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Sejam muito bem-vindos a mais um "Pop-Up", o vosso reencontro semanal com estes amigos que merecem sempre um like: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucher Mendes. Esta semana vamos falar sobre aquilo que uns criticam, outros adoram e outros ainda dizem que já morreu. Trata-se do Facebook. Para o caso de vocês não se lembrarem, o Facebook tornou-se disponível mundialmente a 26 de setembro de 2006, fez portanto 20 anos. E foi agora há coisa de uma semana que chegou aos cinemas o filme "O Verdito Social", escrito, produzido e realizado por Aaron Sorkin, que dá sempre aquela ideia de: "Eu vou fazer isto tudo sozinho".
Que é um argumentista de jornalistas.
Se há argumentista de jornalistas, é Aaron Sorkin. A história é de Frances Haugen. É uma história real, é importante dizer essas coisas. Dramatismo. E de como a informação confidencial que esta antiga empregada da empresa de Mark Zuckerberg divulgou veio revelar as práticas, no mínimo duvidosas, do Facebook. Mas na verdade, nós estamos aqui para falar do filme, que não é grande coisa, fica a minha avaliação. Mas para falar do próprio Facebook, 20 anos depois, onde está, quem lá está, para que serve. Pedro Boucher Mendes, vamos começar por ti. O que é que o Facebook começou por ser? O que é que é agora?
O Face.
O Face. Achas que são coisas diferentes? Ou é um mito urbano?
Olha, quando eu escrevi-
Quando me convidaste para este programa
...escrevi aqueles livros dos 80 e dos 90.
Em que não havia Facebook.
Que eu amplamente promovo aqui, sempre que posso.
É verdade, sim.
E depois perguntam-me se eu vou escrever das décadas seguintes, eu digo logo que não, e uma das razões é o Facebook. Porque são tantas as camadas de alteração no tecido social que o Facebook e outras redes sociais provocaram, que estaria a vida inteira a escrever este livro. Para dizer o quê? Para dizer que o Facebook aparece, coincide, porque estas coisas há o lado da coincidência. Aparece, coincide, surge, impõe-se quando a internet começa a ser mais rápida de aceder e quando começa a ser mais comum ter internet. Começa por ser uma espécie de álbum de fotografias, ou o que hoje chamamos de perfis, num circuito fechado lá na faculdade do Mark Zuckerberg. Naquela altura havia o Hi5 e o MySpace, que eram maneiras de nós existirmos no espaço, como é que se chamava? Cibernético?
É isso.
Sim.
Já não ouvia a palavra cibernética há muito tempo.
O que é que significa existir? Significa estar lá com uma foto, no fundo, esperar que alguém-
Ter um nome, um perfil.
Sim. A ideia de que pudesse vir a ser um sítio onde nós conheceríamos, dialogaríamos e nos manifestaríamos ainda não faz parte do princípio. O que o Facebook e outras redes sociais depois provocaram foi, seja de propósito ou não, eu acho que não foi de propósito, mas provocaram, uma intensa polarização da sociedade. Em geral, dos temas. Quase todos os temas passaram a ser uma espécie de campos de batalha do teclado. Heróis do teclado.
Ou estás de um lado ou estás do outro.
Certo. Nasce uma coisa que não havia, por exemplo, que é o block. Eu antigamente, se me zangasse contigo, para já não me zangava, mas se me zangasse contigo, bastava não ir ao café onde tu estavas. Havia muito aquela coisa. O meu sogro tinha muito aquela coisa que eu acho que é uma coisa de uma certa geração, que é: o empregado foi antipático com ele, "Nunca mais lá ponho os pés". Havia isso. Eu fiz isso numa churrasqueira. Pronto. E já voltaste, não? Não voltei, nunca mais voltei.
Há quanto tempo?
Já há uns mais de oito anos. E era bom, o frango lá era mesmo bom. Era e é. Ainda continua a ser. Deve ser ótimo. Mas eu não voltei lá. Bloqueei.
Mas arrependes-te.
Esta ideia de likar, fazer like, de bloquear, que não acontece logo no Facebook. Esta ideia de participar numa conversa, está um tipo, neste caso em Portugal, um tipo de Castelo Branco a falar e depois um tipo do Algarve, e depois nós que estamos aqui em Lisboa também mandamos uma bujarda. São efeitos que o Facebook vai tendo, neste caso em Portugal, mas obviamente em todo o mundo, e que não faziam parte do plano inicial. Eu ainda sou do tempo do Facebook, se calhar vocês também são, em que o feed era cronológico.
Sim, mas isso mudou, claro.
Pronto, e depois às tantas: "Ah, eu escrevi uma coisa e já não vejo". E tu tinhas que explicar: "Não, isso mudou".
