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Sejam bem-vindos a mais um "PopUp", o programa de cultura pop da Rádio Observador, que esta semana vai falar do tempo. Imaginem só. Para isso contamos, como sempre, com as vozes destes ilustres conhecedores da vida, que também têm um pouco de meteorologistas, como todos nós, Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buchinho Mendes, que neste programa também vão conseguir ir ao cinema. Mas começamos pelo início, e no início havia Bill Gates na boa dica. "Como evitar um desastre climático." A frase é de Bill Gates e é o título do mais recente livro do milionário amigo da humanidade. Também parece ser uma espécie de guia para nos orientarmos a fim de evitar o desastre global que, de acordo com alguns, nos espera. O livro foi publicado esta semana, também com tradução portuguesa. A edição é da Ideias de Ler. Pedro Buchinho Mendes, uma pergunta fácil para começar, assim é mais confortável. Queria saber como é que vês Bill Gates, se é um tipo tão bem-sucedido, famoso e rico que pode dizer o que quiser, ou seja, que se pode intrometer em qualquer área, ou se o vês como alguém realmente inteligente, esclarecido e visionário. O que te parece?
Primeiro, vejo com alguma alegria que Bill Gates finalmente parece estar a ser mais gostado pelas pessoas. Há uns anos, o Steve Jobs era Deus na Terra, sobretudo para muito jornalismo. Tudo o que ele fazia era, não sei, ele tinha mais do que o toque de Midas, estava a faltar agora a metáfora correta.
Era Midas? Era o próprio.
Era mais do que isso. E Bill Gates era sempre o tipo feio, nerd, que nos obrigava a usar Windows nos nossos computadores, e a Microsoft era o demônio. No fundo, o Bill Gates era um chato, feioso, e o Steve Jobs era um tipo que usava camisolas gola alta pretas e era incrível. Claro que o Steve Jobs é alguém que não reconheceu uma filha. E alguém bastante irascível, e tratava mal e humilhava os seus empregados. Mas esperemos que essa parte venha um dia a ser mais falada, noutros aspectos certamente positivos da sua biografia. O Bill Gates, como sabemos, é um homem riquíssimo, dos mais ricos do mundo. Embora é sempre essa questão. Ele não é rico, ele é dono de ações da Microsoft e de outras empresas, e quando se fazem as contas, essas ações valem o que valem, portanto, põem o homem como o mais rico do mundo, ou segundo, ou terceiro, pouco importa. E tem o mérito de com a mulher estar a gastar muito dinheiro, mas mesmo muito dinheiro, a investigar a cura para a malária antes do Covid, e a tentar resolver o problema da água potável e dos esgotos. No terceiro mundo, não há canalizações e não há infraestruturas. Ele perdeu muito tempo e investiu muito dinheiro, e acho que ainda o estão a fazer, em um tipo de retrete do qual se pode reciclar a água.
Exato. Sim.
Até que ele bebeu água. Parece-me que é um tipo às direitas. A mim não me interessa muito este livro do ambiente, eu não tenho muita paciência para esta narrativa do ambiente. Entendo que exista. Não estou a dizer que é falsa ou que é verdadeira, eu sei das poucas pessoas que não percebem do assunto, como não sou cientista, não entendo o suficiente do assunto. Mas fico contente que o Bill Gates esteja a ser mais apreciado. Pelo menos é assim que eu sinto. Pessoas como esta que são, no fundo, é um filantropo, à antiga. Antigamente é que havia filantropos, até havia os mecenas. Gastam dinheiro onde querem, interessam-se por coisas e têm desafios e veem que têm meios para ajudar a resolver os desafios, seja a questão da malária, do Covid. Ele pôs muitos dos recursos da sua fundação ao serviço do Covid. E agora, pelos vistos, ao serviço do ambiente. Espero que os nossos filhos, netos, bisnetos, trinetos possam beneficiar deste tipo de inputs do Bill Gates.
Maria Ramos Silva, tendo em conta o que Bill Gates fez com a Microsoft, o que faz com esta fundação de que o Pedro falava, fundação que ele tem com a mulher, Melinda Gates, os alertas que deixou antes desta pandemia que vivemos, ele já vinha falando sobre a possibilidade de enfrentarmos uma pandemia, e o que há muito vem dizendo sobre a emergência climática. Devíamos prestar mais atenção a Bill Gates? Devíamos, de alguma forma, depositar mais confiança nele em relação ao nosso futuro? Passar do nível de curiosidade.
