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Este é o pior mês. Todos os dias ouvimos, na Rádio Observador, relatos e histórias na primeira pessoa de quem tem alguma ligação com o Serviço Nacional de Saúde. Bem-vindo, Rui Tato Marinho. É diretor clínico do maior hospital do país, o Santa Maria, em Lisboa. Eu começava por lhe perguntar: este vai mesmo ser o pior mês de sempre?
Eu não sou futurista, portanto, não sei o que vai passar. Há alguns constrangimentos, como é do domínio público, em relação a esta escusa dos médicos para horas extraordinárias, às negociações que estão em curso. Eu acho que temos que estar preparados, e bem preparados, para um cenário que seja pior do que é agora. Mas é difícil prever que seja o pior de sempre destes 40 anos, as coisas ainda não aconteceram. De qualquer maneira, estamos muito avisados. Estamos a fazer reuniões, ainda esta manhã, com várias especialidades para nos prepararmos para o que vem por aí num cenário pior do que existe agora.
E nesse sentido, Rui Tato Marinho, já tem as escalas de novembro completas?
As escalas de novembro, de grande parte das especialidades, estão completas. Há uma ou outra que tem algum constrangimento, que estamos a tentar resolver, como é óbvio. Mesmo naquelas especialidades que, felizmente, ou infelizmente, não foram muitas, que meteram a escusa para fazer as horas extraordinárias, neste momento estão asseguradas.
Quais são as especialidades, nesta altura, que têm mais constrangimentos?
Em termos de constrangimentos, o cenário não é crítico de maneira nenhuma. Estamos calmos, apesar das notícias. Estamos calmos, organizados e vamos à luta. Estamos habituados a situações difíceis, mas podemos ter alguns problemas na ortopedia. Basicamente, as outras estamos a organizar, pediatria também. O problema, às vezes, de Santa Maria, não é Santa Maria per se, felizmente. E desde que esta administração tomou posse, conseguimos ter mais médicos a virem pra cá. Temos médicos novos que querem ficar na instituição. O problema dos recursos humanos especializados não é muito dramático. O problema principal são os hospitais à volta da área metropolitana de Lisboa, e não só. Temos doentes de todos os pontos do país, até do centro, do Algarve e das ilhas. O problema são os constrangimentos de outros hospitais, que nos faz aumentar, nomeadamente no nosso serviço de urgência, algumas dezenas de pessoas com problemas de saúde num determinado dia.
Ou seja, são hospitais que também acabam por estar a viver esses constrangimentos relacionados com os pedidos de escusa.
O Hospital Santa Maria não é uma ilha.
Claro!
Trabalhamos em equipe. Eu hoje falei com o diretor clínico do hospital havia três anos. Damos nos bem e estamos a tentar ajudar-nos uns aos outros na questão dos recursos, não só para um lado, como também para o outro. E nesse contexto, Santa Maria também tem outra questão: Santa Maria tem uma imagem de marca, apesar das notícias, relativamente boa. Há doentes que preferem vir aqui, porque sabem que aqui têm todos os recursos, fazem exames, fazem análises. Mesmo que esperem muitas horas, preferem vir aqui, que têm quase todos os especialistas. Preferem vir aqui pelo seu pé. A tal ponto que temos cerca de metade dos doentes, neste momento, que não são urgentes, e muitos outros fora da área do hospital. Porque realmente temos a imagem e o proveito de ser o maior hospital do país. Temos fácil acesso, mesmo de carro, e muito perto do aeroporto. É fácil as pessoas chegarem aqui ao Hospital Santa Maria.
No caso de haver algo que possa ser considerado um pior cenário, Rui Tato Marinho, qual é o plano B? Quais são as alternativas que existem, ou o que é preciso fazer, caso, de facto, seja impossível completar uma escala? Quer nos dar uma perspectiva do que está preparado, como é que se prepara um hospital para um cenário eventualmente desses?
Nós temos planos de contingência para a urgência de pediatria e para a urgência geral. Consoante o número de doentes que nós tivemos num determinado dia, que até pode ser um pico em determinada altura, ou num cenário, por exemplo, de uma infeção respiratória numa epidemia de gripe. Temos vários cenários. Por exemplo, alocar recursos médicos e de enfermagem de uma maneira diferente dentro do hospital. Encerrar, por exemplo, algumas consultas. Depois, apesar desta ideia dos médicos não quererem fazer horas extraordinárias, não são todos. Não querer fazer horas extraordinárias para lá das 150, não são todos. A grande maioria, posso dizer que mais de metade, à vontade, dos médicos aceitam fazer horas extraordinárias. A atividade de urgência está assegurada. Inclusivamente, há médicos que estão disponíveis para vir cá. Muitos diretores de serviço, se houver dificuldades, eles próprios avançam para fazer escalas Tem médicos a fazerem várias urgências 24h por mês, cerca de duas por semana. Os médicos também estão disponíveis, muitos deles, para se vir que a população está a precisar muito, num cenário de catástrofe, mas mais difícil, estão disponíveis a dar um bocado mais daquilo que lhes é exigido. Eu relembro, é muito recente, isso deixou marcas nas estruturas de saúde, do que os profissionais de saúde e todos fizeram em relação ao Covid.