Foi aí que o mundo começou a mudar, precisamente. Tal e qual.
E pronto, é isto. Já digo mais coisas.
E muito bem. Bruno Vieira Amaral, tu que és um escritor. Fica aqui a informação, não é só o Pedro que escreve livros.
É um operário da palavra.
Exato. A Maria há de escrever o seu, um dia. E quando a Maria escrever as suas memórias.
E quando tu escreveres as tuas.
Não.
Quando a Maria escrever o dela, o Tiago escreve logo o seu. Combinado?
Houve tempos em que se escreviam textos a sério no Facebook. E isso já não acontece?
Eu, pelo menos, vejo muito pouca coisa
Tu ainda escreves textos a sério no Facebook?
Não, já não. Mas na altura escrevia, quando fui para o Facebook.
E porque é que já não escreves? A tua experiência pessoal pode já reflectir isso.
Talvez por isso que o Pedro estava a dizer que, de repente, a distribuição, o baralhar e voltar a dar do Facebook alterou-se. E agora aparecem muito poucas publicações dos meus amigos. Não sei se eles deixaram de publicar. Presumo que publiquem menos, mas não tão menos assim. Ou seja, continuem a publicar, mas de facto não surge porque estavas num período quase de virgindade, de inocência, em que acreditavas que valia a pena.
Houve uma altura em que o Facebook veio de alguma forma substituir os blogs?
Veio. Há uma migração, há uma transição em que as pessoas que escreviam nos blogs passam a escrever no Facebook. Nem todas o fizeram, porque os blogs ofereciam um conforto, uma proteção, um anonimato. Eras quem tu querias ser através da tua palavra.
Certo.
No Facebook, o próprio nome indica.
É para ser o teu nome.
Começas a estar cara a cara.
Agora, isto sou eu. E para algumas pessoas que eram muito ativas nos blogs, o Facebook era exatamente o oposto daquilo que pretendiam. Mas, de facto, como foram milhões de pessoas, algumas acabaram por transpor para o Facebook, de forma um pouco mais, se calhar, sintética, aquilo que faziam nos blogs, que era esse comentário, o que dava azo, por um lado, a algumas reflexões estimulantes, por outro, rapidamente aquilo descambava em discussões muito estéreis, em que as pessoas ao fim de muito pouco tempo começavam a atacar-se e já não estavam a ligar aos argumentos, à discussão. Aquilo acabava por ser um ataque. Isto tem muito que ver com a nossa capacidade humana de convivermos com estranhos. Há um estudo qualquer sobre isto.
Até deve haver mais do que um.
Mais do que um, mas há pelo menos um estudo que mostra que tu social e cerebralmente estás preparado para lidares diretamente e de forma pessoal com um grupo muito reduzido, um número muito reduzido de pessoas. Sei lá, 50. A partir desse número, a relação com as pessoas, apesar de ter todos os indicadores de uma relação pessoal, ou seja, estás a contactar com aquela pessoa.
Sim, mas é circunstancial.
Mas já não implica uma proximidade. Tu já não estás preparado para ser próximo. O nosso software não te prepara para teres relações de proximidade, de amizade com 100 mil pessoas, com mil pessoas. Já é demasiado. E isso acabou por provocar necessariamente algumas fricções e creio que motivou também algum desencanto e pessoas, como eu, por exemplo, deixaram de acreditar no Facebook. Vale a pena.
Os desencantados do Facebook.
Os desencantados, os lesados.
Maria Ramos Silva, por falar em desencantados, antes de começarmos este extraordinário programa, falavas de duas coisas que se cruzam, que é até que ponto o Facebook foi em tempos uma montra, mas uma montra às vezes até a nível profissional, como por exemplo, passou a ser mais ou menos o LinkedIn, se bem que o LinkedIn agora é uma coisa meio mística gasosa.
O LinkedIn veio absorver isso.
Supostamente é um sítio de engate agora o LinkedIn.
Também.
Porque depois tudo migrou para esse lado.
Ou seja, já é outra coisa também. Mas isto em relação a uma certa geração, achas tu?
E a um certo meio. Acho que o Facebook serviu como elevador profissional para muita gente, assumidamente. Uma bolha, sobretudo aqui em Lisboa, acho francamente que serviu, porque na verdade parte com uma premissa.
Como os blogs também serviam.
Certo, precisamente. Começa com uma premissa muito simples, que na altura até me levou a ter grande reticência. Ele começa em 2004, mas eu só adiro em 2009.
É uma vergonha.
