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Aqui estamos outra vez para espalhar alegria pelo povo portuês que nos ouve dia a dia.

Em 1959, Portugal ainda para pra ouvir os Companheiros da Alegria. O programa está no ar desde 1951. Estreou em agosto desse ano ao vivo, no Cinema Carlos Alberto, no Porto, a acompanhar a Volta a Portugal em bicicleta. Ideia original do popular ator e locutor Igrejas Caeiro, que apresenta ao lado da mulher, a também atriz Irene Velez, os Companheiros da Alegria, é o clássico programa de variedades, conta o radialista Aurélio Carlos Moreira.

O chamado programa rádio publicitário, que era um programa de contato com o público, um programa para distrair, recreativo, para lançar gente nova.

Na primeira edição, os Companheiros da Alegria apresentaram um espetáculo em cada etapa da Volta. No final, o vencedor do concurso de talentos, que chegou a lançar nomes como Trio Odemira, teve direito a prêmio. Uma semana de férias com tudo pago em Vila do Conde.

Os prêmios que vê aqui, se tiver boa memória, serão todos para si.

Igrejas Caeiro era inundado de pedidos de ouvintes de todo o país, ilhas incluídas. Queriam ver ao vivo e a cores os Companheiros da Alegria. Até ao dia em que o programa deixou de ter público por ordem da ditadura. Tudo por causa de um comentário que o apresentador fez numa entrevista a elogiar o líder indiano Nehru, numa altura em que Portugal já estava em conflito com a Índia por causa de Goa, Damão e Diu. A partir de 1954, os Companheiros da Alegria passam a ser feitos em estúdio. Justamente nos estúdios da APA, a Agência de Publicidade Artística, onde Luís Filipe Costa, o primo de Gave Roche, trabalha. E quem é que o transmite? Nada menos que o Rádio Clube Português, todos os dias da semana, às 10 da noite. Mas naquela quarta-feira de setembro de 1959, o plano é outro. O programa mais ouvido do país vai ser interrompido a meio. No lugar dele, irá para o ar a primeira e única emissão da subversiva Operação Papagaio. Apesar da divisão no grupo, o plano vai mesmo pra frente. António José Forte, que queria adiar a operação, aceita os argumentos de Gave Roche. Mas com o poeta Manuel de Castro, o caso é diferente. Se não o deixam ficar com a pistola durante a fuga, recusa-se a participar. Já devolveu a arma que tinha levado pra casa uns dias antes. Pior, também diz que já não quer ter nada a ver com a organização. A pouco mais de 24 horas do assalto ao Rádio Clube Português, são forçados a voltar a recrutar. Maria Eduarda encarrega-se de arranjar pelo menos mais dois operacionais. Diz que os militares presos na Trafaria têm contactos. Enquanto espera, Gave Roche decide os nomes de código. Não sabe quem serão, nem sequer se vão mesmo chegar a juntar-se ao grupo. Mas pseudônimo já têm. Um vai ser o José, o outro Francisco. É um risco, mas tem mesmo de ser. Estes homens, que Gave Roche nem sequer conhece, vão entrar pro grupo no próprio dia da operação. Esta é a Operação Papagaio, uma série pra ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Miguel Guilherme, com banda sonora original de Rita Redshoes. Episódio cinco, o dia da operação.

Esta é uma história real. E é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito pra contar, mas também tem muita vontade de ouvir.

