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Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o melhor escritório da telefonia portuguesa dedicada à cultura popular. Bruno Vieira Amaral, Pedro Buchinho Mendes e esta semana também com a Joana Siquini Vilela, já que a Maria Ramos Silva está ausente por razões de descanso, que são ótimas razões. Joana, muito bem-vinda mais uma vez.
Obrigada. É sempre um gosto.
Esta semana vamos aproveitar um aniversário redondo para falarmos de séries que mudaram a televisão por uma razão ou por outra. A culpa desta conversa é de "The Office", a série de Ricky Gervais e Stephen Merchant, que se estreou a 9 de julho de 2001, precisamente há 25 anos. Parabéns.
Na BBC Dois, não é?
Foi na Dois?
Acho que sim. Foi.
Bom, na Um não há de ter sido, certeza.
E sem sucesso nenhum.
E outra boa desculpa para este tema é que vamos ter aqui um reboot ou um remake de "Uma Casa na Pradaria".
Pois é. Estreiava esta semana, não é? Não sei se já estreou.
Na Netflix, acho que é mesmo hoje, dia 9 de julho.
Isso está muito radiofónico, tudo isto. Ora bem, "The Office". O Pedro já nos vai ajudar, mas "The Office", digo eu, é um mockumentary. Ou seja, é um documentário a fingir sobre o dia a dia numa empresa de venda de papel, se não estou enganado. Se bem que isso era secundário. Tornou-se um sucesso eventualmente, não de imediato. Foi adaptada em vários países. Há a adaptação americana, que também é muito popular, e fez do formato uma referência e de Gervais uma estrela. Vai daí a pergunta esta semana é: que outras séries, além desta, fizeram história por terem sido inovadoras e terem deixado legado, seja ele qual for? Pedro Buchinho Mendes, vamos começar contigo, mas vamos começar primeiro por "The Office". Vamos lá tentar recordar qual é a importância desta série que faz agora 25 anos.
Sim, Tiago Palmeirim.
Viste isto?
Tiago Palmeirim.
Não diga isso.
No dia em que morre Bonnie Tyler, que foi uma musa em Portugal.
Foi no Platô.
A Bonnie Tyler morreu hoje.
Platô, discoteca.
Isso, claro.
Em Lisboa.
Desculpa.
Só pra-
Claro, tem toda a razão. Joana, por isso é que está aqui
Morreu hoje no Algarve.
Escrevia na praia.
Morreu hoje no Algarve.
No Hospital de Faro.
Exatamente, onde estava internada.
Hoje não, já foi na noite de quarta-feira.
Sim. Foi?
Pelo menos dizem os representantes dela.
Mais um daqueles estranhos motivos de orgulho.
E nós gostávamos muito da Bonnie Tyler, porque a Bonnie Tyler era das poucas artistas internacionais que vinha a Portugal, tocava em Portugal, atuava em Portugal, isto nos anos 80. Deu o total eclipse do seu heart hoje.
Ora, cá está. Muito bem, sim, senhor.
Pronto. Tinha uma voz roufenha, não é?
Vais dizer que a seguir ela precisava de um herói, etc.?
Não, não vou. Tinha uma voz roufenha.
Mas nós precisamos de heróis.
Mas ainda bem que tinha, porque essa foi essencialmente a marca dela. A voz.
Foi.
Que idade é que ela tinha?
Setenta e cinco. Era bastante nova.
Sim, três quartos de século.
Ela chamava-se Gaynard.
Ninguém é perfeito.
É isso. Mas então?
"The Office", o que há para dizer? Tanta coisa, meu Deus. Estreou há 25 anos, revelou Ricky Gervais. É uma ideia de Stephen Merchant, que é aquele alto fininho.
Exato.
Que era o sócio do Ricky Gervais. Até acho que é uma ideia dele e do pai, uma coisa assim. É uma típica, tipíssima. Existe tipíssima?
Claro.
Existe. Série de jornalistas. É a série de jornalistas por definição.
Achas?
Não acho, sei. Eu todo contente, há uns anos comprei este para a "Psicoradical" e emiti. Só me faltou sentar-me de frente do televisor com uma garrafa de champanhe e aquelas coisas que espirram confete.
E as audiências, Pedro?
Foram um desastre. É uma daquelas séries-
Espera, mas é boa a série?
Não, é fabulosa. Mas é uma daquelas séries que me parece que o grande público, público dito normal, não viu, não sabe bem o que é, e quando falas do "The Office", falam do "The Office" americano. Não sei se concordam, mas também.
Em parte, sim, percebo o que dizes.
Não é o primeiro mockumentary da história.
Não inventaram o formato.
Por mockumentary, entenda-se mock. Mock é fingir, é fingimento. Documentary é documentário, portanto, é um documentário a fingir que é um documentário, a fingir que é verdade. Não é o primeiro, nem será o último. Aliás, nós recentemente tivemos uma ótima comédia, "Modern Family", que também segue o mesmo preceito.
Certo.
Eles estão a responder a uma entrevista.
Menos óbvio, talvez.
Não, porque nas primeiras temporadas, eles estão constantemente no sofá a responder a um-
Estão a ser questionados.
Sim, estão fazendo comentários sobre a vida deles. Os Monty Python também têm um bocadinho disso. Algumas reportagens dentro dos episódios Monty Python, que é muito precedente.
Mas sem terem inventado o formato, foi marcante, não é?
Mas mais uma vez insisto, é muito uma série de jornalistas, ou seja, eu não tenho a certeza. Claro, expurgou Ricky Gervais e revelou Ricky Gervais, que é um absoluto, pra mim, gênio, que nos deu depois "Extras", que eu talvez prefira.
Que também é com Stephen Merchant.
Sim, que é mesmo francamente boa. Eu acho que está numa das plataformas, que eu talvez prefira a "The Office". Eu revi "The Office" não há muito tempo e fiquei um bocadinho... Enfim, o tempo não terá sido completamente justo. Mas foi a primeira série do UK inglesa a ser nomeada para um Golden Globe De alguma forma, faz entrar de vez o humor britânico, o humor inglês, como nós dizíamos, o humor da BBC, como dizíamos quando éramos miúdos, no mainstream americano. Tanto que depois temos o The Office americano, que é considerado uma das grandes comédias, e do qual eu vi três minutos, porque nunca consegui entrar no Stephen Carrel.
Porque és um jornalista.
