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Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o encontro semanal entre estes três campeões da cultura popular: Maria Ramos Silva, Bruno Vera Amaral e Pedro Boucher Mendes. Esta semana, antes da grande final, vamos fazer o balanço pop do Mundial de Futebol. Pedro Boucher Mendes, vamos começar por ti, sem mais introduções, sem mais demoras, até porque quando o Mundial começou, os nossos ouvintes fiéis e estimados devem lembrar-se, fizemos uma espécie de abertura. E agora que tudo vai acabar este domingo, com a final mais ansiada pela Maria Ramos Silva, Espanha e Argentina.
Não digas isso, vai morder.
Pedro Boucher Mendes, vamos começar por ti. Até porque antes deste programa, em que eu vos pedi: "Vamos fazer o nosso balanço pop do Mundial". Até porque o Mundial é talvez o maior espetáculo deste ano de cultura popular. Tu chegaste à frente.
Não falando no picnicão.
Pronto.
Se tirarmos o picnicão da equação.
É o segundo.
É o segundo.
Tu dizias-
É o primeiro
...eu não percebi se disseste isto como afirmação ou como pergunta, que é: este foi o melhor mundial de sempre. É a tua convicção ou é uma dúvida que tu tens?
É uma especulação.
Sim, senhor.
Eu não gosto muito, e acho que as pessoas também não gostam muito, de mundiais que decorrem em vários países em simultâneo, embora vá ser esta a tendência. Não podemos chamar a este mundial o Itália 90 ou França não sei quantas. Vamos ter que chamar: "Não, aquele mundial do Cabo Verde brilhou" ou qualquer coisa. Apesar de acho que todos nós nos olvidamos depressa de que também houve jogos no México e no Canadá.
É verdade.
Do AI Seed foram todos em Miami. Dos 20 jogos: "Miami, ok, Miami".
E provavelmente vai ficar assim na história como aquele outro mundial dos Estados Unidos.
O Trump 26.
Se calhar.
Em vez do Trump 26.
Melhor mundial por quê? Porque teve mais equipas.
Sim.
E tendo mais equipas, teve mais focos de diferenciação. Teve mais underdogs, mais fãs de várias cores, feitios e tamanhos, mais camisolas de várias cores. Portanto, a quantidade aqui significou uma ideia de maior diversidade.
Mais festa, se calhar.
Sim, mais festa. Apesar de alguns dos países mais populosos do mundo, como a Nigéria, Indonésia ou a China, em especial, e a Índia, nem sequer participarem no mundial. Portanto, o mundial sem alguns dos países mais populosos do mundo é um conceito um pouco estranho. Depois, os americanos fazem muito bem as transmissões, embora estas transmissões não sejam completamente americanizadas. Não temos a Kiss Cam, por exemplo, acho eu que não tivemos.
Sim.
A FIFA impôs regras, mas em todos os jogos, pelo menos na primeira fase, se terão reparado, a realização de televisão, provavelmente em acordo com a FIFA, em todos tivemos focos de público muito felizes, muito vestidos a condizer. Portanto, especulou-se se a própria organização do mundial não coreografou aqueles momentos.
São figurantes do mundial.
Sim, mas aqui no bom sentido.
Achas que é uma possibilidade?
Houve momentos muito reais, mas não estou contra, claro. E que esses momentos foram captados e depois feito o insert na transmissão, imagina, uma pausa do jogo a qualquer.
Eu acho que isso certeza aconteceu, por exemplo, no jogo França x Espanha-
Certeza?
Certeza. França x Espanha, em que há um momento em que se vê uma adepta no estádio virada de costas para a câmera com a camisola do Mbappé.
Sim.
Só se veem as costas dela, não há movimento à volta. É uma imagem praticamente estática.
Stock image.
Parece que-
O jogo ainda não terá começado.
Não, já estava a decorrer, o jogo estava a decorrer. E aparece aquela imagem, mas não vês movimento das pessoas à volta e ela está de pé e a olhar para a área.
Talvez nem ia discutir.
Isto aconteceu muito provavelmente por causa das mensagens políticas que possam existir. Ou seja, não podes estar a varrer com a câmera, a filmar.
Sem critério.
E de repente aparecer um tipo a dizer: "Dá-me a tua camisola", um cartaz, não sei o quê, que é o que vemos sempre nos jogos portugueses, vemos sempre não sei quantos: "Dá-me a tua camisola". Eu não me lembro de ver alguém a dizer: "Dá-me a tua camisola", mas posso estar-
Também não viste os jogos todos.
Sim. Portanto, havia uma certa higiene nesses planos, eram todos gente muito feliz. Nós vimos adeptos de Cabo Verde, que é um país que não tem tanto dinheiro. Enfim, preciso ter muito cuidado com as palavras. Não tem tanto dinheiro como o Canadá.
Por exemplo.
Mas estavam todos equipados a rigor e aquelas camisolas, como sabemos, são todas caríssimas.
Sim.
E portanto, sou levado a crer que partes dessas foram artificializadas em favor da festividade.
Mas correu bem.
Mas isso também é uma coisa que já acontece. Eu lembro-me de imagens depois de balanço do Itália 90, em que vias imensas imagens das bancadas. Há uma imagem célebre de uma adepta brasileira a chorar, uma adepta brasileira loira, muito bonita, a chorar porque o Brasil tinha sido eliminado contra a Argentina. Portanto, essas imagens das bancadas e do que é que se está a passar nas bancadas fazem parte quase do patrimônio dos campeonatos do mundo.