São duas da tarde de uma quarta-feira de setembro de 1959, a quarta-feira da Operação Papagaio. Benjamim Marques está parado à porta do posto da Cruz Vermelha da Praça do Comércio. Entre as pessoas que vão passando, tenta descobrir José e Francisco, os homens que Maria Eduarda disse a Gave Roche que iam estar ali à espera àquela hora. Ao fim de alguns minutos, Benjamim avista um homem com um adesivo no queixo. Aproxima-se e arrisca a senha combinada. "Então, cortou-se?" Bingo! Mais uma vez, o código do pense rápido volta a funcionar. O mesmo que já tinha facilitado a vida à Maria Eduarda no dia em que procurou Gave Roche pela primeira vez no armazém de perfumes do pai. Em frente a Benjamim estão José e Francisco. Os homens que Maria Eduarda chamou à última hora pra Papagaio, prontos pra entrar em ação O pintor explica a disposição que vão ocupar no assalto, mas poupa nos detalhes. Nunca se sabe se vão mesmo aparecer e se há coisa que as milícias de ação popular não precisam, é de mais pessoas nas ruas, a par do plano, prontas para falar de mais. Combinam voltar a encontrar-se às 19h, à porta da Igreja de São Nicolau, uns metros mais acima. Depois de lhes dar as instruções, Benjamim segue para o armazém do pai de Gavroche, mas o entusiasmo desaparece assim que lá chega. Gavroche está com má cara. Artílio acabou de telefonar. Até há uma boa notícia. Tanto o serralheiro como os dois operacionais do grupo dele continuam a bordo. Mas há uma notícia péssima. O carro que tinham dado como garantido desde o início, afinal, não vai estar disponível. E Artílio já avisou que não tem como arranjar alternativa. Faltam menos de oito horas para a Operação Papagaio e há 11 homens prontos para avançar. Resta saber como vão conseguir chegar à parede. Depois de falhar com os homens, Artílio Batista falhou também com o carro. Luís Filipe Costa, que na noite da operação iria abrir a porta da rádio, nunca o perdoou.

Milhares de panfletos assinados por uma organização clandestina denominada Resistência Combatente já foram lançados no centro de Atenas.

O histórico locutor morreu em julho de 2020. A última vez que falou publicamente sobre o assunto foi em 2012, numa entrevista que deu à jornalista Joana Setticini Villela, autora do livro "LX60". Falaram do cinzentismo de Lisboa, da inauguração do Snack Bar Galete em 1966 e do bordel da famosa Madame Blanche, descrita por Luís Filipe Costa como uma senhora de farto seio, com uma grande autoridade sobre as meninas e sobre os homens, que eram obrigados a fazer o comércio, não podiam ficar só por lá a fazer sala. Mas, sobretudo, falaram da Operação Papagaio e o locutor voltou a apontar o dedo a Artílio Batista. O registro sonar da conversa perdeu-se, entretanto, no disco de um computador impossível de recuperar. Mas a transcrição da entrevista, não. Na noite da Operação Papagaio, Luís Filipe Costa encontra-se, como sempre, no Rádio Clube Português, na parede. No edifício estão apenas um locutor e um técnico. Acham que o funcionário da APA está ali, como todos os dias, para garantir que não há problemas com a bobine do programa Os Companheiros da Alegria. Não suspeitam que, desta vez, Luís Filipe Costa pretende fazer exatamente o contrário. Os estúdios são na cave, completamente isolados. Se tudo correr como previsto, o telefone há de tocar pouco depois das 22h. Luís Filipe vai atender e dizer que a costa está livre e a operação pode avançar. Quando os operacionais irromperem por ali adentro, também ele vai ser amarrado a um canto, juntamente com o locutor e o técnico, para que não passe pela cabeça de ninguém que está envolvido no ataque. A ação deverá ser rápida, apenas o tempo necessário para tirar a bobine com o programa de igrejas caeiro e pôr a tocar a mensagem revolucionária. Antes de fugirem, os operacionais ainda hão de espalhar uma série de papéis pelo edifício. Há uma bomba ligada à máquina. Não pise, que a partir daqui há minas. Mas claro que esta parte é uma manobra de diversão. Se tinha sido tão difícil conseguirem balas que coubessem nas armas velhas que arranjaram, o que seria os surrealistas terem conseguido explosivos de guerra? O objetivo era só despistar as autoridades e deixar a bobine rodar o máximo de tempo possível. Como disse Luís Filipe Costa à jornalista Joana Setticini Villela, ele e Gavroche tinham quatro anos de diferença. Luís era mais novo e teve sempre no primo Gavroche uma espécie de herói. Foi à boleia dele que se aventurou pela primeira vez nos cafés da cidade e conheceu artistas intelectuais. E foi com ele que bebeu as primeiras aguardentes, ainda muito antes de ter idade para consumir álcool. Bárbara e João Francisco, os filhos de Gavroche, recordam a proximidade entre os dois e revelam que alguns anos depois da Papagaio, quando o pai saiu de Portugal, Luís Filipe Costa foi o único que se manteve em contacto com ele.

