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Há música ao vivo à sexta-feira no estúdio da Rádio Observador, é o "Lado Bom da Vida" ao vivo e hoje é nosso convidado o Pedro Moutinho. Pedro, muito bem-vindo à Rádio Observador. Não é uma estreia.

Muito obrigado.

Mas obrigado por este regresso. Não vens sozinho. Vens com outro Pedro.

Venho com o Pedro Soares na viola.

Pedro Soares, obrigado por teres vindo também. Está por cá o Bruno Vieira Amaral e a Judite França. Vamos olhar um bocadinho pra este teu novo trabalho. Já está disponível o "Casa" e o "Água". São dois EPs que vão agora ficar juntos em dezembro num disco só, uma espécie de disco duplo. Já tinha saudades dos discos duplos.

Não é bem um disco duplo, mas é um disco temático. O "Casa" saiu em janeiro. Nós editamos primeiro o EP "Casa", dedicado ao fado tradicional, que é de onde eu venho. Eu venho do fado tradicional. E optamos por editar agora o "Água", que é com novas sonoridades, novas canções, com temas de grandes compositores, cantautores também, como a Carminho, com Florbela Espanca, musicou um soneto da Florbela Espanca. Francisca Cortêsão, que escreveu esta "Carolina", que vou cantar daqui a pouco. Com o João Correia, o Mário Laginha também.

São dois mundos. Eu já queria falar um bocadinho mais sobre este novo trabalho, mas queria ir um bocadinho atrás, até porque reparei que estás com 20 anos de edições. O teu primeiro disco sai em 2003.

Eu nem me lembrava disso.

Já estão para faz 20 anos.

Não me lembrava disso.

É uma data redonda.

Os artistas aproveitam isso muito bem.

Realmente faz-me sentir um jovem. Passaram 20 anos de edições.

Como é que olhas pra esta carreira? São muito diferentes os teus fados hoje em dia desse primeiro disco, que se chamava "Primeiro Fado"?

"Primeiro Fado". Eu acho que, acima de tudo, foi uma aprendizagem. E foi um crescer dentro deste meio, um crescer dentro do fado, dentro da música portuguesa. E claro que estou diferente, em todos os aspectos. Eu não sou a mesma pessoa que era há uma semana, quanto mais há 20 anos.

Mas o teu aspeto está ótimo, Pedro.

Obrigado.

Há pouco dizias que vens do fado tradicional. É aí que continuas, é nessa casa que continuas?

Eu continuo e hei de sempre continuar a cantar fado tradicional.

Mas de vez em quando sais da casa.

Mas eu adoro cantar coisas novas. Neste caso são canções. A intenção foi mesmo gravar quatro canções sem instrumentos de fado. Este EP "Água" foi produzido pelo João Correia e pelo Franky Chaves. O Franky Chaves toca guitarra elétrica.

Sim, estão longe.

Completamente longe do fado. E foi intencional. E eu gostei logo muito dos arranjos e quis mesmo correr estes riscos. E também tive muita sorte, porque eu gosto muito também das canções que me chegaram às mãos. São canções muito bonitas. O que te puxa pra essa modernidade? Pra teres um pé na modernidade e outro na tradição? A tradição é algo que já vem lá mesmo detrás, desde a minha infância. Eu tive o prazer de fazer o meu caminho, a conviver e a aprender com os grandes intérpretes do fado de sempre. E também os músicos. Conheci-os quase todos. Mas eu, além de ser um fadista, sou um cantor. E sendo um cantor, nem sempre só ouvi fado, eu ouvi todos os gêneros de música. Eu adoro outros gêneros musicais, desde jazz, adoro bossa nova. Eu tenho um vasto leque de gostos a nível musical. E então acabei por fazer este EP de canções.

Eu acho muito engraçado teres chamado "Casa" a esse EP, porque é o do fado tradicional. É mais ou menos aquela aleodia: a gente gosta muito de estar em casa, mas também gosta de sair à noite.

Exato.

É um bocadinho a mesma coisa que acontece aqui com o Pedro Moutinho, parece.

