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Porra, que merda é esta? "Deixou cair uma camisa do estendal, consegui enfiá-la na sua caixa de correio. Atenciosamente, João Rodrigues, segundo esquerdo".

Estou?

Estou, João, bom dia.

Então?

Apanhei um cagaço do caralho agora.

Como assim?

Tinha um papel no para-brisas do carro.

O quê? Uma ameaça?

É, eu pensei logo nisso, mas não. Acho que deixei cair uma camisa do estendal. Era um bilhete do meu vizinho de baixo.

Ok. Vamos lá, vais trabalhar?

Não. Vou sair de Lisboa.

E vais para onde?

Vou estar em notícias.

Vamos lá, Joana, eu preciso saber-- Joana?

Estou, Balsinha. Como é que está, meu irmão? Tudo certo? Nada, cara. Não sabem nada do gajo. Estou em casa jogando PS. Nada, esquece. Como se o cara tivesse evaporado. Beleza. Não, se eu souber de alguma coisa, eu te falo. Olha lá, sábado que vem, a gente está-- Foda-se! Que merda é essa? Uma pedra? Quem é que... Balsinha, mano. Balsinha, acabaram de partir o vidro do meu quarto à pedrada, "man". Juro! Espera aí. A pedra está fez uma cena agarrada, "man". Tem um papel. "Os impérios caem. E quando caem, a história julga-os pelo seu legado. O Zé foi o primeiro. Prepara-te". Puta que pariu, "man". Puta que pariu, o que eu faço, caralho? Isso é uma ameaça de morte, porra! O que eu faço?

Viva. Queria falar comigo?

Desculpa incomodá-lo, seu inspetor. Mas é que aconteceu uma coisa.

Que coisa?

Eu recebi uma ameaça de morte. O "Zé Faz 25" é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios, uma coprodução Coiote Vadio e Observador, da autoria de Davi Neto e Manoel Pureza, com as vozes de Thiago Teotônio Pereira, Paulo Calatré, Madalena Almeida, Beatriz Godinho e a minha, Rafael Medrado. A música do genérico é de Arthur Costa. Episódio sete: Amigo da Onça.

Querem mesmo saber o que aconteceu ao Zé? Nós também queremos. Foi por isso que entramos nesta aventura. Deixamos a ficção para os guionistas e os atores. A nossa parte é fazer com que seja possível viver uma aventura todos os dias. Foi por isso que criamos o Citroën C3 Air Cross, um SUV pronto para tudo, confortável para todos. Citroën C3 Air Cross. Ninguém resiste ao conforto.

Foi do nada. Eu estava falando no telefone com um amigo e aí, de repente, essa porcaria entra na minha janela dentro.

Você disse que era a janela do seu quarto, certo?

Sim, exatamente. Eu estava tranquilo, fazendo minhas coisas e por acaso não me acertou nem nada. Mas é uma pedra. Quer dizer, poderia...

Francisco, suspeita de alguém?

Eu?

Sim.

Não sei. Não. Não. Que merda tudo isso.

Vamos por partes. A ameaça é pouco clara, apesar de ligá-lo ao José Valbom, disso não há dúvida. Mas há qualquer coisa que vocês têm em comum e que serve de justificação para este aviso?

O Zé é um dos meus melhores amigos. Eu e ele fazemos tudo juntos. Tudo, completamente. Eu já quebrei a cabeça pensando no que poderia ser, mas seja o que for, não dá em rápido, em ameaças dessa, porra! Porra, o Zé.

O Francisco sabia que mais tarde ou mais cedo isto ia chegar a si, não sabia?

Desculpa?

Há várias coisas que os juntam, a si e ao José. Se eu lhe mostrar aqui uma troca de mensagens entre si e ele, em que avaliam as caloiras e definiam os vossos alvos, consegue imaginar que isto seja no mínimo, condenável?

O inspetor vai me desculpar, mas essas mensagens, além de privadas, são apenas isso. Ok? Mensagens trocadas com um amigo. Daí não resultou absolutamente nada que pudesse provocar isso. Nenhum de nós provocou nenhum crime, que eu saiba.

