Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

O mês de novembro foi batizado por Fernando Araújo como o pior mês. Ouvimos na Rádio Observador testemunhos de profissionais ligados ao Serviço Nacional de Saúde. Bem-vindo, Roberto Roncon. É diretor clínico do Hospital de São João, no Porto. É, de resto, o maior hospital do norte do país. Já consegue fazer um balanço destes primeiros dias do mês de novembro?

Sim, como é evidente, temos acompanhado diariamente a situação, que é uma situação muito dinâmica e podemos confirmar aquilo que é o impacto dos constrangimentos na resposta em termos de serviço de urgência externa no norte do país e o impacto que isso tem na nossa atividade hospitalar aqui no Centro Hospitalar Universitário de São João. Obviamente que tem sido um impacto muito significativo, fundamentalmente em três áreas: na área da cirurgia geral, na área da ginecologia e obstetrícia e na área da urgência, com particular incidência na medicina interna.

E, na prática, de que consequências é que estamos a falar?

Estamos a falar de um aumento muito significativo da atividade cirúrgica urgente, de doentes agudos, graves, que precisam de cirurgia geral e que, por falta de resposta nas unidades hospitalares, Unidade Local de Saúde do Alto Minho, Hospital de Braga, Hospital de Barcelos, Centro Hospitalar de São João, Centro Hospitalar da Póvoa e Vila do Conde, Unidade Local de Saúde de Matosinhos, são referenciados para o nosso serviço de urgência. E estamos a falar de doentes que têm patologia aguda grave, para a qual não existe alternativa, nem no setor público, nem no setor social, que não tem alternativa e que, como é evidente, têm que ser alvo de uma intervenção cirúrgica numa janela temporal para esses doentes que nós temos que saber priorizar os nossos recursos.

O que significa que os protestos que têm existido também noutros hospitais da região Norte acabam por ter também um impacto direto na atividade do Hospital de São João.

O Centro Hospitalar Universitário de São João é um grande hospital de referência do norte do país e o eixo de referenciação destes hospitais que eu acabei de referir. Naturalmente, que qualquer alteração ou diminuição da resposta nessas outras unidades hospitalares vai ter um impacto muito significativo no nosso hospital. Isso é evidente.

No caso do Centro Hospitalar Universitário de São João, imagino, por aquilo que fui lendo e por aquilo que fomos sabendo, que houve alguma dificuldade em completar as escalas de serviço. Nesse aspecto, como é que diria que está neste momento? Estão completas? Estão mais ou menos? Como é que poderia classificar esse ponto?

Nós, neste momento, à data de hoje, e estamos a falar de uma situação que é dinâmica e que tem alguma imprevisibilidade inevitável. A natureza da própria situação implica alguma imprevisibilidade. Mas à data de hoje, temos sempre conseguido completar as escalas e temos sempre conseguido dar resposta a estes doentes agudos graves. Ao darmos resposta a estes doentes agudos graves, temos que saber priorizar os recursos humanos para estes doentes. Nós, no Centro Hospitalar Universitário de São João, não tivemos reforço de equipas. Se nós estamos a dar resposta, é porque tivemos que nos reorganizar. E, como é evidente, implicou uma reorganização das escalas. Pontualmente, tivemos que adiar alguma cirurgia não urgente e, obviamente, que à medida que o tempo passa e à medida que esta reorganização das escalas vai tendo mais impacto, nós antecipamos a possibilidade de ter que adiar mais cirurgias e mais atividade programada. Neste momento, ainda não o fizemos em sede de plano de contingência, ou seja, até hoje não tivemos a necessidade de ativar nenhum plano de contingência para preservar esta assistência ao doente agudo grave, mas como é evidente, não podemos excluir nenhum destes cenários.

Roberto Roncon, a pandemia sabemos que foi um momento de grande estresse para os hospitais. Consegue fazer algum termo de comparação relativamente ao que se passa agora e aquilo que se passou durante a pandemia? Há algum paralelismo entre as duas situações que possa ser feito?

