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Mais um episódio de "O Pior Mês", programa da Rádio Observador dedicado à saúde. Está no ar durante este mês de novembro, indicado como possivelmente o pior de sempre. Hoje conversamos com Rui Teles, médico cardiologista de intervenção. Trabalha no Hospital de Santa Cruz, na região de Lisboa. Rui Teles, obrigado pela disponibilidade.
Muito obrigado pela oportunidade de estar aqui neste programa.
Estamos mesmo no pior mês?
Anticipadamente, anuncia-se que sim. Possivelmente, diria que sob o ponto de vista do que é a emergência médica e a urgência, sim. Mas o SNS tem outras vertentes que não apenas essa, naturalmente. Portanto, sob esse ponto de vista, claramente que sim, porque estamos num momento em que há potenciais ruturas e que são verdadeiramente reais. Nalgumas áreas nós já temos essa noção, mas em termos globais, podemos dizer que o SNS é um pouco mais do que apenas isso. Portanto, sob o ponto de vista daquilo que estamos a frisar e que salta à opinião pública, obviamente que há preocupações, porque verdadeiramente, a questão da urgência e da emergência é aquela que não depende de ninguém em termos daquilo que são os seus potenciais recursos, porque cada um de nós quando vai numa estrada ou tem alguma coisa inesperada, por exemplo, um enfarte agudo do miocárdio, não é por ter um seguro ou deixar de ter um seguro ou por ter acesso a outras estruturas que vai ser melhor socorrido. É o SNS, é a emergência médica, que nos vale a todos e portanto, quando estamos perante esse cenário, é a organização de um país em termos de Serviço Nacional de Saúde que nos vai valer, independentemente dos recursos que possamos ter, seja quem for. E portanto, nesse sentido, esta é a pátria universal que o Sistema Nacional de Saúde pretende dar, que é uma herança daquilo que foi o pós 25 de Abril, é uma herança da cultura europeia e essa universalidade é expressa exatamente nesta oferta do serviço de urgência e de emergência médica.
Concretizando aqui no Hospital de Santa Cruz, que complicações, que dificuldades têm tido nestas semanas? Já estamos também neste mês de novembro.
Devo frisar que eu não sou apenas um médico que trabalha no Hospital de Santa Cruz, trabalho em hospitais privados, em atividade privada há mais de 30 anos e portanto, a minha perspectiva não é necessariamente apenas aquela que me situa no Hospital de Santa Cruz. Neste momento, estamos numa fase em que, sob o ponto de vista daquilo que é uma das coisas mais positivas que temos em Portugal, que se chama via verde coronária. A via verde coronária, para o público em geral, é aquela que permite quando a pessoa tem alguma situação potencialmente aguda na parte cardíaca e que requer um cateterismo, portanto, um tratamento através de um cateter para desobstruir uma coronária. Esse tipo de via verde coronária, que cobre praticamente todo o território português e em que fazemos mais de 4 mil procedimentos por ano em Portugal. Essa via verde coronária é assegurada por equipas de urgência e intervenção e, até à data, está a ser assegurada em pleno. Há alguns pontos de potencial rutura, na medida em que a via verde coronária, que é a via verde exemplar a nível português e até europeu, pelos resultados que temos e porque sabemos os resultados que temos, é uma via que, sob o ponto de vista do tratamento do SNS, tem tido alguma discriminação relativamente a outras vias e, portanto, os médicos que trabalham nestas vias verdes coronárias sentem-se discriminados. E à parte daquilo que é a situação pública, há também aqui um trabalho que está a ser feito. Nós contamos que a tutela também o contemple no sentido de dar as condições para que a via verde coronária, que é até agora exemplar, se mantenha exemplar a nível português. Ou seja, quer dizer que neste momento tudo está a correr bem e contamos que ela continue a correr bem no futuro, se as condições que nos forem dadas forem aquelas que normalmente já são dadas a outras áreas.
Sim, esta crise no setor da saúde está a adensar-se muito também por causa dos pedidos de escusa de médicos que se recusam a fazer mais do que as 150 horas anuais de trabalho extraordinário. Tem muitos colegas nesta situação que tenham feito esse pedido de escusa? Tenho conhecimento de vários casos desse tipo e olhando para o Hospital de Santa Cruz, mas outros colegas, de outros hospitais.