A pandemia.
Perfeitamente, da pandemia. Das palmas que a população nos deu nessa altura, que eu gostaria que de novo nos tivessem a dar, porque realmente a situação começa a ser um pouco mais difícil do que era até na altura da pandemia.
Era isso que eu ia perguntar-lhe, coitado Marinho. A pandemia que foi esse momento de grande estresse para os hospitais, como é que se compara com o que se vive agora por estes dias?
É uma situação que não tem nada a ver. Há quem diga, aliás, já éramos avisados, e a questão da pandemia, em termos médicos e sociais, foi uma catástrofe. Não houve bombas em cima, não houve sangue, não houve muitas gente morta, mas foi uma catástrofe em termos sanitários, tudo mudou. Deixou marcas nos profissionais de saúde, muitos deles cansados e muitos que foram afetados pelo Covid, que deixou marcas em alguns deles, até do ponto de vista de saúde. Mas há quem diga que este período pós-pandemia, que é um período mais difícil, que é o pós-guerra, temos que refazer de novo, voltar ao normal. E Santa Maria, os outros hospitais não sei, mas Santa Maria, neste momento, está a produzir cada vez mais. Tem mais cirurgias sendo feitas, quase todas as especialidades estão a fazer mais consultas. Nós estamos a retomar, e com mais força, o que fazíamos antes da pandemia. Por outro lado, temos feito um esforço muito grande de humanização, porque percebemos perfeitamente, e quando dizemos que não era necessário vir à urgência, há pessoas que vêm fora da área do hospital, percebemos perfeitamente o drama que é para muita gente que fica aterrorizada com a possibilidade de ter um filho, ou um pai, ou ter uma doença que o pode afetar. Entendemos muito bem essas pessoas. E além disso, temos um carinho muito grande pelos nossos doentes. Temos um programa de humanização em curso, e posso dizer, que há um grau de satisfação muito grande. Neste momento, o número de louvores no hospital aumentou quase 50%, as reclamações baixaram 10%. Ou seja, apesar da aparente confusão, e há dias em que há confusão, nomeadamente no serviço de urgência, não é em todo o hospital, e relembro, o hospital tem 45 serviços. Apesar desta contingência, ameaça aos cuidados de saúde, sabemos ter calma, estamos controlados e pensamos no outro e queremos humanizar cada vez mais, que as pessoas se sintam confortáveis. É esse o nosso papel.
E neste momento, olhando em específico para este mês de novembro, acredita que não será necessário acionar qualquer plano B, qualquer plano de contingência, por causa dessas dificuldades?
Como digo, o futuro não sabemos. De qualquer maneira, e faz parte até do treino médico, nós treinamos quando as coisas correm mal, como a aviação faz, treinar cenários de catástrofe. Nós temos planos para isso. Temos médicos muito habituados, não só no Covid, mas noutras situações de emergência, sejam acidentes. Temos médicos com experiência no estrangeiro, até em cenários de catástrofe, enfermeiros também com muita experiência em cenários de catástrofe. Isto é um bocado como os cenários de guerra em que os militares e os generais são eles que têm que manter a cabeça fria, autodomínio, manter a calma, apesar do mundo estar a cair à volta. E neste momento temos profissionais de saúde, temos diretores de serviço, muito preparados para este período difícil que pode vir por aí, que não será uma surpresa.
Tem noção, Rui Tato Marinho, de quantas declarações de escusa de médicos recebeu as horas extra para lá daquelas que estão previstas na lei?
Nós até agora tivemos cerca de 80, um pouco mais de 80.
Isso significa em percentagem?
Nós temos 1500 médicos no hospital. Eu diria que é uma pequena percentagem, não sabemos se hoje ou amanhã poderão entrar mais horas, mais pessoas a pedir escusa, depende do rumo das negociações, mas a percentagem neste momento, enfim, não quero lançar poeiras, a percentagem é muito baixa, como eu disse. São 80 em 1500, mas obviamente que são médicos com um papel ativo muito importante. Muitos deles são médicos jovens e obviamente que têm impacto na execução das escalas de urgência. De qualquer maneira, deixe-me dizer que a nossa postura em relação a estes colegas, são colegas que meteram a escusa, é de os ouvir, é tentar e os compreender. Percebemos perfeitamente as razões, nós também somos médicos, mas esperamos que isto se venha a resolver para bem de todos. Para conforto de todos. Também da nossa parte.