Sim, eles eram muito chegados. Segundo a minha mãe, eram muito chegados. Da família toda, dos primos, o mais chegado a ele era o Luís. Aliás, era ele, sobretudo, depois na fase do desaparecimento dele, que nos transmitia a informação. Nunca vinha de outra pessoa.

Quando Gavroche contou que tinha um plano e que ele tinha de entrar porque era a peça-chave, Luís Filipe Costa nem hesitou. Disse imediatamente sim ao primo herói. "O meu papel era informar das condições, amansar os gajos, e se fizessem investigação, bralhar, dizendo: não era loiro e não havia nenhum loiro." Revelou o locutor à autora do livro "LX60". Na verdade, a investigação até chegou a ser feita, mais de seis meses depois da noite desta quarta-feira de setembro de 1959. Luís Filipe Costa é que nunca foi chamado à PIDE para prestar declarações. Nos interrogatórios de que viria a ser alvo, Gavroche falou do primo. Explicou aos agentes que Luís Filipe Costa alinhou no plano da Operação Papagaio, mas que disse, desde o início, que não queria ter nada a ver com a organização. Talvez por isso a polícia política nem se deu ao trabalho de o ouvir. É que, como vamos perceber, naquela noite, o primo de Gavroche acabou por não fazer absolutamente nada. A Operação Papagaio está condenada a ser um fiasco, mas não é por causa dos homens arregimentados à última hora por Maria Eduarda. José e Francisco não falham. Às 19h, estão em frente à igreja no cruzamento da Rua da Prata com a Rua da Vitória. De lá, seguem com Gavroche e Benjamim para o café Estrela d'Ouro, onde o cabecilha do plano lhes passa duas pistolas para as mãos e diz que precisam urgentemente de arranjar um carro. Um deles tem carta de condução. A partir do telefone do café, liga para vários contactos, mas também não consegue resolver o problema. Mesmo assim, Gavroche não dá nada como perdido. O Pifarista já conseguiu alugar um Volkswagen com autorrádio e tudo, para poderem ouvir a proclamação durante a fuga. Não poderá ser assim tão difícil arranjar outro. Com toda a tranquilidade do mundo, voltam a separar-se. Gavroche vai até à APA buscar a bobine revolucionária e os outros três vão num instante a casa. Não é por terem uma revolução para fazer, que vão ficar sem jantar. Às 21h, os homens operacionais estão no ponto de encontro combinado, o parque de estacionamento que fica mesmo no início da Avenida 24 de Julho. É aí que vão deparar-se com a dura realidade que Gavroche se tinha recusado a encarar. É impossível alugar um carro àquela hora da noite e sem mais um carro, não pode haver operação. Gavroche não vai participar no assalto por morar mesmo ao lado do Rádio Clube Português e correr o risco de ser reconhecido. Tem apenas a função de entregar a bobine aos operacionais. Está à espera no Café Royal, quando vê um dos homens de Maria Eduarda aproximar-se. É ele que comunica a Gavroche que por não terem conseguido arranjar um segundo automóvel, a Papagaio já não vai acontecer naquela noite. Entrega-lhe a arma que tinha recebido horas antes e despede-se. Gavroche esconde a arma na pasta onde tinha guardado a bobine pronta a emitir, sai do café e atravessa a Avenida 24 de Julho, onde encontra os restantes operacionais. Estão no sítio combinado, à hora combinada, mas não têm como ir dali para a parede. Nesse instante, Gavroche desiste. Passa a pasta com as armas e a bobine a Benjamim Marques, esquece as cautelas e fala em voz bem alta, antes de se pôr a caminho da estação de comboios do Cais do Sodré. "Vocês façam o que entenderem. Eu vou para casa." Só alguns dias depois, Gavroche saberá o que acabou mesmo por acontecer naquela noite. Benjamim Marques, António Barão e o Pifarista meteram-se no Volkswagen e fizeram o caminho até ao Café São Jorge, em Carcavelos. Júnior, o homem que o pintor tinha conseguido aliciar para o grupo apenas dois dias antes e cuja noiva andou a falar demais, não estava lá. Benjamim pediu a um dos funcionários do café para fazer uma chamada e discou o número do Rádio Clube Português, como combinado. Quando Luiz Filipe Costa atendeu o telefone, o pintor limitou-se a dizer-lhe que o assalto não ia acontecer. Regressaram ao carro com o Pifarista ao volante e foram ter com Maria Eduarda. Nessa altura, ela ainda não tinha como saber que a operação tinha sido cancelada e continuava no local planeado à espera das armas. Alice, nome de código da mulher de João Jacques Marques Valente, ficou com as pistolas e com a bobine que deveriam ter sido usadas na operação. Sem mais nada de interessante para fazer, já que estavam ali ao lado, Benjamim Marques, António Barão e o Pifarista resolveram passar mesmo assim à porta do Rádio Clube Português. E foi justamente deste passeio noturno que nasceu um dos mitos da Operação Papagaio. Recorda-se o jogo de hóquei que, na versão do escritor Carlos Loures, tinha posto os operacionais em fuga e que, na versão de Luís Pacheco, tinha dado origem a um adiamento do golpe? Quando chegaram à Rua do Rádio Clube, os três operacionais encontraram, de facto, um jogo de hóquei em patins a decorrer e uma multidão de gente a assistir, o que seria um enorme problema caso a Operação Papagaio tivesse avançado como planeado. Nas semanas seguintes, Gavroche ainda pensou em marcar uma nova data para o assalto ao Rádio Clube Português, mas a cada dia que passava, o fracasso daquele plano louco para derrubar Salazar tornava-se mais evidente, até para Gavroche. Já não havia dúvida. A Operação Papagaio estava morta. O plano estava condenado desde o início, como explica o investigador Nuno Estevão Ferreira.