Deixa-me terminar. Mas não vimos imagens de sujidade, não vimos bancadas vazias, não vimos pessoas feias
Se calhar faltou algum daqueles exóticos, excêntricos, aquelas mulheres com aquelas unhas grandes. Mais uma vez, não vi os jogos todos.
Certo.
Parecia um pouco, às vezes, um filme, uma série.
Havia umas tochas ali no meio.
Sim, tochas.
Eu não acho que tenha sido muito diferente dos outros mundiais nesse aspecto. Acho que hoje já não se procura tanto a mulher bonita.
Claro. Aí tens.
Isso aí acho que mudou um pouco.
Cada vez mais mulheres.
Duas das celebridades instantâneas deste mundial tenham sido aquelas duas adeptas portuguesas, uma das quais será namorada do Francisco Conceição, e que se tornaram conhecidas.
Mas, entretanto, também já nem se lembra delas. Portugal foi viral.
Foi por engano. Acho que o cameraman foi despedir. O mundial com mais público feminino interessado, portanto, as mulheres têm se vindo a interessar mais por futebol e por Fórmula 1 também, eventualmente por outros esportes. Eu acho que isso se notou também, ainda bem que o futebol deixa de ser só uma coisa de homens. E quando eu digo que foi o melhor, é porque pareceu muito, às vezes, uma recriação de uma feira medieval, em que há espadas e lanças, mas sabemos que ninguém vai matar ninguém.
Certo.
Vamos só comer o porco no espeto. Foi nesse sentido.
Que é, no fundo, tudo que importa.
Não houve muitas trumpices, acho eu.
Sim.
Eu acho que a gente deve saber como o mundial decorre. Salvo aquela coisa do cartão.
Foi só aquela coisa da Bélgica.
Enfim, eu acho também que não se quis correr o risco, não vimos cartazes dizer "fora Trump" ou "viva Israel" ou "fora Israel".
Atenção! Quando gravamos este programa, faltam dois jogos, o jogo do terceiro e quarto lugar e a final. Mas enfim, Bruno Vieira Amaral, um dos teus temas aqui nesta avaliação tem a ver com os underdogs, que é sempre um tema ótimo em todas as histórias, dramas, narrativas, literatura, tudo e mais alguma coisa.
É sempre, Rocky, Balboa.
Os underdogs foram a estrela deste mundial?
Não foram.
Nem Cabo Verde?
Cabo Verde foi.
Mas era um underdog.
Cabo Verde foi o único, na verdade, o único underdog. Tu chegas às meias-finais e tens as quatro melhores seleções do mundo nas meias-finais. Nunca tinha acontecido.
São mesmo as quatro?
As quatro primeiras classificadas do ranking da FIFA.
Sentes-te legitimado pra dizer isso.
É um dado objetivo do ranking FIFA.
É números.
As quatro melhores seleções, as quatro primeiras classificadas do ranking da FIFA chegaram às meias-finais. Foi a primeira vez que isso aconteceu desde que o ranking é feito. E também é muito raro acontecer os quatro semifinalistas serem antigos campeões do mundo. Ou seja, não íamos ter logo, à partida-
Uma grande surpresa.
Não íamos ter um novo, ou não vamos ter um novo campeão do mundo. Já sabíamos que seria uma destas quatro equipes. Ou seja, houve, de facto, underdogs, porque, como dizia o Pedro, isto foi alargado para 48, mas eles foram protocolarmente despachados logo na fase de grupos. Só foram eliminados 12, mas desapareceram logo do radar. Depois, houve, claro, a grande história de Cabo Verde. E é a história do underdog que, curiosamente, também foi mais longe do que aquilo que se esperava, mas cai logo na primeira-
Mas houve grande entusiasmo
Na ronda eliminatória, ainda que contra a Argentina.
Houve um período de: "Somos todos Cabo Verde."
"Somos todos Cabo Verde, toda a gente adora Cabo Verde, a cultura de Cabo Verde, a música de Cabo Verde, a comida de Cabo Verde. Cabo Verde é o melhor país do mundo, já me disse a minha senhora que dá lá uma ajuda em casa", e essas coisas todas. E eu comecei a refletir sobre a forma como, não só neste mundial, em todos os mundiais, nós aproveitamos para fazer aqui o enaltecimento, não patriótico, que muitas vezes é feito por pessoas que não são do país, mas o do enaltecimento de certos países e dos valores que supostamente representam, quando, em particular no caso dos portugueses, há sempre ali, não sei se é uma vergonha, se é um pudor, se é um asco, em relação aos supostos, também, valores culturais do país. Quando tu começas com esse discurso: "A seleção é uma metonímia do país, é o país que está ali representado e os valores de Portugal". Se for o primeiro-ministro a dizer uma coisa dessas, já é um fascista, um nacionalista perigoso. Mas tu tens esse tipo de discurso, não sei se por condescendência, com Cabo Verde. Tudo o que Cabo Verde representa, a cultura e o povo, é tudo maravilhoso. Nada contra, eu nunca visitei Cabo Verde, mas conheço muitas pessoas, cresci com muitas pessoas de Cabo Verde. A cultura cabo-verdiana está muito presente, é uma comunidade muito forte no nosso país, está presente, eu acho que acaba por estar presente de alguma forma nas nossas vidas, mas houve aqui uma idealização.
