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Olá, bem-vindos ao terceiro episódio do programa "Only the Best". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está João Carvalho Dias, diretor adjunto do Museu Calouste Gulbenkian. Este programa é quinzenal e resulta de uma colaboração entre o Museu Calouste Gulbenkian e a Rádio Observador. O objetivo é falar da história por detrás de uma das mais importantes coleções privadas de arte de todos os tempos. A coleção que o homem de negócios de origem armênia, Calouste Sarkis Gulbenkian, reuniu durante uma vida inteira e que é hoje a base do Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Foi uma coleção que Gulbenkian reuniu entre o fim do século XIX e meados do século XX e que o fez percorrer como colecionador muitos tempos e lugares, do Egito dos faraós à Paris do modernismo. "Only the Best" é uma frase de Gulbenkian para resumir o critério com que fez a sua coleção. Aqui vamos seguir Gulbenkian nessa viagem, a propósito de algumas das mais importantes peças da coleção e descobrir de onde vieram as peças, o que motivou o interesse de Gulbenkian e como foram adquiridas. São histórias fascinantes, como verá. Bem, João Carvalho Dias, neste terceiro episódio vamos tratar de um dos grandes momentos da vida de colecionador de Calouste Gulbenkian, a oportunidade que ele teve de ir às compras a um museu. Exatamente. Esse museu era o do Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. O Museu do Hermitage tinha, e tem, uma das maiores coleções de arte da Europa, começada a reunir pelos czares da Rússia. Bem, em março de 1917, o império dos czares caiu, veio uma república e, em novembro de 1917, os bolchevistas de Lênin derrubaram essa república e instalaram uma ditadura que poucos anos depois fundou a União Soviética. E é por volta de 1928 que a União Soviética descobre que precisa de dinheiro. E a venda parcial da coleção de arte dos czares pareceu um bom meio de arranjar dinheiro no estrangeiro. O governo soviético resolveu assim pedir ao museu uma lista de obras de arte que podiam ser exportadas, de modo a chegarem a um valor inicialmente calculado em dois milhões de rublos. E entre 1929 e 1934, o governo soviético vendeu, ou terá vendido, mais de duas mil obras de arte da coleção do Hermitage, incluindo 250 pinturas, entre as quais obras de Rafael, Ticiano, Botticelli e Rembrandt. A venda foi secreta entre 1929 e 1933, até a imprensa ocidental ter descoberto que algumas das mais famosas obras de arte do Hermitage estavam a aparecer em coleções e museus ocidentais, como a Crucificação, de van Eyck, no Metropolitan Museum of Art, Nova York. Ora bem, indo à participação de Gulbenkian neste negócio, onde é que estava Calouste Gulbenkian nestes anos? Como é que ele soube da venda antes dos outros, já que Gulbenkian, não é, João Carvalho Dias, foi um dos primeiros compradores.
Exatamente. Quem chega primeiro, de alguma forma, tem sempre esse benefício. De facto, os números são alucinantes. Há quem avance que foram dezenas de milhares de obras, e isso é extraordinário, entre as quais milhares de pinturas, mas é muito difícil nós sabermos ao certo, porque, como disse e muito bem, tudo isto foi rodeado de grande secretismo, ainda que no caso da coleção adquirida por Gulbenkian, as obras adquiridas por Gulbenkian, existem faturas, portanto, existe vasta correspondência, como tudo aquilo onde ele se envolvia, havia sempre uma prova documental e, de alguma forma, mesmo que não houvesse prova, ele redigia e, portanto, as coisas ficavam muito claras. E o que nos dá um certo conforto também enquanto legatários da sua coleção e também como zeladores. Temos esse respaldo, digamos assim.
Provas da compra, venda, das transações.
