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Olá, bem-vindos ao quinto episódio do programa "Only the Best". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está João Carvalho Dias, diretor adjunto do Museu Calouste Gulbenkian. Este programa é quinzenal e resulta de uma colaboração entre o Museu Calouste Gulbenkian e a Rádio Observador. Já sabe, o objetivo é falar da história por detrás de uma das mais importantes coleções privadas de arte de todos os tempos: a coleção do homem de negócios de origem armênia Calouste Sarkis Gulbenkian, que é hoje a base do Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Até hoje falamos de moedas, de pinturas, de esculturas e, neste quinto episódio, vamos falar de manuscritos. O manuscrito, isto é, a cópia feita à mão em suportes que podiam ir do papel ao pergaminho, era a maneira como circulavam os textos e os livros antes de a imprensa ter começado a ser usada no século XV. Ora, muitos desses manuscritos não eram apenas cópias singelas do texto original para serem lidas. Eram verdadeiras obras de arte pela caligrafia ou pela ornamentação gráfica, ou pelas ilustrações, as iluminuras, que acompanhavam o texto e também pela sua encadernação. Na Europa da Idade Média, sabemos que havia oficinas de copistas e de ilustradores a trabalhar nessas edições, por exemplo, em mosteiros, e a tentar produzir manuscritos ricamente elaborados e encadernados. Percebe-se, portanto, que séculos depois tivessem atraído colecionadores movidos não só pelo interesse histórico dos manuscritos, mas também pela sua arte. João Carvalho Dias, sabemos quando é que Gulbenkian se começou a interessar por manuscritos ou, mais propriamente, pela arte do livro?

É interessante essa questão, porque efetivamente Gulbenkian interessa-se por livros. É efetivamente alguém que muito cedo começa a colecionar. O primeiro registro na coleção é de 1900, é efetivamente um manuscrito islâmico, é um Corão, com uma encadernação lacada. Ele continua a adquirir livros e folhas soltas, os chamados fragmentos, que infelizmente o comércio fazia muitas vezes a decomposição do livro e assim permitia-lhes ganhar muito mais do que vendessem o livro apenas. Adquire manuscritos europeus a partir de 1919. Portanto, temos aqui um intervalo relativamente grande em relação aos manuscritos, ainda que é a partir de 1899 que os livros chegam à coleção Gulbenkian, mas são livros impressos, são livros século XVIII, por isso eu não incluí na datação para responder à sua pergunta. Portanto, efetivamente livros, sim, 1899, primeiras aquisições de livros impressos. E a partir de 1900, durante um período ainda longo, continua a adquirir manuscritos islâmicos, ou produzidos no mundo islâmico, melhor. E a partir de 1919 começam efetivamente a adquirir. Mas os livros manuscritos europeus, obviamente que há livros que são de diferentes centros produtores, mas a primeira aquisição formata as futuras, porque Gulbenkian compra de um grande colecionador, Andrew Yates Thompson, que tinha esta idiossincrasia que só queria ter 100 livros na sua coleção e quando chegava ao número 100, começava a vender até ter outra vez 100. O que é muito curioso, e os colecionadores têm estas idiossincrasias. E o facto, a coleção Yates Thompson foi a proveniência de grandes livros comprados por Calouste Gulbenkian até 37.

Um dos aspetos importantes da coleção de livros manuscritos antigos de Gulbenkian é que abrange dois mundos. Aliás, já referiu isso, a Europa Ocidental, mas também o Oriente, mais especificamente os grandes centros de produção de livros preciosos do Império Otomano e do Império Persa. Nós sabemos que em 1933, um especialista, Arthur Pope, diz-lhe que nem o Xá da Pérsia teria uma coleção tão rica. Este interesse deve-se apenas às origens do Gulbenkian no mundo otomano? E por acaso sabemos se o interesse pelos manuscritos e encadernações orientais, já sabemos, foi anterior ao interesse pelos manuscritos franceses e flamengos do século XV e princípio do século XVI. Portanto, é mais um sinal da sua inserção neste mundo otomano, onde ele nasceu, onde ele cresceu antes de vir para a Europa Ocidental?