Talvez. Eu nunca consegui entrar naquele registo mais sitcomesco. The Office também é comédia de desconforto, aquilo que hoje nós dizemos com muita frequência, cringe. E ao não ter aquelas gargalhadas enlatadas, que é uma série, temos que estar atentos e eu a ter alguma cultura de televisão e até de jogos de câmara para perceber.
Onde é que está a piada.
Sim, onde é que está a piada e qual é a piada além da piada, os vários layers da piada. Teve bastantes poucos episódios. Teve duas temporadas e um especial de Natal. O especial de Natal é ótimo. Ele é o David Brent, o Ricky Gervais, é um loser, um desgraçado, mas com bom coração, como qualquer loser e qualquer desgraçado, diria eu. E eu aconselho todas as pessoas a verem, se ainda não viram. E é isto.
E muito bem. Joana Siccaini Vilela, nesta onda de séries que, reforce, é a nossa opinião, que é a mais importante, no fundo. Séries que fizeram a diferença, que foram revolucionárias por alguma razão ou que deixaram lugar. Uma das tuas escolhas é "All in the Family", que em Portugal foi "Uma Família às Direitas". Explica-nos por quê. Que era uma expressão muito usada nos anos 80 e 90. Queria só deixar aqui uma nota em relação aos mockumentaries para um formato português, que não será a mesma coisa, mas tem alguma coisa disso, que é o último a sair do Bruno Gago. Isto porque ao fazer estas escolhas, apercebi-me que tudo isto era inglês ou americano, tudo o que eu escolhi, e imagino que, salvo raras exceções, será assim. E portanto, fica aqui uma referência a um formato português.
E bem.
"Uma Família às Direitas". Por onde começar? Posso começar pelas noites em família, a ver Uma Família às Direitas, já não sei em que anos, talvez no final dos anos 80, passava no segundo canal. Não sei na altura como é que se chamava, se era RTP 2, se era Canal 2, qual era a designação.
Ou TV2 também.
Ou TV2. É uma série que foi totalmente inovadora na época e que ainda hoje é considerada um marco na comédia, vamos dizer americana, mas diria não só, nas sitcoms, ou seja, comédia de situação. Por quê? Porque o que eles fazem é: temos uma família, com uma personagem inesquecível que é o Archie Bunker. Aliás, lá em casa nós dizíamos: "Já começou o Archie Bunker."
Claro.
E não éramos os únicos. Que era casado com a Edith, que tinha uma voz também à ela inesquecível, e tinha um genro a quem ele chamava carinhosamente Meatheads, e também depois a filha. Mas era mais do conflito entre o Archie e o genro que surgiam os temas e a inovação na série. A série, o que faz é: estamos a falar de uma comédia que, por cinco anos, é a série mais vista, de acordo com a Nielsen, nos Estados Unidos, e que traz para o horário nobre os temas da atualidade política e social. Eles falam de racismo, falam de impostos, falam do governo.
Falam da guerra.
Falam da guerra. A série é dos anos 70. E isto, portanto, durante a Guerra Fria, e apanha ali uma coisa com a qual todos nos identificamos, imagino eu, que é o choque de gerações em família, que é um patriarca muito conservador, da classe trabalhadora, branco, que faz comentários sem qualquer freio, racistas, antissemitas, machistas. Tem um cadeirão, que é o seu cadeirão. A mulher, que é a Edith, que é super bom coração.
Está no Smithsonian, o cadeirão.
O cadeirão dele e a cadeira dela, porque ela sentava-se ao lado, mas era numa cadeira.
Claro, obviamente.
Uma cadeira de braços.
E começa nos anos 70, ainda no início, ainda apanha Nixon, Vietname.
Nixon era fã. E ia dizer mais tarde, mas digo agora, o que é muito interessante nesta série é que tínhamos um sogro ou um pai conservador, de classe trabalhadora, um tipo que diz: "Eu odeio a mudança." E diz isto mesmo, isto é uma frase dele. E um genro que é estudante, ainda está a estudar, vive com eles. Ele acha que ele é um inútil, o genro acha que ele é um preconceituoso. E de fato, ele é todas estas coisas, mas ao mesmo tempo, este genro é arrogante muitas vezes na sua forma de falar. E este conflito, que existe entre eles, é um conflito que, se se vir a série hoje, é totalmente atual. E depois, isto vive do texto, das representações, porque é a primeira série gravada com público ao vivo. Portanto, isto também é uma inovação. Não há enlatados, não há aquelas gargalhadas. Aliás, há uma cena em que eles têm que cortar as gargalhadas porque o episódio estava demasiado longo, e eles ainda precisavam de pôr ali um pedaço de uma fala. E o Archie Bunker tem uma frase a dada altura em que o genro está a queixar-se do estado do mundo e do papel da Casa Branca nisto. E ele diz: "Mas a Casa Branca não tem nada a ver com o que se passa neste país."
Ora bem.
Ponto.
Muito bem.
Enfim, em resumo, o Nixon era fã do Archie e a série dividia o país, ou o país identificava-se de forma muito declarada e clara com qualquer uma das fações. E há dois meses puseram no YouTube um best of de "All in the Family", de "Uma Família às Direitas". Dois meses. E há uma série de comentários a dizer: "Estão a ver como o Archie tinha razão?" E o contrário. Portanto, isto está completamente atual.
Posso dizer duas coisas?
Rapidamente.
A série é inspirada num original britânico. E mais interessante, a ideia sendo do Norman Lear, era fazer uma série em que era tão óbvio que o tipo era racista e anti direitos das mulheres.
Sim, e conservador, etc.
Sim, que o público iria perceber a ironia. Pois bem, nas primeiras temporadas, os maiores fãs eram precisamente as pessoas iguais ao Archie.
Eram os blue collars.
Identificam-se.
Estourou na cara dos criadores da série.
E só mais uma curiosidade que é gira: toda gente se lembra do genérico.
Sim, deles a cantar.
Ela desafinada e ele com aquela voz, pus o cigarro do charuto, e só a partir da segunda temporada. E esse genérico é assim por falta de orçamento. Eles estouraram o orçamento a fazer o piloto e não tinham dinheiro nenhum.
E tiveram que readaptar.
E de repente, aquilo torna-se um dos elementos mais emblemáticos da série, que até se chamava "Those Were the Days". Portanto, aquela ideia da nostalgia é totalmente hoje.
É do passado.
É totalmente hoje.
Bruno Vieira Amaral. "Twin Peaks".
Pois é.
Está dito.