Mas, se calhar, tem a ver com esse entusiasmo de underdog.
Tem a ver com esse entusiasmo e, tu permitires, como é um país não ameaçador, é um país que foi colonizado e que não foi colonizador.
É fofinho.
Ou seja, tu podes dizer: "Eu quero ter a nacionalidade cabo-verdiana, eu quero ir viver para Cabo Verde."
Era muito diferente se tivessem vencido na final, por exemplo.
Ou se tivessem enfrentado antes.
Ou até antes.
Eu lembro, aqui há uns anos, houve um célebre Portugal-Angola, no Estádio de Alvalade, em que aquilo podia ter desencadeado aqui uma nova guerra, agora já pós-colonial, porque não sei quantos vermelhos é que houve. Os jogadores angolanos deram caneladas, eu acho que até ao roupeiro. E havia uma grande carga Pós-colonial nesse jogo. Com Cabo Verde eu creio que seria diferente, até porque a relação de Portugal e Cabo Verde acaba por ser diferente. Mas o que eu queria dizer é que, e não foi só da parte de Portugal, houve aqui uma espécie de consenso, também muito por causa desta condescendência em relação a um país pequenino e, como dizia o Pedro, fofinho, e que nos permitiu fazer esta exaltação de valores patrióticos de um país que não o nosso, porque o patriotismo dos outros parece-nos sempre mais saudável do que o nosso. Claro que depois tens o reverso da medalha, que é uma certa demonização cultural, nacional de outros países. Países como a Inglaterra, que nestas coisas apanham sempre todos os lados, mas também a Argentina. Vimos muito, e isso foi crescendo à medida que a competição ia avançando, despertaram um sentimento de repulsa, quase cultural, ideológica, em relação à Argentina. "A Argentina não tem negros. O que é que fizeram aos negros da Argentina?" Foi um discurso muito presente nas redes sociais. Politicamente, a Argentina é isto e aquilo, e receberam os nazis.
E o Milei.
E o Milei. Ainda mais o Milei. Houve aqui, de ambos os lados, discursos um pouco incongruentes, um pouco contraditórios. Por um lado, uma exaltação nacionalista para um país que é simpático e, por outro, depois ataques aos países, supostos traços identitários desses países, uma verdadeira demonização desses países, que também já é habitual.
Deixa-me só mudar aqui, antes do intervalo, a nacionalidade e vamos falar da Noruega. Maria Ramos Silva.
Ora aí está outro país fofinho.
Foi o Haaland o grande fofinho deste mundial, a estrela pop improvável, mas provável. Como é que isto aconteceu?
Não é assim tão improvável. Tem aquele ar de viking.
E tem os elásticos, que são feitos lá e custam €3 cada um. Podes comprar na internet.
A coleção das roupas.
E não é demasiado bonito.
Exato.
Não, eu até acho que não é nada.
Há até uma trend, vocês não sei se sabem, que é uma série de influencers, mulheres, que agora se estão a comparar com o Haaland. É extraordinário. Mas não só a mesma fisionomia.
Sim, eu já vi uma, acho que é russa.
Não sabia.
Isso dá aura.
Uma coisa incrível, por um lado, o desempenho desportivo, obviamente, mas depois uma coisa extraordinária. Eu lembro-me, no dia imediatamente a seguir a Portugal ter sido afastado, ver grupos e grupos de miúdos a fazerem a remada.
Começaram a remar como vikings.
E portanto, eu acho que a capacidade de trazeres esse momento muito pop, essa coreografia para o jogo e de fato, haver ali uma dimensão de agrupamento, uma coisa mesmo muito patriótica e muito de junção. Porque eu acho que o mundial acaba por trazer isso muito em contraste com os clubes.
Mas é interessante como ainda faz isso. Se calhar ainda faz mais agora.
Sim, mas eu acho que até vai um pouco ao encontro desta ideia que o Pedro falava nas bancadas. De facto, se nós pensarmos bem, este é o palco, ou dos poucos palcos, onde nós permitimos e até advogamos, de certa forma, toda esta ostentação daquilo que são as referências identitárias que ainda subsistem de cada nação, sem pedores. As pessoas levam os artefatos todos, levam o bacalhau, levam os gorros de campino.
Tinhas aqueles famosos fãs.
Os vikings eram muito amistosos.
Sim.
Mas é isso, é como os traços identitários de uns são demonizados e os traços identitários de outros são respeitados e exaltados.
Os meus favoritos acho que eram aqueles ingleses, aqueles três ingleses que iam sempre de leões.
Aquilo, de facto, parece um baile de máscaras. Parece que as pessoas te dão um guião à entrada, caso te tenhas perdido ali no alinhamento. Agora vais-te vestir desta maneira. E de uma forma mais ou menos empírica, tu juntas-te àquele grupo. Agora, de facto, os noruegueses tiveram esse momento final do jogo, que é impactante, aquilo é obviamente extraordinário. Eu percebo que tem encanto, sobretudo para os miúdos. Não sei se os adultos terão andado a fazer isso na rua, espero que não.
Mas tiveram vontade.
Tiveram certamente vontade. E era uma coisa que nós também poderíamos ter feito, se fôssemos um bocadinho mais inventivos. Também andámos por aí a remar e a chegar a um lado.
A descobrir mares nunca de antes navegados.