Sim, eu acho que joga um papel importante, porque é um papel que nunca está ausente de outras categorias artísticas na coleção Gulbenkian, como os tapetes, os têxteis, por aí fora. Mas relativamente a Arthur Upham Pope, um professor especialista em arte persa, ele próprio de origem americana, era um conhecedor profundo destas áreas, mas era também um lisonjeador. Portanto, ele ao fazer essa comparação com o Xá da Pérsia, estava naturalmente também a dizer que Gulbenkian teria uma excelente seleção, o que efetivamente é uma realidade. A coleção de livros, que eu chamaria mais que uma coleção, uma biblioteca. É apenas uma das bibliotecas que Gulbenkian constituiu ao longo da vida. Portanto, os livros manuscritos constituem uma importante biblioteca. Não são, obviamente, os únicos exemplares Que ele compra porque o seu ecletismo fez com que comprasse muitos outros períodos históricos. Ele sobretudo tinha um gosto pela miniatura. Se falarmos mais concretamente nesta área do livro manuscrito, a miniatura é uma pequena pintura e é alguém que lhe atrai essa nomenclatura. Mas também as orlas decoradas, a marginalia. Tanto no livro ocidental como no livro do mundo islâmico, elas são muito requintadas. E no caso do mundo islâmico, é quase um exercício de caligrafia. Há ali um gosto por esta eloquência da linha, que é algo que o atrai enormemente. De maneira que o Gulbenkian, para além do aspeto mais formal da constituição do livro, que tem esse lado de pintura, ele também tem um gosto desmesurado pela encadernação. E no caso das encadernações do Oriente, do mundo islâmico, elas têm realmente uma qualidade absolutamente extraordinária pelo uso do ouro, a pele gravada e lacada. Tudo isso tem um apelo muito grande para o colecionador. E isso de alguma forma vai entusiasma-lo a comprar e continuar sempre a comprar.

Mais uma vez, vemos Calouste Gulbenkian, no caso dos manuscritos, a adquirir objetos que já pertenciam a coleções. Gulbenkian, quando se tornou ativo como colecionador no fim do século XIX, princípio do século XX, encontrou um mundo em que muita coisa já tinha sido apropriada por colecionadores, sobretudo as coisas mais preciosas, e em que quem queria fazer uma coleção de arte importante tinha de esperar, por vezes, por oportunidades como as trocas ou as vendas de outros colecionadores. Ao mesmo tempo, se queria garantir a qualidade da coleção, um colecionador não podia dispensar a informação e a orientação de especialistas, como já vimos, aliás, noutros casos, noutras dimensões desta coleção. Falemos agora um pouco das coleções de proveniência e dos conselheiros de Gulbenkian nas aquisições de manuscritos.

