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Sejam bem-vindos ao nono e último episódio de "Filhos da Nação". Ao longo de várias semanas, o Observador tem publicado artigos sobre os vários candidatos às eleições presidenciais de 18 de janeiro e com cada texto temos também estado aqui à conversa com Rui Pereira, secretário-geral da Associação Portuguesa de Genealogia e o grande responsável por sistematizar a muita informação sobre os oito principais candidatos. Hoje, a conversa não vai ser sobre a árvore genealógica de um candidato, mas sobre a própria associação e sobre o que é isto de investigação genealógica. Conosco está José Soares Machado, presidente da Associação Portuguesa de Genealogia e um dos seus fundadores. José, muito bom dia, seja bem-vindo.

Muito obrigado, é um prazer estar aqui.

Eu tenho muito interesse em abordar algumas questões mais práticas sobre a investigação genealógica, mas queria começar por aqui. Como é que surge a ideia de criar a Associação Portuguesa de Genealogia? Ou melhor dito, a Associação de Genealogia Portuguesa.

De facto, eu comecei a interessar-me bastante novo por estas matérias. Sempre fui apaixonado por História e no fundo isto é um ramo da História. É a história da família, portanto, é um ramo da História. Quem gosta de História, em geral, também gosta de genealogia. E a certa altura apercebi-me, comecei a conhecer pessoas que também pesquisavam, de outras profissões, cada um tinha a sua profissão, ninguém era profissional disto.

Sem grande ligação entre si.

Sem grande ligação, foi casual, aliás, e depois conheci um e a partir daí conheci outro. E uma coisa fundamental era pensarmos que era importante encontrar-nos de vez em quando para trocar impressões. Cada um estava a pesquisar uma coisa e de repente descobria, como se vê-

Que essa investigação até podia dar jeito a outro.

Exatamente. E em Portugal havia e há uma instituição muito prestigiada, importante e antiga, que é o Instituto Português de Heráldica, fundado já há muitos anos, há umas décadas, que não era primordialmente destinada ao estudo de genealogia, mas que juntava a genealogia, os genealogistas, porque havia um certo parentesco, digamos assim, quem se interessava por genealogia também se interessava por heráldica. Mas não havia propriamente uma associação especificamente de genealogistas.

Então serviu, no fundo, para dar corpo a uma unidade mais coesa e onde houvesse partilha de experiências. Na verdade, a associação não é a única entidade a fazer investigação nesta área. Há um site que se calhar será conhecido da maioria das pessoas, o Geneall, que apresenta informações sobre a genealogia de múltiplas personalidades e até sobre alguns ilustres conhecidos. Mas depois há mais, há vários sites que se apresentam como uma boa porta de entrada para estas investigações. Eu encontrei o Geneanet, Genealogia Portuguesa, FamilySearch, até o MyHeritage, que se apresenta como o site líder em genealogia. Eu vou lhe fazer a pergunta muito direta: estes sites são credíveis, são confiáveis?

Isso não tem uma resposta de sim ou não. Varia bastante. Há sites em que os investigadores, os genealogistas colocam a sua informação e essa informação não é sujeita a nenhum tipo de controle e, portanto, pode ter erros. Muitas vezes tem. Pode ter fantasias também, muitas vezes também tem.

Para embelezar mais uma árvore genealógica.

Sim, porque há quem o faça às vezes com esse objetivo, enfim, não com o objetivo científico, como nós achamos que deve ser feita. E há outros sites em que isso não acontece, porque há alguém especificamente encarregado de verificar essas informações e controlar, e quem põe a informação é obrigado a apresentar a prova do que está a documentar.

Ou seja, fazer uma validação científica.

Uma validação científica. É o caso tipicamente do Geneall. O Geneall é um excelente instrumento de trabalho para qualquer genealogista hoje em dia e é bastante fiável. Eu só não digo totalmente fiável por uma razão: porque há alguma informação, em particular de personagens mais remotas, linhas que vão até mais à Idade Média, etc, que se baseiam não em documentos primários, mas fundamentalmente em genealogias manuscritas antigas.

Que poderão não ter o mesmo rigor.

E essas, por vezes, também têm erros e muitas vezes se encontram lá erros.

E depois há, claro, a própria associação. Uma pergunta de curiosidade: vocês têm, de alguma forma, a porta aberta para quem quiser saber mais sobre as suas origens? Se uma pessoa quiser encomendar, por exemplo, uma investigação aos seus antepassados, pode contactar-vos diretamente? E já agora, como é que deve fazê-lo?

Pode. O intuito essencial da associação foi precisamente juntar quem gosta desta atividade e quem a faz em geral como amadores, não como profissionais E fazer com que as pessoas que se juntam beneficiem das informações que cada um tem e que pode passar aos outros.

