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Olá, bem-vindos ao 11º episódio do programa "Only the Best". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está João Carvalho Dias, diretor adjunto do Museu Calouste Gulbenkian. Este programa é quinzenal, resulta de uma colaboração entre o Museu Calouste Gulbenkian e a Rádio Observador. Já sabe, estamos aqui para conversar sobre as histórias por detrás da coleção de arte de Calouste Sarkis Gulbenkian, hoje no Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa. João Carvalho Dias, já fizemos muitas viagens nesta conversa, já seguimos até a deslocação da coleção pra Lisboa, mas falta nos falar de como e quando o colecionador decidiu vir pra Lisboa e instalar-se em Lisboa. Vamos lembrar o contexto: estamos em 1942, plena Segunda Guerra Mundial. Portugal é um dos poucos países neutrais na Europa. Muitos refugiados da guerra passam por Portugal e por Lisboa, mas para a maior parte deles a experiência de Portugal é mesmo passar. Seguem depois, a partir de Portugal, por exemplo, pras Américas. Entre 1939 e 1942, nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, Gulbenkian viveu em França, na metade ainda sob administração francesa, a chamada França de Vichy, porque o governo estava na cidade de Vichy, onde Gulbenkian era representante da Pérsia. O que o fez não apenas vir pra Lisboa, mas sobretudo ficar em Lisboa e não seguir como tantos outros europeus pras Américas ou pra Inglaterra, que ele era cidadão britânico.
Exato. Um pouco só de pano de fundo. Podemos considerar os anos de 41 e 42, anos-chaves para o que viria a ser o desfecho da Segunda Guerra Mundial. Se por um lado, a entrada dos Estados Unidos na guerra em 41, parecia colocar os aliados num rumo vitorioso, por outro, a Batalha de Stalingrado de 42 viria a ditar a derrota do regime nazi. Foi também em 42, e isso é um dado importante, que o Irão passou para o terreno dos aliados. Esta questão, este acontecimento tornava arriscada a permanência de Gulbenkian em França.
Pois, que ele era representante do Irão.
Ele era representante do Irão. Portanto, estava ligado à alegação imperial do Irão. A vinda pra Portugal, como disse, um país neutral, e constituiu uma porta atlântica, pareceu então uma boa solução. Isso parece mais que evidente. E é uma sugestão do próprio filho de Gulbenkian, Nobar, que ele próprio confirma na sua biografia. Diz qualquer coisa: "Fui eu que sugeri Lisboa ao meu pai." Se em 42 a ideia de partir pra outro continente, nomeadamente pra os Estados Unidos, poderia ser equacionada, e tudo leva a crer que foi.
Pois.
O fato é que Gulbenkian foi ficando, tendo saído de Portugal pela primeira vez apenas em 49. Portanto, entre 42 e 49, ele permaneceu em Portugal.
Sempre em Portugal.
Viajou. Nós temos cartas do Bussaco, portanto Sintra, obviamente, sempre muito Sintra. E em 49 que ele sai pra uma visita pontual em Paris e pra ver a sua propriedade Les Anclots, que tinha todos esses relatórios da guerra, que lhe davam como partes destruídas.
Que fica na Normandia.
Na Normandia, portanto uma zona, exatamente. E que ele tinha interesse em restaurar do ponto de vista de replantar árvores, fazer todo esse trabalho.
Mas com tudo isso, com Les Anclots na Normandia, com o palacete em Paris, também remodelado por ele, adaptado por ele, é estranho que ele depois de 45, percebe-se que entre 42 e 45 tenha ficado em Lisboa. Até admite-se mais um ano ou outro, até ver o que iria acontecer na Europa do pós-guerra, mas Lisboa torna-se a sua base, porque ele vai várias vezes a Paris e à Normandia, mas volta sempre a Lisboa. Como é que se explica isso?
É engraçado, porque isso, ao contrário da mulher, ela sim, em 45, regressa a Paris, a guerra acabou e ela, de alguma forma, regressa a casa.
Pois.
O Gulbenkian, efetivamente, vai ficando. As viagens a Paris e à Normandia tornam-se uma espécie de rotina anual pra fugir ao hostil de Lisboa. E a brisa da Normandia era algo que o revigorava, e obviamente pra visitar o seu jardim. Havia, naturalmente, razões, e essas eu julgo que são as primordiais, razões de natureza fiscal, que faziam que a sua permanência em Lisboa tivesse um tratamento favorável, não só para as suas atividades comerciais, de negócio, digamos assim, como para a sua fortuna pessoal Pessoal e a sua qualidade de grande colecionador. De alguma forma, tudo isso são condições para ele permanecer no paraíso triste de Saint-Exupéry. Foi continuando.
