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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto. As manhãs 360 junta-se agora a mim, ao Miguel e ao Paulo, jornalista da seção do desporto do Observador, Mariana Fernandes. Bom dia, Mariana.
Olá, bom dia.
Hoje temos uma edição inteiramente dedicada a Kobe Bryant, que morreu ontem aos 41 anos.
Sim, uma edição que tem de ser inteiramente dedicada a Kobe Bryant, porque a verdade é que esta rubrica se chama Outras Histórias do Desporto, e tentamos sempre fugir ao óbvio e àquilo que faz as manchetes. Hoje contrariamo-nos, porque Kobe era isso mesmo, era uma contradição em si mesmo e era muito maior do que o desporto. Era um dos melhores de sempre, era o melhor desde Michael Jordan. Foi cinco vezes campeão da NBA, era hipercompetitivo, mas ao mesmo tempo era um dos atletas mais respeitadores de sempre e acabava por ser um exemplo daquilo que é ser não só um campeão dentro de campo, mas também sê-lo fora dos pavilhões.
Conseguia ser, como dizias, um exemplo dentro e fora do jogo.
Sim, porque ele era o melhor de todos. Ele foi um ícone, era a figura da equipe dele, era a figura da NBA durante os anos em que jogou, mas era também o exemplo de uma cultura. Ele acabou por não representar apenas aquilo que ele era, aquilo que os Lakers eram, aquilo que a NBA era, mas também a própria cultura do basquetebol e aquilo que significava para o desporto. Ficou sempre um pouco à margem daqueles escândalos que costumam afetar estes atletas de primeira água do basquetebol, longe daquela ideia de sex, drugs and rock 'n' roll, muitas vezes da NBA. Era casado, tinha quatro filhas, era um verdadeiro pai de família e acabou por amadurecer muito novo, porque ele chegou à NBA com 17 anos. Aos 20 e poucos já era uma autêntica superestrela nos Lakers e em Los Angeles, e na última fase, depois de acabar a carreira, desde 2016, mostrou claramente que queria fazer quase uma espécie de segundo ato da própria vida, dedicou-se ao ativismo, às causas que defendia, e muito disso era também o desporto feminino, através da filha, Gianna, que morre também com ele neste desastre de helicóptero. Ontem, os mais próximos dele contavam uma história sobre ele e sobre a filha. Brincavam muitas vezes com o Kobe Bryant sobre o fato de só ter quatro filhas e diziam: "Tens que ter um filho para continuar o teu legado, para jogar basquetebol". E esta filha, que também jogava basquetebol, dizia: "Não, não precisa de ter um filho, estou cá eu. Eu continuo esse legado".
Mariana, e o mundo do desporto, como temos visto desde ontem à noite e ao longo desta manhã, reagiu em massa ao acidente.
Sim, o mundo do desporto, obviamente, por motivos óbvios, não só no basquetebol, mas também no futebol. Cristiano Ronaldo faz um tributo também muito grande a Kobe Bryant, mas também tudo aquilo que está para lá do futebol, do basquetebol, do desporto. Eu apercebi-me disso quando estava a fazer um pequeno scroll no Instagram, a ver quem estava a reagir à morte, e reparei que a própria Inés Arrimadas, a líder do Ciudadanos na Catalunha, faz também um texto bastante grande sobre Kobe Bryant. Até à política, até ao ativismo, Kobe Bryant acabava por tocar um pouco tudo aquilo que estava para lá do basquetebol, porque ele próprio também era maior do que isso. Donald Trump também marcou o dia, marcou aquilo que tinha acontecido. O próprio Barack Obama, que é um grande fã do basquetebol, também falou precisamente dessa personalidade de Kobe Bryant para lá daquilo que é o desporto. E se passássemos pela BBC, pela CNN, que estavam a fazer emissões especiais, víamos que os próprios pivôs de televisão estavam visivelmente emocionados. Alguns não conseguiam mesmo evitar as lágrimas enquanto estavam a falar. Era uma figura que mais do que ser um marco do desporto, era totalmente consensual. Acho que é raro encontrar alguém que não gostasse, pelo menos, da figura e daquilo que era Kobe Bryant.
Sem dúvida. Mas no que toca mais concretamente ao desporto e ao basquetebol, o que significa, tudo pesado e ponderado agora, o Kobe Bryant?
Ele foi campeão da NBA cinco vezes. Era, até à véspera de morrer, o terceiro melhor marcador de sempre. Tinha sido ultrapassado no dia anterior por LeBron James.
Aliás, ele foi ver esse encontro.
Exatamente. Ele foi ver esse jogo. O último tweet dele, a última frase dele em termos públicos, é exatamente a dar os parabéns a LeBron James por tê-lo ultrapassado. Termina como quarto melhor marcador de sempre da NBA. Foi 18 vezes All-Star, só atrás das 19 de Kareem Abdul-Jabbar, duas vezes campeão olímpico. Formou uma dupla enorme com Shaquille O'Neal nos Lakers. Ele esteve 20 anos nos Lakers, não representou qualquer outra equipa na NBA durante uma carreira de 20 temporadas, algo que já não acontece hoje em dia. Ele nunca quis mudar e costumava dizer que era Laker all the way, não queria mesmo mudar, era uma figura.
É uma coisa que não se usa, como diz.
Exatamente, já não se usa. Os Lakers acabaram por retirar os dois números que ele usou, o 8 e o 24, algo que nunca tinha acontecido na história da NBA. E eu acho que acaba por haver quase aqui um final perfeito, se é que podemos assim dizer. Claro que é uma tragédia, mas a verdade é que ontem foi noite de Grammys, e os Grammys aconteceram precisamente no Staples Center, que é o pavilhão dos Lakers. Além dos Grammys, houve também uma grande homenagem a Kobe Bryant naquela que foi a casa dele durante 20 anos, que foi o sítio onde ele se mostrou ao mundo. E se havia forma de se tornar esta despedida de Kobe Bryant ainda mais bonita e ainda mais significativa, então foi assim, com este final perfeito no Staples Center.
Mariana Fernandes com outras histórias do desporto, hoje numa edição inteiramente dedicada a Kobe Bryant, que morreu ontem aos 41 anos.