Deixe-me fazer-lhe uma pergunta mais genérica, Rui Tato Marinho. Olhando para aquilo que se tem passado no Serviço Nacional de Saúde nestes últimos meses, considera que este é apenas, ou é sobretudo, um problema de gestão?
Para mim, os problemas principais são dois: é um problema de gestão, e a gestão é muito difícil. Eu gosto imenso de gestão, tenho feito muita formação em gestão, não sou só médico. Sou principalmente médico. É uma questão de gestão a vários níveis: nível superior, nível político, nível de gestão do país nos últimos anos, que é o investimento no serviço de saúde. Todos nós temos que ser melhores na gestão, na microgestão e na macrogestão. Deixe-me dizer que o pai da moderna gestão, chamado Peter Drucker, que já morreu há alguns anos, dizia que um grande hospital é a estrutura humana mais complexa que alguma vez o homem criou. Portanto, quando eu estou a falar do Hospital de Santa Maria, dos hospitais de Coimbra e o São João, são as estruturas mais complexas que o país tem no momento. Santa Maria é o maior. Eu diria que Santa Maria é o hospital mais complexo do país, porque nós temos 45 especialidades, temos mais de 40 subespecialidades, temos 10 mil pessoas aqui dentro, temos o imprevisto, pessoas que nascem, pessoas que morrem, pessoas que têm acidentes. Portanto, é uma estrutura muito complexa em termos de gestão, mas obviamente que estamos preparados para fazer mais e melhor. O outro aspeto é a questão financeira, em que sentimos no terreno muitos constrangimentos do ponto de vista financeiro. Os custos da saúde aumentam de uma forma assustadora em todo o mundo, no mundo que tem dinheiro para pagar. Os medicamentos muito caros, as cirurgias muito caras, os recursos humanos muito diferenciados também custam dinheiro. Só para lhe dar uma ideia, as pessoas nem fazem uma pequena ideia que o serviço de urgências do Hospital Santa Maria tem 300 profissionais a trabalhar. Médicos, enfermeiros, técnicos, assistentes operacionais, assistentes sociais. São necessárias 300 pessoas para montar um serviço de urgência de um grande hospital. Portanto, quando se pensa: "Naquela terra devia ter alguém de urgência, alguns médicos de urgência". As pessoas têm um bocado a ideia de querer a urgência ao pé de casa. É uma estrutura muito complexa e apenas alguns hospitais que têm tudo que é possível fazer a alguém em situação crítica, em risco de vida. Trezentas pessoas é muita gente, que corresponde a uma pequena empresa, quase dentro de uma grande empresa que emprega 7 mil pessoas, mais os alunos de medicina, que também é um componente muito importante. Nós também fazemos formação, formamos os médicos do futuro para todo o país e também para o estrangeiro. São mais de 2 mil alunos de medicina. Portanto, são uma estrutura complexa que vive, convive e que morre.
Rui Tato Marinho, quer deixar-nos também uma proposta que possa ajudar a que este ou outro, não seja efetivamente o pior mês?
Eu entendo que, em primeiro lugar, é preciso manter a calma. Eu penso muitas vezes no que será viver em Gaza, viver na Ucrânia, em cenários de guerra em que não há nada de nada. Portanto, eu só me posso sentir muito feliz por estar onde estou, por ter um dos países que mais oferta tem em termos de saúde para a população. Nós, no ano 2000, fomos classificados como o 12º melhor Serviço Nacional de Saúde do mundo. Portanto, manter a calma. As pessoas que pensem se a situação é urgente ou não, e se não é urgente, tentar o SNS 24, o centro de saúde, outros médicos, até os hospitais privados, que têm, muitos deles, excelente qualidade, excelentes médicos, enfermeiros. Portanto, não vir logo para a urgência de um grande hospital ou hospital de média dimensão, que deve ser reservado para os casos mais complexos que mais ninguém consegue fazer. Essa é talvez a mensagem principal. E depois ter alguma calma com problemas de saúde, e nós notamos isso, as pessoas vão logo olhar as redes sociais, a internet e ficam muito assustadas, às vezes sem justificação. Às vezes mais vale deixar para o dia a seguir ou pensar: "Será que vale a pena eu ir ocupar uma urgência, um hospital muito diferenciado, o lugar de alguém que precisa muito mais do que eu, que nem tem uma situação urgente?" Portanto, esses são os conselhos que a pouco e pouco vamos ter que ir habituando a população, porque são recursos muito difíceis de ter, têm que ser bem utilizados.
Rui Tato Marinho, muito obrigado por nos ter ajudado a olhar um pouco mais para o que se passa no Serviço Nacional de Saúde. Até à próxima. Obrigado.
De nada. Foi um gosto. Obrigado.
Obrigado.