Tenho conhecimento de diversas áreas em Portugal onde esse pedido de escusa já entrou e que já está a limitar a atividade da cardiologia e da via verde coronária. E, portanto, não é uma situação rara. Há vários pontos do país onde ela já está a acontecer. Desde logo, devo dizer que atempadamente, cada uma das administrações dos respetivos locais foi informada do que poderia vir a acontecer. Essas administrações tomaram a devida nota e terão, digamos, feitas os demais junto da tutela para se precaverem quanto a esta situação, mas até à data, como é também notório a nível das 105 horas em termos de português, a situação não está resolvida e, portanto, progressivamente, é de admitir que possa vir a acontecer um agravamento desta situação. Neste momento, eu diria que durante o mês de novembro deve haver progressivamente um agravamento dessa situação e potencialmente as coisas podem se tornar mais graves ainda em dezembro, mas estamos a falar especulativamente. Nesta fase, à data de hoje, diria que a grande maioria das vias verdes coronárias ainda estão a ser asseguradas e que as pessoas que estão a trabalhar na carta de intervenção, não só os médicos, os enfermeiros, os técnicos, estão a manter o serviço a funcionar de acordo com os pergaminhos, que são excelentes e porque nós temos, de facto, uma resposta excelente nessa área e queremos mantê-la. As pessoas não estão interessadas, de maneira nenhuma, em perder aquilo que já são 20 anos De uma área de referência em Portugal que tem a ver com a emergência hospitalar, como eu estava a referir.
Eu compreendo que os médicos, nesta área da cardiologia, não queiram perder tudo isso que estava a descrever e todo esse trabalho, mas com esta crise no setor da saúde e uma situação que parece recorrente, estarmos constantemente a falar de problemas neste setor, não começa a surgir uma desconfiança por parte dos utentes perante aquilo que pode ser os serviços prestados pelo SNS?
Olhando para aquilo que é o SNS, eu acho que nós temos que reconhecer que aquilo que estamos a falar é crítico, obviamente, para o futuro do SNS, que tem a ver com o senhor fala da urgência hospitalar e a emergência, que são um legado que não depende de nenhum português, nem dos seus bens materiais para conseguir aceder aos mesmos. Mas há coisas que são importantes nós reconhecermos. Nós temos em Portugal uma certa universalidade de acesso ao SNS. Tivemos um programa de resposta ao Covid e um programa nacional de vacinação que é excelente e exemplar, e temos coisas como a via verde coronária que são excelentes. O que está em causa neste momento são coisas que nós situamos sob o ponto de vista laboral, nesta questão das horas suplementares e tudo mais, mas são coisas que são muito mais abrangentes que esta questão, para mim, na minha ótica, tem a ver com a acessibilidade das pessoas aos médicos de família e às consultas hospitalares, com as listas de espera que têm para alguns procedimentos hospitalares quando eles são necessários. E estes dois aspetos, a acessibilidade e as listas de espera, têm muito a ver com a desorganização e a falta de eficiência que o SNS apresenta atualmente, que é uma situação que decorre há longos anos, não é apenas de hoje. Agora agrava-se porque à medida que as pessoas vão atingindo um ponto de rutura, ficam incapazes de suprir as carências estruturais que o próprio SNS apresenta. Nós temos que, por exemplo, referir, eu acho que os médicos obviamente são uma parte crucial desta questão e ninguém pode dizer que os médicos não têm responsabilidade no estado atual do SNS, mas a questão é saber que mesmo se os médicos fossem perfeitos, que ninguém é, se o SNS funcionaria na perfeição. A resposta, obviamente, é não, não funcionaria de forma alguma na perfeição. Por quê? Porque nós temos um problema sério de eficiência, como eu estava a dizer. Eu, por exemplo, posso dizer que a eficiência que eu apresento atualmente, passado quase 30 anos de começar a trabalhar, sob o ponto de vista daquilo que é o número de consultas que eu posso fazer por semana, é mais ou menos igual. Não é o que eu posso, eu pretenderia fazer muito mais, mas nunca ninguém me dotou das condições, nem a mim, nem a ninguém, médicos, enfermeiros, técnicos, para utilizar o meu tempo de uma forma mais eficiente para poder fazer, por exemplo, o dobro, que não era nada complicado.
Quando diz que não é nada complicado, o que é que tem que mudar para isso acontecer?