Tardiamente. E foi com uma grande reticência, porque me diziam: "Isto é muito giro, vais reencontrar pessoas da escola". E eu pensava: "Mas por quê? Eu não quero! Eu já me dou com as pessoas com quem quero, não quero reencontrar ninguém, deixem-se desse disparate". Mas pronto. De repente estávamos todos lá a falar naquele fórum como se ninguém estivesse a ouvir, que é uma coisa extraordinária. Porque revendo algumas coisas que se escreveram, de facto não lembra a ninguém. Mas depois tinha isso tudo. Subitamente tens uma filigrana absolutamente elaborada, que era aquilo que o Bruno falava, onde se davam coisas muitíssimo interessantes, como tinhas os gatinhos. E tinhas a maior frivolidade e as coisas absolutamente inocentes, ou que nós julgávamos inocentes, porque hoje já não sabemos bem se são inocentes ou não. Mas quer dizer, depois eu acho que há ali uma grande mudança, que é aquilo também que o Pedro dizia, transformou-se numa espécie de semente de todas as barricadas e todas as trincheiras. E sobretudo quando o botão de like é introduzido.
Espera aí que já lá vamos.
Sim, mas de facto eu acho que é muito isso. Há ali uma transição, um momento em que tu deixas de ter aquele mero jogo entre solteiros e casados ao domingo, e aquilo já passa a ser uma disputa ao nível de champions à terça.
Não, é que passaste muito rapidamente do paraíso, do "Isto é tão maravilhoso, vou reencontrar pessoas" para a Torre de Babel, em que ninguém se entende e está tudo a discutir uns com os outros.
Sim, e lá está, tu partes de uma coisa que é: vamos reencontrar pessoas que conhecemos para, de repente, estar a discutir com o tal tipo embriagão, que tu nunca viste, nem vais ver na vida, coisas absolutamente ou tão extraordinárias ou tão risíveis, que não têm sentido nem necessidade nenhuma, mas de facto aquilo entrou-nos ali da cabeça de uma maneira, e aquilo que tu falavas do LinkedIn, eu acho que é muito isso também. Da mesma forma que as pessoas usaram e sentiram que o Facebook era uma porta espectacular e uma mola, um certo trampolim. Quando de alguma forma sentiram que estavam a perder público, que essa atenção e validação se esvaziou, depois migraram todos para o LinkedIn, que parte como uma coisa só estritamente profissional. Da mesma maneira que o Facebook também depois viu extrapoladas as suas competências e as suas funções todas em termos de mostra, também hoje é uma coisa absolutamente infr frequentável.
É um centro de autoajuda. Pedro Gusmão Mendes, ainda antes de acabarmos a primeira parte, podemos dividir as coisas assim: Facebook é para velhos, o TikTok é para os mais novos e o Instagram está no meio, mas é cool?
O Facebook é de um tempo de desktop, portanto, computadores de mesa, até com aqueles monitores gordos ainda.
Sim, não tínhamos as apps.
Isto, não havia ainda smartphones. Enfim, num comentário que deixo ao vosso critério, o século XXI começa verdadeiramente com os smartphones, que é quando nós nos tornamos portáteis nós mesmos. Eu para ir ao Facebook tinha que ir agora para casa, sentar-me, ligar aquilo, ver as minhas mensagens ou os meus likes, o que for. E tem uma outra coisa que é gratuito, tal como a rádio e a televisão. Nós estamos habituados a que isso seja gratuito ou achamos que são gratuitos. E tem uma outra coisa que eu sempre referi, embora nunca ninguém me tenha ouvido, pede mal dos meus pecados, que é um interface, um aspeto visual tremendamente bem conseguido. Muito clean, muito azul. Mas naquela altura os sites eram quanto mais berrantes, dinâmicos e cheios de Java, como é que se chamava aquilo? Lembras-te ou não?
Sim, senhor.
Tu abrias e era pop-up.
O chão é Java.
O criador era daltônico, supostamente, e criou isso assim.
Quando eu digo que nunca ninguém me ouviu, eu estou a falar a sério. Esse lado suave do Facebook, esse lado simplicíssimo, como aliás tem a página inicial do Google. Toda essa simplicidade. Enfim, estava num tempo em que falávamos de sites, íamos ter um site disto, um site aquilo, e todas as pessoas à minha volta queriam fazer sites amarelos ou cheios de raios e de Java. E tinha uma animação aqui no canto. Não, não é preciso nada disso. Isso tornou o Facebook universalizável, tanto a tua avózinha percebia, como a tua mãe, como a tua prima mais nova. Hoje, eu penso que é um meio que continua a ser confortável para usar e que é obviamente usado mais pela malta dos gatos, os reformados. Nós temos muitos aqui, muita gente que em Portugal se reformou muito cedo e que hoje vive no Facebook. Sobretudo a falar mal.
