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Operação Stop, mais um domingo na Rádio Observador para falar do mundo automóvel. Eu sou Miguel Cordeiro e comigo em linha já está o nosso editor da seção auto, Alfredo Lavrador. Bem-vindo, Alfredo.

Obrigado, Miguel. Cá estamos.

Domingo de Carnaval, estás mascarado?

Não.

Nem uma peruca?

Estou mascarado de Alfredo.

Muito bem.

O que muitas vezes é mau suficiente.

E muito bem mascarado. Hoje vamos falar sobre portas de automóveis modernas que podem ter alguns riscos. Vamos falar desta questão, até porque há alguns países preocupados com este assunto. Que possibilidade é esta de as portas modernas e controladas eletronicamente poderem causar mais problemas de segurança em caso de acidentes graves ou até, por exemplo, durante inundações, como temos tido agora em Portugal, como as que estão a assolar o nosso país? Que história é esta e que problema é que nós temos com estas portas?

É uma daquelas situações em que nunca ninguém pensou até os problemas começarem a acontecer. Muito rapidamente, para quem nos ouve perceber o que está em cima da mesa, todos nós abrimos as portas dos carros há uns aninhos, não é? De maneira que sabemos mais ou menos como aquilo funciona. Ao contrário dos fechos convencionais das portas automóveis, que para serem abertas possuem um puxador no exterior e uma alavanca no interior, que quando acionadas, ou seja, quando se puxa por elas, abre o fecho através de um cabo. Há um cabo que desengata o fecho e permite que a porta se abra. Ao contrário desta solução, que é aquela que todos os carros têm há imensos anos, não digo 100 anos, mas não andará longe, as portas de comando eletrónico não possuem qualquer tipo de ligação física entre o manípulo, o fecho, o botão e o fecho que verdadeiramente prende a porta. Ou seja, não há ligação, é apenas um cabo elétrico. O condutor tem apenas que pressionar um botão, no caso mais conhecido, que é o da Tesla, por dentro há um botãozinho minúsculo que tu tens que carregar para abrir a porta, e quem está por fora, quando toca no puxador que está recolhido, aquilo sai e permite abrir a porta. Mas esse abrir de porta não há cabo, é eletrónico, ou seja, tu apenas dás um sinal ao sistema, há um impulso elétrico que diz ao fecho para abrir e fechar as coisas. Tudo isto funciona lindamente enquanto o carro tem energia na bateria de 12 V, que é uma coisa que todos os automóveis montam e que, na realidade, faz tudo dentro do automóvel, das luzes, da buzina, do rádio e dos fechos das portas. Mesmo nos carros elétricos, que algum dos nossos ouvintes pode estar a pensar, aquela bateria enorme que lá está embaixo, caríssima, pesada, etc, apenas alimenta o motor e recebe energia do motor nas travagens e desacelerações. Só faz isso. Aliás, sem a bateria de 12 V, o carro nem sequer anda, porque é a bateria de 12 V que dá a ordem à bateria de alta tensão para fornecer energia e em quantidade e tudo o resto. O problema é que quando há água, num acidente ou numa inundação, se a bateria de 12 V deixa de funcionar, e pode fazê-lo por danos interiores ou um curto-circuito, pura e simplesmente as portas deixam de abrir e quem lá está dentro não consegue sair e quem está cá fora não consegue socorrer quem está lá dentro. É uma situação muito complicada, que já gerou vários problemas, várias mortes e, que eu saiba, em Portugal nenhuma, mas na China e nos Estados Unidos várias, e é um problema grave.

Isto é uma carga de trabalhos que a Tesla tem pela frente, até porque este tipo de porta é denominado habitualmente por portas com fecho tipo Tesla. Isto é mesmo exclusivo desta marca ou há mais alguma marca a utilizar esse sistema?

No artigo que publicámos no "Observador", e vais ficar surpreendido, recordámos que o primeiro veículo com este tipo de portas eletrónicas surgiu, calcula tu, em 1947. Foi um carro chamado Crisália, mas foi produzido em pouquíssimas quantidades e era para ser uma coisa especial.

Sim, eu lembro-me. Eu tinha 10 anos na altura.