Em 1990, aterrou este OVNI na televisão, diferente de tudo que tinha sido feito até então. Não há nada que fosse um sucesso, que fosse remotamente parecido com isto. E o David Lynch, que já era um realizador conceituado, pôde fazer as suas experiências, as suas brincadeiras com o Mark Frost nesta série, que mistura algumas influências das soap operas, com aquele universo meio onírico, macabro do próprio David Lynch. Há aqui um olhar sobre a América normal. Um lugar perfeitamente normal da América, mas sempre com esse olhar lynchiano sobre a realidade, a dizer: "Espera aí, que as coisas não são bem o que parecem." E é por isso que a série é tão fascinante. É porque tu tens, de facto, aquilo que a televisão e que as séries costumam mostrar, essa realidade costumeira, mas indo à procura, depois, do outro lado, de um lado perturbador, em que aquele entra num universo.
Sobretudo na segunda temporada, porque há uma grande diferença entre a primeira e a segunda.
A segunda temporada, aquilo já está em roda livre, já não interessa.
Exato.
Eu lembro-me de ver na altura. Eu vivi a febre do "Twin Peaks". Eu era leitor da TV Guia e a TV Guia, quando estreou a série 1.
Já foi há muito tempo.
Eu também era leitora da TV Guia.
Em 1991.
Não deixava de ver o "Twin Peaks".
Quando estreou cá em Portugal: "É a melhor série de sempre." E eu: "Bora lá, vamos lá ver isto. Quem matou Laura Palmer?" E criou-se, claro, cá em Portugal, mas não só, logo nos Estados Unidos houve logo essa-
Teorias e etc.
Claro. Foi logo um fenômeno à partida. E quando chegou cá a Portugal, então, o fenômeno já era global, com esse grande impacto nos Estados Unidos. Mas eu quando estava a ver, sofri essa desilusão de chegarmos ali à segunda temporada e aquilo entrar num desvario total. Mas isso não interessa. Tal como não interessa quem matou a Laura Palmer, porque eles próprios, os criadores da série, o David Lynch e o Mark Frost, reconheceram que era um MacGuffin. Ok, é um mistério, mas eu acho que eles estavam mais interessados em filmar o cadáver da Laura Palmer do que propriamente em arranjar ali um mistério que levasse o espectador a acompanhar. Tanto que eles despacham o mistério ali a meio da segunda temporada, e aquilo já não interessa. Como já não interessava antes e depois deixa de interessar aos espectadores. A primeira temporada tem um grande sucesso de audiências, apesar de estar ali no mesmo horário do "Cheers", só para termos uma ideia dos universos contrastantes que estavam ali representados. Temos uma sitcom que é uma das sitcoms mais populares, mais amadas e mais transversais, e depois tens aquele objeto que é apelativo E ao mesmo tempo é estranho, é assustador. E essa estranheza em televisão nunca se tinha visto. Eu não sei se podemos dizer que os "X-Files" não poderão ser um tipo de televisão que só é feito porque houve o "Twin Peaks", apesar de serem coisas muito diferentes.
Mas apesar disso, tem um formato mais tradicional, não é?
Tem.
Tem episódios chatos.
Tem episódios chatos.
Não tem aquela estranheza. O David Lynch deixa-nos sempre muito...
É o ambiente.
Não, o David Lynch é mergulhar mesmo quase no subconsciente.
Ele próprio admitiu depois que muita coisa foi feita com os pés.
Sim.
Aquela pedaço de madeira que ele cortava.
De madeira, do tronco. E há inúmeras coisas. Eu, aqui há uns tempos, estava a rever e, de facto, aquilo é ele a brincar. Ele a divertir-se com aquilo. Vamos estar aqui com os fantasmas do David Lynch. A certa altura era ele a explorar ali, quase num tom jocoso, as próprias possibilidades.
Aliás, ele é convidado a fazer a série graças ao seu sucesso no cinema.
No cinema.
Replica aí a fórmula.
E depois, claro, ele não queria fazer 10 temporadas da série. O que ele queria era experimentar um bocadinho, brincar. Foi isso que fez, criando um fenômeno cultural. Era isso que eu queria dizer. Apareceram ali algumas séries naquela altura, também um pouco estranhas, mas não sei se foi muito influente depois no que se fez em televisão, porque depois tivemos muitas coisas feitas mais tradicionais, mas marcou claramente a história da televisão.
Muito bem, amigos.
E a música do Badalamenti.
Do Badalamenti, exatamente. Final da primeira parte do "PopUp". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "PopUp" com Bruno Vieira Amaral, o Pedro Boucherie Mendes e esta semana também com a Joana Sicchini Vilela, a propósito dos 25 anos de "The Office". Estamos a refletir sobre uma questão essencial à espécie humana: que séries foram inovadoras e por isso ficaram na história. Pedro Boucherie Mendes, vamos retomar a conversa com um clássico absoluto chamado "Dallas". Por que a série "Dallas" ficou na história?
Tal como "quem matou Laura Palmer?" era uma pergunta repetida ali no final dos anos 80 e princípio dos anos 90, a frase "Who shot JR?"
É verdade.
"Quem disparou contra JR?" , "Quem alvejou JR?" para dar uma tradução mais rigorosa e que fica muito bem.
E bem na rádio, claro.
Foi uma frase do princípio dos anos 80. "Dallas", a primeira produção da Lorimar em prime time, a primeira soap opera.
Sim, lembro muito ver esse nome.
Começou por ser uma minissérie. A ideia era mostrar ricos, afluentes, pessoas com comportamentos extravagantes, tinham grandes carros. Eu acho que era o JR ou era o irmão que tinha um Mercedes capotável lindíssimo. Acho que era o irmão. O JR era um personagem quase secundário. O JR, Larry Hagman, quase secundário. Mas o seu impacto foi tal que depois quando a série passou a ser uma série normal, semanal, passa a ser o protagonista, é talvez o grande vilão da televisão, ainda hoje. JR, John Ross, para quem está a pensar o que eu quero dizer.
O petróleo não é todo de JR.
Exato.
Já cantava Rui Reininho.
Não sabia. Obrigada, Pedro.
You're welcome. E esta coisa do "Who shot JR?" , eu acho que era a primeira ou segunda, no final de uma das temporadas iniciais, para ser completamente rigoroso, uma das temporadas, disparam sobre o JR e depois a série não retoma logo. Por quê? Porque o JR queria um aumento, estava negociado, etc. Foram filmadas várias possibilidades. Eu acho que foi a cunhada. É como Laura Palmer, ninguém se lembra quem matou.
Não importa.