Transações, a correspondência entre os diversos protagonistas. Eu julgo que é importante para esta aquisição criar aqui uma espécie de pano de fundo, um background para como é que tudo isto acontece. Ele, na altura, estava a tentar conduzir uma espécie de, eu não lhe queria chamar a palavra, porque hoje em dia ela tem um outro significado, um cartel no sentido de uma reunião de vários protagonistas que podiam, de alguma forma, intervir neste negócio importante, que era o negócio do petróleo, portanto, neste caso, não das obras de arte, entre o qual este esquema, obviamente, que interessava aos soviéticos e aos outros produtores, porque assim não só os produtores tinham acesso às jazidas de petróleo russas e os russos podiam sentar-se na mesa das negociações e ter um papel mais ativo do que apenas o produtor. O que é que acontece? Ele tem uma série de aliados, um deles é um amigo de longa data e consultor para os livros manuscritos, que é muito interessante, pois estas vários chapéus que estes homens têm. O Alfred Chester Beatty, que é muito conhecido pela grande biblioteca em Dublin e que está obviamente na raiz da sua concentração enquanto o homem que andava à procura dos manuscritos, mas ele tem uma correspondência muito alargada com Gulbenkian, era um desses protagonistas. Ele é um homem muito ligado à mineração e, portanto, a esta ideia do petróleo, aliás, como estavam outros. E são todos nomes muito conhecidos.
Claro.
De maneira que um outro protagonista que é importante também referenciar é Piatakov, que é uma espécie de representante do banco estatal soviético em Paris e que Gulbenkian conhecia e que vai, de alguma forma, também ser um agente que vai facilitar a ligação com uma estrutura que é criada para o efeito da venda das obras de arte, que é o Antikvariat. E o Antikvariat não é o governo soviético que vende diretamente, é esta agência que vai fazer essas transações. Ainda do ponto de vista do negócio, a contrapartida do consórcio liderado por Gulbenkian, era no sentido que ficaria com o monopólio das exportações do petróleo russo durante quatro a cinco anos e isso era muito interessante. E contra isto, far-se-ia um investimento à volta dos £10 milhões, era um valor muito elevado, em infraestruturas petrolíferas para rentabilizar cada vez mais a extração. Os russos estavam interessados em negociar com Gulbenkian e souberam que ele era realmente o homem que poderia pô-los em contacto com todas estas empresas, como outros protagonistas nesta área e portanto, interessaram-se por ele. E ao interessarem-se por ele, deram-lhe esta possibilidade para o cativar de ele ser realmente um dos primeiros a escolher.
O Hermitage é hoje o maior museu do mundo, pelo menos em termos de espaço, já que ocupa uma grande parte dos antigos palácios da família real em São Petersburgo. A sua coleção, como já dissemos, foi iniciada no século XVIII pela Imperatriz Catarina, a Grande, em 1764, quando começou a comprar obras de arte a colecionadores europeus, incluindo quadros de Holbein, Rafael, Ticiano, Veronese, Rubens, Rembrandt, etc. Catarina terá comprado um total de 4 mil quadros, 10 mil desenhos, 16 mil moedas, a estatística é enorme, esculturas, joias, etc. A Imperatriz desejava competir com os outros monarcas europeus enquanto patrono das artes. E depois os sucessores de Catarina, os outros czares, continuaram as aquisições na Europa Ocidental, ao ponto de juntarem aquilo que teve a reputação de ser uma das maiores ou mesmo a maior coleção de Rembrandts do mundo. Obviamente, o museu também recebeu os resultados das escavações arqueológicas no Império Russo, que foi muito importante para a sua coleção de antiguidades clássicas, por exemplo. Abriu ao público o Museu do Hermitage em 1852. Ora bem, é neste museu que Gulbenkian entra para fazer compras, metaforicamente. Como é que Gulbenkian selecionou o que lhe interessava? Ou melhor, o que é que verdadeiramente lhe interessava? Ele comprou quadros de Rembrandt, Rubens, mas podemos perceber qual foi o critério das aquisições?
Sim, a princípio, eu julgo que lhe interessa tudo, portanto, uma magnitude.
Uma criança que entra na loja de doces.