O que temos a falar, por exemplo, que nós neste momento temos cerca de 50% a 60% das pessoas de cada centro hospitalar que são as pessoas da frontline. Estou a falar de médicos, estou a falar de técnicos, estou a falar de enfermeiros, por exemplo. E essas pessoas, quando estão a desempenhar as suas funções, apesar da enorme evolução dos serviços de informação, aquilo que se chama normalmente de informática, despendem um tempo precioso, por exemplo, com burocracias que normalmente em qualquer empresa ou qualquer estrutura são feitas pelas pessoas que são vocacionadas para isso, os chamados assistentes operacionais. Nós não temos normalmente ninguém que nos ajude nestas coisas. Por exemplo, é frequente eu despender 10 minutos a preencher um papel em vez de estar a falar com o meu doente.
Trabalha também no serviço privado, isso no serviço privado funciona dessa maneira como diz?
No serviço privado, há claramente uma melhoria nesta matéria. Se me perguntar se o serviço privado em Portugal é a perfeição em todos estes aspetos que eu estou a falar, dir-lhe-ei que, obviamente, não é, porque isto é um problema também que decorre de outras questões que não têm a ver com esta questão pura e simples, tem a ver com a forma como há uma organização que foi desenvolvida desde há 40 anos a esta parte, quando a saúde se começou a desenvolver e, portanto, nesse aspeto há coisas que ainda, mas há uma diferença substancial entre aquilo que é a eficiência que nós apresentamos nalguns aspetos versus aquilo que é a atividade privada, que não tem a ver com os hospitais privados, tem a ver até com, diria que se calhar o expoente, muitas vezes são clínicas que têm uma organização muito pior do que o SNS. E não é difícil, como eu estava a dizer.
Sim. Na sua área de especialidade, cardiologia, imaginar o caso de um utente, alguém que tem problema cardíaco de um momento para o outro, são coisas que acontecem. Esta situação destes problemas no setor da saúde, principalmente na urgência e na emergência, que foi como disse que é onde se sente mais estes problemas durante este período, principalmente por causa desses pedidos de escusa também. Como é que um utente encara o SNS perante tudo isto que estamos aqui a falar? Se tiver um problema cardíaco, ter que dirigir ao SNS, pode ir confiante que vai receber um bom serviço e que vai receber o serviço?
A pergunta que me está a fazer é totalmente pertinente, mas eu devo lhe dizer que neste momento é impossível dar-lhe uma resposta concreta, porque o que estamos a falar, e foi assim que introduziu aqui a nossa conversa, foi que durante o mês de novembro se vão agravar progressivamente as condições que estão a acontecer. E infelizmente, e é isso que diria que se calhar é o paradigma daquilo que eu acho que nós temos em Portugal, às vezes, na escassez de planeamento e talvez até uma certa falta de sentido de Estado Quando olhamos para diversas, independentemente das cores ou das forças políticas, há situações que são transversais e independentes das cores com que nós somos governados. Portanto, tanto se falamos da saúde, da educação, da justiça, o que vemos é que o planeamento, esta situação que nós estamos a ver hoje, em 2023, era totalmente antecipável. E é antecipável não há cinco anos, é há 20 anos, porque o número de médicos que trabalham em Portugal ou de enfermeiros, são situações que se ninguém previu, o trabalho deles era prever. Portanto, o que eu digo é que a situação em que nós estamos a chegar repentinamente em 2023, como se fosse repentina, não é nada repentina. Eu recordo-me que quando, há 30 anos, como médico, falei com as pessoas que estavam a gerir o futuro mapa de especialistas em Portugal. Eu fiz a pergunta, ingénua na altura, como é que estavam a calcular o número de especialistas que iam ser necessários para Portugal em radiologia, em pediatria, em cardiologia. E a resposta que eu ouvi na altura foi: "Nós não sabemos, nós achamos que vai ser assim". E eu acho que esta resposta ainda é contemporânea, de certa forma, infelizmente, porque nós não sabemos quantos especialistas, provavelmente, é que vamos precisar em cada área e não nos dotamos a tempo e horas de fazer a formação. E os médicos, ou outras áreas, mas os médicos em particular, como são formações muito longas, é muito difícil agora dizer, mesmo que haja uma atitude de dizer assim: "Agora vamos formar o dobro de médicos". O dobro de médicos só saem cá para fora daqui a seis, oito anos. Portanto, nós estamos a falar de uma situação que não vai nos resolver no curto prazo.
Está me a dizer que é um problema de gestão e é um problema também de planeamento, de previsão daquilo que é o futuro do SNS.