Coisas interessantes para dizer: era em Austin, no Texas, que era ali o centro do petróleo. Os produtores da série, para fazer aquelas stock shots, aqueles planos cá de cima dos prédios para as ruas, andavam a distribuir chapéus de cowboy aos homens que passavam.
Para as pessoas andarem de cowboys.
Portanto, essa coisa dos texanos andarem de chapéu de cowboy, não era uma coisa assim tão evidente.
Não acreditem.
Exatamente. Quer dizer, agora acreditem, porque teve 14 temporadas, teve várias iterações.
14?
Sim, a original teve várias iterações. Os donos do rancho original tiveram que vender a propriedade, porque eram tantas pessoas a correr lá para ver.
Não aguentaram.
Hoje é um museu ou qualquer coisa parecida, onde está a pistola que alvejou o JR. Tem uma coisa interessantíssima para quem é um tipo que se interessa pelas curiosidades da vida, que é: uma das temporadas acaba com a morte do irmão do JR, o Homem da Atlântida, sabes quem é?
Patrick Duffy.
Exatamente. Que foi recrutado no platô do Homem da Atlântida. E a temporada seguinte acorda com o tipo a tomar ducha. Por quê? Tinha sido tudo um sonho. Houve uma temporada. Há uma temporada que não é do cânone da história, porque foi tudo um sonho.
Muito bem. É uma boa solução.
Eu acho isso incrível. Nós víamos "Dallas" religiosamente, eu creio que era ao domingo à noite. Aquela música do genérico, ainda é uma das mais impactantes e mais reconhecidas da história da televisão
Teve sempre arranjos e orquestrações diferentes em cada temporada, não foi sempre a mesma que ouvimos.
Isso é como extremamente desagradável.
Exato.
E ouvir aqueles acordes. As pessoas literalmente paravam o que estavam fazendo, incluindo se estivessem a dar banho em um bebê, paravam, tanto que morreram muitos bebês afogados, porque os pais correram para ver. Essa parte é falsa.
Muito bem, um bom pedaço de humor. Por falar em humor, Joana Siccaini Villela, uma referência mais recente.
1992.
Por acaso aí há outra, mas vamos aí.
Querias ir pra onde?
Não, eu estava aqui. Sabes por quê? Porque eu de repente já não estava a seguir o plano.
Não gostas desta?
Não, já não estava. Estavas em "Absolutely Fabulous" ou estavas em "Fleabag"?
Estava em "Absolutely".
Então vai por aí. Já voltamos a "Fleabag".
"Fleabag" não é de 92.
Pois não.
Eu estava a seguir uma ordem cronológica.
E fazes bem.
Eu gosto de ordem. Embora nem sempre pareça.
Não digas isso.
Nem sempre pareça. "Absolutely Fabulous".
O Archie Bunker também gostava.
Gostava. Ele não gostava de mudança, mas por acaso isso até gosto. Mais conhecido por "Ab Fab", é uma série britânica criada pela Jennifer Saunders, era French and Saunders. Perdão, não me lembro do primeiro nome. Pedro, você iria ajudar?
Eu vou ajudar aqui, não te preocupes. Don French?
Não, é uma humorista. Era a vigária de "Dibbly". Ela escreve.
Don French, muito bem.
É Don French? Peço desculpa.
Obrigado. É isso. Estas pessoas têm imensa informação na cabeça.
Têm, muito mais do que eu.
Extraordinário.
Bom.
Não era o Don Johnson.
É que eu vi escrito D-O-N em vez de D-A-W-N. Peço desculpa.
Não faz mal.
Don Johnson, Don French.
Elas escreveram um sketch a dada altura sobre uma mãe narcísica, desorganizada, alcoólica e tudo isso, e uma filha hiperconservadora. E a partir daí resolvem criar uma série. A série chama-se "Absolutely Fabulous" e é sobre duas grandes amigas, assim de meia idade, que viveram aquela era da Twiggy e dos primeiros hippies chiques ao máximo, e que continuam a tentar ser super jovens e bebem, tomam drogas, uma que é a Jennifer Saunders, é a tal mais hippie, segue todas as tendências. O nome dela na série é Edina Monsoon, monção, e chama a filha Saffron, é açafrão.
Muito bem. Nunca. É como a canção do Donovan, do Saffron. Estavas a falar dos hippies britânicos e falamos do Donovan.
Nós somos pessoas com muitos parentes na cabeça. Às vezes é difícil deixá-los de fora. E é relações públicas de uma revista, e a sua melhor amiga é a melhor amiga dela.
Joanna Lumley, não é?
Joanna Lumley, que na série é Patsy Stone. É o mesmo modelo. Acho que a Joanna Lumley é mesmo o mesmo modelo. É o mesmo modelo toxicodependente, alcoólica, provavelmente.
A personagem?
A personagem. Está sempre com um cigarro na mão. É a diretora de moda da revista, mas ninguém percebe muito bem o que elas fazem. E tem o humor mais sarcástico e a maior insensibilidade ao mundo e a tudo que se possa imaginar. Aliás, são as duas totalmente narcísicas e esta série torna-se marcante. É uma série mais de culto, embora depois tenha tido várias versões: há uma versão francesa, em filme, elas depois fazem uns filmes que eu nem vi, não quis ver. Tenta-se fazer várias coisas para continuar o franchise, mas o que tem piada é a série e a falta total de limites de moral. É uma série totalmente amoral, totalmente exagerada. Os procedimentos estéticos, elas fazem tudo. E isto nos anos 90. E depois tem essa tal filha, que é o contraponto moral, às vezes muito irritante também. E a Edina, que é a principal, interpretada pela Jennifer Saunders, tem uma mãe que é assim meio sarcástica e cleptomaníaca. E aparece de vez em quando lá em casa, leva umas coisas.
Portanto, tudo pessoas de referência.
Tudo pessoas de referência. E o que isto pra mim tem de extraordinário, e que acho que as diferencia, e por isso é que é apelativo, é que costuma dizer-se que a comédia é um espelho de feira, é uma coisa que deforma. Isto deforma totalmente, e elas divertem-se imenso com aquilo, e aquilo é tão absurdo, que de repente tu olhas pra aquilo e pensas: "Eu conheço aquelas pessoas todas". E não há tabus, elas tratam mal os filhos, elas têm uma crueza radical, são completamente únicas e tudo isto é muito refrescante, embora elas estejam quase sempre de ressaca. Isto é uma piada.
Muito bem, sim, senhor. Vamos todos ver referências humanas. Bruno Vieira Amaral, uma das tuas escolhas é uma novela.
É uma novela.
Chama-se "Vale Tudo".
"Vale Tudo".
