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Cá estamos nós. À sexta-feira a música invade o estúdio da Rádio Observador e hoje o nosso convidado é o Ricardo Ribeiro. Ricardo, muito obrigado por teres vindo ter conosco hoje. De resto, dá-se a feliz coincidência, meticulosamente programada, claro, de o Ricardo estar aqui precisamente no dia em que edita o novo álbum. Chama-se "Terra que vale o Céu". Está aqui conosco o Bruno Vieira Amaral também e a Judite França, que nos vão acompanhar. Ricardo, este não é propriamente, pelo que percebi, um sucessor do "Respeitosamente" de 2019, mas antes um sucessor do "Hoje é assim, amanhã não sei", de 2016. Tu até dizes que o fado do Ricardo está de regresso. Está de regresso ao seu fado. O que é isto do fado do Ricardo Ribeiro?

Muito obrigado pelo convite pra estar aqui esta tarde. Eu não diria que isso é um sucessor de algum dos outros discos. Cada filho é um filho, não há filhos sucessores de outros. Portanto, os discos são como filhos e é totalmente distinto. O fado do Ricardo Ribeiro, eu acho que mais importante do que todas essas terminologias e essas definições, é que é um disco do Ricardo Ribeiro. Isso é que é o mais importante, porque felizmente consegui uma identidade artística e um ideal estético e artístico que permite já dizer que são os discos do Ricardo Ribeiro.

E neste disco houve uma grande influência da geografia e da cultura. Eu passo a citar-te: "Não posso fugir do meu mundo de dentro, voltado para o Mediterrâneo e para o Oriente. Este disco, sendo de fados, reúne todo esse vasto mundo de influências meridionais." E agora não quero estar a mentir, mas creio que li numa entrevista tua que dizias que apesar de estarmos como país virados pra o Atlântico, somos um povo mediterrânico. Como é que isso entra no teu trabalho?

Não vou estar aqui a falar de aspectos históricos da nossa cultura e da nossa história, porque então teríamos muito que falar de 500 anos de influência árabe, de outros 500 de influência sefardita, judaica. Só do árabe temos 20 mil palavras no português. Portanto, há muitas coisas que nos influenciam. Eu sou um português muito virado pro Sul. Eu raramente tenho os olhos postos no Atlântico. Apesar de ser do Atlântico, não quer dizer que esteja alienado das coisas que se passam lá do outro lado, mas tem a ver com a sensibilidade, com aquilo que se passa no Mediterrâneo e com os povos que nele habitam. A minha maneira de cantar, por exemplo, é um canto muito mais melismático, cheio de microtonalismos, e também um canto muito apoiado na garganta, que é o canto que se utiliza mais nesta bacia do Mediterrâneo.

Sai menos pelo nariz, sai mais pela garganta.

Exatamente, depende das notas que quero dar, mas é mais um canto apoiado na garganta. Ou seja, em vez de ser um canto de cabeça ou de peito, é um canto mais daqui. E depois é mais melismático, é um canto com fraseados diferentes.

Temos versos de Fernando Tordo neste disco, Amélia Mouro, Maria do Rosário Pedreira, Nunes Júdice, Gil Vicente e também temos versos teus, claro, e a tua música em alguns temas, que têm como inspiração o teu filho Francisco. É por isso que este disco é mais alegre, mais esperançoso, que é inspirado numa criança?

Além de ser o Mediterrâneo, a mim me influenciam muito os filósofos. Eu tenho um particular gosto por ler filósofos. E agora ando a ler muitos filósofos portugueses, o António Telmo, o Álvaro Ribeiro, o Leonardo Coimbra ou Sampaio Bruno. Influenciam-me também por isso. O Álvaro Ribeiro tem um livro muito engraçado, ou seja, muito bom, de estudos, em que fala sobre a graça. Não vou agora estar aqui a citar.

Sobre a graça como?

Sobre a graça como alegria, como manifestação da alegria.

Pensei que era a Graça, o bairro da Graça. Que eu gosto muito.

Pensei que era a graça divina.

Será que ele falou do meu bairro?

Como a manifestação da graça, da alegria. Eu tenho sempre mais tendência pra cantar coisas tristes ou coisas mais profundas.

Sofridas.

Mais profundas, que tenham mais a ver com a profundidade.

Mas isso é típico do fado, não é? Ou é uma ideia errada?

Não, o fado canta a vida. O fado é como uma árvore que tem um tronco e uma raiz, e depois tem vários galhos, e nenhum galho é igual ao outro.

Mas o nosso fado é um bocadinho...

O de Coimbra é muito triste.

É muito triste, mas mesmo o de Lisboa. Há um fado de Lisboa que é muito sofrido, que é muito dorido.