Sim. Eu acho que se a voz do Bill Gates servir para aumentar essa consciência em relação a todos esses tópicos, então o trabalho é bem-vindo e é bem-sucedido. Agora, esses alertas, se repararmos bem, não são propriamente novos. Há décadas que se fala das alterações climáticas e aqui de uma série de questões. Quando Bill Gates, por exemplo, alerta para a necessidade de termos que consumir carne sintética, porque entretanto já percebemos que não é sustentável continuarmos a consumir como consumimos. Nada disto é propriamente novo. Agora, eu acho é que O discurso de alerta do Bill Gates, depois concertado aqui com um timing muito particular que é o da pandemia, que de facto abre uma caixa de Pandora e nos permite olhar para estes alertas de uma forma mais do que curiosa, e de uma forma mais premente. Eu acho que se a Covid nos ensinou alguma coisa é que não há, de facto, previsão que consiga ser tão excêntrica que não se possa concretizar. E aqui não como uma profecia, uma coisa assim mais ou menos bizarra, mas de facto com um cenário muito palpável. Não sei quão imediato, mas imaginar um mundo em que a temperatura da Terra está a aumentar de forma galopante, em que a água potável se vai tornar, mesmo no primeiro mundo, e não só nesse terceiro mundo onde Bill Gates opera e está focado, se vai tornar um bem de altíssimo preço, bastante precioso, não é assim tão distópico. Eu penso que o problema é precisamente esse, já não é só aquela distopia que nós lemos nos livros há 50 anos e que pensamos que um dia talvez os nossos netos possam ter que lidar com isso. É cada vez mais imediato. Agora, nesse sentido, penso que vale a pena escutarmos Bill Gates, não só por todas as razões que o Pedro elencou. Claro que depois muita gente diz: bem, mas ele ao mesmo tempo é um tipo, há aqui alguma hipocrisia, porque tanto se preocupa com o planeta como está a investir numa empresa de jatos privados, altamente poluente. Sim, é verdade, não é um santo como nenhum de nós é. Talvez Kant não achasse muita graça a Bill Gates, mas eu penso que qualquer utilitarista se contenta com um Bill Gates, e é melhor um Bill Gates do que não termos uma espécie de liderança, que nos possa conduzir aqui um bocadinho por este terreno pantanoso.
Bruno Vieira Amaral, escrever um livro, seja sobre que área for, continua a ser a forma mais importante de legitimação de alguém? Ninguém é de facto especialista ou entendido, ou tido como uma autoridade no assunto, até escrever um livro?
Há muitas autoridades, muitos especialistas que nunca escreveram um livro e não deixam de ser especialistas. Um mecânico, eu duvido que ele tenha escrito algum livro e eu confio nele para arranjar o meu carro. E o mesmo se passa noutras áreas como a medicina, a cirurgia. Há cirurgiões que nunca escreveram um livro e são especialistas nessa área.
Sim, mas aqui mais como figura pública. Talvez a autoridade global.
Claro, que depois também se alimenta por outras plataformas, seja a televisão, seja as redes sociais. Mas não é só o escrever o livro. Agora, o trabalho que pressupõe a escrita de um livro, ainda para mais se for um livro técnico, sobre uma área muito específica, em que a pessoa é reconhecidamente especialista, o trabalho que isso pressupõe significa que tu quando publicas um livro, ganhas uma autoridade e uma legitimidade diferente. Mas também vivemos tempos esquisitos. Por exemplo, sei lá, se o Dostoiévski, que escreveu o "Crime e Castigo", escrevesse hoje o "Crime e Castigo", provavelmente estaríamos a perguntar se ele conseguiria ter piada no Twitter, ou quantos seguidores teria no Instagram, ou se conseguiria reduzir, condensar o seu pensamento num post do Facebook. E isso altera um pouco, não a perceção de autoridade, ou de legitimidade, mas de poder efetivo. Do alcance que determinada personalidade tem. Agora, como vemos neste caso do Bill Gates, uma coisa é estares a comentar constantemente, seres convidado e até saberes muito sobre um determinado assunto, mesmo não sendo um especialista, como ele não será um especialista em malária ou em saneamento, mas sabe muito pelo trabalho que ele tem feito. Na questão das alterações climáticas, ele também não é um especialista, mas é alguém que acredito que tenha pensado muito nos últimos anos sobre o assunto e tenha estudado de alguma forma e que ao lançar um livro, tem uma capacidade de alcance que os especialistas não têm. Aconteceu o mesmo com Al Gore há uns anos, quando lançou aquele documentário, "A Verdade Inconveniente", que não é tanto a pessoa agora reconhecê-lo como um especialista, mas uma espécie de porta-voz de alguém que se preparou minimamente sobre aquele assunto, que é um assunto que o preocupa e que ele consegue fazer chegar a mais pessoas do que se calhar um especialista, um acadêmico, que até poderá escrever 30 livros, mas cuja voz não tem o mesmo alcance destas figuras.