A minha grande pergunta é: por que esta novela e não outra?
Por que esta novela? Por quê? Não foi o maior sucesso de público, de audiências, nem no Brasil, e acredito que em Portugal também não tenha sido, em comparação com, por exemplo, "Roque Santeiro". Até talvez "A Tieta do Agreste" tenha tido mais sucesso, e mesmo também no Brasil, mas foi uma telenovela que Veio trazer coisas novas para a teledramaturgia brasileira.
É uma novela da Globo.
É uma novela da Globo, é uma novela que se passa na época em que foi produzida, que foi feita no final dos anos 80, em que fala sobre um sentimento de degradação econômica e moral, de corrupção no Brasil naquela altura. É uma novela em que há heróis, claro, mas os grandes protagonistas que ficaram mais marcados no imaginário foram os vilões, em particular a Odete Roitman, um papel desempenhado pela Beatriz Segall. Eu agora estava aqui a pensar nestas coisas.
Odete.
Odete Roitman. Quem matou Odete Roitman? Era a grande pergunta que se fazia na altura. E a ligação com o Daliso. Agora eu estava a pensar nestas coisas e estava a lembrar-me que outra das grandes personagens da telenovela, um dos melhores papéis, ainda que a Renata Sorrah depois tenha feito a Nazaré, a Nazaranha, uns anos mais tarde, era precisamente a filha da Odete Roitman, a Heleninha, que era uma alcóolica. E aquilo que me ficou na memória dos episódios que eu via-
Que era a Renata Sorrah
...que era a Renata Sorrah, precisamente. A Renata Sorrah era uma das vítimas, não era a vilã, mas era alcóolica e até esse tema do alcoolismo trazido para o universo das novelas na altura foi muito marcante. E teve outros temas que foram lançados também, porque a novela tinha essa preocupação de lançar esses temas mais polêmicos, temas mais fraturantes e que algumas novelas abordavam de uma outra forma. Por exemplo, o "Roque Santeiro" era uma novela politicamente muito consciente, porque o Dias Gomes era um homem ligado ao Partido Comunista. A primeira versão do "Roque Santeiro" tinha sido ainda feita durante a ditadura, mas aqui era de uma forma mais explícita, abordando o Brasil contemporâneo. E o tema do alcoolismo era trazido por essa personagem, a Heleninha, lembrando outra grande alcóolica das séries, que é a Sue Ellen, do Dallas. Curiosamente, tem o mesmo nome, Ellen.
Pois é.
E eu acho-
Curiosamente, ou não.
Curiosamente, ou não. Eu acho que há aqui paralelismos que não podemos ignorar. Aqui há uns anos, creio que em 2017, a "Avenida Brasil" e o "Vale Tudo", curiosamente duas telenovelas que têm essa proximidade temática de olhar para o Brasil contemporâneo, de não fazer aqui uma imagem mitificada do Brasil, ou empurrando quase para o lado do realismo mágico, foram eleitas pelo público as duas melhores novelas da história da Globo. Na altura, não foi de facto um sucesso comparável ao "Roque Santeiro", mas teve uma força que deriva desse olhar direto para a sociedade da época. E claro, aqui com alguns estratagemas ficcionais, como este de quem matou. Quem matou, depois foi usado também de forma mais ou menos parecida com a próxima vítima, que também foi uma novela de grande sucesso, mas trouxe temas novos ou tratados de uma forma mais crua até para as telenovelas brasileiras. É produzida em 1988, cá em Portugal estreia no final de 1989.
Na RTP, claro.
Na RTP, claro. Para vos dar uma ideia, a novela em Portugal substitui o "Sassaricando", que era uma novela das seis no Brasil. Só para dar aqui uma ideia da diferença. "Sassaricando" era uma comédia.
Sim. Era uma galhofa.
Era. E aqui, de repente, tens uma coisa que parece-
Densidade.
É o Brasil real, não é?
É, o Brasil real. O que fez depois o "Avenida Brasil"-
Como a canção do Cazuza
Como a canção, tem essa grande canção do Cazuza, interpretada pela Gal Costa. E por todos esses motivos, é uma das novelas fundamentais da história da Globo.
Pedro Bouchi Mendes, uma espécie de novela à sua maneira. "Love Boat", também conhecida como "O Barco do Amor". Por que é uma série importante?
Também é uma bela canção de amor.
É verdade.
"Love Boat", que teve duas vidas em Portugal, pelo menos. Teve a vida quando foi estreada, é uma série do final dos anos 70 e que passava na RTP, e depois teve uma outra vida, porque era uma das first picks no "Agora Escolha", o programa da Vera Roquette, de 86. E portanto, há como que duas gerações de jovens portugueses, pessoas que assistiram ao "Barco do Amor". O "Barco do Amor" é uma das primeiras séries e uma das únicas séries de uma hora a ter gargalhadas enlatadas, portanto, ao contrário das sitcoms.
Isso causava uma grande estranheza, de facto.
Pronto, aquilo revolucionou a indústria dos cruzeiros a nível mundial. Pessoalmente, eu passaria bem sem isso, já que não me estou a ver a fazer cruzeiros, mas pronto. Nunca fiz nenhum.
Não negues uma ciência que desconheces.
E nós, apesar de não termos essa gramática ou essa literacia, percebemo-lo. Tinha essa originalidade de ter pelo menos três plots. Nós percebíamos pelas pessoas que subiam a bordo, que eram quase sempre ótimas guest stars, eram atores que nós reconhecíamos de outros lados. O casal não sei quantas e não sei o quê. Os próximos 45 minutos haviam de girar em torno deste casal, deste casal e desta mãe e filho. Isso também é uma originalidade que "Love Boat" trouxe, essa coisa de ter multi argumentos num mesmo episódio, em vez de ser apenas princípio, meio e fim. É uma coisa que acontece, há um desenvolvimento e há um fechamento, um encerramento da coisa. Além disso, "Love Boat" tinha um elenco fixo, que era a tripulação, o barman, o médico, o capitão, depois a sobrinha do capitão.
A Vicky.
A Vicky, que se percebeu que era uma altíssima toxicodependentíssima na vida real.
Toxicodependentíssima.
Era assim meia completamente avariada da tola. E é isto. Eu gostava imenso de ver o "Barco do Amor", gostava imenso da música.
Ótimo.
É um tempo em que a televisão-
Havia um dos tipos que parecia o Mário Crespo, não era?