Lá estava, como o Bruno dizia, se calhar entrámos aqui num campeonato, umas águas mais conflagrosas e, portanto, era melhor.
Não correu bem a Portugal o mundial também porque houve jogos fora do fuso horário comum. Certo?
Mas dizes mesmo aos jogadores?
Não vais estar a celebrar quando Portugal-Colômbia começa à meia-noite.
Sim, foi à meia-noite ou à meia-noite e meia.
Se fosse um jogo às 17:00, ou às 18:00, ou às 20:00, seria mais fácil organizar umas remadas e umas coisas dessas.
E um porco no espeto, nunca se sabe. Muito bem, final da primeira parte do "Pop-Up". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "Pop-Up" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buchinho Mendes. Esta semana estamos a fechar as contas do Mundial de Futebol. A final acontece este domingo. Estamos aqui a fazer a nossa análise pop ao evento, assim é que é. Pedro Buchinho Mendes, uma das grandes questões do mundial, pelo menos aqui entre nós, tem a ver com a transmissão televisiva, especificamente com a live mode, com o facto de podermos ver em cada dia de mundial um jogo à borla, sem pagar, com uma transmissão algo diferente, um modelo algo diferente, sobretudo nos comentários, etc. Mas já lá vamos à parte dos comentários. Para já queria ficar aqui por esta parte, este negócio. Dirias que vai continuar? Dirias que pode eventualmente até mudar a forma como as coisas funcionam?
Em primeiro lugar, os portugueses já veem muitos jogos à borla
Há centenas de milhares de portugueses que têm aquelas boxes.
IPTVs e etc.
Pagam meia dúzia de centavos e veem tudo à borla.
Toma!
Como sabemos, o povo mais honesto do mundo, mas centenas de milhares de pessoas têm essa box. Aqui o que aconteceu foi inesperado, inusitado e difícil ainda de arrumar na classificação certa. No fundo, isto é um jovem brasileiro, que eu julgo que tem pais portugueses, o Cazé Casemiro, que começou a fazer coisas no YouTube, um youtuber que começou a relatar os jogos, começou a ter público, começou a ganhar dinheiro com isso, a coisa escalou. Durante o COVID, a Globo que tinha os direitos, os mundiais da FIFA. A FIFA coloca no mercado os direitos de transmissão dos jogos para determinada território, as estações de televisão, no caso de Portugal, SIC, TVI e RTP, bidam, fazem bids, fazem propostas. 1 milhão, 2, 4, meio milhão, 100 mil euros, o que for. Negocia-se e depois esses canais ficam com o exclusivo do território. E existem exclusivos de televisão do antigamente, live TV, que é como se chama, televisão artesiana ou chamem-lhe como quiserem chamar, televisão aberta, que portanto, toda a população, em princípio, tem acesso sem custo. E existe televisão por cabo, no caso em Portugal a Sport TV, portanto, a FIFA ganha das televisões abertas, a FIFA ganha da TV cabo, e também existem os direitos digitais. Uma das formas no Brasil que aconteceu foi: "Então nós tocamos os direitos digitais". E os direitos digitais foram parar a esta CZTV, que hoje é a Live Mode. Estou a simplificar muito.
Sim.
Mas há uma boa história no Observador sobre isto, se quiserem procurar, investiguem. Como é que isto se distingue? Em primeiro lugar, e é uma coisa interessante e muito pouco falada, que é: não tem legislação aplicável. Portanto, no fundo, são as leis gerais do país que se vão aplicar a essas transmissões. Se o tipo estiver a fazer um relato, a fazer a apologia do nazismo, não será perseguido judicialmente por qualquer coisa relacionada com televisão, mas sim por ter dito mensagens de ódio.
Exato.
Faz com que o relatador possa estar a dizer: "O que me apetecia agora mesmo era um menu do Kentucky Fried Chicken". Coisa que o comentador da SIC, ou da TVI, ou da RTP, ou da Sport TV, não pode dizer.
Não pode dizer.
Pronto. E logo aí o potencial comercial das transmissões...
Aumenta.
Dispara. Nós mesmos no site da SIC temos que cumprir a lei da televisão.
Contrassenso, diria isso. Médio.
Debatable, como dizemos nós, os intelectuais. Mas no YouTube tu podes fazer literalmente o que quiseres. O Live Mode ganha dinheiro, mas também ganha dinheiro a própria plataforma YouTube.
Estas receitas vêm da publicidade.
Receitas da publicidade e do tráfego, porque o tráfego indexado aos números de views.
Também dá dinheiro.
Pronto. O que eu acho que houve aqui foi que a Live Mode entrou muito bem, e aí ou dou os parabéns ou eles próprios devem ir a Fátima agradecer, na mídia tradicional. Montes de gente, incluindo nós estamos a falar desse assunto aqui.
Claro.
Mas, na verdade, quando a HBO transmite Wimbledon ou golfe, nós não falamos disso aqui. Tênis. Eles têm transmitido tênis. Ou quando a Sport TV, que também esteve agora em Wimbledon, abre um canal específico para termos comentários ao jogo com dois humoristas, acho que foi o Bruno Nogueira e o Salvador Martinha.
No Wimbledon.
Sim. Não há o hype. Não estamos sempre a falar disso. Nunca dedicamos um programa a isso. Portanto, esta coisa da live TV teve a fortuna, ou o mérito, ou a sorte, não sei mesmo, de conseguir entrar na conversation, porque as pessoas de fato odeiam a televisão. Nós temos, enquanto pessoas, como há uma grande assimetria, nós achamos que as televisões têm imenso poder, e de fato têm. E nós temos muito pouco poder, e de fato temos pouco.