Desde então, houve, que eu saiba, mais um carro nos anos 80. Como é caro, a menos que tenha uma utilidade específica, ninguém quer usar. Porque se é caro, se investem mais, têm que debitar esse custo adicional ao cliente. O primeiro veículo produzido em série que utilizou este tipo de porta foi efetivamente o Model S da Tesla, quando começou a ser produzido em 2012. Mas entretanto, muitas outras marcas adotaram esta solução e, aliás, nesse artigo estão as marcas, pelo menos as principais, as mais conhecidas, e posso dizer que há uma série delas europeias, mas uma série delas, vai na casa da dezena, e muitas outras americanas e chinesas, em barda, como se costuma dizer. De maneira que é mesmo assim. Agora, por que esta coisa acontece? Porque basicamente os carros elétricos têm muito pouca energia a bordo. Só para as pessoas terem uma ideia, um litro de gasolina tem cerca de 10 quilowatts-hora de energia. Ou seja, como as baterias maiores do mercado têm 100 quilowatts-hora, ou pouco mais, mas as maiores andam ali à volta dos 100 quilowatts-hora, isso significa que corresponde a cerca de 10 litros. Nenhum carro a gasolina vai a lado nenhum com 10 litros apenas no depósito, fará 100 quilômetros ou pouco mais, mas fica-se por aí. Daí que a aerodinâmica seja muito importante, ou seja, tu tens que eliminar tudo o que pode perturbar o fluxo de ar para não aumentar o consumo. E por isso apareceram as jantes carnadas, ou seja, aquela coisa meio tapada, quase não se vê os discos, por exemplo, só para não haver turbilhão enquanto as rodas giram, e apareceram estes fechos de porta capazes de recolher e ficar ao nível da carroçaria para não perturbar a aerodinâmica. Já percebeste onde é que deu o problema.

Sim, estou a perceber.

É os fechos terem que recolher.

Sim. Vamos aqui a estes problemas. Inundações. É uma situação com que muitos portugueses têm que lidar nesses dias. Não é propriamente habitual em Portugal. É recorrente termos inundações no inverno pontualmente, mas não desta dimensão. Qual é o risco adicional que as portas com este tipo de fecho colocam na presença de muita água?

Já falámos do papel fundamental da bateria 12 volts, a que ninguém dá importância, mas que é fundamental, porque sem ela nada mexe. As baterias 12 volts podem estar à frente ou atrás, em alguns carros está no fundo da mala, ou seja, estão ainda mais próximas do chão e não são revestidas. Ou seja, os carros não são submarinos, não é para usar para mergulho, e elas não têm proteção, não estão protegidas hermeticamente de forma alguma. Quando muito, estão numa caixa feita meia de cartão para não sujarem tanto. Mas nada daquilo impede a água de lá chegar. Quando a água chega aos bornes, duas coisas podem acontecer: um curto-circuito ou fazer a conexão entre os dois bornes, aquilo acaba por drenar a bateria rapidamente e ficas sem energia. De uma forma ou de outra, os fechos da porta eletrónica deixam de funcionar, impedindo de sair quem lá está dentro e de potencialmente, aquela coisa que falámos há pouco, assistir quem está de fora. Isto é o motivo pelo que é altamente aconselhável manter na bolsa da porta um daqueles martelinhos mínimos, tem quatro dedos de altura e outros tantos de largura, mas é um T, basicamente, como podes encontrar nos vidros de alguns autocarros e até dos comboios, para quebrar o vidro em caso de acidente, para poder sair lá dentro. E os vidros laterais partem-se com facilidade e quando se partem, desaparece o vidro, desfaz-se em mil bocadinhos, e é fácil sair e entrar, porque de outra forma é complicado abrir as portas e sair lá de dentro.

Sim, e quando se trata de acidentes graves, será que o risco de colocar a segurança dos ocupantes do veículo em causa é maior ou menor?

É maior. Porque no caso dos acidentes graves, para além de tudo aquilo que pode acontecer durante as inundações, e deixa-me só recordar um pormenor. Quando tu estás a atravessar, imagina que estás mesmo numa estrada que tu conheças. Vais a um nível de água elevado, aquele palminho que te encoraja a "Não vou ficar aqui à espera, eu vou atravessar isto com o carro, um palmo não mata ninguém". E de repente, ou porque como não vês nada, não vês o chão, o asfalto está por baixo.

Sim, acaba por estar mais fundo.