Exatamente. Aquela ideia da wishlist é uma ideia que de alguma forma é plasmada pela documentação, porque as primeiras listas são efetivamente muito ambiciosas e têm tudo. Têm tudo aquilo que nós ainda hoje reconhecemos como obras de arte primeiras, de grande, as tais obras compendiais, aquelas que são incontornáveis em qualquer história da arte. Mas também na correspondência que ele tem, percebe-se que o interesse dele é muito pela ourivesaria, porque eram muito conhecidas as coleções imperiais russas e ele conhecia muito bem o inventário feito pelo Barão von Klucksan, que tinha efetivamente feito uma espécie de catálogo e isso estava publicado, portanto, era uma boa base de trabalho e Gulbenkian tem sempre bases de trabalho, e isso é muito importante. Há um documento que eu gosto particularmente, porque durante o tempo em que fui responsável pela coleção de livros, desenhos e medalhas, a questão muito particular dos manuscritos, os manuscritos iluminados, é uma área que lhe interessava também. Ele sabia que o Hermitage tinha uma belíssima coleção. E encadernações francesas, que é outra área de interesse para ele e colecionou intensivamente. E as persas, encadernações persas. Mas a certa altura, numa exploração recente que fiz sobre o Albert Carter, uma coisa para a exposição que vai acontecer este ano em novembro, deparei-me com o interesse dele pelas antiguidades egípcias. Isso era uma coisa completamente diferente. E efetivamente, o museu tinha antiguidades egípcias de grande qualidade e ele só não investiu mais por isso, porque não conseguiu encontrar o catálogo, portanto, não sabia pontuar exatamente os objetos que lhe interessavam. De maneira que ele conhecia os catálogos, tinha falado com pessoas. O Wildenstein é alguém que está muito próximo dele e que ele, para além das compras que faz para si mesmo, ele também compra para Wildenstein, e são obras absolutamente extraordinárias, o "Messtin" do Antoine Watteau, o retrato de Tito Rembrandt, e por aí fora. São peças que ele vai efetivamente adquirir. Efetivamente, também compra pinturas de Rembrandt. Aliás, são os dois Rembrandts que entram na coleção e depois disso não entraram mais Rembrandt, a figura de velho e Pallas Atena. O Rubens extraordinário, o retrato de Helena Fourment, e eu aqui fazia só um pequenino parêntesis, porque referiu uma coisa muito interessante quando estava a falar sobre as coleções da Catarina da Rússia, que era esta vontade de possuir. E esta pintura, o retrato de Helena Fourment, vem exatamente de uma coleção inglesa, uma coleção do Lord Walpole, que tinha sido primeiro-ministro de George II e George III. E é muito interessante porque ela compra por atacado esta coleção. Há uma fragata da Marinha Russa que vai buscar a Norfolk, esta coleção inteira, praticamente, ficou muito pouco, muita coisa estava presa às paredes, porque eram esculturas de nicho, por aí fora. E curiosamente, esta é uma pintura que Gulbenkian vai adquirir mais tarde, uma pintura que ele gostava bastante. Depois, obviamente que a ourivesaria está muito presente. François-Thomas Germain é o nome de referência, os Roettier, Leendert e todas estas obras destes artistas provêm das coleções imperiais. Elas estão um pouco espalhadas pelos palácios e depois com a revolução, vão sendo acomodadas no Hermitage, mas outras continuavam também em outros espaços, porque a coleção era extraordinária e era imensa. Só talvez falar sobre a Diana, porque é uma compra.
Uma grande compra.
Porque as aquisições são divididas em quatro, os chamados quatre rachats A Diana faz parte de uma dessas compras, sendo a última apenas o Rembrandt, a figura de pé.
Esta deve ter sido uma das transações mais delicadas e complexas da vida de colecionador de Gulbenkian. Tratava-se de comprar peças de um museu vendidas secretamente por um regime que até então, no princípio dos anos 30, ainda não era reconhecido por alguns estados da Europa Ocidental. E também havia aquele problema, aliás, já o referiu, do governo bolchevista ter incluído no Hermitage muitas coleções apropriadas a colecionadores privados na Rússia, o que podia levantar problemas de propriedade. Gulbenkian não foi o único que comprou. Por exemplo, o milionário norte-americano Andrew Mellon também fez grandes compras logo a partir de 1930, que depois doou para fundar a National Gallery of Art em Washington. Como é que Gulbenkian agiu? Quem foram os seus intermediários e, sobretudo, que cautelas é que ele teve na compra?