E vamos contra os poderosos.
A relação é sempre: "Eles estão sacanas". Então nós ficamos contentes quando aparece alguém que vai desafiar o monopólio da televisão.
Exato.
Eu estou sempre a contar essa história e vou contar mais uma vez.
E bem.
Quando eu comecei a trabalhar em televisão, as pessoas antes de darem os parabéns ou que fosse, de me perguntarem se era bom, diziam: "Eu já não vejo televisão".
Em 2026 ainda veem.
Imagina se eu comecei a trabalhar numa livraria e as pessoas dizem: "Eu não leio livros."
Exato.
Era o que acontecia.
Mas a questão aqui, ao teu lado-
Foi um sucesso? Só os contabilistas da Live Mode é que sabem.
Exato.
Eles dizem.
E isso vai condicionar o futuro, se foi um sucesso ou não.
Não sei se vai condicionar o futuro, porque aqui a bola, passo a expressão, é na FIFA.
Claro.
A FIFA organiza o mundial, paga aos vencedores, cobra dinheiro aos países, deve ganhar dinheiro dos hotéis, dos patrocinadores. E a parte dos direitos televisivos é uma parte importante do bolo das receitas. Se os espectadores deixarem de ver nas televisões tradicionais, isso desvaloriza o produto futebol. Ou seja, a SIC pensará daqui a quatro anos, ou a TVI ou a RTP: "Eu não quero isso para nada, porque a gente está a ver no YouTube".
O investimento não compensa.
Pronto, o investimento não compensa. Portanto, eles têm que aqui marcar coisas. Deixe-me só assinalar duas coisas importantes que eu quero dizer. Em primeiro lugar, o fracasso do "The Rest is Football" do Gary Lineker na Netflix, que foi anunciado como uma grande Coca-Cola no deserto e eu não conheço ninguém que tenha visto sequer um frame. Não sei se vocês viram.
Não vi.
Pronto.
Eu vi. E é extraordinário.
Pronto. Eu não estou a dizer que é bom ou que é mau, estou apenas a-
Sucesso ou não.
Sim, o hype.
E depois, eu acho que a Live Mode não terá tido a sorte de encontrar figuras que relatassem os jogos de forma que furasse as nuvens de ser apenas novo. Nós não temos em Portugal, neste momento, tivemos o Jorge Pedestre, que já morreu há uns anos. Lembra-se, não é?
Sim.
Mas não temos hoje uma figura, um relatador, comentador, que nós procuremos a transmissão por causa dessa pessoa, homem ou mulher. Eu só vi o jogo da Live Mode através da Amazon Prime. Desisti ao fim de 5 minutos, já não aguentava os comentários, mas também tenho a idade que eu tenho.
Claro.
Mas também estás concentrado numa figura só. Tu aí tens uma equipa quase em campo.
Mas tentar ver um jogo num café.
Claro, essa é a ideia.
Deixa-me passar essa bola aqui ao Bruno Vieira Amar, que também quer dizer umas coisas sobre isto dos relatos e comentários e os convidados. Eu fiquei com a ideia que algumas pessoas ficaram relativamente fascinadas com a possibilidade de ter uma coisa diferente daquilo que é mais habitual numa televisão normal, se assim quiseres, mas outras que também ficaram: "Malta, isto só de ser jovem não chega." Com que impressão é que ficaste disto tudo?
Fiquei com a impressão de que os mais velhos torceram o nariz e os mais novos aderiram.
Custiram bué.
Alguns por curiosidade. Por exemplo, o meu filho, nós temos Sport TV, não é pirata.
Ele a defender-se. E é caríssima a Sport TV.
Nós víamos os jogos na sala e o meu filho não estava na sala e ia ver.
Por causa dos comentários, dirias?
Não sei. Talvez. Aqui é que nós vemos. Nós, os miúdos, vemos aqui e os cotas veem-
Mas ele via os gols mais tarde.
Hã?
Não era?
Via os gols mais tarde?
Não tinha um atraso depois na transmissão?
Não sei, provavelmente. Não sei se ele estava muito interessado nos gols.
Não era assim tão pouco segundos.
Não era 10 minutos.
Não era 10, mas era- 8 segundos, tranquilamente.
Ou mais.
Sim.
Não era 10 minutos.
Não.
Mas é o suficiente para-
Mas é o suficiente para ouvires um grito.
Claro, na rua.
E então acho que é também ali uma marca de distinção etária e geracional, quer dizer, nós vemos ali e os velhos veem na televisão generalista, essas coisas.
Até prefiro ver o telemóvel só para não ver contigo.
Depois há uma experimentação, claro, ver o que isto vai dar. Ser diferente, seguindo aqui um pouco a lógica também dos lives, das redes sociais, em que, na verdade, o jogo em si está ali apenas como pano de fundo para pessoas comentarem, lerem comentários e fazerem publicidade. Não é o mais importante, o jogo. Ou seja, eu diria que quem está mesmo interessado em ver o jogo, não vai, se tiver uma outra alternativa, ver ali. Agora, se não tiver alternativa, ok, pode ver ali. Depois, haverá um interesse geracional novo nessa forma de transmissão, se calhar mais adequada até ao attention span dos mais jovens. Hoje, isto eu acho que veio alterar as redes, o scroll, veio alterar a forma não só como nós lemos e nos concentramos, mas também como vemos televisão. É muito difícil, e eu tenho feito esta experiência também neste mundial, tu estares concentrado 45 minutos a ver um jogo sem distraíres.