Ou seja, como está a dizer, não há propriamente um interesse comercial, é mais de conhecimento, de aprofundar conhecimentos.

Repare, quando eu falo em informações, não é apenas informações relativamente a esta ou aquela família. É as informações genéricas, como se investiga, que bases de dados que são suscetíveis de, para esta ou para aquela informação, desbloquear um determinado ramo. E isso, quem tem mais experiência, pode ajudar quem tem menos. E esse também foi, desde sempre, um dos objetivos da associação.

Isso é o ponto perfeito para a pergunta que lhe queria fazer a seguir, de forma muito prática. Se eu ou qualquer pessoa quiser investigar os seus antepassados, em princípio, até onde é que se consegue recuar?

Bom, podemos dividir em três grandes períodos históricos. Aquele em que temos informação escrita primária fiável, digamos, vai até ao fim do século XVI, até agora, para trás.

Já é um considerável recuo.

Já é. Há imensos campos em Portugal em que é possível, apenas pelos registos paroquiais e outros documentos de onde se tira também essa informação, ir até ao final do século XVI. Depois, daí para trás, começa a ser um pouco mais complicado, porque já é preciso ir a outra documentação, de acesso mais difícil. Também é preciso começar a ter alguns conhecimentos de paleografia. Mas como há muita coisa publicada, mesmo desse período do final do século XVI até ao final da Alta Idade Média, portanto, século XI, XII, ou Plena Idade Média, se quiser, há muita coisa publicada e, portanto, consegue-se por aí obter informação válida. Para trás desse período, isso já é para altos especialistas.

Eu, se calhar, vou fazer-lhe uma pergunta complicada e a resposta vai ser: depende. Mas quanto tempo é que demora? Por exemplo, no caso destes trabalhos que estivemos a fazer em parceria com a associação, a associação apresenta um relatório com uma série de linhas familiares em que se recuam três, quatro, cinco gerações, às vezes mais. Quanto tempo é que é preciso para concluir uma investigação assim? Há um tempo médio?

Depende do que considerar concluir, porque, como sabe, basta andar uns 200 anos para trás e de repente temos 256 linhas ou 500 e qualquer coisa.

E fechar cada uma dessas linhas de investigação é-

Portanto, quando estamos a ir até ao século XVII, por exemplo, e falamos de cinco, seis, sete linhas em que investigamos, ficaram muitas por investigar. Portanto, há muitas que é muito difícil, porque não há documentos. Estas que se consegue fazer através dos registos paroquiais. Agora aqui um parêntesis, nós também fizemos durante muito tempo e vamos recomeçar a fazer cursos na associação, básicos para os primeiros passos, explicar coisas básicas da investigação genealógica.

Abertos a qualquer um?

Abertos a qualquer um, para que as pessoas, ao contrário do que acontecia quando eu comecei, não tivessem que aprender tudo por experiência própria.

Certo. Era até esse o espírito da associação.

É, também.

Eu tenho que lhe fazer esta pergunta, é a pergunta do milhão de euros, espero que não chegue a tanto, mas questão mais prática também: quanto é que custa um relatório genealógico?

Vamos lá ver. Isso é matéria para os genealogistas ditos profissionais. Alguns sócios da associação fazem-no profissionalmente e nós temos até uma lista de pessoas que consideramos idôneas e que têm trabalho publicado, etc. O que é que se pratica no mercado? Pratica-se normalmente ou um rate horário, ou também há quem faça um preço por número de gerações atingido.

Por exemplo, se quiser ir à sexta geração, será X.

Exatamente. Ou por linhas. Ou então por rate horário, mas em qualquer dos casos estamos a falar de, para uma coisa, por exemplo, com esta dimensão que esteve a referir, que nós fizemos, 2 mil, 3 mil, mesmo 4 mil € é perfeitamente possível.

É possível alcançar estas valores. Eu pergunto porque eu imagino que este conjunto de trabalhos que temos vindo a publicar, até pela experiência aqui na redação, suscitam muito interesse e há de repente muita gente interessada em conhecer um bocadinho melhor de onde vem, quais são os seus antepassados. Não sei se me consegue ajudar a perceber isto, mas para quem queira fazê-lo de forma mais amadora, por onde é que se começa esta investigação? O que é essencial para o primeiro passo? Imagino que o primeiro passo seja o interesse, mas a partir daí.

É preciso curiosidade.

Sim.

É preciso também uma coisa que eu costumo dizer nos cursos, precisamente logo na introdução, que é tirar do espírito alguns mitos que existem. As pessoas às vezes pensam que se é originariamente uma família pobre ou remediada agora Foi sempre assim nos últimos mil anos e o contrário também, se é de uma família mais: "Também foi sempre assim", é completamente falso.