Certo. Essa é uma questão fulcral, até porque enquanto hoje, a partir do século XV, o livro impresso revolucionou a forma como nós nos relacionamos com o livro e a facilidade com que o livro, de alguma forma, chega aos mais diferentes estratos sociais, o mundo do manuscrito é um mundo ainda muito fechado. É um mundo entre o encomendador e o mosteiro ou o ateliê, a oficina. E obviamente que o número de exemplares é também muito mais reduzido. E daí essa questão fulcral, que é a oportunidade para a concretização das aquisições, é mesmo fundamental. Muitas vezes, essa oportunidade assenta na dispersão das coleções. Isso era algo que Gulbenkian tinha consciência e isso, de alguma forma, também se aplicava à sua própria coleção. E ele tinha essa consciência de que tudo poderia ser desmembrado e daí a preocupação durante a vida, que isso não acontecesse após a sua morte. Muitas dessas obras surgiam através de leilões, refletindo a tal dispersão que seguia a morte de muitos destes proprietários. E ele tinha sempre uma informação privilegiada, no sentido de saber o que ia a leilão e ao mesmo tempo, antes de ir a leilão, o que é que efetivamente lhe interessava. A possibilidade de visualizar essas obras era muito importante para ele, porque nem sempre os catálogos eram suficientes para ele decidir uma aquisição ou não. Os nomes, em relação aos livros europeus, são habitualmente franceses, Girod-Robin, Henry Leclerc, e o italiano Tamara de Marinice, um antiquário de Florença que também o ajuda. Tem muitos outros para aquisições pontuais. Por exemplo, a dispersão da Abadia Cisterciense de Adamón é uma oportunidade de aquisição extraordinária. Ele vai recorrer a especialistas na área e obviamente que é impossível citá-los a todos. No caso de outras culturas, no caso dos livros do mundo islâmico, o Bernard Quaritch, o Jacob Hirsch de Genebra. De qualquer forma, ele tem sempre outros conselheiros. Um deles é um amigo pessoal, que também companheiro de Ruts da questão petrolífera, o Alfred Chester Beatty, que ele próprio é um grande colecionador de livros e não diria consultor, mas alguém que orienta Gulbenkian, porque o Gulbenkian tem muita confiança nele e reconhece a sua cultura, e faz-lhe perguntas muito concretas. E obviamente que nunca podemos esquecer, em todas as áreas, praticamente, onde ele se moveu em termos de aquisições, o grupo de armênios que trabalhavam um pouco nestes mercados de arte Que tal como ele, tinham saído do Império Otomano e estabeleceram-se em grandes centros europeus, nomeadamente em Londres e em Paris, e que tiveram um papel extraordinário da dinâmica do mercado nestas áreas e noutras. São efetivamente também elementos fundamentais para esta história.

E imagino que muitos deles tinham uma ideia do que é que poderia interessar a Gulbenkian. Iam oferecer ou chamar-lhe a atenção para peças.

Isso é extremamente importante, porque um pouco como em outras áreas da sua vida, ele é muito fiel às pessoas que com ele estabelecem laços, muitas vezes são laços que vão durar dezenas de anos. E acontece exatamente o mesmo com estes protagonistas, com estes intermediários, a quem ele confia e que, obviamente, ao conhecerem o seu gosto, lhe vão propor aquilo que é adequado e não outras obras que sabiam que ele à partida não iria gostar.

Vamos agora falar mais particularmente de um destes manuscritos, chamado "As Horas de Holford" ou "O Livro de Horas de Holford", produzido por volta de 1526 na Flandres. Como é que chegou às mãos de Gulbenkian em 1935 e qual a sua importância? Até porque não é o único livro de horas da coleção. Já agora também explicar aos nossos ouvidos o que é que é um livro de horas.

Sim, é um livro que acompanha o fiel.

Cristão.

Cristão, naturalmente, e que tem uma estrutura e que permite ao longo do dia acompanhar através das orações.

Para cada hora.