Muito bem, antes do final da primeira parte, vamos às sugestões.
Tiago, desculpa.
Diz, rapidamente.
É improvável que tenha sido Bill Gates a escrever o raio do livro.
É só a responsabilidade dele.
Exatamente. Terá um ghostwriter, digamos assim. Este livro tem a forma de livro, mas é um ato de propaganda, a palavra é esta, de uma determinada retórica que ele provavelmente, aconselho dos seus especialistas e dos cientistas que trabalham com ele, julga ser a correta nestes tempos.
Veremos se nos certificarmos disso um dia. Entretanto, vamos às sugestões da semana com o Post It. Pedro, vamos continuar contigo. É sempre um prazer. Um minuto para nos falares de "The Knowledge Project".
É verdade, é um dos meus podcasts favoritos, chama-se "The Knowledge Project". Neste caso, é sobre o episódio 104, com um cientista chamado Nir Eyal. É sobre distração, ou seja, é um ótimo episódio, é uma conversa de uma hora e pouco sobre o fato de nós podermos controlar a nossa atenção, sobretudo na questão das redes sociais e dos ecrãs. E está muito bem feito, porque é muito inesperado o argumentário deste cientista. Eu julgo que ele é americano, de origem israelita. Recomendo vivamente o episódio 104 do podcast "The Knowledge Project".
Maria, tens estado a ver, ou não sei se já viste tudo, esclarece-nos, "Trafficked".
Não, ainda só vi o primeiro, que estreou no sábado passado à noite no National Geographic. É uma série em oito partes, uma série documental da jornalista portuguesa Mariana Vanseler, que nos guia pelo submundo do tráfico, desde pessoas a animais. Começa, curiosamente, com esse fenómeno Tiger King, com o seu Joe Exótico, que neste momento está preso. Para vasculhar aquele mundo agora de uma forma menos divertida e perceber, de facto, tudo o que está por trás daquele universo absolutamente excêntrico, com uma passagem perigosíssima pelo Vietname, pelo Laos. Se não são facilmente impressionáveis, e mesmo que sejam um pouco, vale a pena verem, porque ela está ali em situações absolutamente mirabolantes. É um mundo underground absolutamente estonteante.
E para terminar aqui a primeira parte, Bruno, o resumo possível de "Small Axe" na HBO.
Na HBO. Eu ainda só vi o primeiro trabalho, são cinco filmes independentes, mas que contam histórias de imigrantes das Antilhas em Londres entre os anos 1960 e 1980. É um projeto do Steve McQueen, o realizador de "12 Anos Escravo", e que também chegou agora às plataformas. Eu só vi, como disse, o primeiro filme. São cinco e é também o mais longo. Ainda não tenho uma opinião definitiva sobre a série, mas vou ver e recomendo aos nossos ouvintes o "Small Axe".
Os nossos ouvintes. Diz disso.
Só para citar o imigrante das Antilhas, ou a pessoa que tem origem nesse tipo de imigração mais famoso de sempre, é o piloto Lewis Hamilton, o melhor piloto de Fórmula 1 de sempre.
O que dizer?
Tive de ir à piada da Fórmula 1.
Não, prega fundo sempre, não há hipótese. Muito bem. Final da primeira parte do "Pop-Up". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Sejam bem-vindos de volta. Segunda parte do "Pop-Up" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buchary Mendes. Depois do estado do tempo, que para quem não tenha ainda percebido, é muito pouco animador, seguimos em frente com cinema, streaming e o sempre presente Martin Scorsese no Pop de Arroz. Esta semana, na revista Harper's Bazaar, o realizador Martin Scorsese escreveu mais uma vez sobre a indústria do cinema, a revolução ditada pelo streaming e como os filmes se transformaram em conteúdo mais do que manifestação artística. Pedro Buchary Mendes, dirias que há, de facto, demasiada oferta nas plataformas de streaming, como o Scorsese escreve num dos parágrafos do seu extenso texto?