Tu acabaste de te afirmar como cantor, como intérprete, por isso é muito importante as pessoas de quem te rodeias pra escrita de canções. E aqui trazes também alguns novos nomes. O que esses nomes, como o da Terezinha Landeiro, por exemplo, trazem à tua música?

Eu acho que trazem um olfato a dar fresco, pelo menos pra minha música, eu sinto muito isso.

E desculpa estar a me meter, mas o fado também precisa destes novos autores, se quiseres.

Eu acho que sim, eu acho que é importante. Eu não quero dizer no fado, mas eu preciso. Qualquer intérprete que esteja a construir uma carreira precisa. Precisa de ter novos autores, novos compositores e fazer diferente. E é isso que eu tento fazer, diferente, à minha maneira, dentro dos meus gostos.

E algum com o qual queiras trabalhar e ainda não tenhas tido essa oportunidade? Ou gostasses de trabalhar?

Sim.

Estás a ver se ele te pede uma letra pra um fado, Bruno Vieira Amaral.

Eu sou uma pessoa que acredita muito na lei da atração.

As coisas acontecem.

As coisas acontecem. E neste caso, foi muito engraçado, porque nós, antes de pensarmos, eu com o meu manager, pensamos: "Quem é que vai produzir?" Falamos neste nome, no A, no B, no C. E de repente, ele perguntou-me: "Confias em mim?" Eu: "Confio". E de repente: "Olha, tenho uma ideia". Ele pegou no tema da Carminho, na "Noite de Saudade", que é o tema que abre este EP, e acabou por mandar pro João Correia e pro Franky Chaves. Eles fizeram o arranjo, eu adorei. E a partir daí Lá está, são coisas que acontecem e ainda bem que aconteceram.

As leis da atração do universo. O Pedro Moutinho acredita nisto.

Até agora tem resultado.

Tem resultado bem. Dez de dezembro no Novo Ático, sala do Coliseu do Porto, e 13 de dezembro, Museu do Fado em Lisboa, a apresentação deste novo disco do Pedro Moutinho. Com que formação é que vais a estes concertos? Até porque ao nível dos instrumentos, das melodias, são duas coisas bastante distintas.

São. É engraçado, eu estava a falar outro dia aqui com o Pedro Soares sobre isso, eu acho que os temas são tão melodiosos e tão bonitos que conseguimos logo fazer uma adaptação para trio de fado. E isso já aconteceu. Eu fiz a apresentação aqui em Lisboa no Palácio da Aldeia, em que levei como convidados o João Correia e o Frankies Chaves, mas já o Pedro tocou a Carolina, e como vai tocar a Carolina agora comigo. A Carolina é só piano, guitarra portuguesa, contrabaixo e bateria. Nós conseguimos adaptar porque os temas são bons.

É verdade. E esta Carolina é lindíssima, gosto muito, foi a que mais me ficou no ouvido esta manhã ao escutar as últimas canções do Pedro Moutinho. Chama-se "Casa d'Água", o novo trabalho, que chega agora em dezembro.

Chega em dezembro.

Chega em dezembro, vamos acordar.

A nível físico.

A nível físico já está disponível os dois EPs, o "Casa" e o "Água". Pedro Moutinho, o nosso palco é teu. Vamos ouvir uma versão aqui da Carolina e muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador e parabéns por estas canções belíssimas.

Nunca fui de ser feroz. Nunca tive de ir à luta. Salvei-me à trepidação. Vivi sempre a supor. Que os meus olhos sabem escolher. Quem já me quer bem. Sabem evitar. Nós pra destrinçar. E chegas tu pra me acordar. És a fonte dos meus ais. Carolina. Carolina. Nunca foste de embarcar. Nestas farsas da ternura. Salvaste o teu coração. E sem sequer suspeitar. Que os teus olhos sabem perceber. Quem já te quer bem. E reconhecer. Quem já tropeçou. E já só pensa em sussurrar. És a fonte dos meus ais. Carolina. Carolina. Carolina. Carolina. Carolina.

Lindíssimo. "Carolina", faz parte de "Casa d'Água", o novo de Pedro Moutinho. Obrigado ao Pedro Moutinho e ao Pedro Soares por terem vindo aqui ao ao vivo, com os cuidados técnicos do Diogo Casinha e o vídeo do Tiago Couto.