faz sentido, sim. A abertura está marcada para às 9:00 da noite, mas com a vantagem de que quem se atrasar pode começar a sua própria sessão quando quiser. E não tem de passar à frente de ninguém que já esteja refastelado no seu lugar, como tantas vezes acontece no cinema. Este Berlin Alexanderplatz conta com o lusoguineense Welket Bungué como protagonista. O ator e o filme foram premiados no Festival de Cinema de Estocolmo e receberam também a medalha de prata do Prémio do Cinema Alemão.

E que mais temos nesta programação cheia de, como é que era? Heimat?

Isso, e também Zugehörigkeit, não esquecer.

Ufa! Pronto. Estás-te a exibir, claramente.

Sim, isto já humilhação. Treinei tanto.

Só tenho uma palavra pra ti: show off.

Esta soa mesmo-

Foi forte.

Esta soa mesmo a asneira, não sei.

Treinei tanto que agora tenho que tentar fazer render, não é? As temáticas políticas e sociais estão espelhadas em grande parte da restante programação, que junta produções da Alemanha, Áustria, Suíça e Luxemburgo. Na secção Visões está, por exemplo, Flatland, com o título português Planuras, um western selvagem e feminista que percorre as planícies da África do Sul. Está também Exílio, sobre um engenheiro informático nascido no Kosovo, que é alvo de bullying e discriminação constante no local de trabalho, e ainda Golpe de Sorte, uma comédia negra sobre um homem pouco ambicioso e uma sucessão de catástrofes. Há ainda a secção Perspectivas, dedicada a primeiras e segundas obras de realizadores promissores, e a secção Realidades, um espaço para documentários que nos ajudam a refletir, por exemplo, sobre a construção da identidade e da diferença, e também sobre o crescimento da extrema-direita populista a que assistimos na Europa.

Catarina, tudo para ver até ao dia 27 e, claro, tudo online.

Exatamente, tudo na plataforma Filmin. É possível comprar individualmente uma espécie de bilhete eletrónico virtual para cada filme ou aceder à seleção completa com uma subscrição mensal da plataforma. O programa completo está em filmin.pt e também no site do Goethe-Institut Portugal, que promove a mostra. É só procurar por Kino.

Catarina Santos, editora de multimédia do Observador.

Zugehörigkeit, Catarina.

Espera lá. Como é que é?

Zugehörigkeit.

Está quase.

Eu não tive alemão no secundário.

Tens mais uma hora pra treinar, Tiago. Vais conseguir acabar amanhã 360 a pronunciar uma palavra em alemão. Catarina Santos, editora de multimédia do Observador, com sugestões de cinema. O Lado Bom da Vida regressa amanhã com sugestões para o fim de semana. Catarina, boa quinta-feira.

Obrigada, bom dia. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.