Diria que não.
Dirias que não? É, portanto, uma falsa questão.
Não sei. O Scorsese só conseguiu fazer o último filme via Netflix, porque é um tipo que gasta mesmo muito dinheiro a fazer o que faz. Felizmente, nós estamos aqui para enjoy o que ele faz. Mas uma série, vejamos bem, é um asset, é um bem, uma mercadoria, é uma commodity invulgar. Não se gasta. Nós ao vermos uma série, o produto não se gasta, não envelhece. No fundo, as séries hoje em dia são ficheiros de computador. Não envelhecem, reproduzem-se até ao infinito. Podemos sempre fazer um save as, como eles fazem, e reproduzir a série. Estar uma pessoa a ver uma série na Netflix ou estar um milhão é igual para a série, o bem não se altera. E é vendável a canais de televisão, linhas aéreas, a privados, a outras plataformas, a pay-per-view, a videoclubes, a licenciamentos de casacos, bonés, capas escolares, o que for. Por exemplo, o "Stranger Things" da Netflix teve receita associada, desse ponto de vista, da mercadoria, do merchandising. Uma série, no fundo, é um investimento. Em vez de se fazer vinho ou em vez de se construírem casas à beira-mar para vender, há quem invista em séries. Há fundos de investimento que investem em séries e no fundo é isso que é a Netflix. A Netflix são fundos de investimento, neste caso do Bahrain e de outros principados e monarquias daquela zona do Golfo, que acreditam no pitch, acreditam na proposta da Netflix, que é: "Tomem lá os nossos bilhões de milhões de bilhões de coisas e façam mais dinheiro com esse dinheiro." Até eu, que sou um liberal, um capitalista e essas coisas todas, às vezes me irrita que haja tanto livro a ser publicado, tanta música a ser lançada, tanta série Nas plataformas, tanto filme, tanto restaurante sushi. Porque o excesso de escolha deprime-nos. Nós ficamos ansiosos: "Mas como é que eu vou fazer isto? Como é que eu vou consumir isto tudo?"
E agora temos muitos restaurantes por onde escolher, não é?
Sushi. Mas não acho que haja excesso, porque ninguém é obrigado a ver, mas acho que entendo o Scorsese. Eu acho que se fosse cineasta, a mim também me irritaria que houvesse tanta coisa. Acho que sim. Mas ainda bem que há.
Aqui uma questão paralela: essa tua avaliação vale tanto para séries como para filmes, para cinema? Dirias que o critério é o mesmo? Ou que eventualmente os pontos negativos são os mesmos?
Não, eu não percebi bem a tua pergunta, mas uma série nós compramos ao episódio, portanto, se uma série tiver 18 episódios, tu pagas um euro vezes 18. Se for um filme, se calhar pagas € 10. Portanto, um euro vezes 18 dá € 18, um filme dá € 10.
Não, a minha questão é que talvez o Scorsese esteja mais preocupado com filmes do que com séries.
Pois é, já que a Netflix vê da mesma maneira, é mercadoria.
Claro. Sim, talvez ele tenha razão neste aspecto. Falando por mim e apenas por mim, eu tenho já bastante dificuldade em ver filmes em plataformas, porque ou não são suficientemente interessantes, ou o mal é meu, admito que sim, mas acho que já falámos aqui sobre isso várias vezes. O cinema e as plataformas ainda não é um casamento feito in heaven, ainda não é um casamento perfeito. Mas essa não é só a questão.