Se me permite a comparação, mas a questão também remete para uma comparação. Eu acho que quer numa circunstância, quer na circunstância da pandemia Covid-19, quer na circunstância desta crise que estamos a passar, porque estamos a passar, dúvida houvesse sobre a necessidade de termos um Serviço Nacional de Saúde forte, basta olhar para aquilo que aconteceu na pandemia Covid-19 e basta olhar para aquilo que está a acontecer para perceber a importância, para perceber que os portugueses precisam de um SNS forte. O segundo paralelismo é que, tal como na pandemia Covid-19, nós temos uma gestão que tem que ser dia a dia. Quando me perguntou há pouco o que é que tem que ser adiado, o que é que tem que ser programado, essa é uma avaliação que nós vamos fazendo dia a dia. Nós não conseguimos, como é desejável em qualquer instituição, nomeadamente em qualquer hospital, nós gostamos de prever o que vamos fazer daqui a alguns meses ou para o ano. Obviamente que em um contexto destes Temos que fazer uma gestão diária com muito diálogo com os chefes de equipe, direções de serviço, direções das unidades autônomas de gestão, exatamente porque existe muita volatilidade em tudo aquilo que acontece. Agora, há uma diferença significativa entre o padrão de sobrecarga da pandemia Covid-19 e o padrão de sobrecarga que nós temos agora em termos assistenciais. É que, ao contrário da pandemia Covid-19, em que a tipologia de doentes era uma tipologia relativamente uniforme e em que, portanto, era mais simples. Eu não estou a desvalorizar o que foi feito, porque foi extremamente complexo e extremamente difícil. Mas os planos de contingência que foram gizados durante a pandemia Covid-19, tinham por base uma previsão ou uma expectativa de sobrecarga numa patologia que era relativamente uniforme. E que sabíamos que tinha, predominantemente, impacto na área médica e, dentro da área médica, na área da medicina interna e na área da medicina intensiva, dependendo da gravidade da situação, se precisavam ou não de suporte ventilatório. Aqui é diferente. Aqui nós estamos a falar de contingências e de constrangimentos, que também são imprevisíveis, tal como na pandemia. Nós tínhamos as ondas pandêmicas e obviamente que íamos ter que adaptar. Agora, o problema é que nós, por exemplo, desde a semana passada, passamos a ter uma grande sobrecarga na área da ginecologia e obstetrícia, porque, como é público, a resposta do Centro Hospitalar Têm Quei Souza, reduziu-se drasticamente e houve um encerramento da maternidade. Portanto, como é evidente, nós subitamente passamos a ter uma sobrecarga e uma necessidade de reorganização interna para dar resposta a estas mulheres grávidas que não têm alternativas e que portanto temos que as ajudar. E obviamente que estamos a falar de uma tipologia de doentes e uma tipologia de serviço completamente distinto do doente cirúrgico, da cirurgia geral. Faz sentido o que eu estou a dizer? Isso tudo do ponto de vista da organização hospitalar, eu diria que tem uma complexidade e nuances muito diversas daquilo que aconteceu na pandemia Covid-19.

É uma exigência diferente, digamos assim.

Sim, eu diria que exige ainda maior transversalidade dentro do hospital.

Falou dessa questão das doenças respiratórias, Roberto Roncon. Sabemos que vem o inverno e que haverá maior pressão também sobre as urgências, porque habitualmente as pessoas têm tendência a ir às urgências com estes episódios de doenças respiratórias. Tem receio que a situação de pressão possa agravar-se agora nas próximas semanas com esta questão das doenças respiratórias?

Sim, eu acho que tem toda a razão na questão que coloca, mas eu era capaz de separar aqui dois planos que me parecem importantes. O primeiro plano é, inevitavelmente, o inverno vai trazer mais infecções respiratórias. Estas infecções respiratórias, na sua esmagadora maioria, vão ser infecções respiratórias ligeiras, que não implicam sequer internamento hospitalar e muitas delas nem sequer antibioterapia, apenas terapêutica de suporte e restrição da atividade laboral. Mas também vamos ter mais infecções respiratórias graves, isso é inevitável. O outro aspecto tem que ver com o excessivo recurso, que não é específico do inverno, da população portuguesa aos serviços de urgência, nomeadamente hospitalares. Isto acontece, é uma estatística objetiva, não é matéria de opinião, é matéria de facto, mas que tem várias causas. E eu tenho a perfeita certeza e a perfeita convicção de que os portugueses sabem que o Serviço Nacional de Saúde está a passar por um momento difícil, o próprio contexto político em Portugal está a ser muito complexo e, obviamente, que vão perceber este apelo de, para além do cuidado que costumam ter, ainda terem um cuidado adicional para não sobrecarregar um sistema que está neste momento a passar por uma grande sobrecarga. E estes momentos servem também para apelar a esta sensibilidade particular de recorrer, porque, na verdade, estas infecções respiratórias, na sua esmagadora maioria, não justificam uma vinda a um serviço de urgência hospitalar, nomeadamente como a urgência do Centro Hospitalar Universitário de São João. Não é bom para o sistema, mas também não é bom para o doente, que vai estar exposto a um serviço de urgência onde existem outros doentes com patologia muito grave. Aqui ninguém beneficia com este circuito. E apelar também aos portugueses para um especial cuidado, tendo em conta as circunstâncias por que estamos a passar, e estou convencido que todos perceberão a mensagem que estamos a querer passar.

