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Esta semana, no "O Lado Bom da Vida", recebemos aqui na Rádio Observador os UHF. A banda de Almada tem disco novo, chama-se "Novas Canções de Bem Dizer" e é composto por 11 canções interpretadas pela voz inconfundível de António Manuel Ribeiro. António, bem-vindo.
Olá.
E bem-vindo também, António Corte-Real e Ivan Cristiano.
Muito obrigado. Boa tarde.
Quem é que se desquiciou com a guitarra?
Não estava no alinhamento.
Não estava no alinhamento.
Estou preso aqui no casaco.
António, fiquei intrigado com o título do vosso novo disco, "Novas Canções de Bem Dizer". Sentiram necessidade, vontade de escrever músicas mais otimistas? Foi isso?
Olha que não.
Não?
Algumas são otimistas, mas outras são, sobretudo, muito certeiras para este tempo que estamos a viver. E em vez de ser canções de mal dizer, nós podemos chamar de bem dizer, dizendo mal.
Daí haver uma citação tua no texto que acompanha o disco, que é: "É um disco irónico, certeiro e sacana".
Essa palavra é gira, não é?
É, é uma palavra gira.
Sabes por quê?
É uma sacanice?
Não, porque nós vivemos muitas coisas e todos os dias há outras novas coisas que fazem esquecer o que nos aconteceu ontem, que nos magoou, a todos nós, pessoalmente ou como sociedade. E esse turbilhão de situações tem que, de vez em quando, ser apanhado alguma coisa, e uma canção serve para isso, para criar um quadro, uma imagem, uma pessoa, uma personalidade, e dar às pessoas a memória. "Olha, isto aconteceu".
E o que vos inspirou mais na escrita destas 11 canções que fazem parte do novo disco? É essa atenção ao mundo, à sociedade? São coisas mais interiores?
Olha, Bruno, para ser sincero, eu não conseguia escrever este disco há 20 anos, e se calhar nem há 10, porque há aqui maturidade, há aqui observação, e não há panfleto. Fazer uma canção panfleto, acaba no dia a seguir ou 15 dias depois. Eu escrevi algumas canções de nível social ou sociológico para que as pessoas meditem. Isto aconteceu e já nos estamos a esquecer.
Então não classificarias como música de intervenção?
Classifico, uma nova música de intervenção. Às vezes esquecemos um pouco disso, que as canções também servem. Nós vamos ao histórico português dos trovadores. Nós sempre tivemos as cantigas de mal dizer, de escárnio, fazem parte da nossa forma, no fundo, de fazer história e história contemporânea.
Então deixa-me só perguntar-te: o que te indigna mais para te levar a escrever? O que te incomoda mais, que vês na sociedade, que te leva a escrever essas canções de bem dizer, que são de mal dizer também?
Uma frase sacana? Pode ser?
Pode ser.
Estarmos no fim, para não dizer outra palavra, da Europa há tanto tempo. Custa-me muito. Sabes por quê? Porque está agora a fazer 50 anos, daqui a cinco meses, quatro meses e meio, uma data que para mim foi importante, porque a minha geração, quando ia para a tropa, ia para a guerra. Eu estava a estudar, mas quando acabasse o meu curso, ia à mesma para a guerra. Quer dizer, não ia com 20 anos, ia com 23 ou com 24. E isso acabou. Foi fantástico. Mas depois há uma sessão de situações neste país que nos mantêm pobrezinhos, contentinhos, gostinhos. Detesto essa forma de ser portuguesa, detesto essa forma de não sermos Europa. E eu pensei: "Há 50 anos vamos ser finalmente europeus".
E não somos?
Somos, porque estamos aqui. A jangada de pedra não foi. Se ela tivesse ido...
Mas também conquistámos muita coisa, ou não, nos últimos 50 anos?
Evidente que sim. Quer dizer, nós hoje temos telemóveis. Os nossos carros têm muito escavalo.
Eu confesso, estava à espera de outra resposta.