Eu que falei com o Scorsese, perguntei qual é que era a opinião dele, a sério, o que ele queria dizer com aquilo. Acho que ele está mais preocupado com a questão de não haver a curadoria, a programação nos serviços de streaming do que propriamente em relação à quantidade de conteúdos disponíveis. Que são duas coisas que acabam por estar ligadas. Como tens muita oferta, se calhar precisavas de quem te orientasse, de uma escolha, de uma programação, porque foi assim que ele cresceu e foi assim que o gosto de gerações de cinéfilos foi sendo formado ao longo do tempo. Até mesmo quando tinhas cinema na televisão. Nós próprios aqui em Portugal, mesmo na altura dos canais públicos, havia uma programação de cinema que fazia um certo sentido. Alguém estava a escolher os filmes com uma determinada lógica e é isso que o Scorsese diz que falta às plataformas, que é essa capacidade de fazer, de elaborar uma programação que também forme o gosto. Ao contrário de um algoritmo que te sugere múltiplas variáveis, mas que não tem intenção nenhuma de te formar o gosto. Tem a intenção é que consumas os conteúdos que estão nas plataformas.
Sim, essa era precisamente a questão que eu ia lançar aqui à Maria também, essa questão do algoritmo. Digo eu que esta coisa do algoritmo funciona bem, por exemplo, em serviços como o Spotify. Eu pelo menos assumo como satisfeito. Mas parece que não será assim tão bom amigo nos serviços de streaming de vídeo. Quer dizer, não podemos ter o melhor de dois mundos, um algoritmo matemático.
A tal curadoria.
Sim, e se quiseres sugestões de pessoas reais, eventualmente talvez consigas sempre, com os teus amigos, com os jornais ou revistas ou sites que lês, etc.
Que nisso são fundamentais, de facto. Eu tento adotar esta regra, acho que o consumo do algoritmo, que na verdade muitas vezes é involuntário.
Obviamente que o algoritmo tem aquele lado de assim que acabas de ver uma coisa, tens mais cinco ou seis sugestões para ficares fidelizada.
Mas eu acho que esse algoritmo é um bocadinho como os medicamentos. Não dispensar a consulta da curiosidade e dos amigos e dessa rede toda que nos pode abrir um bocadinho horizontes. Eu confesso que no caso, por exemplo, da música, estou a pensar particularmente, o próprio algoritmo às tantas é capaz de ficar um pouco tonto comigo, porque eu tanto estou entre o Pass/Double e os Pantera.
Ele não aguenta.
Não sei se ele aguenta, mas passado esse martírio, e no caso particular da Netflix, eu entendo o desabafo do Scorsese, porque era a tal questão que o Pedro falava. Para plataformas como a Netflix, estes produtos são mercadorias e é por isso que eles investem em programadores, e se regem por algoritmos, e não estão a investir em críticos que façam essa curadoria e essa programação cuidada. E por quê? Porque o algoritmo consegue esse nível médio, consegue controlar os imponderáveis e consegue esse objetivo supremo que é tu consumires um pouco de tudo e estares ali numa espécie de grande armazém. É como nós quando saímos daquela loja de móveis suecos e as coisas estão todas embrulhadas, e se nós não tivéssemos a referência, nós nem sabíamos o que íamos à procura. E às vezes, quando navegamos pela Netflix e por outras plataformas, sentimos um pouco isso. De facto, está ali tudo e às tantas não está nada e pensas que já viste tudo, mas depois descobres mais não sei o quê. Mas há, de facto, ali uma consistência. O crítico traz-te um outro olhar, e o crítico mexe com esse nivelamento, sobretudo se a crítica for bem-sucedida. E é por isso, quando tu vês à margem da Netflix e lês, por exemplo, uma crítica sobre o filme do Scorsese, e toda a gente está a falar daquilo, e tu vais ver aquilo, e aquilo é um universo que está para lá da Netflix. Está neste mundo, a tal rede de amigos e de conselhos e da nossa curiosidade e da nossa busca, que nos permite sair daí. Por um lado, é confortável. Nós também gostamos, é como tu dizias, ir ao Spotify e o teu amigo Spotify te conhece bem, dá-te uma tranquilidade e sugere coisas que sabe que tu vais gostar.
Mas eu acho que não resulta tão bem no cinema individual.
Eu também sinto isso.
Essas sugestões.
Sinto que há, de facto, algo que nos escapa. Porque é óbvio que o algoritmo tem esse efeito de manipulação. Eu tento ver isso de uma forma sempre mais positiva possível. Por exemplo, nós na cultura acusamos estas queixas todas, mas a questão da inteligência artificial ao nível da saúde, eu acho que tem um papel absolutamente extraordinário. Quando pensamos no despiste de doenças, na limitação de margens de erros, nas redistribuições de vacinas, por mais disparidades que possa acentuar, e vai sempre acentuar, tem um papel absolutamente determinante. Acho que há aí muita coisa por afinar. Não sei como é que se afina propriamente esse algoritmo para ser mais compaginável com o nosso gosto e com os nossos interesses numa plataforma, mas é o que existe.