Não foi isso que me ouviu dizer, Francisco. Eu só estou aqui a sublinhar que vocês faziam várias coisas juntos. Vocês diziam coisas um ao outro e trocavam mensagens um com o outro. E sim, nós tivemos acesso às vossas mensagens. E que poderiam ter, eventualmente, provocado uma reação menos católica por parte de alguém.

É o melhor que o senhor tem, inspetor? O meu melhor amigo está desaparecido e eu sou ameaçado dessa forma e você está querendo insinuar que pode ter sido tudo por causa de umas mensagens porcas que eu troquei com ele?

Calma.

Como todo e qualquer amigo. Não, o senhor me desculpe.

Calma, Francisco.

Mas eu gostaria de falar com o superior. Não é possível! Isso é inacreditável, porra!

Calma!

Desculpa.

Em setembro de 2024, o José gravou este vídeo.

Olha a cara dela agora.

O que mais me intriga neste vídeo, Francisco, nem se quer é ver uma caloira ter relações sexuais com um aluno mais velho. Pronto, até aí, tudo bem.

Filma agora.

É que aqui, a página estantes, eu consigo ver o José e a Luísa, mas há mais alguém no quarto.

Olha pra cá. Não, foca a gaja. Cala a miúda.

Ok, pare o vídeo. Eu não estou a desvalorizar aquilo que lhe aconteceu. Agora, depois de lhe atirarem uma pedra pela janela, de lhe mandarem um aviso destes, não é difícil concluir que o José e o Francisco faziam muito mais do que andar juntos.

Eu não sei o que o senhor quer que eu diga.

Francisco, como deve compreender, eu estou apenas à procura de responder à pergunta de quem é que poderá ter alguma coisa contra vocês.

Mais uma vez, inspetor, eu acho que o senhor não está enxergando as coisas pelo lado certo. A Luísa quis fazer esse vídeo. Não houve nunca nada que se tivesse passado, que não fosse absolutamente do consentimento dela. E desculpa, eu não entendo o que uma coisa tem a ver com a outra.

Eu sei que o Francisco nunca me vai contar tudo o que sabe porque acha que está a proteger o seu amigo. Acredite, eu estou ciente disso. Mas fique a saber que isso é uma estratégia muito má e que não ajuda em nada, muito menos nos vai ajudar a encontrar o seu amigo José.

Sr. Inspetor, eu acabei de ser ameaçado. O senhor não acha que é do meu interesse também não ser raptado? Foda-se!

O José devia dinheiro, muito dinheiro, e pelos vistos, a pessoas muito pouco recomendáveis. Diga-me lá, Francisco, o que sabe sobre isto?

Não sei.

Não sabe?

Não.

Não sabe o quê, Francisco?

Eu não sei a quem ele devia dinheiro. O Zé não comentava essas coisas comigo.

Então, pô, essa merda não anda?

Calma, Zé Cavaleiro. Estás irritado?

A Mônica pediu pra gente chegar cedo. Lá vai estar lotado. Caralho.

Qual foi?

É o Pedro, está em cima de mim por causa daquela merda.

Do fim de ano?

Ya. Apareceu bué menos gente do que estávamos à espera. E o cara agora quer a grana porque está a ser cortado e eu não tenho a grana pra lhe dar.

Zé, não se meta de esperto com o cara, brother.

O que queres que eu faça? Não tenho grana, não tenho a cena.

Pede pro seu pai.

Ya, pai, arranja-me aí 30 mil paus pra pagar a droga do festão de fim de ano e dos dois meses seguintes, que eu devia ter vendido e não consegui. Às vezes é mesmo estúpido como o caralho, não é?

Isso vai dar merda.

Não vai nada. Está controlado.

Eu não curto o Pedro, man. Não sei, não curto o cara.

Não precisa. Está se bem. Agora vira aí à esquerda.

O Zé tinha sempre muitos esquemas, mas nunca metia ninguém no bagulho.

Esquemas quer dizer o quê? Droga, por exemplo?

Talvez. Não sei lhe dizer.

Já calculava.

É ela que conta?

Diga-me uma coisa. Lembra-se de um colega seu, Luís Godinho?

Luís? Luís Godinho. Não sei. De nome, assim, não.