Teve muitas cautelas e o secretismo foi a palavra-chave. Ele tinha uma espécie de, como se diz no futebol, um olheiro, que ele manda, que é um ourives, o André Occock. Portanto, de alguma forma, quando ele chega à Rússia, pensam, e com alguma lógica, que o Gulbenkian só estaria interessado em peças de ourivesaria. Só que nesses relatórios que o Occock vai mandando a Gulbenkian, percebe-se o rol absurdo de obras e com os seus pequenos apontamentos e julgamentos sobre as peças. Há um que eu acho absolutamente extraordinário, que é relativamente à Diana, que ele põe apenas: "Mármore soberbo, um pouco frio, realista". Portanto, é com estas poucas palavras, com esta economia de palavras, que ele regista uma das obras mais notáveis da escultura do século XVIII francês. Ia falando, efetivamente, e eu julgo que o papel de Wildenstein é importante. E também o papel um pouco enviesado, porque ele sabia do interesse de Mellon na coleção, ele sabia o poder do dólar americano para as aquisições e sabia que os Duveen também estavam a trabalhar e estavam na jogada. De maneira que isto tudo ainda tinha que ser mais secreto, era mais complicado. E torna-se muito evidente quando consultamos a documentação Duveen, em que percebemos que eles estão efetivamente com estes dois protagonistas a tentar disputar estas peças. Houve também a difícil operação da exportação das peças. Logísticamente, é extremamente complicado. Houve situações muito interessantes de as peças terem que ser acondicionadas à luz de velas, o que não deixa de ter esse ar meio romântico no meio desta coisa toda. Mas o fato é que as peças saem, muitas delas via Berlim, e depois seguem para Paris, para a casa da Avenue d'Iéna. E no caso da escultura, a escultura vai de barco, para Londres e depois é que vai para a França. E tem um relatório muito interessante, que era uma forma também de não dizerem as coisas com as palavras que deviam ser. E lá arranjaram uma maneira de dizer que tudo tinha corrido bem, mas com algum percalço. E então, no relatório de chegada, relativamente à Diana, dizia-se apenas: "Um pouco cansada".
Um pouco cansada a Diana.
Efetivamente, ela teve ali alguns problemas.
E ia estar cada Diana a correr, provavelmente, este corredor para chegar.
Exatamente, este corredor a chegar ao seu destino.
Gulbenkian foi o primeiro comprador, mas o governo soviético, curiosamente, parece que não achou que ele lhes estava a pagar muito. Quanto é que Gulbenkian estaria disposto a gastar em arte? Quer dizer, qual era o seu orçamento para compras de arte? Temos uma ideia disso, isto é, quanto é que ele estava disposto a gastar?
Eu julgo que ele teria esse número na sua cabeça, mas não o revelou. Fazia parte da sua arte. Eu acho que ele pagaria sempre o justo valor, mas hesitaria de pagar acima desse valor e tentaria sempre um valor mais baixo. Isso é o jogo do negociante, que ele tinha em todos os aspectos da sua vida, não só como homem de negócios, naturalmente, mas como colecionador também.
Portanto, reservado. E comprou para a casa de Paris, já para essa casa, não é?
Isso é muito interessante, porque todas estas obras compradas no Hermitage vão para a Avenue d'Iéna. Em algumas circunstâncias, a casa vai ter que ser preparada, porque ela estava já bastante composta, sobretudo a galeria de pintura. E agora, muito recentemente, descobrimos documentação de novas obras em alguns espaços da casa, exatamente para acomodar as obras chegadas do Hermitage.
Finalmente, de todas as aquisições de Gulbenkian, quais as que acha que um visitante do Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa, não pode perder e em que sala as pode encontrar?
Nós temos um lugar privilegiado na galeria de pintura do século XVII, que quando o visitante está olhando de frente para os dois Rembrandts, consegue ver estas duas pinturas magníficas adquiridas no Hermitage, mas depois se virar o seu olhar para o lado esquerdo, vê a Helena Fourment e num plano mais adiante, já numa galeria que conduz às obras do século XVIII, consegue ver os dois Huberta Robert, que também foram adquiridos. Obviamente, não fica completo se não percorrer esse corredor, ver a belíssima Diana, que está contra um pano de vidro e portanto com jardim interior, que de alguma forma evoca a Diana caçadora, que está sempre a olhar para o espaço da floresta. E esse corredor que conduz à sala de ourivesaria, onde estão as grandes peças adquiridas das coleções imperiais russas.
Obrigado ao João Carvalho Dias. Voltaremos daqui a 15 dias para falar desta vez não apenas das obras de arte, mas da casa de Paris, onde muitas dessas obras estiveram, e para descobrir como é que Calouste Gulbenkian vivia com a sua coleção. Até lá e contamos consigo para continuar esta viagem.