Ele em Lisboa. Gulbenkian instala-se no Hotel Levis, na altura o mais luxuoso hotel de Lisboa, ficava na Avenida Fontes Pereira de Melo, penso que era onde actualmente está o Hotel Sheraton. O Hotel Levis foi demolido em 1962. E viveu sempre no hotel enquanto esteve em Portugal. Aliás, quando ele morreu em 1955, o New York Times nota isso: o homem mais rico do mundo ou um dos homens mais ricos do mundo, vivia num hotel, andava em automóveis alugados, numa certa obscuridade, mas ele gostava de viver em hotéis, não é?
Ele adorava hotéis. Para ele, o hotel, de alguma forma, resumia todas as características do conforto e era algo que ele apreciava muito. Ele conseguia no hotel ter algum anonimato, geralmente cumpriam todos os seus caprichos e desejos, e isso é importante. É curioso, porque há uma preferência notória, e isso passa na correspondência, não só dele, mas do filho Nobar, pelo Ritz. O Ritz, tanto em Londres como em Paris, tinha, obviamente, um hotel que tem origem na visão do César Ritz, que ele conheceu muito bem. Aliás, nós temos inclusivamente registos de ofertas de grande pintura à família Ritz, nomeadamente ao casal. Ele ajudou financeiramente o César Ritz para se lançar neste negócio, ele tinha ações desta sociedade comercial, e há aqui uma ligação bastante interessante. E com o Gulbenkian há uma espécie de tradição de colaboradores. Ele quando começa a trabalhar com alguém ou alguém o satisfaz, ele vai continuando.
Mantém-se fiel.
Mantém-se fiel. E isso é muito interessante, porque quando ele tem que escolher arquitetos para a remodelação da Casa de Paris, e ele já tinha feito o mesmo em Londres, ele vai escolher arquitetos que de alguma forma estiveram ligados, não só quando trabalha a Casa de Paris, quando está a fazer as obras, vai buscar os mesmos que já tiveram uma intervenção em Londres, mas também que estiveram ligados à própria reformulação do Ritz. Ele sabe qual é o padrão de qualidade, vai com certeza exigir grandes padrões de conforto e a firma, por exemplo, a firma Mewès and Davis, é uma firma que trabalhou em três hotéis Ritz de grande qualidade, como sejam o de Paris, Londres e Madri, que foram os três primeiros da cadeia. E é engraçado que nós também temos exatamente em arquivo, e isso foi até focado numa exposição que realizamos há uns anos, a Memória do Sítio, que é a procura de uma banheira para a sua nova casa da Avenida Iena, com a mesma profundidade que a banheira que ele tinha no Ritz, que lhe permitia emergir como se fosse um mergulho dentro da sua banheira. A procura dessa banheira é toda um episódio interessantíssimo. Tudo é tratado com muita minúcia e muito rigor, porque é exatamente aquilo que ele pretende, aquele objetivo.
Ele faz de Portugal o seu domicílio ou a sua base principal, mas a mulher e os dois filhos não o seguem nessa preferência por Portugal. Aliás, o filho Nobar, que já aqui falámos dele, que terá sugerido ao pai vir para Lisboa, ele era muito diferente do pai. Era uma figura que gostava da vida social, gastava imenso dinheiro, também tinha os seus próprios negócios, não era pura e simplesmente um herdeiro, mas era uma figura muito diferente.
Era uma figura muito diferente. Nobar visitava com alguma regularidade o pai em Lisboa. Ele gostava da vida cosmopolita que a cidade na altura oferecia. Gostava também das festas que as cabeças coroadas da Europa organizavam no Estoril.
Reis exilados.
Exato, muitos reis exilados. Da Roménia, de Espanha.
A família real espanhola.
A real espanhola, os condes de Paris. Havia todo um grupo de pessoas que lhe interessavam e que obviamente tinham vida no Estoril. Não só ele, mas a sua própria mãe. Eram pessoas que estavam habituadas a essa vida mundana. Enquanto a filha Rita e o genro de Gulbenkian, que é Vorke Sayan, mantiveram-se em Paris, na casa da Avenida Iena. Foram historicamente defensores deste território gulbenkiano, que foi muitas vezes cobiçado, inclusivamente pelas tropas nazi, para se tornarem um dos seus lugares de quartéis-generais. No fim da guerra, como dissemos há pouco, Nevarte Gulbenkian, mulher de Carlos Gulbenkian, regressa a Paris.