Mas parece que a divisão etária está bem definida ou é mais fácil para nós?
Não, o Facebook já não é um must have. Não sei se os meus filhos têm.
Não é uma condição.
Antigamente tinhas.
Mas o Instagram é uma condição.
Sim, não sei se é uma condição. Uma pessoa que tenha nascido em 2010 não sente que tenha que ter Facebook, apesar de eu não fazer ideia como é que são essas pessoas, mas essa parte eu sei. São pessoas mais preocupadas com o ambiente, mais preocupadas com o açúcar, mais preocupadas com a moda em segunda mão, mais preocupadas com não sei o quê, mas com o Facebook, não, de certeza. Provavelmente acham que o Facebook é uma coisa da avó ou da mãe.
Que pensavam que a avó não ia dominar, provavelmente. Parece-me essa a questão.
Mas eu queria só dizer que eu vou ao Facebook. Vou lá procurar algumas coisas. Agrada-me que aquilo seja assim meio árido.
E não estás reformado.
Ainda.
Já chegamos ao tempo em que aquilo é um abrigo. É verdade.
Quando volta o Procópio.
A mesa número dois.
O Procópio.
Olha que eu já vou sentindo isso. Estás mais cansado.
Sim.
Ou seja, ajuda a traçar a personalidade. Tu vais ao Facebook ou não vais? Se vais ao Facebook, então-
Agora é até suposto tu dizeres que: "Eu já nem sei a minha password."
E tu: "Ah, ok."
É suposto dizeres que já nem sequer conheces a password. Olha, eu também não sei a minha, mas como esta porque está sempre ligada.
Maria, um minuto só para rematares com a questão do botão de like. Por que achas que isso mudou?
Olha, para já, porque foi criado por um senhor com um nome extraordinário chamado Sol lei Cuervo.
A sério?
Sim. Que depois deve estar arquimilionário.
Ou é uma marca de rum ou de tequila.
Parece, podia ser, mas não, está arquimilionário com isto tudo, obviamente. Eu não sei o que leva exatamente, mas eu acho que de facto é um momento de transição, porque é um momento em que deixa de ser uma coisa aparentemente amadora e passa a ser uma disputa a sério. É quase aquele momento de olhem para mim, isto sou eu. Mas depois há ali outra camada que é olhem para mim, isto sou eu e sou especial. E depois ainda dás o outro salto, que é ajudado muito pelo Instagram, que é olhem para mim, eu sou especial e estou em biquíni, por exemplo. Não, porque de facto, em termos de imagem, o Facebook começa-
Já nem me lembro, havia essas coisas depois.
Havia, sim. Há ali um upgrade, obviamente, em termos de imagem. Nós também já falaremos dessa parte. Com a portabilidade.
Já falaremos.
Já falaremos com a questão da portabilidade e tudo mais. Depois toda essa dimensão do romance, das relações.
Guarda aí o amor para a segunda parte. Exato. Chegamos ao final da primeira parte do "PopUp". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com a Maria Ramos Silva, o Bruno Vera Amaral e o Pedro Gusmão Mendes. Esta semana e a propósito do filme "O Verdito Social", que está nas salas portuguesas. Não é assim, Pedro? Estamos a falar sobre o Facebook.
É a sétima arte.
Sétima arte. Fez agora há pouco tempo 20 anos. Bruno Vera Amaral Explica-me isto.
Eu explico. Vou tentar.
Tu deixaste esta frase.
Enigmática.
Quando este programa foi extraordinariamente preparado, esta frase que diz: "A taxa de mortalidade no Facebook parece mais elevada".
Parece do que no mundo, do que na vida real. Morre muita gente no Facebook.
Achas?
No meu, então. Mas eu não estou a brincar. Eu acho que é um do tipo de publicações que agora está em alta no Facebook. Parece que antigamente morria muito menos gente no Facebook. No início, ou seja, o tipo de publicações.
Ou as pessoas escreviam menos sobre isso.
Também. E passou a ser uma coisa que mobiliza, o tipo de publicação que ainda mobiliza as pessoas no Facebook, com todo o tipo de considerações, das estrelinhas no céu e aquelas coisas todas.
Mas quando falas disso, estás a falar de pessoas famosas que morrem?
Não. Pessoas conhecidas.
Alguém que faz referência.
Exato.
E publica um texto, uma memória, uma foto.
Publica. Há aqui muitas variações. Há aquelas pessoas que escolhem uma imagem de uma pomba, uma coisa assim, uma imagem escura, uma imagem negra, de um laço, de uma braçadeira, ou então uma coisa pessoal em relação àquela pessoa, ou um anúncio da funerária, ou então uma fotografia daquela pessoa: "Olha, aqui estamos nós, partiu tão cedo". Mas eu não me recordo, não tenho ideia de que no início isso acontecesse.