Francisco, você entra aqui a pedir ajuda, mas está a fugir feito maluco. Quer que lhe avive a memória ou vamos começar a falar?

Não há queixa. E isso vai me deixar mais tranquilo? Você está maluco, porra. Isso pode nos arrancar de caro. Meu, calma. É praxe. É tradição.

Pare. Pode parar.

Precisa de alguma coisa?

Poupe-me o sarcasmo, inspetor. Eu sei bem quem é o Luís Godinho.

Em 2024, no início do ano letivo, houve uma praxe que foi longe demais, certo?

Sim.

Importa-se de elaborar o que se passou?

Tudo aqui agora, que agora a caloiragem vai ganhar pelo pé. Aqui o nosso alentejano, o Godinho, vai ter uma história pra contar aos netos. Estás preparado, alentejano de um cabrão? Então vai. Temos aqui esta garrafinha com uma mistura que eu fiz e ela está a chorar pra ser mandada abaixo. Como é que vai ser? Vamos amedrinhar e ter o ano arruinado ou vamos ficar o topo dos-

É normal meter cachaça nos putos. E não é preciso muito. Às vezes eles e elas dizem que não querem, mas rapidamente estão a beber um shot ou coisa assim. Naquele dia, o puto Godinho nem falava e o Zé estava nervoso, não sei. Parecia que ele queria que desse merda de alguma forma. Descobri meses depois que tinha calhado no dia em que a mãe dele tinha sido diagnosticada com um tumor. Talvez por causa disso, o gajo estava imparável. Meteu o puto a beber uma mistura que ele tinha feito. Fogo, levava de tudo.

Presumo que não fosse só álcool.

Sim, não era.

E ele bebeu de livre vontade?

Não.

Bom, isso bate certo com o relatório médico. Na altura, segundo apurei, o Luís Godinho não apresentou queixa. Também foi deixado em relatório que não o fazia por medo de represálias no ambiente acadêmico. Agora, na gravação do telemóvel do José, o Francisco parece mais nervoso do que ele. Por quê?

Eu prendi o Luís Godinho na cadeira e os colegas dele também, até ele cair redondo no chão sem respirar.

Espera aí.

Indivíduo do sexo masculino, 19 anos, sem aparente resposta respiratória. Início do procedimento de reanimação.

Equipa de emergência do São Francisco Xavier em standby. Digam a localização e hora de chegada.

Como é que se chama o teu amigo?

Luís Godinho. Eu não sei mais nada. Merda!

Rápido!

Eu acompanhei o Godinho ao hospital na ambulância e no carro ao lado ia o Delgado.

Felipe Delgado?

Sim, acho que sim. É namorado da irmã do Zé. Ele era da turma do Godinho.

Sabe de uma coisa? Eu só não entendo é por que o Francisco fez tanta questão de ir na ambulância.

Era o mínimo que eu podia fazer.

Vocês agora ficam aqui. Assim que houver novidades, nós avisamos.

Me dá um cigarro. Filha da puta! Eu parto vocês todos, filho de uma cabra! Vocês mataram o meu filho. Eu vou matar vocês todos.

Calma, porra, calma!

Eu não fiz nada.

Calma! Primeiro você vai respirar. Calma. Vê se mantém o bico calado, você está me entendendo? Se eu por acaso souber que você abriu a porra da sua boca com o que acabou de acontecer, você vai se arrepender pro resto da sua vida.

Solta, filho da puta. Solta!

Calma. Eles já não sabem o que aconteceu. Você não sabe quem é que fez isso. Vamos seguir com a bola pra frente. Você está me entendendo do que eu estou falando?

Larga-me, solta, larga-me.

quietinho. Ouviu o que eu disse? Você está ouvindo o que eu estou dizendo? Calma.

Eu fiquei me sentindo mal com aquilo tudo. Eu sabia que não estava certo.

Como não houve queixa.

Exatamente. E o Godinho foi de Erasmo um pouco depois, eu nunca mais soube nada dele.

Bom, senhor Francisco Guedes, fazemos o seguinte: não desvalorizando o que lhe aconteceu, eu diria pra não ficar preocupado. Ainda assim, caso haja alguma novidade que ache importante partilhar, eu pedia que entrasse em contato conosco, ok?