Bruno Vieira Amaral, ao mesmo tempo que deixa críticas, Martin Scorsese também faz uso do melhor que estas plataformas lhe podem dar, que é o investimento, o espaço, o destaque, a distribuição. Teve recentemente o "Irishman" na Netflix, teve de uma forma mais low profile a série que já falamos aqui com a Fran Lebowitz. Em breve vai ter um filme chamado "Killers of the Flower Moon" na Apple TV+, com o De Niro e o DiCaprio, fica a dica. E depois ficamos nós a perguntar: afinal, o que ele quer? Qual é o problema aqui do Scorsese?
O problema é refletir sobre o mundo do qual ele faz parte, da indústria da qual ele faz parte, e que está em grande transformação com as plataformas de streaming. Vamos lá ver, não foram as plataformas que inventaram os filmes e as séries enquanto mercadoria, enquanto bem de consumo. Os estúdios de cinema sempre olharam para os filmes como mercadorias. O que acontecia na altura é que tu tinhas canais de produção, de distribuição e de exibição. E as plataformas de streaming concentram tudo. Tu não tens ninguém, por exemplo, com uma sala de cinema a fazer um determinado tipo de programação, com uma determinada lógica. Vamos pensar, por exemplo, um exibidor cá em Portugal como o Paulo Branco. Nas salas de cinema, nós sabemos que naquelas salas de cinema está um determinado tipo de filme. Isso deixa de existir quando todas as áreas de uma indústria estão concentradas.
E concordas que isso tem um efeito nocivo?
Pode ter um efeito nocivo, como pode ter um efeito nocivo, de repente, tu dares 200 ou 300 milhões de dólares ao Scorsese e dizeres que ele tem carta livre para fazer aquilo que quiser. Pode não ser bom para ele, até. Eu acho que o "The Irishman", se tivesse sido produzido noutra altura, em princípio, não teria sido produzido, mas se fosse, certamente que teria muitas alterações, e não teríamos visto o mesmo filme. E há quem diga que o Scorsese, como outros realizadores muito bons, precisam, por vezes, do aconselhamento, da orientação de um produtor para conseguirem fazer os grandes filmes, e grandes filmes que fizeram. Portanto, há várias maneiras de olhar para o assunto. O que é normal na preocupação do Scorsese é que se trata de alguém que sempre viveu dentro deste mundo e naturalmente está preocupado com o caminho que poderá seguir. Não é tanto de pensar que vai ficar sem emprego, mas também pensar no que será o futuro do cinema enquanto arte, porque se há realizador que eu acho que neste momento não terá problemas de empregabilidade com as plataformas, é o Scorsese.
Pedro, só aqui um aparte, esquecendo aqui um bocado o cinema. Esta preocupação, podemos transpô-la também para a televisão dita tradicional, o broadcast. Ou seja, há aqui uma intromissão num sistema que tem muitos anos e que de repente se vê de alguma forma ameaçado, ou continuam a ser realidades totalmente distantes e que vivem bem uma com a outra, lado a lado?
Queiramos ou não, a tecnologia permite a criatividade, a tecnologia é sempre o veículo da criatividade, incluindo a pintura, por exemplo, quando se começaram a vender tintas em tubos, o número de pintores aumenta. Quando vivias na Idade Média tinhas que fazer o teu Sim, porque há mais, a qualidade média diminui porque há mais.
É como a alfabetização. Também de um lado para o outro.
Não acho que não é a mesma coisa. Os chamados canais de cabo existem, não por imensa vontade do espectador em ter mais diversidade em casa, mas porque as grandes companhias, as chamadas Telcos, no final do século passado, início deste século, começaram a ter essa possibilidade, ou seja, quiseram aumentar o seu negócio. E como é que vamos sacar mais dinheiro aos nossos consumidores? Vamos oferecer televisão com os canais e eles vão pagar mais 50 ou 60 euros, não sei quanto é que custa por mês, para ter esses canais em casa. Não houve manifestações a tirar a liberdade para termos canais de filmes em Portugal. Existiu, sim, a vontade, na altura, do incumbente de aumentar a sua receita por consumidor. Nesse sentido, a chamada televisão tradicional está se a adequar aos tempos que vivemos. Na pandemia, ficou demonstrado que há instâncias na vida coletiva, como é infelizmente uma pandemia, em que as pessoas acedem mais à chamada televisão de sempre, televisão generalista, televisão legacy media.