É um tipo de publicação que motiva a reação do outro lado, não é?
É um mercado forte.
É fortíssimo. Tens aqui uma espécie de campeonato, mas tens as celebridades, claro, mas depois tens as celebridades a nível nacional, a nível local, depois tens os amigos dos amigos e depois tens os familiares. E tudo isto gera dinâmicas diferentes. Vou dar um exemplo de como é que as pessoas reagem. Quando é alguém próximo geograficamente, imagina, um amigo teu partilhou o anúncio da morte de uma pessoa, que tu não conhecias, mas é da mesma região, muitas pessoas vão procurar e vão: "Mas morreu de quê? Tão novo?" Estás a perceber o gênero de interação que isto suscita. Portanto, há aqui uma curiosidade mórbida, por um lado, sobretudo se forem mais novos. Há reações da teoria da conspiração.
Claro.
"Ai, tão novos, isto é das vacinas." Mas eu acho que é o tipo de publicação que-
A gente está a rir, mas não tem piada.
Não tem, mas aconteces muito isto. É muito frequente. Talvez haja aqui um viés do meu Facebook, ou daquilo que eu vejo, ou daquilo que o algoritmo me dita, mas eu creio que este tipo de publicação não era tão prevalecente no início do Facebook como é agora. Ou então estamos todos a morrer.
Claro, isso estamos. Maria Ramos Silva, falar em prevalecente, o romance e o engate.
É Eros e Thanatos.
Só pra falar um bocadinho da morte, antes de irmos.
Muito bem, é o outro polo.
Eu estava a ouvir o Bruno, porque acho que tem um pouco aquela questão do local de que tinha falado. O Facebook é muito curioso, porque surge com uma ambição global, mas na verdade, eu sinto que ainda resisto muito, e vindo de uma terra pequena, e vendo como é que essa comunidade se organiza nas redes, a atividade é muito intensa localmente, no Facebook. Ao nível das associações, da agência funerária. Eu, por exemplo, recordo, não é uma coisa que se veja muito em Lisboa, mas, por exemplo, num meio mais pequeno, certamente ainda tenho noção da imagem de uma espécie de edital público, sempre que morre alguém, que no arco principal se anuncia com a cara da pessoa. E aquilo lá é quase um motivo de romaria, a pessoa vai ver quem é que morreu desta vez. E tudo isso foi transferido pro Facebook.
Tu estás a par da tua terra.
Porque a página da agência funerária, isto é de facto mórbido, mas é das coisas provavelmente mais seguidas, e é uma forma de atualização diária, semanal.
Claro, eu seguiria.
Porque de facto reconheces alguém e há esse lado, obviamente, de uma curiosidade mais bizarra, mas também muito humano, tu saberes que morreu, e há de facto ali uma empatia, depois também em termos de corrente solidária.
Tu até, já reformado, serias o tipo que iria atualizar essa página.
Atualizar como?
A página.
Andaria aqui matando as pessoas.
Enfim. Fala-me do engate, Maria.
Estou meio que a adivinhar.
E queres falar? O Facebook já foi bom pro engate, já não é? Como é que estamos neste momento?
Eu não te vou falar de um ponto de vista pessoal.
Nem quero.
De um lugar pessoal, como se diz hoje. Não, eu acho que o Facebook traz consigo uma coisa.
Estás no lugar da voz agora, Maria.
Estou no lugar da voz. Traz consigo o que outras redes trazem de uma forma mais sofisticada. Eu penso nisto porque, por exemplo, hoje há muita transição entre malta mais nova, quer dizer, já não sou desse tempo, mas em vez de te pedirem o número de telefone, pede-se o Instagram.
Sim.
Já me aconteceu pedirem isso e eu digo: "Por amor de Deus, vão à vossa vida."
Atiraste com o telemóvel.
Não dá. Mas por quê? Porque, de alguma forma, estas transformaram-se em autênticos catálogos em que as pessoas vão lá escolher pela imagem. E o Instagram e o TikTok vêm acrescentar camadas a essa dimensão visual de exposição pública.
Sim, e terá atirado o papel ao Facebook.
O Facebook, eu acho que há até histórias muito curiosas de pessoas que de facto se reencontraram.
O reencontro.
