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Começa agora o lado bom da vida. Hoje falamos de filmes, claro, para ver em casa e quem lhe traz as melhores sugestões é a editora de multimédia do Observador, Catarina Santos. Bom dia, Catarina.
Bom dia.
Olá, agora ia chamar de Catarina Martins, sabe-se lá por quê. Tive aqui uma pequena branca, estou a precisar de um feriado. Catarina, qual é a primeira sugestão?
Hoje trago uma proposta que é Satanás.
Oi?
Não se assuste.
Satanás?
Não se assustem. É só um documentário inofensivo, cheio de humor negro e muito curioso e que chega hoje aos nossos cinemas caseiros.
Os nossos cinemas caseiros. Conta, Catarina, que documentário é esse?
Tem como título: "'Salve Satanás?", assim mesmo em jeito de pergunta, e retrata a saga de uma espécie de movimento religioso nascido nos Estados Unidos, chamado Templo Satânico. São, sobretudo, ativistas políticos. A realizadora Penny Lane foca o percurso do grupo desde os primeiros passos em 2003, no estado do Massachusetts, quando começaram a empreender uma série de ações públicas para defender a liberdade religiosa. Eles vestem-se a rigor com roupas negras e adereços, como os chifres, sempre que possível, mas as iniciativas que promovem pretendem abanar o sistema. E quem melhor que o Diabo como símbolo do contra?
Olha que tipo de ações são essas que este Templo Satânico promove?
Olha, o filme arranca logo com uma demonstração daquilo que querem fazer, e é com uma demonstração de apoio público ao governador Rick Scott, da Flórida, que era na altura apoiado pelo Tea Party e que fazia pressão para que se instituíssem orações nas escolas públicas. Ora, o Templo Satânico reuniu-se em frente ao Capitólio do Estado da Califórnia para declarar o seu apoio, argumentando que abrir a porta a Deus é também abrir a porta a Satanás e que, portanto, estariam no mesmo barco e tinham todo o apoio deste grupo. Naturalmente que a intenção era provocar o governador, mas a bizarrice da ação chamou a atenção dos media. Outro momento alto do filme é quando tentam colocar uma estátua de Satanás no Capitólio do estado do Oklahoma. Existia um monumento aos Dez Mandamentos em propriedade governamental, e o argumento do grupo era que se queriam ter um monumento ao cristianismo num edifício do Estado, tinham também de construir um monumento ao satanismo.
E isso funcionou? Conseguiram ser levados a sério nessa intenção?
Essa artimanha, por acaso, começou por lhes correr bastante bem, sim. Começaram uma campanha de crowdfunding para construir uma estátua gigante. Muita gente se juntou para apoiar e depois de uma acesa discussão pública, com programas televisivos quase a pegar fogo, a debater o assunto, o Supremo Tribunal de Oklahoma acabou por decidir que a estátua dos Dez Mandamentos tinha de ser retirada, portanto, que o grupo tinha razão no ponto da separação entre Igreja e Estado. O movimento tinha ganhado uma primeira batalha ali. O objetivo era, na verdade, questionar se se deveriam misturar estes símbolos religiosos de qualquer espécie nos organismos públicos. E, portanto, eles desistiram da sua própria estátua porque estava provado o seu ponto. Claro que se seguiram recursos e a história não ficou por aqui ou não se passasse tudo isto nos Estados Unidos. Mas o que é certo é que o pequeno grupo de meia dúzia de pessoas cresceu até se tornar um movimento que em 2016 já tinha mais de 50 mil membros.
E parece que o grupo serve, sobretudo, de uma boa dose de humor negro para desafiar o sistema. Mas o nome Templo Satânico não remete propriamente para meninos de coro bem-intencionados.
É verdade. Mas de acordo com os testemunhos de vários membros do filme, a ideia de satanismo que os move não é de caos e violência, bem pelo contrário. Aliás, eles dizem que não são realmente crentes em Satanás, não acreditam em nenhum ser sobrenatural. Só se aproveitaram de uma figura, que é uma clássica figura da oposição, de contrapoder e com vasto poder de choque. O Templo Satânico tem mesmo um código de ética, cujo primeiro mandamento é agir com compaixão e empatia com todas as criaturas, e defendem que toda a luta deve decorrer dentro da lei. A dada altura, alguém no filme pergunta: "Mas então por que não se descrevem simplesmente como ateus?" E um dos membros responde: "Porque o ateísmo é aborrecido, não há comunidade, iconografia, não há ética e apenas define o que não somos". E, portanto, com o satanismo moderno, acreditam que podem definir o que são e não apenas o que não são. E é vê-los no documentário, vestidos de negro, com declarações de amor a Satanás nas shirts, a recolher bens para sem-abrigo, a limpar praias e beiras de estrada e ações do gênero. O documentário está cheio de pérolas e muitos momentos de humor, mas também de contradições e complicações. Claro que à medida que o grupo vai crescendo e se espalhando pelos Estados Unidos e mesmo por outros países, esta ideia central corre o risco de ser desvirtuada e nem sempre esta postura de não violência prevalece, mas não vos vou revelar mais. Se ficarem intrigados.
Ficamos, com certeza.
O documentário estreia hoje mesmo nos videoclubes das televisões e nas várias plataformas de streaming nacionais, a Filmina, a MEO, a NOS, a Novo e a Vodafone. É só escolher.
E assim chegamos ao fim de mais um lado bom da vida. Já sabe que boas sugestões de filmes estão sempre com o jornalista do Observador, Catarina Santos. Obrigada, Catarina. Até para a semana.
Até para a semana. Bom fim de semana.
Igualmente.
Obrigada, igualmente.
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