O êxito da operação com 11, muito provavelmente, não seria muito grande. Ir buscar artistas anarcas, etc. Estamos a falar da facilidade de mobilização, mas também da maior inabilidade em lidar com a própria conspiração, portanto, em executar o próprio plano que pudesse existir. Não era crível que 11 indivíduos pudessem levar a cabo a derrube do regime.

Depois do fracasso da operação, Gavroche vê o grupo desagregar-se. O Pifarista é o primeiro a abandonar a organização Faz saber que vai afastar-se totalmente da vida política e dedicar-se ao sonho de uma vida: construir um veleiro. António Barão sai logo a seguir. Acha que a ação de um grupo tão pequeno nunca será verdadeiramente útil. Mas mais importante do que isso, acaba de reconciliar-se com a mulher e quer tranquilidade de espírito para recomeçar o casamento. Mesmo com tudo isto, Gavroche não desiste. Apesar das baixas, a organização continua. Alguns dias depois daquela fatídica quarta-feira, Maria Eduarda procura Gavroche e dá-lhe um recado. Os oficiais da Trafaria estão muito zangados pelo fato de o assalto ao Rádio Clube Português não se ter realizado e querem impor mudanças radicais no movimento. O capitão Almeida Santos está farto de usar intermediários. É hora de Gavroche ir ao presídio da Trafaria. Tem de falar cara a cara. É um domingo de outubro de 1959. Gavroche chega às imediações do mercado da Trafaria às 15h, onde combinou encontrar-se com Artílio Batista. Vão os dois falar com o capitão Almeida Santos. Gavroche atravessou o Tejo umas horas antes com Benjamim Marques, que nessa altura já está estrategicamente instalado na esplanada do café, que fica mesmo em frente ao presídio militar. Se ele e Artílio se demorarem muito tempo lá dentro, Benjamim só tem de voltar a meter-se no cacilheiro e ir a Lisboa dar o alerta aos amigos. Depois de transporem dois portões guardados por sentinelas e de atravessarem vários pátios, chegam finalmente a um edifício. Atravessam um corredor no piso térreo e só param quando chegam ao fim. Entram na última porta à esquerda, o quarto de João Jacques Marques Valente. É o marido da loira Maria Eduarda quem os recebe, e é ele quem vai chamar o capitão. Minutos depois, Almeida Santos está a apertar-lhes a mão. Quer que Gavroche te explique os motivos que levaram ao fracasso do assalto ao Rádio Clube Português. Pode até estar preso, mas se alguém manda ali é o capitão, percebe Gavroche imediatamente. Por isso justifica-se e conta tudo o que correu mal. Primeiro Almeida Santos ouve, depois fala. Já tem um novo plano na cabeça. A primeira medida é mudar o nome do movimento. Milícias de Ação Popular é demasiado esquerdista, está fora de questão. O capitão sugere Libertação, mas Gavroche lembra-se que já há uma publicação clandestina com esse nome. Acabam por concordar com Resistência. Os quatro homens combinam pseudónimos e números de código e exibem cicatrizes e outras marcas corporais distintivas, para poderem ser identificados por futuros agentes de ligação. Artílio mostra a tatuagem com algemas partidas que tem no peitoral esquerdo. Gavroche mostra as cicatrizes que tem em cada um dos braços. Uma é resultado de um corte, outra de uma queimadura. Depois, Almeida Santos pede a João Jacques que traga a pasta com as armas. Justamente a pasta que Benjamim entregou a Maria Eduarda na noite da falhada Operação Papagaio e que está ali guardada em pleno presídio. E é também ali, em pleno presídio, que o capitão lhes dá uma espécie de workshop sobre como improvisar um silenciador caseiro para armas de fogo. E lhes devolve os revólveres e pistolas que podem