Depende da vida de quem o canta. Se a vida de quem o cantar for uma vida dorida, é natural que o cante dorido. Eu sou muito suspeito nessas coisas, porque eu gosto muito mais do fado triste, do fado profundo. Às vezes não é muito triste nem dorido, é mais lúcido que outra coisa. É uma tal lucidez dolorosa.

Muito realista.

É a lucidez dolorosa da vida, é a tragédia da existência que às vezes nós não queremos. Hoje em dia queremos é nos distrair de tudo.

Sim.

E o fado é uma cantiga que nem é profunda, nem é triste, nem é coisa nenhuma. É uma cantiga que apela à concentração e à religação entre essa coisa que existe entre o céu e a Terra. Basta pela postura herática de fadista quando está de pé, e isto é um pensamento de outro filósofo português, o professor Paulo Borges. E também influencia isso. E a graça e a alegria neste disco é exatamente, porque quando vejo o meu filho de manhã acordando com aquele sorriso e a dizer: "Olá", quem é que pode ficar indiferente?

Quem é que fica triste?

Então tinha que cantar uma coisa ou outra mais alegre. E também é homenagem a ele. Os meus outros discos têm homenagem à minha filha, que já está na faculdade, a mais velha, e à minha mãe. Então esta feita foi pro Francisco.

Dá-me sempre a sensação que o Ricardo também é um fadista, um intérprete que tem particular interesse e cuidado com as palavras. As tuas escolhas para os fados que cantas nascem sempre desse teu lado também mais poético, essa escolha mais cuidada das palavras e do que se diz e do que se canta?

A minha filosofia e a poesia em particular me fascinam muito. A poesia é algo que do tempo de Virgílio e de Homero era sagrado. Hoje em dia já não é, porque nós esvaziamos conceitos.

Vê-se por quem escolhes.

Sim.

Como os teus referenciados.

Por acaso tenho curiosidade sobre como é cantar Gil Vicente.

E Nuno Júdice. Não me lembro de alguma vez, se calhar já fizeste, mas não sabia.

O Carlos do Carmo gravou Nuno Júdice.

Ok.

Bruno Vieira Amaral. Um dia um fadista vai cantar Bruno Vieira Amaral.

Exatamente.

Nunca sabemos.

É possível. Meu amigo, se tem poemas, faz favor de mandar.

Então não tem? Já esteve no Festival da Canção.

Ah, sim?

Música no Festival da Canção.

Não sabia. Perdoem-me a ignorância.

Ao pé de uma Maria do Rosário Pedreira não me atrevo. Acho que sai mal na comparação.

Não, isso não quer dizer nada. A palavra tem muito que se lhe diga, apesar de eu estar sempre de acordo. Há colegas meus que dizem que o fado é a palavra, e eu tenho sempre alguma relutância em relação a isso, porque para mim o fado é as duas coisas em união. Porque se fosse só a palavra, então eu chamava o João Vilaré, que dizia melhor poesia do que eu, ou a Germana Tanger, ou o Mário Viegas. E portanto, acho que são as duas coisas em comunhão, a melodia e o poema, que fazem do fado esta canção tão especial. Mas sim, a poesia é muito importante.

Isso nota-se nesse cuidado que tu tens.

Obrigado.

E que também se nota neste "Terra Que Vale o Céu". É o novo disco do Ricardo Ribeiro, está disponível a partir desta sexta-feira. Há já um vídeo para o primeiro single, o "Vira-Voltas", mas não é esse que nos trazes. Trazes aqui quase um medley, aquela última canção do disco, depois de te ouvirmos ao longo da manhã.

Vocês falaram do Francisco, então os primeiros versos são do António Boto e depois a cantiga a seguir é como se fosse uma cantiga de ninar, uma canção de embalar para que ele dormisse.

Vamos a isso. O nosso palco é teu, Ricardo Ribeiro, aqui no ao vivo da Rádio Observador. Obrigado por teres vindo.

Obrigado eu. Se me deixares eu digo, o contrário a toda a gente. E neste mundo de enganos, falo a verdade cá mente. Tu dizes que a minha boca, já não acorda desejos. Já não aquece outra boca. Já não acorda os teus beijos. Mas tem cuidado comigo, não procures ser ausente. Aqui na Casa Branca, a vida é feita de luz. Quando el Kiko avança, ele a todos seduz. El Kiko é uma criança, que a todos vai trazer esperança. Quando el Kiko avança, ele a todos seduz.

Ricardo Ribeiro na Rádio Observador. "Se Me Deixares" e "El Kiko" de Diana são as faixas que fecham precisamente este novo disco, "Terra Que Vale o Céu". Chega hoje, está disponível por todo lado. Ricardo Ribeiro, muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador e muitos parabéns. Belo disco.

Muito obrigado.

Cuidados técnicos aqui do Diogo Casinha e vídeo do Tiago Couto.