Sim, acho que era o médico. É um tempo em que a televisão investe a sério nas tunes, na música. E a música no início das séries, que demorava talvez um minuto e tal, às vezes mais, destinava-se precisamente a convocar os elementos do agregado para se sentarem a ver.
Como se fosse um apito. Venham.
Era uma sirene, como as bombeiras tocam aí dia. Não sei se é uma ideia ainda que toca.
Onde há.
Teve cerca de 250 episódios.
Nada mal.
"Love Boat", sim.
Eu acho que houve um reboot recentemente, mas foi um flop.
É, claro, com certeza.
Joana, agora sim, "Fleabag".
2016.
Pois é. Já foi há uma eternidade.
10 anos.
Está muito perto de 1992.
Pois é.
É a série que lança a Phoebe Waller-Bridge, embora ela já tivesse escrito outras coisas, mas que é, de facto, um fenómeno, sobretudo a segunda temporada. Embora eu apanhei na primeira e achei logo aquilo uma coisa genial e muito nova, no sentido em que ela conta a história de uma jovem muito perdida. Depois percebe-se que ela está em um pós-trauma e está a tentar sair dali, mas completamente sozinha, com uma família disfuncional, com amigos disfuncionais, a refugiar-se em relações que não são relações, em one night stands, em muito álcool. É tudo aquilo muito inglês e parece-me que é capaz de ser uma das primeiras grandes séries sobre os millennials. Tem um humor extremamente inteligente, é muito bem escrito, é muito aguçado, muito sarcástico. Tudo aquilo tem um fundo super negro e nós estamos ali a rir. É muito, como os ingleses dizem, é witty, é espirituoso. Ao mesmo tempo, é muito maroto.
E depois tem aquele lado do dispositivo em que ela fala conosco.
Sim, já ia lá. Eu ia só dizer que isto é o rir para não chorar dos brasileiros, mas à inglesa.
Que também são muito peritos em fazer isso.
Mas de outra maneira, é muito seco e depois com muitos golpes, sempre. E depois ela faz aquela coisa de quebrar a quarta parede, quase como se estivesse tão sozinha que as únicas pessoas com quem ela pode falar são os espetadores.
Nós é que sabemos os segredos dela.
Nós sabemos, ela fala conosco. Não é novo na comédia, por exemplo, "The Lie Detective".
Sim.
Outra grande série. Também faziam isso, mas noutro tom. Aqui, tudo aquilo joga nessas camadas. Há um lado muito negro, que é suportado pela comédia. Tem só duas temporadas. A Phoebe Waller-Bridge depois partiu para outras coisas, escreveu inclusivamente um filme do James Bond, e é a primeira série britânica a ganhar o Emmy de melhor comédia. E é isso.
E é isso. Deixa-me só dar aqui uma nota.
Era uma aquela selva de padre na segunda temporada.
Exato, era isso que eu ia dizer, o "Hot Priest", claro. Aliás, e vai tão longe.
O Adam Scott.
Eu queria dizer isso.
Adam ou Andrew?
Andrew, sim. Desculpa.
Isto é tão-
Também conhecido como o Ivo Canelas inglês.
É verdade. Aquilo é tão torcido, que de repente ela a única pessoa por quem ela se consegue apaixonar é um padre. Tem uma grande energia e só uma nota final, que é: o Obama, o ex-presidente.
O Barack.
O Barack, ex-presidente dos Estados Unidos.
Deus na Terra.
Pôs a segunda temporada na lista das suas séries preferidas. E para quem viu e para quem não viu, quem não viu veja o primeiro episódio da primeira temporada e lembre-se isto.
Bruno Vieira Amaral, tu agora vais falar de uma série muito desconhecida que se chama "Seinfeld".
"Seinfeld".
Já vais arranjar confusão, as pessoas vão se chatear contigo.
Vou já arranjar confusão, por quê? Porque o "Seinfeld" foi aquela série que nos obrigava a rir, que nos fazia sentir obrigados a rir, mesmo quando não estávamos a achar graça nenhuma. Não estávamos a perceber a piada daquilo.
O Pedro está-se a rir.
Achas mesmo?
Acho que sim.
Ao contrário de outras séries que falámos aqui.
Eu percebo o que ele diz.
Ao contrário de outras séries como o "Cheers" ou uma "Família às Direitas".
Sou tudo por causa do George.
Havia ali coisas que tu não sabias. Ou então rias. Mas curiosamente, é tão diferente daquilo que se fazia, que depois aponta outros caminhos. E aqui sim, eu acho que é muito influente. Acho que seria difícil teres uma série como "The Office" sem o "Seinfeld" e muitas outras. Ou seja, abriu aqui uma série de caminhos para a comédia, porque antes as sitcoms, por diferentes que fossem, umas podes dizer mais inovadoras, distinguiam-se pelas personagens, pelos temas, mas o formato era muito parecido no ritmo da organização do episódio, do ritmo das piadas, até aquele facto de ser, em relação às outras. Claro, esta também tem um núcleo de personagens e tem as suas personagens secundárias, mas as outras parece que estavas sempre à espera. Claro que aparecessem as personagens a fazer o que cada uma fazia. No "Cheers" já sabias o que cada uma delas fazia, mas parece que havia ali sempre a espera da punchline. E aqui, às vezes não havia punchline. E eu acho que isso desorientou um bocado o espectador. Uma das séries desta época, que eu gostava muito, que era o "Doido por Ti", também teve alguns aspectos inovadores com o Paul Reiser e a-
Archie Bunker.
Ellen Hunt
No "Doido por Ti", desculpa o parêntesis, o ator era o pai da Ellen Hunt.
Parece uma seca sete séculos.
Não gostei. Eu gostei muito.
Eu divirta-me com aquilo.
Eu gostei muito.
Eu gostei na época, mas não sei se...
Talvez agora não tenha sobrevivido. E o "Seinfeld", até por esta secura e de não ter sempre este momento tcharam, sobrevive melhor. E isso é uma coisa curiosa. Eu na altura estranhei muito.
"Que raia?"
"Mas temos que gostar. Temos que achar piada, porque senão não somos suficientemente inteligentes, não podemos confessar que não estamos a achar piada a isto." Mas eu acho que é uma série que resiste melhor. Agora é que posso estar a cometer um sacrilégio para alguns ouvintes, por exemplo, resiste melhor do que o "Friends". Mas que também não gostei na altura.
Há muita gente que discordaria.
Eu concordo.
Eu não concordo, nem discordo, mas o "Friends" é um fenómeno.
Claro, por isso é que eu estou a dizer isto.
Aliás, houve uma conhecida marca de hambúrgueres que fez uma coleção de merchans.