Agora imagina quatro horas e meia de ténis. A realidade é essa.
Não existe.
Os jogos tiveram sempre 100 minutos, no mínimo, por causa das pausas.
E não estás só a ver aquilo. Estás a fazer uma série de outras coisas. Também a tua capacidade de concentração diminuiu e é natural que haja certos agentes, quer nas redes sociais, quer nas plataformas de streaming, que se adaptem ou procurem adaptar-se também às características da nova geração de consumidores, de espetadores e de consumidores.
Maria Ramos Silva, as seleções são mais pop do que os clubes? Parece-te?
Thiago, para citar pessoal que eu conheço, os exames nacionais ainda não foram corrigidos e já voltámos ao Benfica, graças a Deus. Portanto, espero que isso responda à tua pergunta.
Se calhar fiz a pergunta errada neste painel.
Eu gosto muito do mundial e aliás, estava a ouvir o Bruno e subscrevo.
E ainda não gostas? Ou tens dúvidas?
Eu gosto muito de futebol, ponto. Gosto muito de esporte, eu gosto muito de futebol. E estou como o Bruno, eu acho que quem quer realmente ver um jogo, sobretudo na fase a eliminar. Aliás, para mim tudo devia ser fase a eliminar. A vida devia ser sempre uma fase a eliminar para todos os domínios. Mas para quem quer ver um bom jogo de futebol, e eu acho que é importante dizer isso, porque acho que também de alguma forma ainda não dissemos, acho que houve extraordinários jogos de futebol na fase a eliminar. Eu não me lembro de ver um jogo em que pensasse: "Estou aqui a perder o meu tempo, isto está a ser uma seca". Foram mesmo muito bons jogos, com grandes reviravoltas, mais ou menos esperadas.
Grandes enredos.
Grandes enredos.
Havia sempre uma narrativa.
Havia sempre uma boa história.
Houve jogos que não foram tão emocionantes.
Certo.
Tudo bem, mas havia sempre ali-
Mas não foi péssimo. Aqueles mundiais não foram péssimos
...uma boa história. Tu veres o jogo da Espanha com a França, por exemplo. Se nós formos pensar, foi um jogo muito emocionante. Não foi emocionante, mas a narrativa antes do jogo, de França chegar com um balde de champagne, no 14 de julho. Já rolhas a saltar pelo ar e de repente vês uma França completamente debilitada. O espetáculo em si não foi deslumbrante, mas a história foi.
A história foi, é verdade. E eu acho que se queres seguir realmente isso tudo, não podes nem estar tão colada à Live Mode, a não ser que não tenhas alternativa, nem no café. Quando sei que quero ver mesmo um jogo, por exemplo, evito ajuntamentos.
Gostas de ver sozinha?
Adoro ver sozinha, vejo muitas vezes sozinha e acho que corres genuinamente o risco de falhares imensa coisa no jogo porque estás distraída com tudo o que acontece à volta e que, na verdade, não é. Pronto, então acho que é mais difícil. Nós obviamente tivemos aqui uma
Uma saída precoce, de alguma maneira. Nós, Portugal. E portanto, a forma como nós seguimos o mundial também há de ter tido alguma nuance. Obviamente, que se Portugal estivesse na final agora no fim de semana, a conversa seria outra. Este programa estaria ir por outro lado, necessariamente. Tudo na rua estaria a ir por outro lado. Mas é o que é, e a verdade é que entretanto já se começaram a intrometer aqui outras provas.
E se Portugal fosse à final, só havia exames corrigidos lá para setembro.
E se!
Seria um grave problema.
Há aqui uma coisa que eu me esqueci de dizer da Live Mode, desculpa, Maria, é que as marcas comerciais. A Live Mode é uma coisa profissional. Conseguiu ter uma política comercial que foi capaz de seduzir as marcas a investirem. E qual é o problema para as televisões? As audiências, mas também o bolo publicitário.
Pois, obviamente.
Portanto, 1 milhão de euros ou 2 milhões, ou quatro, ou cinco, ou seis, ou 10, ou 20, que a Betano gastou com a Live Mode, não gastou-
Com outro canal qualquer
Mas também com canais portugueses de Portugal. Esse vai ser o desafio do futuro: como é que uma economia como a portuguesa vai conseguir gerar um tipo de crescimento que lhes permita manter os media em propriedade nacional? Se acharmos que isso é importante. Não sei se achamos que isso é importante ou não. Tenho a minha opinião, não a vou dar agora. Mas de cada vez que o YouTube se impõe, é mais dinheiro que vai para os americanos.
Naturalmente.
E é assim a vida.
Reta final, vamos lá ver se conseguimos ir a estes três tópicos que faltam. Pedro Mexia Mendes, a pausa para hidratação e a câmara do árbitro são conquistas extraordinárias que devemos manter?
São mais importantes do que parecem. Já não há saco para: "A FIFA quer ganhar dinheiro!" Como se todos nós não quiséssemos também ganhar mais dinheiro. Acho sempre muito interessante esta coisa que se diz.