Em Portugal, para além do que lhe possa ter agradado no país, em termos de paisagem, ambiente, Gulbenkian também encontrou um governo, o governo de Salazar, muito disponível para o acolher e corresponder aos seus desejos e conveniências. Isso também terá sido importante para a decisão de ele ficar em Portugal.
Eu diria que foi decisivo. A questão fiscal era primordial para Gulbenkian e para o futuro da sua fundação. Era algo que estava em mente Nestes últimos anos, já nos anos 50, esta questão do futuro, obviamente que já vinha muito de trás este planeamento.
Já falámos aqui disso.
Já falámos disso, mas obviamente que à medida que o tempo vai passando, as coisas tornam-se mais prementes, de tomar decisões. E é curioso porque para alguém que estava tão habituado a tomar decisões do foro dos negócios, e até mesmo em relação à coleção, ainda que na coleção haja muitas hesitações, em relação ao futuro, há também algumas hesitações. Isso nota-se que foi protelando uma decisão até ao fim e que mais tarde virá, já muito perto da morte, fazer o seu último testamento. E então aí a definir algumas das linhas mestras.
Nós além do vento, temos que falar do staff. Vamos chamar-lhe assim, staff português, que Gulbenkian reuniu em Lisboa, a começar pelo advogado José Azeredo Perdigão. Aliás, uma figura identificada com a oposição republicana ao salazarismo, não era uma figura do regime. Como é que se deu esse encontro?
É curioso, porque há várias fontes, mas tomando a fonte mais recente, Jonathan Conlin, que é o autor da biografia de Carlos Gulbenkian que saiu há poucos anos. O José de Azeredo Perdigão teria sido apresentado a Gulbenkian por um antigo embaixador português no Reino Unido. Um homem do direito, um professor da universidade de direito, Rui Anes Ulric. E isto teria ocorrido em finais de 42, no ano em que ele chega a Lisboa. Azeredo Perdigão era, como acabou de referir, um dos fundadores da Seara Nova, uma revista que promovia um debate ideológico contra as políticas de Salazar, alguém que estava numa outra posição. E ele efetivamente torna-se o advogado português de Carlos Gulbenkian e a partir de 45 ele passa a participar, ele, José de Azeredo Perdigão, nos conselhos de administração de várias holdings de Gulbenkian. Alguém começa a tornar uma pessoa de confiança.
Gulbenkian viveu em Lisboa entre 1942 e 1955, ou seja, entre os 73 e os seus 86 anos. Ele continua em Lisboa a interessar-se por arte, a examinar catálogos, a ser contactado por intermediários e vendedores, a comprar obras de arte. Já falámos aqui algumas, por exemplo, o quadro de Manet, "O Rapaz das Bolas de Sabão". Portanto, podemos dizer que a coleção não ficou parada enquanto Gulbenkian viveu em Lisboa.
Não, de todo. E é muito interessante, porque mal ele chega a Lisboa, há uma carta que ele dirige a George David, da Sotheby's, alguém que ele tinha uma correspondência muito viva, dizendo: "Eu agora sou um exilado ou um refugiado, é um misto destas duas coisas. E preciso que me envie catálogos, porque eu quero me manter ao corrente do que está a acontecer no mercado". E ele efetivamente vai se manter muito atento e durante este período, até à sua morte, irá fazer muitas aquisições. Logo em 43, ele faz uma série de aquisições a Henri de Rothschild. Henri de Rothschild vivia no Estoril e curiosamente é um dos clientes de Azeredo Perdigão.
Também.
Portanto, de alguma forma, pode ter havido ali também uma ligação. E ele compra uma série de pinturas, entre as quais o extraordinário pastel do Maurice Quentin de La Tour, o jarro de jaspe, que é uma das obras de eleição da coleção, com montagem em ouro, uma peça do século XVIII, ao nível da montagem, mas que tem uma execução da pedra bastante anterior, presumo século XIV. Compra uma grande parte da coleção Jameson de moedas, que é uma coleção de moedas gregas, que é o único setor da coleção que fica efetivamente em Portugal à data da morte, depositado no Banco Espírito Santo. E continua a comprar peças nos Estados Unidos, extraordinárias encadernações, livros, etc. E essas compradas nos Estados Unidos vão diretamente logo para Washington. Portanto, ele nunca as vê em Lisboa. Obviamente, tem acesso às fotografias, etc. E em 53 ele compra a última pintura, que é "La Rue de Saint-Vincent à Montmartre" de Lépine. Claro que há muitas outras aquisições, não vamos aqui referi-las todas, mas isto dá a ideia do ritmo de aquisições entre 42 e 53, portanto, à volta de 11 anos. Depois de 53 não há registro de aquisições, mas 53 são anos já de grande fragilidade, até da sua saúde.