Para cada hora e para cada período do ano também, porque ele geralmente é antecedido de um calendário e esse calendário é um calendário que fixa não só os signos do zodíaco, mas também os santos padroeiros do dia. São livros, de facto, muito interessantes e que do ponto de vista artístico, permitem efetivamente aos iluminadores darem azo à sua liberdade criativa. A coleção tem 24 livros manuscritos e 14 são livros de hora, acho que dá um pouco a ideia da importância. E em relação aos fragmentos, três também são fragmentos de livros de horas. No caso das horas de Holford, é de facto uma aquisição muito complexa, uma vez que ela não é concretizada quando a coleção Holford vai a praça em 27. Há um memo interno muito interessante, a firma Duveen, que chama à coleção Ford Hall, para não ser detetada. E dizendo que vai a leilão no Isidore, que em vez de Isidore é Christie's, e que mantenham Seymour, que seria o nome do Gulbenkian, informado porque ele está interessado. É muito interessante esta questão. Em 22, de qualquer forma, quando vai a leilão a coleção, a coleção é extraordinária. Basta dizer que Dorchester House, que é a sede dos Holford em Londres, é hoje em dia mais ou menos no sítio onde é o Dorchester Hotel em Park Lane. O leilão realiza-se na casa e de alguma forma as pessoas andavam pela casa e poderiam escolher e ver aquilo. E ele efetivamente compra uma série de manuscritos no leilão de 27 e compra um jarro de jade Timúrida, que é um dos ex-libris da Coleção Gulbenkian, que na altura foi identificado como uma tigela, repare bem. Mas ele teve a argúcia e o faro de perceber que eram dois bustos em bronze, um representando Luís XIV e outro o general Thurenne, que ele compra um pouco porque o intermediário é o Duveen e que de alguma forma lhe indica e aponta para estes. Apenas em 35, ele vai comprar "As Horas de Holford". Porque a biblioteca também vai a leilão, separadamente das outras categorias artísticas que compunham a coleção. E ele vai comprar através do Erwin Rosenthal, que é um antiquário de Zurique. O livro já tinha sido, antes de ele comprar, propriedade de Chester Beatty, entre 27 e 35, já tinha sido de alguma forma colocado o selo de qualidade pelo próprio Chester Beatty e quando em 32 ele o compra, tinha a completa segurança que estava a comprar uma obra-prima. Isso é muito interessante. Aliás, ele escreve a Beatty qualquer coisa como: "Eu julgo que vai aprovar esta minha aquisição". Ele tem uma correspondência vastíssima com o Beatty, porque estava muito indeciso e Beatty vai dizer: "Não, compre, que isso é extraordinário". É efetivamente uma grande compra.

Nós até agora falámos de livros manuscritos, mas como o João Carvalho Dias já chamou a atenção, Gulbenkian também tem uma coleção de livros impressos, nomeadamente edições do século XVI, de textos clássicos gregos e latinos, e depois também edições do século XVIII e até do século XIX, com encadernações muito elaboradas em termos artísticos.

Exatamente. Relativamente aos livros que nós podemos designar de Livros do Renascimento. Século XVI, as obras de Flávio Josefo, Valério Máximo, Aristóteles, Petrarca, por aí fora. São edições muito cuidadas, excelentemente impressas, muitas delas em Veneza Encadernações magníficas. Muitas delas, Gulbenkian comprou-as pela encadernação. Mas obviamente que uma excelente encadernação não vai revestir uma edição menor. Até pode ser uma edição não tão cuidada ao nível impresso, mas o texto é relevante para que o seu proprietário tenha investido nessa cobertura. Ou melhor, como em alguns momentos Gulbenkian diz, "vestir o livro", que eu acho que é uma expressão muito feliz.

Finalmente, em que sala do Museu Gulbenkian, em Lisboa, é que os nossos ouvintes podem admirar os manuscritos iluminados e talvez as horas de Holofernes, por acaso estiverem expostas? Porque nem sempre são os mesmos livros que estão expostos.

Essa é uma questão, porque como sabe, a coleção de livros, por razões de conservação, é sujeita à rotatividade. Portanto, nós nunca poderemos garantir que se aquele livro daqui a três meses vai estar, porque vai depender um pouco de quando é que ele foi colocado em vitrine. Na sala de arte europeia dos séculos XII a XVII, encontram sempre códices iluminados. E enquanto a sala dedicada às artes do Renascimento, que tem as grandes tapeçarias do Giulio Romano, que tem efetivamente a vitrine com os livros do Renascimento. Mas eu acho que é sempre uma descoberta para o visitante.

Vale a pena ir várias vezes.

Várias vezes. As horas de Holofernes vão estar expostas nos próximos meses. Isso já é uma informação que eu posso dar, porque confirmei antes de gravar.

Ótimo. É uma oportunidade também para as ver. Obrigado ao João Carvalho Dias. Voltaremos daqui a 15 dias para falar de outro aspecto da coleção Calouste Gulbenkian: o seu transporte e conservação na viagem que todas as obras tiveram de fazer para chegar a Lisboa. Até lá e contamos consigo para continuar esta viagem.