Aquela pausa para hidratação dá imenso jeito a quem está a ver na televisão para se levantar e resolver aquele-
Sim, mas além disso, também tens o pause agora.
Pois.
Mas além disso, sempre que as pessoas têm um avô que tem um stand de automóveis em Viseu, aí o avô já pode ganhar dinheiro. Mas sempre que a FIFA tem uma ideia destas, que eu acho uma ótima ideia, porque um dos problemas do futebol é que são 45 minutos, que na verdade são sempre 47, 48, contínuos. E, portanto, as televisões não podem fazer intervalos e é assim que as televisões ganham dinheiro. É uma das formas que as televisões têm ganhado dinheiro. Portanto, eu acho uma ótima ideia. Não se chamava hidratação, já não me lembro bem como é que se chamava.
Era cooling.
Sim. Talvez o nome tenha que ser trabalhado, se calhar devia ser technical break e a narrativa devia ser passada para os treinadores. Porque, por exemplo, o Porto usou muito o ano passado, e com mérito, que é pedir ao guarda-redes que se sinta mal. Pedir não, no fundo, o que eles faziam era rezar ali uma reza e por coincidência-
Ele sentia-se mal.
Exatamente. As coisas que eu digo. Eles rezavam, ele sentia-se mal, o guarda-redes caía ao chão. O guarda-redes quando cai ao chão, o árbitro tem que interromper o jogo.
Fazer uma pausa.
Fazer uma pausa. E depois os outros jogadores também, por coincidência, iam todos ao banco ouvir a última anedota.
E não é só isso.
E recompunham-se tecnicamente e taticamente.
O mundial agora acontece num sítio onde não é verão, não vais fazer uma pausa para hidratação.
Mas tem um nome.
Tens que lhe dar outro nome.
Não me estou a lembrar agora do nome. Acho que a UEFA não vai incorporar, não é, Bruno? Acho que não vai haver essa chance.
Para já, não está previsto, mas temos visto nos jogos de preparação, agora com equipas portuguesas, a ser feito.
Eu acho que faz sentido para a modalidade desportiva futebol.
Eu também acho.
Voto a favor.
Tal como no ténis também se vai fazer qualquer coisa do treinador.
Pois, porque até há restrições, os treinadores não podem comunicar.
O que isto favorece é as equipas mais ricas, com mais soluções, com melhores treinadores. Mas eu sou 100% a favor.
Muito bem. Bruno Vera Amaral, já falámos aqui de enredos. Isto das boas histórias é preciso ter sempre heróis e vilões. Quem são os heróis e vilões, pelo menos antes da final deste mundial?
Antes da final, os heróis, deixa-me dizer que apareceram quase todos. Os grandes jogadores aqui há uns anos, não sei se foi no mundial de 2018 ou no de 2014, já não me recordo qual, os goleadores tinham desaparecido, estiveram mais ou menos incógnitos. E agora as grandes estrelas das equipas apareceram. Todos eles marcaram: Mbappé, Messi, Kane, Jude Bellingham.
Haaland.
O Haaland. Até o Ronaldo apareceu.
Cristiano Ronaldo.
Durante breves minutos. Mas todos eles apareceram em bom nível, o que também vem pôr em causa uma narrativa que era: o mundial como se disputa no final da temporada dos campeonatos europeus, os jogadores já chegam muito cansados e por isso é que o mundial do Qatar foi melhor, porque eles chegaram frescos. E vimos que isso não teve grande interferência para a qualidade e para o desempenho destes jogadores em particular. Diria que esses heróis espectáveis apareceram.
Sim, foi o mundial das estrelas pop outra vez.
Sim, voltaram os grandes jogadores. Os grandes jogadores estiveram lá, os grandes candidatos a balador. Não houve nenhum que tivesse falhado. Fora disso, trouxe menos figuras exóticas em comparação com outros campeonatos. O que é que houve? Houve o Vozinha. O Vozinha foi talvez o herói inesperado que nasceu deste mundial e que vai ficar para sempre associado a este mundial. Se eu tivesse de escolher um jogador para dizer: este é o mundial de quem? Tu que ligas tanto a futebol, dizes o Valderrama, o Higuita.
Mas eu sei quem são.
Eu sei quem são.
Tu sabes quem são. Isto dá a razão que é: as personalidades fazem a diferença.
Daqui a uns anos, estamos a dizer a dificuldade em dizer qual é este mundial. É o mundial do Vozinha.
E vilões?
Vilões.
Olá.
Passe. Vilões. Eu lembro-me do tempo em que Portugal era uma seleção muito simpática e toda a gente gostava de Portugal. Nós não ganhávamos.
E todos empatizavam.
Empatizavam com Portugal e com o futebol de Portugal.
Isso foi até ganharmos.
Porque éramos os brasileiros da Europa e éramos os negros sem balizas. Mas jogávamos tão bem e depois chegamos à França e a França tal. A partir do momento em que, por volta de 2004, 2006, começamos a apresentar equipes muito competitivas, duras, traiçoeiras e manhosas, que era difícil de ganhar.
E a dar murros.
E a ganhar duas vezes aos ingleses, eliminar duas vezes os ingleses em grandes campeonatos sucessivamente, começamos a ser vistos de outra forma. E nada, ninguém representa tão bem essa alteração do estatuto e da forma como nós somos olhados, o Cristiano Ronaldo, que de alguma forma foi, para muita gente, o vilão. É verdade que ele tem fãs em todo o mundo, em sítios que nem sequer ligam ao futebol, mas é uma figura que até pelas suas características físicas.