Quem é de sangue azul foi sempre de sangue azul, quem foi um pobre remediado foi sempre um pobre remediado.

Estes relatórios mostram completamente isso. Há aqui uma boa amostragem daquilo que é esta afirmação que eu estou a fazer. Praticamente está tudo misturado e às vezes até dentro das mesmas freguesias. Aqui neste caso, até parece que um conjunto de primos resolveu juntar-se todos e decidiram: "Vamos candidatar-nos todos a Presidente da República."

Sim, de facto, há muitas misturas.

O que se vê por aqui? Vê-se que, e são bons exemplos, aparece de tudo. Aparecem os incógnitos, aparecem os ilegítimos. É preciso tirar da cabeça que isso é uma coisa grave. É preciso ir com o espírito aberto para isto, porque senão a pessoa começa logo a ter tristezas ou fica deprimida. "Tenho um incógnito." Não tem mal nenhum. Era muito comum.

Isso é um ponto curiosíssimo, porque era, de facto, uma das ideias que eu queria abordar, porque nos oito relatórios que fomos recebendo e que vocês tiveram o cuidado de nos preparar, há filhos de pais incógnitos, há familiares com títulos de nobreza, há descendentes de membros da Igreja, portanto, um padre que a determinada altura tem descendência. Se cada um de nós puder investigar os seus antepassados, é muito provável que tenhamos casos semelhantes na nossa família, nos nossos antepassados. De alguma forma, e isto é uma opinião pessoal que lhe peço, mas de alguma forma a investigação genealógica serve para democratizar ou para universalizar a ideia de que temos todos um passado muito rico e no fundo temos todos vários casos familiares nos nossos antepassados?

Serve, seguramente. Serve seguramente para isso. Serve mais para unir do que para separar. Serve para perceber que há muita coisa comum a toda a gente. E é fundamental que quem quiser avançar por uma investigação desta natureza abandone muitos preconceitos.

Porque eles certamente vão cair à medida que avançar na investigação.

Exatamente. Tem que ir com o espírito aberto. E o que encontrar é o que encontrou. E uns são pessoas com mais qualidades, que foram reconhecidas na época, outros também tiveram qualidades, só não foram reconhecidas e nós não sabemos.

Sim.

Mas tiveram com certeza. E isso é algo que permite a quem faz a investigação, do meu ponto de vista, também ajudar a conhecer-se melhor a si próprio, porque no fundo é um trabalho quase de arqueologia. Está a ressuscitar pessoas, está a dar-lhes vida.

A dar uma história a cada família.

Está a dar uma história, pessoas que existiram e que muitas são anônimas. É claro que toda a gente gosta de encontrar uma pessoa conhecida, porque uma pessoa que foi famosa, com certeza, porque é muito mais fácil fazer uma biografia.

Sim.

Mas também é interessante, muitas vezes, e ultimamente faz-se mais, mesmo em relação a pessoas que não tiveram destaque social, também se encontra informação. E também é interessante e é bom para se conhecer de onde vimos.

Sim, e quem somos. Uma pergunta final. A associação foi parceira do Observador nesta investigação das árvores, como eu dizia, de cada um dos candidatos presidenciais. E também como eu disse no início, nós passamos as últimas semanas a publicar artigos que resultam dessas investigações. Na associação, já se começou a sentir o efeito destes artigos? Têm tido mais contactos? Isto tem suscitado interesse para que as pessoas queiram conhecer os seus antepassados?

Tem bastante. É preciso também dar os parabéns ao Observador, porque a qualidade dos artigos que foram feitos, na parte em que os jornalistas do Observador participaram, é importante porque chamou a atenção e prende a atenção. E isso tem se manifestado porque, de facto, temos tido alguma chuva de contactos, pessoas a dizer: "Eu também quero. Como é que eu faço isto?" E não é fácil, porque, como lhe disse desde logo no início, nós pesquisamos todos por gosto, temos as nossas profissões. Portanto, temos um bocadinho de tempo, às vezes à custa da família.

Para esse hobby, sim.

Temos um bocadinho de tempo dedicado, de sobra, dedicado a estas tarefas e não o fazemos profissionalmente. Mas os profissionais começaram todos assim.

De forma amadora e depois foram desenvolvendo.

Exatamente.

Agradeço-lhe imenso a sua presença nesta conversa. Agradeço também ao Rui Pereira, que fez o levantamento e que nos apresentou os vários relatórios sobre cada um dos candidatos. E já agora agradeço também a quem nos foi acompanhando em cada um destes episódios. Muito obrigado.