Sim, e há histórias realmente interessantes e que têm a ver com pessoas que reacenderam antigas chamas e descobriram um colega ou uma pessoa. É verdade! E permite bloquear e desbloquear. E há ali dinâmica, até uma gramática muito própria, que me escapa 99,9%, mas do like e quantos likes é que pões, e se pões de manhã. Há toda ali uma série de níveis e de detalhes muito interessantes. Mas dito isto, sim, eu acredito que sirva. Nós sabemos que atualmente as pessoas correspondem-se muito através das redes, sobretudo os garotos acham mais fácil, a maior parte das pessoas conhece-se através de aplicações, de redes. Portanto, acredito que pelo menos o Facebook, nessa altura em que esteja mais animado, possa ter mais gente, porque na verdade chegamos à conclusão que é menos frequentado hoje.
Ó Pedro Mexia Mendes, deves ter aqui imensas coisas para dizer sobre isto.
Eu insisto nisto do design claro e linear do Facebook. Quando o Facebook aparece, resolve um problema grave de muitas empresas. Empresas da lavandaria, do café, que é o site.
Claro.
Porque a dada altura, qualquer negócio de porta aberta: "Temos de ter um site". O café da Mariana em Tataúia da Baleia.
Até coisas que não estavam localizadas.
O Facebook permite imensos, depois dá para escrever mensagens.
Dá para dizer: "Estamos abertos amanhã." Permite resolver o teu desafio mental de temos de fazer um site. "O meu sobrinho faz sites, mas ele agora não está cá, agora não pode." Pronto, o Facebook. Era uma pressão verdadeira. Vocês eram jovens, estavam no Sudoeste, mas eu já não era jovem nessa altura.
Pensei que o Pedro ia dizer: "Eu nunca fui jovem."
Nunca fui jovem.
Sempre me irritou o bad mouth, os ataques ao Facebook. E irritou-me imenso esse primeiro filme, a Rede Social. Tanto me irritou que nunca o vi.
É melhor que este.
Espera. Porque chegamos direito às nossas-
Mas é uma grande frase.
Tanto filme me irritou tanto que nunca fui capaz de o ver.
É ótimo!
"O Facebook é uma conspiração, eles sabem tudo." Quer dizer-
Eles não deixam nada.
Os vampiros. Mas a questão é sempre-
A informação que tu estás a dar.
Para que é que eles querem saber?
Para quê?
Que o Bruno gosta de bolachas Daewoo Salt.
Para transformar em algoritmo e forçar a interação.
Qual é o problema?
Eles vão te violar?
Estou só a responder.
Desculpa, se usassem aquilo.
Ele também não viu o filme.
Estão a saltar.
Entrarem em casa e raptarem a tua família.
Mas a argumentação é que muitas vezes-
Agora para te tornar um escravo digital, qual é que é o problema?
Mas espera aí.
Ainda não tinha acabado.
As alegações ou afirmações ou factos assim.
E o Cambridge Analytica.
Não, isso está mal.
The Cambridge Analytica.
E a diferença em eleições e campanhas eleitorais. Sabes que o trabalho nas redes sociais foi uma das coisas que esteve na base da eleição do Barack Obama.
Não podes dizer isso.
Estão no TikTok agora.
Se é do bem, porque é uma eleição do bem.
Já estás a desconversar. Mas espera aí, o Pedro Mexia já acabou o seu raciocínio. O meu raciocínio é: o Facebook como primeira rede social, que era uma expressão que não existia. Eu acho que nunca tinha usado as duas palavras seguidas na vida até isto acontecer.
2010, o filme.
Não, mas as redes sociais permitem, por exemplo, Alfarrabistas. Eu comprei uma série de livros dos Alfarrabistas, vi no Facebook, olha quanto é que é. Depois acho imensa graça. Acho graça por todo fora. Os Alfarrabistas: "É a última vez que reservamos livros, as pessoas manifestam interesse e depois não compram." De facto, é uma coisa extraordinária. Como é que é possível manifestar um interesse por mensagem num livro e depois não responder aos gajos? Pronto, mas pelo visto acontece bastante. Todos os documentários de true crime que vamos vendo, há sempre uma que investiga pelo Facebook e consegue contactar um antigo adjunto do xerife. Vemos sempre essa fase nos documentários. Serve para encontrar aquele parente antigo ou para manteres contacto. Eu mantenho contacto com parentes que tenho na Bélgica, que de outra forma nunca manteria. O contacto é apenas um: "Faz anos, olha, fixe." Faço aquele polegar.
Falas com eles em francês.
Sim, falo com ela de várias maneiras.
Mandas emojis.
Exatamente. Faço o polegar para cima.
Não falar.
Não, os franceses devem ter outra maneira.
Por exemplo, eu gosto de ver algumas páginas, não vou dizer quais, sobre futebol, que analisam futebol.
Não vou dizer quais.