Não, mas sabes o quê? Há coisas que hoje em dia, obviamente, que nós estamos melhores e estamos a muitos níveis melhores. Mas, por exemplo, ainda agora estava a ouvir o noticiário, essa história das urgências num tempo frio, outra vez, em dezembro, pior que o ano passado, não dá para entender.
Há muita gente que diz que falta um sobressalto cívico permanente ao país. Também partilhas dessa opinião?
Partilho. E sabes, o que eu sinto muitas vezes é que há uma nova geração de políticos que só fez política, não fez mais nada. E a política muitas vezes fez-se nos corredores das jotas para chegar depois ao primeiro plano. Isso é muito pouco para dirigir uma nação. Gente que não trabalhou, que não conheceu o mundo real, o mundo todos os dias das empresas. Por exemplo, discutir um empréstimo, validar um empréstimo, negociar outra vez um empréstimo. É vida real. Dizer-se que é economista é uma coisa muito fácil. Mas economizaste o quê na tua vida profissional? E, portanto, sinto neste momento que há uma lacuna muito grande de pessoas de capacidade, de nível intelectual, de nível de formação intelectual.
António Manuel Ribeiro, estão a celebrar 45 anos de carreira, os UHF, apesar das múltiplas formações, a verdade é que não há muitas bandas no mundo com uma carreira tão longe. Qual é o segredo da longevidade? É a edição regular de discos? É a proximidade com os fãs? São os concertos que, segundo percebi, os UHF têm uma média incrível de 40 por ano. Ainda mantêm essa média?
Sim. Este ano não, mas este ano ainda estávamos a recuperar. Mas no ano que vem vai ser muito melhor, até.
Isso é quase um concerto por semana.
Às vezes é mais. O que eu te posso dizer? Se não houvessem canções que nós fizemos e que se tornaram do domínio público, e que as pessoas agarraram como suas, e que hoje é isso que faz encher os espetáculos, não havia UHF. Portanto, o fenómeno é esse: canções
Público e nós estamos cá.
O público pede certas canções?
Não pede.
Ou exige?
Às vezes estou farto de algumas canções. Tenho que ser sincero.
Qual é a que estás mais farto?
Não posso dizer. Lá o espetáculo dia 30 e nós vamos tocá-la lá em cima no Porto, obviamente.
Sim, é na Casa da Música, não é?
Na Casa da Música.
Desculpa, diz, Bruno.
Não, eu queria saber como é que conseguem, os UHF, esse equilíbrio entre as músicas que o público pede e quer e não sai de lá satisfeito se não as ouvir, e as novas canções a que ainda não estão habituados.
Às vezes não é fácil.
Não, diz.
Às vezes não é fácil. As pessoas têm expectativas, mas com uma banda com 45 anos e com mais de 350 canções editadas, nós no espetáculo tocamos 18, 20, não conseguimos tocar mais.
Mas há essa responsabilidade também de darem.
E dar às pessoas aquilo que as pessoas querem ouvir.
E tocar o sucesso, obviamente que sim.
Obviamente.
Há aquelas bandas, normalmente, quando se reúnem novamente, que gostam de frustrar um pouco as expectativas.
Olha, tipo Bob Dylan.
Sim, por exemplo.
Não é o nosso caso.
Não é o vosso caso. Muito bem.
Portanto, vocês gostam de alimentar a vossa legião de fãs.
As pessoas vão-nos ver.
É isso.
Ali levam as suas perspetivas, levam os seus sonhos da adolescência. Claro que sim.
António Manuel Ribeiro, esclarece-me uma dúvida, que é sobre a origem daquele apodo, da alcunha que recebeste de Jim Morrison português.
Tens que perguntar ao António Macedo.
Foi o António Macedo?
Não, mas sabes o que é que foi? Foi uma entrevista que eu dei logo em 81.
Pois, porque isso foi praticamente no início dos UHF.
Ao semanário Sete, e o António Macedo agarrou naquilo e meteu na primeira página. A partir daí, 95% das minhas entrevistas, juro-vos, durante muitos anos, é assim: "Então, como é que te sentes na pele de Jim Morrison português?"
Mas és um grande fã.
Não há outra pergunta para fazer.
És um grande fã e sempre foste um grande fã.