E umas roupas, H&M. Há tudo, meus amigos, há tudo.
Não, eu estou a falar apenas não do apelo enquanto fenómeno cultural, estou a falar de se aquilo funciona ou não. Eu acho que o "Seinfeld", ao fim destes anos todos, tu voltas àquilo, não sei se até talvez por evitar também o humor, a atualidade. Porque a Joana estava a dizer a propósito de uma família às direitas, é muito atual, ou seja, aqueles temas hoje são atuais.
Eu estava a rever e pensei: "Vou mostrar isto aos meus filhos, vamos ver isto juntos."
E o "Seinfeld" consegue isso sendo intemporal. Claro que tem coisas culturais daquele tempo, daquela época, mas não são propriamente os temas, não é propriamente o humor que está ligado a coisas da sociedade, mas de uma forma complementar acabam por se manter atual.
O "Seinfeld" é revolucionário, ao contrário do "Friends", porque nenhuma das personagens é boa pessoa. Nenhum dos characters quer ser boa pessoa. Tem um problema de marcadores de tempo, os cabelos, as roupas, aqueles jeans.
Mas isso por si até pode ser interessante.
Que eu acho que pode vir a dar a volta, mas acho que ainda não deu. O "Friends" é uma série interessante, que em Portugal passou por ser emitida dobrada em português. A Rachel era a Raquel.
Claro.
Era interpretada pela Maria João Luís.
E a Phoebe era o quê?
A Maria João Luís era aquela pessoa que falava no voicemail da Telecel.
Era?
"Ligou para o número da Telecel."
Não, quer dizer, eu não sabia.
Deixe uma mensagem.
Mas agora já sabes.
Agora já sei.
Este programa vale por muito.
De facto. O Seinfeld tinha essa coisa estranha na nossa altura, que era: como é que o tipo se chama Seinfeld na série, se chama Seinfeld na vida real, ele faz ele próprio.
"Não brinquem comigo." Exato, eu percebo.
Porque é um péssimo ator, que nós sabemos. Virá a Portugal agora no fim do ano atuar, mas não como personagem de sitcom, mas sim como humorista standupper. Depois deu na televisão generalista, na TVI.
Na TVI, sim.
Tal como deu o "Mad About You". O "Mad About You" também dava ao fim da noite.
Era aí que o Paul havia essas coisas todas.
É muito interessante que a geração das pessoas que falam nos media, como nós, no limite, víamos ao fim de contas muito mais a TVI do que a SIC, que era dominante. Porque na TVI davam imensas séries.
Séries, muitas séries. E era em horário nobre.
Exatamente.
Mas o "Seinfeld" dava fora de horas.
Dava depois aos 11 e tal, mas fora de horas naquela altura era um fora de horas diferente. Muito porque a TVI não tinha um tostão furado e, portanto, tinha que dar as séries americanas.
Mas houve uma altura em que a TVI tinha séries às 17:00. Tinha o Peak of Defense, todos os dias tinha uma série diferente.
E tinha depois a sequela do jornal também, o "Profiler", o "No Man".
O "X-Files", acho que talvez um bocadinho mais tarde.
O "No Man" ou uma coisa assim.
Sim.
"O Homem sem Destino, sem Nome" ou uma coisa assim.
E a primeira página também.
Rapaziada, desculpem interromper o vosso pingue-pongue.
Vamos passar, claro.
Temos que ir para a última ronda.
Está bem.
E vamos continuar com a bola aqui do lado do Pedro, porque vais falar de "ER", também conhecido em português como o "Serviço de Urgência".
Da mesma época, mas na RTP1.
Sim, "ER" é de 1994 e é uma série estranhíssima, porque era, e eu acho que ainda é, demasiado boa pra ser verdade. Não sei se vocês alguma vez viram com fidelidade o "ER".
Não, com fidelidade nunca vi.
Eu vi no início da série, aquilo era muito inovador.
Eu acho que vi todos os episódios pelo menos duas vezes. São 300 e tal, mas eu vi em várias.
Parabéns, Pedro.
Eu insisto, a série era demasiado boa pra ser verdade. E de alguma forma, é a série que mais aproveita aquilo que o Alan Greenspan, que morreu há pouco tempo com 100 anos, apelidou de exuberância irracional. Ou seja, a bolsa americana nos anos 90 esteve sempre a subir, a economia esteve sempre a crescer. Portugal também, isso aconteceu. No resto do mundo, além do otimismo e dessas coisas todas, havia muito dinheiro para ser gasto em produção. E o "ER", vou repetir pela terceira vez, era demasiado boa pra ser verdade. Em primeiro lugar, é a primeira série de hospitais, medical drama, onde existe tecnologia a sério. Os anos 90 são muito marcados pela ideia de tecnologia, que a tecnologia vai mudar as nossas vidas para sempre, essas coisas. Os telemóveis, a internet, são dos anos 90, embora um pouquinho depois de 94, ou a sua popularidade. Mas no "ER" nós temos um hospital muito humano, porque os personagens são muito humanos, têm aqueles problemas, uns são alcoólicos, os outros têm o coração partido. Sempre aquele clichê da mãe divorciada. Chega à casa e tem que comer comida do chinês. Eu ficava sempre com pena que em Portugal não houvesse aquilo.
Com vontade de comer comida do chinês.
Com os seus pacotinhos.
Exatamente. Que achavas sempre aquilo no frigorífico com um aspecto ótimo e eu tinha que estar a comer massa com frango. A vida nunca foi justa.
Nunca. Nem vai ser, Pedro.
Ao mesmo tempo, "ER" tinha um lado levemente documentário, a câmera abanava, e já tínhamos visto em "Hill Street Blues", cerca de 10 anos antes, um pouquinho mais de 10 anos antes.
Por quê? Porque o "ER" é isso. O "ER" é a balada de "Hill Street" no hall de um hospital.
Exatamente. É um documentário, a câmera abana, chamada shaky camera, que depois uma tendência que se intensificou e que felizmente agora já parece ter passado.
E que deve ter atingido o seu apogeu com-
"24", não é?
Com o "24" e no "The Shield", que a certa altura o espectador vai rever e aquilo provoca algum enjoo. O "The Pitt", além de ter muito "ER" em várias coisas, obviamente, também tem esse lado da câmera.
O "The Pitt" é um filho, é um filho do "ER".
É um herdeiro direto.