não ter servido para fazer a Operação Papagaio, mas serão muito úteis para ações futuras. Almeida Santos só quer ficar com a pistola Walther. Gavroche guarda tudo o resto nos bolsos das calças e do casaco, sem saber que daí a uns meses vai estar em pânico a atirar todo aquele arsenal pro fundo do mar. Quando os homens finalmente se despedem, está tudo decidido. Um dos primeiros atos da resistência será a formação de unidades de combate, que devem ser treinadas e armadas o mais rapidamente possível. O capitão revela que até está a organizar um assalto a um quartel para se abastecerem de armas, mas que enquanto o plano não avança, o melhor é que os homens tentem roubar as pistolas de serviço de agentes da PSP, guardas-noturnos ou praças da guarda fiscal. No que toca ao financiamento da organização, o modus operandi vai ser idêntico. Gavroche ainda tenta convencê-los a angariar fundos junto de emigrados e pessoas de posses, mas a maioria vota noutra opção mais rápida e mais prática: assaltos a bombas de gasolina. A resistência vai ser comandada a partir de um núcleo central, o executivo, que vai ser formado por quatro homens: Almeida Santos, João Jacques Polido Valente, Artílio Batista e Gavroche. A casa de reclusão da Trafaria não é bem uma prisão. Os militares detidos estão à guarda de outros militares, quase todos de patente inferior, e não só podem circular à vontade pelo forte, como também são livres de receber as visitas que quiserem, às horas que quiserem e durante o tempo que quiserem. Sendo que aqui, ao contrário do que acontece nas cadeias normais, os visitantes nem sequer estão sujeitos a revistas de segurança. O capitão Almeida Santos pode continuar a ter reuniões subversivas, pode desenvolver planos de luta contra o regime, pode guardar armas dentro da prisão e até pode receber visitas da amante. Almeida Santos e Maria José estão juntos há apenas alguns meses, mas já se conhecem há mais de três anos. No início, ele era apenas o professor de equitação do filho mais velho Maria José e o então marido tornaram-se amigos do capitão e da mulher. Costumavam combinar passeios em família e jantares em casa uns dos outros. Até que, pouco tempo depois da separação de Maria José, em 1958, ela e o capitão se tornaram finalmente amantes. No verão de 1959, Maria José está sozinha em Lisboa. Deixou os dois filhos ainda pequenos entregues à mãe, em Travancas, a pequena aldeia nos arredores de Chaves, de onde a família é natural. E entretanto, também já largou o emprego que tinha conseguido arranjar como dactilógrafa. O capitão não quer que ela trabalhe fora de casa. Sem nada para fazer, Maria José decide alugar um quarto ali mesmo na Trafaria, para poder visitar o amante todos os dias. De manhã, aproveita para fazer praia. A seguir, vai pra casa de reclusão, onde fica a fazer companhia ao capitão desde o almoço até às nove da noite, hora a que todos os visitantes devem abandonar as instalações. A vida corre tranquila para o capitão. Mas em novembro, chega uma notícia que não esperava. Ao contrário do que Almeida Santos pensava, o caso do Golpe da Sé, que o levou à cadeia, vai mesmo a julgamento.

As forças de segurança conseguiram suster o golpe e ele nem se desencadeou. E até quase que serviu de exemplo para o regime. Quer dizer, o regime era um regime forte, conseguia evitar os golpes e conseguia com os julgamentos, com as penas de prisão, etc. Publicitava-se a si próprio, tinha capacidade de antecipar, tinha capacidade de reprimir, tinha capacidade de condenar e tinha capacidade de limitar profundamente os movimentos a partir desse momento.