Há, naturalmente. Todas as pessoas que trabalham nesta área sabem isso. E a questão é porque esta questão tem a ver com uma perspetiva longitudinal daquilo que nós fizemos para os vários setores. Ninguém pode governar e resolver o SNS em dois ou quatro anos, como é óbvio.
Mas, Dr. Rui Telmo, o que é que dizemos a esse utente que acabou de ter um problema cardíaco?
Eu acho que os utentes, nesta fase, hoje, na sua grande maioria, continuam a ter, do ponto de vista daquilo que eu conheço, em particular que se chama via verde coronária, uma resposta plena. Isso eu posso dizer. Não posso dizer que seja tão plena como era há um mês e tenho algum receio que ela daqui a um mês possa ser pior, mas também tenho a esperança, porque está a haver, e porque a tutela, eu acho que a tutela é independentemente, e digo isto com toda a franqueza, independentemente das cores que se possam defender, a tutela é responsável e sabe o que está em causa. Obviamente que os recursos não são infinitos e as atitudes que vão ser tomadas têm de ser responsáveis, mas também é preciso ter a noção de que a situação em que nós vivemos é uma situação que não nasceu agora, que foi devidamente e atempadamente comunicada à tutela pelas várias estruturas, desde órgãos médicos aos sindicatos, às próprias associações profissionais, e a tutela não pode dizer que esta situação lhe está a ser colocada em 2023. É essa a única coisa que eu digo. Portanto, neste momento, sob o ponto de vista prático, quando me pergunta, e é isso é que interessa, se uma pessoa vai a um serviço de urgência, primeiro, todos os dias, como sabe, os serviços de urgência estão a mudar. Nós nem sequer sabemos verdadeiramente quais são os que estão a funcionar bem, mais ou menos bem ou mal, porque não é público nem vai ser, porque por natureza, a forma como as coisas estão montadas, não nos permite saber ao utente isso em pleno. Sabemos que se ligarem o 112 para uma emergência médica, o INEM vai dar resposta para levar as pessoas ao serviço que estiver disponível para o tratar melhor. E no caso em concreto, no que eu estou a falar, que é via verde coronária, ela está a funcionar, na grande maioria, bem. Já há centros que não estão a funcionar em pleno, mas como ainda temos uma grande cobertura geográfica, conseguimos comutar uns aos outros. Diria que essa situação daqui a um mês, um mês e meio ou dois, não é necessariamente assim.
Uma última questão, em 30 segundos, Dr. Rui Telmo, uma sugestão, uma proposta para ajudar a resolver os problemas no SNS?
Olhe, digo três linhas, muito simples. Primeiro, que nós temos sistemas que não são universais, mas que são um modelo que funciona. Por exemplo, o esquema da ADSE, que é similar, por exemplo, ao Sistema Nacional de Saúde Francês e outros, são modelos em que as pessoas podiam ter autoridade de escolha. E essa é a primeira. A segunda é que não é possível nós continuarmos em Portugal a desperdiçar os recursos como desperdiçamos em Portugal. Nós, cada um de nós, eu, qualquer outra pessoa, pode fazer análises, ecocardiogramas, ecografias, RXs, repetidamente sustentados pelo SNS, se for preciso de um em um mês. Por quê? Porque não temos um sistema de informação que congregue toda a informação, desde os públicos até aos privados, como outros países o fazem. Portanto, é desnecessário repetirmos os exames permanentemente como fazemos em Portugal. E finalmente, temos uma coisa crítica para fazer em Portugal, é que nós temos que renovar o nosso parque hospitalar. O último hospital que foi construído foi em 2012, que é o Beatriz Ângelo, e nós, nas áreas mais críticas, que são a doença cardiovascular e a doença oncológica, carecemos, em particular na área cardiovascular, de ter registos clínicos obrigatórios para documentar a qualidade dos atos processados. Nós temos que saber o que estamos a fazer em Portugal, e isso seria a melhor forma para premiar aqueles que trabalham melhor. Não é através do marketing que se faz, enfim, mediático e outras coisas. É no terreno, saber quais são os centros em Portugal que conseguem tratar bem os doentes que têm uma doença coronária, que têm uma estenose aórtica, uma válvula aórtica e outras doenças que são muito comuns, mas que, na prática, ninguém sabe os resultados porque o Estado não faz a monitorização sistemática e nem premeia quem faz o melhor trabalho.
Dr. Rui Telmo, muito obrigado.
Muito obrigado, Leo. Muito boa tarde.