Há este lado vérité, mas também há o lado profundamente confortável da série americana tal qual a conhecemos. Portanto, com pessoas, com dramas, as mulheres apaixonam-se pelos homens e os homens têm problemas. Revelou algumas estrelas, entre as quais o George Clooney. Tem esta parte interessante, se virem algum episódio da série, vão reparar que o George Clooney está sempre a olhar pra baixo, mais ou menos, porque o George Clooney, ao que parece, não consegue memorizar facilmente o texto. Então o nome daquelas doenças estava escrito algures. Por isso é que ele está sempre meio assim, meio a olhar pra baixo.
O que o favoreceu, se calhar.
Exato.
Bom ângulo.
Não se deu mal.
Olha, aí está, provavelmente Doug Ross, com o mesmo nome do JR.
Aí está.
Portanto, também há essa ligação.
A Julianna Margulies.
Que era lindíssima.
Era isso que eu ia dizer. Tinha um elenco extraordinário.
Mas é, se calhar, dos primeiros.
Crichton, não sei o nome. O mesmo do "Jurassic Park".
É dos primeiros, senão o primeiro grande caso de uma estrela televisiva que se torna uma estrela no cinema. Ou seja, raramente, porque as estrelas da televisão ficavam confinadas à televisão. Eram grandes, mas eram na televisão.
Deixa eu só dizer mais esta consideração, que é muito rápida, que talvez este lado da concessão ao grande público de ser meio soap opera também, meio novela da vida real, whatever that means, lhe tire mais apreço e por isso a série não apareça tanto naqueles rankings das melhores séries de sempre. Está um lado da xaropada que lhe tira essa dimensão. Pessoalmente, eu acho injusto.
Muito bem.
Joana, deixa. A Joana estava a dizer o Bruce Willis.
Não, estava só a confirmar.
A estrela que passou pro cinema.
É verdade que o Bruce Willis tem essa primeira fase da televisão.
E deve ter outras pessoas, agora não me sai da memória.
Joana Stickine Vilela, qual é a tua última escolha?
A minha última escolha chama-se "Better Things". É uma série muito menos conhecida do que merece. Não sei se foi vanguardista em alguma coisa, mas é das minhas séries preferidas e eu achei que era a altura de aproveitar. É uma série semiautobiográfica criada pela Pamela Adlon, que as pessoas podem conhecer do "Californication", e pelo Louis C.K. Depois o Louis C.K., também autor do "Louie", que é uma série extraordinária. O Louis C.K. é depois cancelado e desaparece um pouco.
E agora tem um especial na Netflix que é muito mau.
Eu não vi esse especial, mas eu gosto muito da série.
Chama-se "Ridiculous".
Bom, mas é uma série semiautobiográfica e eu escolhi não só por ser das minhas séries preferidas, mas também por representar este momento em que a autobiografia entra na comédia. Ou seja, ela não esconde que é semiautobiográfica, embora não faça gala disso, de dizer: "Isto é a minha vida." O que eu acho interessante para um público generalista? Isto é sobre uma mãe divorciada que tem de criar três filhas. O marido anda por aí na vida dele. Ela é atriz, mas é uma atriz de segunda linha. Ou seja, nós normalmente ouvimos falar dos atores de Hollywood que são grandes estrelas, ou então daqueles que estão a tentar safar-se. Ela faz aquilo que a maior parte das pessoas em Hollywood fará, que é: tem alguns trabalhos que lhe dão dinheiro, mas depois tem que fazer voiceovers, tem que fazer a voz da Telecel, tem que fazer aquelas coisas todas. E mistura este lado de drama, drama sem o lado trágico, de vida, do dia a dia, de uma mãe que está a educar filhos.
Vida real.
Vida real, de uma pessoa que vive em Hollywood, naquele ecossistema, brinca muito com aquelas coisas todas. As conversas com as maquilhadoras e com os cabeleireiros, quem frequenta minimamente esse meio reconhece aquilo. É tudo muito divertido. Ela é uma personagem, é fora da caixa, desiste às tantas. As relações que ela tem funcionam sempre mal. Ela depois desiste daquilo, faz tudo e mais alguma coisa pelas filhas. Há um episódio épico em que ela diz às filhas: "Estou farta que vocês não valorizem aquilo que eu faço. Hoje vamos fazer o meu funeral." E as filhas e os amigos organizam o funeral dela. E ela diz: "Eu vou assistir àquilo que vocês têm para me dizer, faz de conta que eu morri." E isto parece uma péssima ideia, mas funciona muito bem. Ao mesmo tempo, é muito enternecedor. Ou seja, nós rimos muito com aquilo tudo. Tem uma energia extraordinária, comove-nos muito. E depois, como dura cinco temporadas, nós acompanhamos, de facto, o crescimento daquelas miúdas todas, que vão desde a mais novinha ser muito novinha, até acabar por ser uma adolescente. A mais velha, como nota final, é a Mickey Madison, que depois fez o "Anora".
Que já é uma star. E parabéns.
E, portanto, saltou da televisão para o cinema.
Bruno Vieira Amaral, para acabar: Monty Python. Eu não sei se estás a falar do Flying Circus?
Yes.
Ou Malucos do Circo, em português?
Os Malucos do Circo. Eu vi a série já nos anos 90, em 96, 97, quando foi reposta. Acho que passava na RTP2, na altura. Já tinha ouvido falar muito e é incrível. Na altura já tinha quase 30 anos e era tudo como podia ter sido feito, claro, com outros meios, na semana passada, e eu acho que continua a ser verdade. Voltando aqui a este tema da atualidade, da longevidade e também de conseguires identificar, não achares: "Isto parece uma coisa muito antiga." Claro, tem marcas do tempo em que foi feito, mas continua a ser um exemplo de comédia que funciona, independentemente da época. Não perde. Não é daquelas piadas que são muito circunstanciais e continua a ser uma inspiração para quem faz televisão, apesar de termos hoje muito menos programas humorísticos de sketches, que tínhamos antes, agora com as plataformas. Curiosamente, eu pensei que pudéssemos assistir a uma ressurreição desse formato. Não parece ser o caso atualmente, mas não podemos pensar a comédia de sketches e todas as que foram feitas. Por exemplo, uma que eu gostava muito ali de meados dos anos 90, a "Fast Show". Sem pensar nos Monty Python, não podemos pensar no Herman José e no "Tal Canal" sem os Monty Python. Gato Fedorento, por falar das influências em Portugal. Eu acho que 60 anos depois, praticamente, continua a ser uma referência, um farol do humor em televisão.
Muito bem. Rapaziada, foi uma boa maratona. Chegamos ao fim de mais um "PopUp". Escrevam-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.