Sim, mas numa altura em que nem sequer conhecia a personagem, porque não havia vídeos. Foi a voz. E foi aquela música diferente. Os Doors eram diferentes. Verdade. Olha, têm um concerto já marcado, já falaste dele, no dia 30, na Casa da Música, no Porto. Em 2024, já têm datas?
Já.
Já?
Por isso é que eu perspetivei que o ano que vem vai ser muito melhor.
Muito bem.
E quando eu digo muito melhor, é menos tempo em casa e mais tempo na estrada.
Faltava isso. Os últimos anos foram difíceis.
Dois anos e meio foram muito estranhos para nós que precisamos de palco. Fazeres uma canção, gravares uma canção. Esta canção, "Bora Lá", não esta versão que vamos fazer, acústica, mas a versão elétrica, foi gravada em 2019 e nós estávamos a pensar continuar a gravar o disco em 2020. E depois foi o que foi.
Pois, os músicos precisam de palco.
Eu não vejo outra forma. Aquilo, no fundo, é um julgamento que nós vamos ter. Como é que as pessoas vão reagir a uma canção? E depois há uma coisa curiosa: os fãs escolhem as suas canções e eles transformam-nas. Sabes o que é, por exemplo, acabarmos de cantar, a lágrima caiu, acabou. E eles começam a cantar. E assim há um canal aberto entre nós e as pessoas que vão aos nossos espetáculos. Nós fazemos tudo o que eles pedem, mas eles dominam muitas vezes a situação.
O consumo de música mudou muito nos últimos anos, fruto agora das plataformas, enfim, há múltiplos meios para ouvir música no computador, nos telefones, nos transportes públicos. Isso muda a relação que têm com os vossos fãs ou nada?
A pessoa que percebe disso é o rapaz que está aqui ao lado e tem a guitarra nas mãos. Ele é que trata das redes sociais e das plataformas. Nós ainda vendemos discos, que é uma coisa importante. Tanto que este disco saiu em LP e em CD e já vai ter que ser refeita uma nova edição do LP. Está a me espantar pessoalmente. O vinil está de regresso.
É um regresso.
É sério. E portanto, ainda bem. Eu penso que há gente nova que está a aprender a ouvir o UHF através das plataformas digitais. E eu digo-te isto por uma razão simples: como é que um miúdo de 16 anos me pede os Cavalos de Corria?
Exato.
Mas este miúdo nem era sonhado, quanto mais nascido.
Já não toca muito na rádio, não é? Também.
Passa de vez em quando numa rádio de perfil de canções do passado, mas não é normal, porque é uma canção de 1980.
Uau! Olha, que música trouxeram para fechar esta nossa conversa?
"Bora Lá". Abre este disco, a versão é elétrica. Hoje aqui trazemos uma versão muito simpática que nós gostamos de tocar para fechar os concertos. E é um bocado a história deste grupo.
Muito bem, vamos então ouvir António Manuel Ribeiro e restantes membros dos UHF. Muito obrigado e feliz Natal.
Um prazer. Feliz Natal também.
Muito obrigado.
Vejo um puto audaz a seguir o instinto. Hey, hey, hey, hey. How, how, how, how. Bora lá, bora lá, bora lá. Foi à flor da pele que o sonho cresceu. Um grito rebelde, eras tu e era eu. O som vinha de fora, a palavra cá dentro. Chegara a hora de marcar o meu tempo. Hey, hey, hey, hey. How, how, how, how. Bora lá, bora lá, bora lá. Bora lá, bora lá, bora lá. Saí vermelho do sul, cheguei mouro ao norte. Para um olho azul, não há melhor sorte. Cruzei o país, cresci entre vós. Se cheguei aqui, nunca estive só. Hey, hey, hey, hey. How, how, how, how. Bora lá, bora lá, bora lá. Bora lá, bora lá, bora lá. Bora lá, bora lá, bora lá. Bora lá, bora lá, bora lá. Hey, hey, hey, hey.
Yeah! Bora lá, os UGH, em directo na Rádio Observador. Meus amigos, uma vez mais, feliz Natal.
Feliz Natal.
Até à próxima.
Obrigado.