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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto. Tudo pronto para o "Pet Radio" desta semana. Junta-se a nós, ainda que à distância, o médico veterinário Nuno Paixão. Nuno, boa tarde, bem-vindo.

Boa tarde. Como estão todos?

Olá, viva, Nuno.

Estamos bem, Nuno. Obrigada. Hoje vamos falar precisamente da tua profissão em tempos de estado de emergência. Muito mudou nas tuas rotinas também, Nuno.

É verdade, muito mudou e de forma consciente, porque nós não podemos esquecer que, apesar dos nossos cães e gatos não serem infectados nem transmitirem o SARS-CoV, que tanto se fala hoje em dia, eles também sofrem com tudo isto. E sofrem porque eles precisam ter, além das rotinas deles do dia a dia, os cuidados que são necessários. E isso levou a que muita gente tivesse muitas dúvidas, porque, como muitas empresas, várias clínicas, por diversos motivos, tiveram que fechar. Apesar de, e muito bem, o decreto de lei do estado de emergência ter considerado os serviços médico-veterinários como essenciais, ou seja, não determinou o seu encerramento, não tinha qualquer lógica hoje em dia, não só pelos animais de companhia, mas também pelos outros animais, pela segurança alimentar, por tudo o que está inerente.

Certo.

E isso fez com que muitos centros de atendimento médico-veterinários estivessem a funcionar, porque os médicos veterinários não quiseram deixar de acompanhar os seus pacientes. O médico veterinário tem uma responsabilidade perante os seus pacientes, não só perante os tutores dos seus pacientes, mas perante os seus pacientes. Há doenças crônicas e uma das coisas que é algo aflitivo é as pessoas não procurarem cuidados de saúde para os seus animais, porque têm medo de se deslocar.

E no teu caso específico, tu notaste essa diminuição também?

Sim, eu não diria que se notou muita diminuição. Até, às vezes, houve um excesso de zelo da parte de alguns tutores, porque como estavam mais tempo em casa, começaram a reparar em coisas nos seus cães e nos seus gatos que normalmente não reparam. Aquela crostazinha, aquele altinho que já devia estar ali há três ou quatro meses, mas agora é que deram conta. Algumas mudanças do comportamento, interagem mais com eles, possivelmente agora até dão um cheirinho na pele que antigamente não tinham tempo para detectar. E uma das coisas, e aqui temos uma grande vantagem, os médicos veterinários têm o conhecimento de saúde pública, têm conhecimentos de lidar com micro-organismos e vou ser muito sincero, em medicina veterinária temos micro-organismos que são bem mais agressivos, bem mais violentos do que o SARS-CoV, e nós temos que lidar com eles. E isso fez com que muitos centros de atendimento médico-veterinário fossem um lugar seguro mesmo para as próprias pessoas. A responsabilidade dos médicos veterinários de terem uma atitude pedagógica, não só perante os animais, mas perante as pessoas que tenham muitas dúvidas, até delas próprias. E vamos ser sinceros, muitos dos tutores de animais são pessoas de idades avançadas, são pessoas que vivem com aquele cão ou com aquele gato, que é a companhia delas e que não tinham acesso a médicos, enfermeiros, aos centros de saúde e tinham muitas dúvidas.

Nuno, mas para quem está a ouvir e que deteta um problema com o animal de companhia que tem, qual é a primeira coisa que deve fazer? Ligar para o médico veterinário, para a clínica veterinária e depois seguir os procedimentos, ou se for um caso mais extremo, dirigir-se diretamente a uma clínica?

De uma forma geral, sempre que possível, telefonar antes para a clínica que o atende normalmente. A triagem, ou seja, a decisão de ir lá ou não, deve ser da clínica e depois a própria clínica explicará os procedimentos. Uma das coisas que todas as clínicas se esforçaram ao máximo por fazer foi por acabar com os aglomerados de pessoas. E isso leva a uma necessidade de marcação de procedimentos que realmente sejam necessários. Mas aqui nós temos um problema alargado, porque o conceito de urgência, e eu tenho alguma dificuldade em dizer que só em situação de urgência é que devemos atender os nossos pacientes nesta fase, porque quando nós falamos de urgência, podemos adiar um atendimento, vamos lá, dois dias, três dias, cinco dias, oito dias, porque não é um processo que possa causar a morte ou que possa causar problemas graves naquele animal num curto espaço de tempo. Mas nós já estamos nisto há um mês, ou seja, os nossos pacientes que até podiam não ter algo de muito urgente há três semanas, os processos vão se agravando, vão se agudizando e aumenta o risco. Portanto, tem que haver um bom senso muito grande da parte dos donos, é verdade, mas também aconselharem, telefonarem. Hoje em dia os telefones são das nossas armas mais eficazes. As videochamadas com os nossos pacientes são mais do que muitas. Nós, hoje em dia, vemos muitos dos nossos pacientes por videochamada, mas também uma das coisas que devemos ter em conta, os nossos pacientes, só poderemos fazer isso se já tivermos conhecimento deles antes, já sabemos o que é que se passa, já os acompanhamos fisicamente e pessoalmente há muito mais tempo, porque o diagnóstico por videochamada de um paciente que nunca vimos é um risco muito grande até da própria saúde do animal, que devemos ponderar muito bem isso.

Certo, portanto, não descurar o cuidado do animal por medo, isso também é mensagem importante.

Isso é uma coisa importante. E a outra coisa importante também é que as pessoas têm que ser conscientes de uma forma geral. Ou seja, se o tutor está doente, se o tutor se sente com sintomas, nem que seja de gripe, que hoje em dia pode ser um fator de susto grande, tentar arranjar outra pessoa que se desloque com o animal à clínica e não ela própria. Se pode manter alguma distância, o que nem sempre é fácil. Agora, eu posso vos dizer que, por experiências, até ao momento, os nossos companheiros de luta que temos aqui, os nossos clientes, os nossos pacientes, têm sido de uma cidadania e de uma responsabilidade muito grande.

Nuno, muito obrigada pela tua presença novamente aqui no Pet Radio. Até para a semana. Obrigada. O Nuno Paixão é médico veterinário e junta-se sempre ao Pet Radio à sexta-feira. Um episódio que vai ficar também disponível já a seguir em podcast, nas plataformas habituais e em observador.pt.