Roberto Roncon falou do contexto político, que sabemos que nas últimas horas mudou bastante. De que forma pensa que isso poderá ter impacto nesta forma de protesto que muitos médicos, de forma até individual, têm aderido?

Sim, é uma questão muito relevante. Eu acho que lhe vou responder da maneira que acho que é a mais adequada. Eu neste momento sou diretor clínico do Centro Hospitalar Universitário de São João. Aqui mais do que ter uma opinião sobre como vamos ultrapassar do ponto de vista político, ou do ponto de vista laboral, ou do ponto de vista dos sindicatos esta fase, queria dizer que todos querem ultrapassar esta fase. Tenho a certeza que o Ministério da Saúde quer, os sindicatos querem, os médicos querem, todos os profissionais de saúde querem e acima de tudo, os utentes do Serviço Nacional de Saúde querem ultrapassar esta fase. Disso tenho a certeza absoluta, como também tenho a certeza absoluta que os meus colegas que manifestaram indisponibilidade para realizar mais do que as 150 horas de trabalho extraordinário anuais, querem um SNS melhor. Isto é uma dimensão. E a outra dimensão é: eu, enquanto diretor clínico, irei sempre fazer tudo o que estiver ao meu alcance para tentar equilibrar e para tentar respeitar ao máximo os meus profissionais. Nenhum hospital funciona se os seus profissionais não se sentirem motivados e respeitados. E preservar a assistência ao doente agudo grave, que essa não pode falhar, porque estes doentes não têm alternativas, são doentes que correm perigo de vida e que, portanto, devemos ter uma especial atenção e um foco particular nesta fase. É aquilo que depende de mim, tudo o resto não depende de mim.

Para terminar, Roberto Roncon, queria que nos deixasse uma proposta, uma sugestão, para que efetivamente este não seja o pior mês de sempre no SNS.

Repare, eu não tenho nenhuma proposta.

Não tem uma varinha mágica.

Não tenho uma varinha mágica. Mas há uma coisa que eu acho importante dizer: é que nós não vamos desistir. Nós, médicos, que sempre lutamos por um Serviço Nacional de Saúde e que demos a nossa vida a esta causa, porque o dia a dia não é fácil, as dificuldades são muitas, temos muito orgulho no país que temos e temos muito orgulho em viver num país que apesar das dificuldades que tem e apesar de não ter o PIB per capita mais elevado do mundo, não faz depender o acesso a cuidados de saúde condignos da condição económica ou social do cidadão. Isso é absolutamente inestimável. É um dos principais determinantes do orgulho que tenho em ser português. Não é o único, tenho muitos outros, mas este é um dos principais. E portanto, nós não vamos desistir. E tenho a certeza que se não desistirmos, tenho a certeza absoluta que vamos manter o foco, e o foco tem que ser um foco sempre em dois polos. No polo dos profissionais, porque sem os profissionais não vamos conseguir ter um SNS forte, não conseguimos. E estamos num mundo em mudança, que tem muita competição a nível internacional. Os nossos jovens médicos têm acesso ao mercado europeu, e existe uma grande crise. Também é importante transmitir isto aos portugueses, porque muitas vezes não é transmitido. As dificuldades por que nós estamos a passar em termos de recursos humanos na área da saúde em Portugal é transversal ao espaço europeu. Eu faço parte de um grupo de trabalho da União Europeia que está a tentar propor, de uma forma muito exploratória, políticas para reter os jovens talentos nos sistemas de saúde nacionais, porque é extremamente difícil. Não é um problema específico de Portugal. Temos que ter a coragem de identificar os problemas, mas também temos que ter a coragem de perceber que se quisermos reter os melhores, vamos ter que investir no SNS. E, por outro lado, não nos podemos esquecer dos nossos doentes. Os nossos doentes precisam de nós. A razão de ser das nossas instituições, do SNS, são os nossos doentes e, portanto, também não podemos perder o foco nos nossos doentes. E isso não pode acontecer. E uma palavra final, porque acho que isso também é muito importante, de agradecimento, porque ao longo destas semanas temos contado, no Centro Hospitalar Universitário de São João, com o profissionalismo inexcedível das minhas equipas. E volto a insistir, tem-se falado muito de burnout, tem-se falado muito de exaustão de profissionais noutras instituições. Eu tenho muito respeito por eles, são meus colegas, mas peço também que respeitem e peço também que tenham em conta o desgaste das equipas do Centro Hospitalar Universitário São João, porque, se me permitem, não tem sido nada fácil.

Roberto Roncon, muito obrigado pelo seu testemunho.

Um grande abraço.

Muito obrigado, um abraço. Até à próxima. Obrigado. Igualmente, obrigado.