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Já sabe que à quinta-feira, no "O Lado Bom da Vida", falamos de filmes e as sugestões são trazidas pela editora de multimédia do Observador, Catarina Santos. Bom dia, Catarina.

Bom dia.

E por onde começamos?

Hoje começamos por filmes que deveriam estar agora a estrear-se nas salas, e que não podem, mas que vão estrear-se na mesma online. E a este propósito, é interessante revisitar a intenção com que nasceu, aqui há uns anos, a Cinema Bold. É um projeto da distribuidora Alambique, que dizia então que queria chegar a um público que já não via cinema da mesma maneira. Na altura, Luís Apolinário, o diretor da Alambique, contava ao público um episódio que se tinha passado em 2011 e que terá lançado, de alguma forma, a semente da ideia. Esse episódio passou-se na estreia do filme "Pneu", de Quentin Dupieux, no extinto Cinema King. Contava então Luís Apolinário: "Quando vi meia dúzia de velhinhos de 70 anos numa das sessões, percebi que o público daquela sala já não tinha nada a ver com o que era. O filme teve pouquíssimos espectadores em sala, mas depois vendeu milhares de DVDs e tornou-se um dos seus best-sellers, um dos best-sellers da distribuidora. O filme tinha, de facto, um público, mas não foi na sala que o encontrou", concluía então o diretor da Alambique. E diria que esse público desencontrado aumentou exponencialmente por estes dias.

Então, e que formas é que esta distribuidora Alambique encontrou para fazer chegar os seus filmes, que não estavam nas salas?

Em novembro de 2016, a Alambique passou a estrear os seus filmes simultaneamente em sala, em DVD e online, tudo ao mesmo tempo. Esta semana não é exceção. Amanhã estreia-se "Monos", do realizador colombiano-equatoriano Alejandro Landes. Por causa das circunstâncias atuais, não chega às salas, mas sai em DVD e fica disponível em várias plataformas de streaming nacionais. "Monos" conta a história de um grupo de adolescentes rebeldes que vivem no cume de uma montanha, algures na América Latina, lutam por uma causa desconhecida num país sem nome, têm nomes de guerra e fazem treinos militares. Guardam uma prisioneira americana que tratam por doutora e com a qual gravam vídeos com o jornal do dia nas mãos, fazendo lembrar os sequestros das FARC, e têm também uma vaca leiteira chamada Shakira emprestada à causa. "Monos", na verdade, tem alguns pormenores, alguns detalhes cômicos, mas está longe de ser uma comédia, é um thriller, e a trama vai adensar-se quando o grupo cai numa emboscada que os leva para a selva.

Ou seja, Catarina, de certa forma, é um filme de guerra?

É também um filme de guerra. O filme explora um certo clima de guerra pelos olhos de adolescentes. Nas palavras do próprio realizador, o filme acaba por ser uma metáfora da Colômbia. Diz ele que é um país jovem, ainda à procura da sua identidade, onde Alejandro Landes diz que o sonho de paz é frágil, incerto e recorrente. O realizador, que começou a sua carreira como jornalista e que foi caminhando em direção ao cinema, explica que queria sobretudo focar a adolescência com esta segunda longa-metragem. E isto porque, diz, a adolescência é a altura em que começamos a lutar para entender quem somos e em quem nos queremos tornar. "Monos" pretende evocar esta angústia e este conflito interiores, cruzando-os com o conflito interminável, com várias frentes, e sublinha Alejandro Landes, e passo a citá-lo: "Apesar de esta ser a primeira oportunidade da minha geração, não é o primeiro processo de paz na Colômbia e, por isso, parece estar assombrado. Os fantasmas inspiraram-me a moldar este filme como um sonho febril." O filme fica agora disponível, a partir de amanhã, nos videoclubes das televisões e nas plataformas Filmin, MEO, NOS, Novo e da Vodafone.

E Catarina.

Plataformas não faltam.

É isso que eu estava a pensar, são tantas. E há mais estreias por estes dias de filmes que conseguiram contornar o fato de as salas de cinema estarem fechadas e vazias, claro.

Sim, há um filme que já deveria ter chegado aos cinemas a 19 de março e que vai finalmente estrear-se online na plataforma portuguesa Filmin. Trata-se de "Quarto 212", do realizador francês Christophe Honoré. O filme retrata um casal, depois de 20 anos de casamento, a atravessar um momento de pausa para refletir sobre o que ficou para trás e o que se salva depois de tanto tempo. A protagonista é Chiara Mastroianni, que veste a pele de Maria, a esposa. Ela foi tendo várias relações extraconjugais. Há um momento em que o admite e isso causa uma fratura no casal. E então Maria decide sair de casa e instalar-se no hotel exatamente em frente, de onde consegue ver a casa que deixou e o marido em convalescença. Durante aquela noite de reflexão, Maria é visitada por vários fantasmas do passado, de ambos, e daquela janela com vista para a sua vida, consegue ver o que não conseguia perceber ao perto. O filme vai misturando drama com muitos momentos de comédia. Para os que de vocês têm filhos, é possível que se sintam a dada altura dentro da animação "Divertidamente", não sei se se lembram.

Um grande filme.

É um filme muito sério. Exatamente, que a Pixar e a Disney fizeram em 2015.

Sim, gosto muito.

E tal como nesse filme, até a emoção responsável pela tomada de decisões de Maria salta a dada altura cá para fora e ganha corpo de gente e conversa com a protagonista. E isto vai crescendo a tal ponto que parece uma grande fantasia. E de certa forma é, mas é também uma forma, no mínimo original, de abordar um tema velho como o mundo, como conservar o amor e não deixar que passe do prazo. "Quarto 212" foi seleção oficial do Festival de Cannes, esteve nomeado para o prêmio Um Certo Olhar e valeu a Chiara Mastroianni o prêmio de melhor atriz nessa secção e fica agora disponível a partir de amanhã.

Bem, só boas sugestões de filmes para ver em casa. Ainda tenho 30 segundos para perguntar isso à Catarina e fico com tanta saudade de voltar ao cinema. Sim, numa sala.

Temos todos. Mas podemos na mesma marcar uma sessão e uma hora, como se estivéssemos, de facto, a ir para uma sala de cinema.

Exatamente. Com pipocas e tudo.

Exatamente.

A jornalista do Observador, Catarina Santos, no "O Lado Bom da Vida". Até para a semana, Catarina.

Até para a semana. Bom dia.

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