E talvez possamos falar isso no futuro neste programa. Parece que a ideia de binge watching está a esmorecer um pouco. Parece que as pessoas começam a aderir mais a séries em que sai só um episódio por semana, porque assim podemos ter aquela vontade e aquela urgência de: "Nunca mais chega a segunda-feira para ver o episódio da série X ou Y". Isso parece estar a voltar um pouco. Tenho lido alguma coisa sobre o assunto e parece compensar mais esperar do que ter logo os 12 episódios de seguida, porque se calhar só vemos três ou quatro e nunca mais pegamos naquilo.
Muito bem. Antes do final do programa, vamos à habitual viagem no tempo. Esta semana temos estilo e jogo de anca e uns quantos filmes ao lado no Isso é que era bom. Ora bem, gente boa e Bruno Vieira Amaral. Não sei se repararam, mas o John Travolta faz anos hoje, nasceu a 18 de fevereiro de 1954, o que quer dizer que conta já com 67. E por isso, é esta a pergunta desta semana: qual o melhor filme com John Travolta? Maria, vamos começar por ti.
Falava-te de alguns clássicos, do "Grease" ou do "Febre de Sábado à Noite", mas o "Pulp Fiction" também. É um daqueles que não só é um filme monumental, mas porque ele se sai muito bem e seria difícil não ir bem ali. Mas eu acho que é o que tu dizias, tu falavas de uns quantos tiros ao lado. Estavas a pensar exatamente o quê?
Eu não queria dizer, porque queria saber qual é a resposta do Bruno, no fim.
Quando se fala em tiros ao lado, grandes falhas do Travolta, a lista é grande.
Pois é.
Há aquele, o "Operação Swordfish" e há outro também, que é o "Battlefield Earth", Terra Campo de Batalha, acho que é assim que se chama. É uma coisa que também tem a ver com a Cientologia, tinha sido escrita pelo fundador da Cientologia, o L. Ron Hubbard. E antes disso, antes da ressurreição dele com o "Pulp Fiction", houve também uns filmes que passaram um bocado ao lado. Não são maus, quer dizer, são maus. Mas não são tão maus que tenham contribuído para o mito dele. São apenas maus, são filmes um bocadinho indiferentes. Mas ele teve várias ressurreições. Eu lembro-me que em 1989, um dos filmes de maior sucesso foi o "Olha Quem Fala".
Pois é, que é bem divertido.
Com a Castiel e com a voz do Bruce Willis e da Roseanne Barr. Acho que é um dos filmes interessantes, engraçados dele e que esteve muito longe de ser um falhanço. E foi antes dessa ressurreição com o "Pulp Fiction". O filme talvez que eu goste mais de ver, acho que tem um papel muito divertido e está dentro também deste universo do "Pulp Fiction", é o "Jogos Quase Perigosos", o "Get Shorty". Para além do "Face/Off".
Estava aqui às portas.
Não, acho que já não vale a pena voltar ao "Face/Off". Gosto muito do papel dele no "Jogos Quase Perigosos".
Muito bem. Para terminar, Pedro, qual é a tua escolha?
Olha, eu obviamente gostei imenso do "Pulp Fiction", é um daqueles filmes que nós revemos sempre ou andamos sempre por nós a rever. E eu, na minha qualidade de veterano destas coisas, eu lembro-me ainda do "Grease", de ver o "Grease" no cinema. E, de facto, tenho ideia de ter achado aquilo fantástico, também por causa da música. E gosto imenso do "Face/Off", claro. Acho que vocês também, não é?
Claro que sim.
Com o Nicolas Cage. Portanto, eu diria-
Sim.
E também é bom não esquecer o fenómeno em que ele fala português durante uma parte.
É verdade.
Ele leva com um raio.
Está a tentar comunicar.
Começa a falar português, entre outras capacidades que adquire, fala português, o que é fantástico.
Muito bem, ficamos com John Travolta na cabeça. Chegamos ao final de mais um "PopUp", voltamos na próxima semana. Até lá.