Ele além de comprar, faz também doações em Lisboa, a museus portugueses.
Nomeadamente ao Museu Nacional de Arte Antiga. Ele entre 49 e 52 faz doações. Em 52 é a mais importante. Isso de alguma forma ajuda a reforçar laços com Portugal. Há ali uma marcação, há uma ligação muito forte ao doutor João Couto, que era o diretor do museu, a quem ele tinha bastante admiração. E esse conjunto de obras muito diversificado, pintura, mobiliário, azulejos de Iznik, acaba por ter um papel importante na coleção do CNA, porque tem uma sala própria com o nome Gulbenkian.
Ele gostava do Museu Nacional de Arte Antiga.
Gostava muito da coleção de ourivesaria. Ourivesaria francesa do século XVIII, naturalmente. A baixela, digamos que encomendada por Dom José após o terramoto. Portanto, de alguma forma, há aqui uma ligação forte, porque o François-Thomas Germain é também um ourives de eleição para Gulbenkian. Muitas das suas peças vêm exatamente da execução deste mestre ourives e isso, de alguma forma, é algo em que ele se sente muito familiar.
E agora a maior questão: em que momento é que se começou a falar da possibilidade da coleção vir para Lisboa, ficar em Lisboa? Porque em 1945, no fim da guerra, como já aqui dissemos, ainda houve um tempo em que se pensou que a coleção podia ir para os Estados Unidos.
Sim, depois de 45, quando a guerra termina. Nós quando dizemos que a guerra termina, há efetivamente ali uma assinatura, mas depois as coisas todas vão se arrastando. Mas há efetivamente aqui uma vontade primeira de Inglaterra, nomeadamente Londres, depois Washington, e a possibilidade da coleção vir a ter Lisboa como destino acaba por ser equacionada com a constituição da sua própria fundação. Conforme a vontade testamentária. Em 18 de junho de 53, ele lavra o último testamento E aí estabelece a fundação com o seu nome, com uma instituição portuguesa com sede em Lisboa, que será a herdeira dos seus bens, à exceção dos trusts constituídos a favor da sua família. Mas obviamente que aí estão as linhas mestras definidas.
Gulbenkian morre em Lisboa em 1955, a 20 de julho, aos 86 anos. Deixou a fundação em Lisboa, mas deixou também um outro monumento em Londres, a igreja arménia de São Sarkis, em Kensington, cuja construção ele tinha financiado em 1922, 1923, e onde vêm a ficar os seus restos mortais. Portanto, esta identidade arménia ele nunca esqueceu.
Sim, é muito forte. E é curioso quando fala na igreja de São Sarkis. A igreja de São Sarkis está a ser construída ao mesmo tempo que a sua casa de Arménia está a ser remodelada. Portanto, são duas obras que estão a acontecer em simultâneo, uma em Londres, outra em Paris.
Uma para viver e outra para visitar.
Uma espécie de morada posterior, porque obviamente ela é dedicada à memória dos seus pais e, de alguma forma, essa sua ascendência arménia exerce um vínculo muito forte na sua personalidade. Não só do ponto de vista filantrópico, ele apoiou as comunidades arménias. Na diáspora, seguiu a tradição familiar. E é muito interessante a correspondência que ele troca com o neto Mikael Essayan, em que ele dá conta dessa transmissão de valores, valores que são assentes na tradição e que de alguma forma confirma toda a sua linhagem. Que não é apenas uma linhagem que vem do sangue, mas é uma linhagem cultural que ele afirma em vários momentos e, portanto, há efetivamente uma identidade arménia absolutamente vincada no colecionador.
Obrigado ao João Carvalho Dias. Voltaremos daqui a 15 dias para o último episódio deste programa, precisamente sobre o museu que agora guarda a coleção de Calouste Gulbenkian. Até lá e contamos consigo.