Cortas demasiado uma curva e de repente o carro pode resvalar para um sítio com maior profundidade de água. Molhas a bateria, ficas lá, não consegues sair. Ou seja, não é assim tão impossível isso acontecer. Respondendo à tua questão, no caso de acidentes graves, durante um embate é fácil que o chassi se deforme e ao deformar-se aplica uma força enorme na bateria. E isto pode levar a que as células que estão lá dentro arrumadinhas, lindinhas, todas ligadas, refrigeradas, e por aí fora, possam rachar e perder o eletrólito, que é aquela coisa que liga os dois elétrons, o positivo e o negativo. Ora, se isto acontecer, a fuga de eletrólito vai gerar um aquecimento repentino e que vai acabar quando aquilo começar a arder, porque é um problema das baterias, não as LFP, mas todas as outras, chama-se o thermal runaway, que aquilo começa a aquecer e não para mais, até se desfazer durante o incêndio. E isto leva que seja ainda mais premente sair do veículo. Ora, com portas eletrónicas, ninguém sai dali, a menos que lá tenha o tal martelinho, que eu aconselho vivamente toda a gente a comprar.

Principalmente se tiverem um Tesla.

Não, todos eles, porque todos enfermam do mesmo mal. E é mais delicado ainda, porque os carros baratos não recorrem a este tipo de fechos, por uma questão de custos e porque também têm uma velocidade máxima limitada, ou seja, a aerodinâmica é mais importante a 200 ou 300 do que a 120 ou 150. Logo, são mais as marcas caras, as marcas de luxo alemãs, por exemplo, que adotam este tipo de solução, e os carros mais desportivos chineses, também há E não os carros mais baratos, os carros mais acessíveis. Já agora, só um pormenor, para os nossos ouvintes que estão a pensar: "Bolas, eu vou é manter o meu carrinho a combustão". Também não é bem assim, porque se tiverem essas portas, e há vários carros a combustão com este tipo de fecho, porque é uma coisa mais bonita, mais sofisticada, mais moderna. Perante a tal possibilidade do acidente grave, não na inundação, mas no acidente grave. Os carros têm três circuitos de óleo, tradicionalmente. Aquele que lubrifica o motor, aquele dos travões e o do óleo da direção, por exemplo. Basta que um tubo destes se rasgue durante o embate com as deformações da carroçaria, etc, para que haja uma fuga de óleo. Se cair no escape, que está quente, obviamente, o carro ia andar, é certo e sabido que começa a arder e tens o mesmo problema. Se calhar ainda pior, porque como tens mais energia no depósito, a tal relação um litro igual a 10 quilowatts-hora, é ainda pior.

Sim. O que temos aqui é portas com um fecho diferente, vamos lhe chamar moderno agora, apesar de já ter quase um século. Mas temos portas com este fecho que não abrem ou podem não abrir perante uma inundação e podem não abrir perante um acidente grave. Ambas as situações são inaceitáveis, porque isto, de facto, pode comprometer a vida dos ocupantes dos veículos. As autoridades não vão banir isto?

Concordo inteiramente contigo com o perigo associado a esta solução, que toda a gente adotou e nota que todas as marcas têm crânios a trabalhar para elas, mas ninguém pensou, aparentemente, na possibilidade de alguma coisa correr mal e como é que as pessoas safavam lá dentro. Em relação à tua pergunta, o que é que as autoridades estão a fazer? Vamos dividir isto em três mercados, o europeu, o americano e o chinês. Seria de esperar que os mercados mais preocupados com os utilizadores seriam o europeu, em que nós vivemos, e o norte-americano. Porém, estamos completamente agarrados. O único mercado que efetivamente já tomou uma decisão em relação a isto foi o chinês. Anunciou que os veículos equipados com este tipo de portas estariam proibidos de ser comercializados no país, agora, lamentavelmente, só a partir de 2027. E porquê 2027? Porque os carros têm que ser alterados.

Sim, claro.

Todos os países homologaram aqueles carros, deram-nos como capazes. Agora, se querem aquilo alterado, têm que dar algum tempo para que seja alterado. Mas eu não acredito que nenhuma marca vá esperar por 2027. Não vão, porque vão se expor a processos, e com razão, de modo que dou-lhes uns mesinhos, poucos, três meses, seis meses no máximo, para isso estar tudo resolvido. As autoridades europeias e americanas ainda estão a estudar o assunto, de maneira que, por sim, por não, compra o tal martelinho ou qualquer, uma pedra, qualquer coisa. Uma pedra é mais barato. Olha, aqueles cubos da calçada portuguesa, que são tão bonitos, podem levá-lo na porta e aquilo resolve qualquer problema.

Não estás a recomendar à nossa população que comece a retirar pedras da calçada.

A adquirir. Não, estamos aqui a vendê-los.

Pois é. Bem, está feita esta Operação Stop. Cuidado aí com estas portas modernas. Para a semana há mais um episódio. Um abraço, Alfredo.

Abraço, Miguel.