Lá está, porque depois as redes sociais têm a questão do seres partisan, e do ódio. Portanto, eu agora digo o menos possível.
É só o futebol.
Página de estatísticas.
É só números. Se tu usares as redes sociais em teu favor, no sentido não fores só à procura da dopamina ou do que for, têm lá coisas utilíssimas. Agora aparecem no meu feed coisas em cave diving, que é uma coisa que me fascina porque me aterroriza. Cave diving é mergulho em cavernas. Estão sempre a aparecer novas: a história do cave diving em 1912.
Aquilo que começa depois a dar.
Eu gosto disso. Ainda bem que há algoritmo, ainda bem que está a manipular.
Mas sabes que eu tenho chegado.
Obrigado, algoritmo.
Eu tenho saudades de quando estava agarrado mesmo ao Facebook.
Agarradinho.
É porque eu agora sinto que ainda não sei nada.
Isto parece uma sessão de agarrados.
Ya, de ex que ainda estão agarrados.
Ainda estás um pouco.
Estou um bocado, porque o que eu sinto é aqueles toxicodependentes já muito velhos. Tu percebes que aquilo já não dá pica, mas eles continuam lá. Já não tens o kick. Já não tens aquele: "Ya, pau, bateu mesmo forte."
És um crécudo, és assim.
Porque antes, lembras quando tu vias aqui o sinal de duas novas interações?
Duas mensagens.
A dopamina, o que eu estava a dizer.
Três. "Meu Deus, o que é que foi? Um like ou um comentário?" E agora, já nada disso bate.
Nada a ti. Mas não será desta o Facebook agora. Agora não será desta o Facebook.
A humanidade em geral. Achas? Sim.
Agora será o Instagram.
Aquela coisa: "Fiz uma publicação, publiquei uma cena e agora as próximas horas vão ser dedicadas a ver quantos likes."
É a contabilidade.
Mas se recebes uma notificação do Instagram, ainda bate?
Não, já nada bate.
Tu não ligas muito ao Instagram. Tu não ligas muito.
Não ligo muito, nunca liguei. Mas houve uma altura que sim, que ligava e que dava importância a isso e que isso era uma parte essencial do meu dia.
Da tua experiência de vida.
E ditava se nesse dia me ia deitar feliz ou triste.
Não, e também, desculpa, é rápido. O Bruno: "Vou estar no festival literário não sei onde para a semana." Quer dizer, serve também como divulgação.
Claro, divulgação, publicidade e promoção. Última ronda, meus amigos. Aceleração. Pedro Passos Mentos, o Facebook é ou não é uma ameaça à democracia?
Evidente que não.
Atão!
Achas que eu acho que diga mais alguma coisa?
Depois diz o que das cavernas.
A democracia, quando foi inventada, ou quando foi solidificada, ou quando os europeus se habituaram.
Quando foi descoberta.
Sim. Falemos no pós-Segunda Guerra Mundial, quando esta ordem mundial que está pelos vistos a acabar, nunca ninguém tinha pensado que iria haver uma coisa chamada internet e que uns tipos iam lá. A democracia, a descrição do Popper é a que eu gosto mais, que é a possibilidade de derrubar os regimes por meios não violentos. Mas a democracia também é uma forma de não deixar os chungas governarem. Não é só os Chegas, é os chungas. E há muitos chungas nas redes sociais, há muitas opiniões.
Há muitos no mundo, na vida.
Claro, sim, mas estou a falar agora de Portugal. Por exemplo, a TAP ontem não sei o quê, logo os canais de notícias: "Tapa, tapa, tapa!" Eles estão a friccionar uma pedra contra a outra, a ver se aquilo incendeia. Por causa das audiências. É curioso que os canais de notícias mantêm a sua reputação, o jornalismo mantém a sua reputação, em busca da verdade e não sei o quê, quando, na verdade, também querem resultados, também querem a dopamina do resultado. E muitas vezes o debate nos canais de notícias é até desmontado através das redes sociais, o que é até irónico. Portanto, eu acho que são mais um instrumento de construção da democracia, porque quem é democrata e quem constrói a democracia deve ser capaz de lutar por ela e de a defender. Não é: "Vamos proibir isto que está uma ameaça, atenção." Portanto, não, não é uma ameaça à democracia.
Maria Ramos Silva, o uso da língua, especificamente língua portuguesa, escrito, calma, não é engate.
Os capas, a linguagem dos capas.
Mudou. Piorou, boas descobertas, tudo péssimo, nunca mais melhorou. Conta-me tudo.
Há uma literatura pós-Facebook.
Mas basta contar rapidamente, ainda assim. Perigo de serralhos, não é? Não, mas imagina, ainda no tempo da...