Se não quiser ficar preso durante anos, o capitão tem de fugir. O pedido é feito por Artílio no Miradouro de Santa Luzia, a escassos metros das cadeias do Limoeiro e do Aljube. Gavroche não pode contar a ninguém, nem mesmo a Forte ou Benjamim. Almeida Santos e João Jaques vão escapar da prisão e precisam que Gavroche lhes arranje um carro para a fuga. O mesmo Gavroche, que viu a Operação Papagaio esfumar-se por falta de um carro, diz que não vai conseguir ajudar. Primeiro, porque não tem dinheiro para o aluguer e depois porque não tem carta de condução e também não conhece ninguém de confiança que tenha. Quando alguns dias mais tarde o serralheiro volta a faltar a um encontro, Gavroche nem estranha. É o costume. Mas afinal é mais do que isso. Artílio não está apenas a evitá-lo. Deu instruções a todos os seus contactos para que cortem relações com ele. O serralheiro descobriu que o falatório nos cafés sobre a Operação Papagaio e os surrealistas armados em cowboys revolucionários, chegou finalmente aos ouvidos da PIDE. O grupo de Gavroche foi infiltrado por agentes provocadores. É a mensagem que é enviada para os meios subversivos de Lisboa. Pior do que isso, o Ministério do Exército ordenou uma busca à casa de reclusão da Trafaria, à procura de uma pasta levada pra lá por uma senhora loira. E apesar de não ter encontrado nada, ordenou a transferência dos militares detidos por envolvimento no Golpe da Sé. Gavroche só vai perceber isso no dia em que telefona para o trabalho de Maria Eduarda. Está desesperado por notícias. Há semanas que ninguém da organização o contacta. Do outro lado, a mulher de João Jaques responde com uma mensagem cifrada: "Os nossos amigos foram de férias para o Alentejo." Almeida Santos e João Jaques foram levados para o Forte de Nossa Senhora da Graça, em Elvas. Esta cadeia militar fica a mais de 200 km de Lisboa e é muito mais difícil fugir dali. Mas não é impossível. O romance "A Balada da Praia dos Cães" foi um dos pontos altos da carreira de José Cardoso Pires. Publicado em 1982, o livro, que mais tarde seria adaptado ao cinema, recebeu o grande prémio do romance novela desse ano, e bateu o "Memorial do Convento", de José Saramago, o grande derrotado da edição. Rapidamente feito best-seller, o policial baseia-se em factos reais. É a história de um crime que começa com a descoberta, em 1960, de um cadáver nas areias da Praia do Guincho. O corpo tinha sido desenterrado por cães, daí o nome do romance. Aquilo que não se conhecia, e que esteve durante 64 anos escondido nos arquivos da PIDE, é a ligação dessa história à Operação Papagaio. É que o corpo que apareceu na praia dos cães de José Cardoso Pires era do capitão Almeida Santos. O romance provocou uma enorme polêmica. Alguns tinham culpado a PIDE pelo assassinato, mas isso era uma fantasia. E o livro de Cardoso Pires relembrava a verdade. Os autores do homicídio eram outros dois resistentes anti-salazaristas. Pior, o romance descrevia um crime cometido por razões que não tinham nada a ver com política. Esta era uma história de agressões, ressentimento e ciúmes. Uma história para o último episódio No próximo episódio. Todo o país está em estado máximo de alerta e as fronteiras estão ainda mais policiadas do que o normal. Vai ser impossível sair. Com que então, em grande assembleia. Ora vamos lá esclarecer este assunto. Com o dedo indicador, explica ao companheiro onde tem de acertar a seguir. E o quarto tiro, apontado ao coração, é efetivamente fatal. No banco traseiro, sentam-se os dois assassinos com o corpo do capitão aos pés, devidamente enrolado num cobertor. Há um cadáver enterrado na Praia do Guincho. "Operação Papagaio" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Miguel Guilherme, e tem banda sonora original de Rita Red Shoes. Neste episódio, ouvimos também sons retirados do YouTube. O guião é de Tânia Pereirinha. As entrevistas são de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A sonoplastia é de Diogo Casinha. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus, o Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.