E o Zé?

Haja novidades, nós partilhamos a informação com a família. Agora, se não se importa.

Não, claro que sim. Senhor inspetor, traz o meu amigo de volta.

Força. Sim? Margarida? Aconteceu alguma coisa? Está tudo bem?

Sim, inspetor.

Margarida, o que se passa? Teve novidades do seu irmão?

Não.

Eu não estou a perceber por que me está a ligar.

Eu preciso falar consigo, mas não por telefone.

Ok, posso ir ter consigo onde disser.

Dentro de uma hora na estação de serviço de Oeiras, sentido Cascais-Lisboa. O meu carro é um Smart vermelho.

Ok. Margarida, pode dizer se precisa de ajuda?

Sim.

Olá, Sofia, sou eu. Era só para te pedir para combinarmos um dia para eu passar aí para tirar as minhas coisas de casa e deixar-te a chave. Espero que estejas bem. Até logo. Joana?

Então, tudo bem?

Como é que estás tu?

Dorida.

Imagino. Eu avisei-te, caraças.

Cândido, para lá com isso, por favor.

Ok.

Eu...

O que é que se passa? Precisas de alguma coisa?

Eu vou-me embora.

Como assim? Vais desistir?

Não vale a pena, Cândido. Estão em todo lado. O polvo é muito maior do que uma pessoa imagina. Até aí, na redação, parece que voltámos a andar com mil olhos no corpo, na nuca, nas costas. E eu estou cansada.

Queres que vá aí ter contigo a casa?

Não, não quero ver ninguém. Quero é sair daqui e não voltar.

Joana, tu tens uma oportunidade do caraças de ter a reportagem que sempre quiseste fazer, a reportagem, aquela que te ia fazer finalmente dar o salto. Qual é a tua?

Eles conseguiram entrar na minha própria casa, Cândido. Na minha própria casa, porra! É assim tão difícil de perceber? Eu não consigo sair à rua. Eu não consigo sair à rua sem estar constantemente a olhar por cima do ombro. Tu sabes o que isso é? Tu sabes lá o que isso é!

Desculpa. Joana, eu só quero que estejas bem. Se não consegues fazer a reportagem agora, ok, não faças. Mas quero que saibas que o que já conseguiste reunir é extraordinário.

Tu és um bom amigo, Cândido. Eu vou ter saudades tuas. Vemo-nos lá mais para a frente, tá? Obrigada por tudo.

Então, não sejas parva.

Estou?

Então, eu já estou a chegar.

Já estás aí para lá?

Sim. É só daqui a duas horas e meia, mas eu decidi vir andando. Estou um bocado nervoso.

Não estejas.

Guigas, não fiques assim. Não vai acontecer nada.

Eu estou a começar a ficar bué preocupada com ele.

Ele está bem, de certeza.

Ok, mas eu não estou a conseguir.

Calma, respira.

Eu não consigo.

Guigas.

Desculpa.

Tudo bem.

Achas?

O teu irmão foi raptado, ponto. Ninguém tem de saber o que é que aconteceu.

O "Zé faz 25" é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios, produzido pela Coyote Vadio e pelo Observador. Escrito por David Neto e Manuel Pureza, com realização de Manuel Pureza, direção de elenco de Rita Tristão de Silva e direção de som de Jonathan Costa. A sonoplastia e a música do genérico são de Artur Costa. Paulo Calatré é João Durães. Beatriz Godinho é Joana Magalhães. Tiago Teotónio Pereira é Zé Valbom. Madalena Almeida é Guigas e José Raposo é Vicente Valbom. Sara Matos é Inês, Vicente Wallenstein é Delgado e Helena Caldeira é Luísa. Rafael Medrado é Guedes e Cristóvão Campos é Pedro. Carla Maciel é Sofia. Miguel Pires é Cândido. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A coordenação do projeto é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. Obrigado por ouvirem. Voltamos no próximo episódio de "O Zé faz 25", disponível no site do Observador e em todas as principais plataformas de podcasts. E se virem o Zé, por favor, avisem.

Este podcast de ficção tem o apoio da Citroën.