O New York Times é que é muito de esquerda. Tu sabes.
Tu sabes.
Ainda assim, menos que o Guardian.
Tu que lês, sabes. Eu que leio, lembro-me de ler um belo artigo sobre como a Penny Press, em 1800 e troca o passo, publicou uma coisa, não havia Facebook, mas também se publicavam fake news na altura, e na altura resolveu publicar, como sempre, resolveu publicar uma história curiosíssima sobre: havia supostamente uma espécie de humanos morcegos que viviam na Lua e as pessoas ficaram, como podes calcular, em 1800 e tal, bastante apavoradas. Mas cá estamos, em 2026, sobrevivemos apesar de tudo e, portanto, acho que o Pedro esteve aqui on point sobre o assunto. A língua. Eu vejo com alguma preocupação, porque não quero parecer bota de elástico, mas de facto deve ser mesmo uma questão do facto de estar a envelhecer. Obviamente, há aqui uma dimensão muito plástica na forma sempre como nós falamos e dominamos. E há obviamente uma diferença entre a língua e a linguagem, está tudo certo. Mas eu acho que as redes, de facto, nos trouxeram, passado esse balão em que se quase trabalhava para o Nobel, e bem que a mim, enquanto pessoa que gosta da palavra e que escreve e tudo mais, me entusiasmava. Hoje é de um nível de empurrecimento. Já nem estou a falar dos erros de português, já nem estou a falar da aculturação total do inglês, dos anglicismos incorporados. Há, de facto, uma espécie de novilíngua rasa, absolutamente rasa, que expõe uma dimensão sem voluntarie nenhuma, com pessoas, personalidades, perfis que escrevem sem dimensão nenhuma. E isto deixa-me um pouco perplexa. Já nem estou a dizer que os miúdos já não escrevem com acentos, que acham que isso não é necessário. Nem vírgulas, nem pontos. E de facto é muito curioso, nós falámos disso também em off, como houve toda uma grande indignação e uma discussão também saudável até certo ponto sobre O acordo ortográfico, o novo acordo e o desacordo ortográfico. Mas isto aparentemente é um não assunto. Sigo com alguma perplexidade, porque de facto acho que as transformações estão a ser absolutamente galopantes, é tudo muito rápido. Não sei como é que vamos estar a escrever, a falar. Acho que já estamos a falar dos capas. Aquela linguagem dos capas, dos emojis e dos hieroglifos.
Bruno Vieira Amaral, só para terminar, e é muito rápido. Entre as várias coisas estranhas que tu encontras e encontraste ao longo da vida no Facebook, escolheste uma: são os perfis de casal.
Que maravilha.
Por que é que tiraram?
Não é que me enervam, acho uma curiosidade.
Tipo Sandra e Mário.
Era, sei lá, Rúben e Rebeca. Espera, isto é um apelido? Ah, é os dois.
Dos melhores é o Mauro e a Tânia. Que foi para Mauro e Tânia. Siga-nos para mais conteúdo deste viral.
Estamos a falar também da questão das redes sociais como local de engate. As pessoas perceberam que aquilo funcionava.
E então puseram.
Espera aí, eu posso ir para aí, tu podes ir para aí.
Mas vais comigo.
Mas vamos os dois, agarrados um ao outro. Depois é como aquelas coisas, quando se separam, não sei-
Como é que se faz a divisão dos perfis.
Quem é que fica com a conta.
As partilhas.
Quem é que fica com que fotografias.
Com a password.
Aquelas pessoas que têm dois e três perfis, também é interessante.
E depois é aquela coisa quando mudas.
Maria Ramos Silva profissional.
Quando começas a publicar elas fotografias com os filhos, só. E eles, fotografias no ginásio.
Já agora, eu falei dos momentos, não me esqueci da coisa mais bizarra, que é aquele momento em que tu anuncias a não sei quantos que está numa relação com.
Isso.
Depois toda a gente parava para ver. Aquilo é dos momentos mais awkward, por usar uma expressão atual.
E irritava-me muito, eu às vezes também fazia esse papel, que era os voyeurs, quando começava a haver confusão e começava a dar estrilho alguma coisa, tu sentavas-te a comer as pipocas e a ver aquilo a descambar e a internet, o Facebook a começar a arder. E havia muita gente, tu percebias depois, que estavam a par dessas coisas todas, mas que nunca se pronunciavam ou claramente se pronunciavam. Tiago Pereira, por exemplo, é uma dessas pessoas.
Ora bem, assim se faz uma carreira. Final de mais um "Pop-Up". Já sabem que podem escrever-nos para popup@observador.pt. Podem seguir-nos também nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.