Linguagem corporal.
É quase um vilão de banda desenhada. Isso se não compararmos com o Messi, não posso dizer mais nada sobre o Messi. Mas ele representa, e tem aquela certa altivez e arrogância do físico.
As pontas dos pés nas fotografias.
E que leva os portugueses a não gostarem de Portugal, que é uma coisa extraordinária. O Ronaldo consegue fazer isso.
E pôr os portugueses contra portugueses.
Isso só está ao alcance dos grandes protagonistas.
Dos grandes portugueses.
Só houve um jogo francamente mau, que eu vi, que foi o França x Paraguai. Um comportamento vergonhoso por parte do árbitro e da seleção do Paraguai. Não sei se viram o jogo.
Não vi.
Vi.
O jogo foi um jogo à antiga.
Praticamente.
Aqueles jogos à antiga, o França x Paraguai.
Eu diria que foi back to the eighties. Como é que se chama aquelas coisas? The Revenge of the eighties.
Havia um tipo que era igual ao ator do "The Bear", que estava sempre lá. Dava socos na cara dos jogadores franceses e não acontecia nada.
Deixa-me só dizer que a Argentina ontem no início do jogo-
Isto não é nada comparado com o Paraguai, foi uma vergonha
A Argentina ontem no início do jogo teve essa postura de intimidação, cotoveladas, entradas só para dizer: "Estamos aqui, atenção". Claro que depois mostrou o futebol, porque tem futebol, mas a estratégia não foi muito diferente.
Acho que o Ronaldo poderia ter-se virado ao Evilásio se lhe tivessem passado a bola. Mas como não passaram a bola ao Ronaldo, ficámos sem saber. Fica no ar.
Para terminar, eu não sei o que vai ser de nós agora.
Eu não estou a ser irónico.
Eu sei. Não sei o que vai ser de nós sem o mundial.
Eu também não sei. O tour, há ainda mais uma semana de tour.
Ciclismo. Até eu ia todos os dias: "Deixa-me lá ver se há algum jogo hoje". E depois agora não sei o que vai acontecer.
É triste.
Mas tu viste algum jogo?
Eu não vi.
Viu. O Thiago há um momento viu alguns.
Dá-me um exemplo.
Vi os dois finais.
Não lançarem sobre ele nomes.
O último que vi, imagina, foi Inglaterra x Argentina.
Viste o Inglaterra x Noruega?
Vi.
E o que achaste?
Não me lembro já, mas gostei do espetáculo, sei lá. Achei fraquinho, não foi um jogo nada extraordinário.
O Schelder quis cruzar ou teve intenção?
Foi um grande gol. Agora se foi ou não. Deixa-me só continuar o meu raciocínio, que é: o mundial deu-nos aqui uma pista, ainda não sei se isto faz parte do mundial ou não. Eu posso vos dizer que quando vi aquela conferência de imprensa, estava toda a gente presa com os olhos na televisão, que foi: Jorge Jesus na seleção. Qual é o apelo, Maria?
Não, foi pena, porque de facto a melhor coisa que nos aconteceu no mundial, já nós tínhamos saído do mundial.
Nós pomos os olhos no Jorge Jesus porque queremos vê-lo falhar na gramática ou porque ele é um português como nós?
É muito difícil. Não sei, o Bruno há pouco falava de vilões, obviamente que nós tínhamos um selecionador até que eu acho que nem qualifica para vilão, porque é um espanhol descafeinado, não é? Tão descafeinado que é difícil colocá-lo nesse lado.
Ele parece um funcionário de uma instituição supranacional, mais do que um espanhol, porque eu acho que muitas vezes as pessoas pensam no Roberto Martinez e nem pensam no espanhol.
Parece um diretor funerário.
É marca branca.
Não sei se há alguma destas qualidades a não funeral, mas tem esse tipo de simpatia.
Estava era à espera.
Uma simpatia fúnebre.
Agora que falas nisso, de facto encontrei umas semelhanças, é verdade.
Gostava de saber qual é a viatura que ele conduz.
Podes ter certeza que tem servi-lusa do lado.
Deve ser daquelas privadas, deve ser fundo de barreira.
Eu acho que a figura de Jorge Jesus, goste-se ou não, vai fazer obviamente aqui não só uma mudança radical de estilo, como trazer uma personalidade que vai imprimir uma identidade que é única, que é muito à sua maneira. Nós lá na "Minha Terra" temos uma máxima muito altamente rural.
Lá na "Minha Terra".
Sim, uma coisa muito à ribatejana, que é: nós não somos melhores nem piores, somos diferentes. E eu acho que se aplica perfeitamente.
Vai ser um desafio para o jornalismo.
Pois vai.
Porque Jorge Jesus é muito inteligente a gerir a sua carreira com os jornalistas ligados ao desporto. São conhecidos os almoços frequentes. Os jornalistas nunca gostaram do Roberto Martinez, provavelmente com razão, e falavam livremente das suas limitações técnico-táticas. Estou francamente curioso em saber o que é que os jornalistas vão escrever sobre Jesus enquanto selecionador. Estou mesmo curioso.
O que é que vão escrever sobre Jesus? Fiquem só nesse passo. Muito bem, rapaziada, é isso.
E o próximo mundial é cá, não é?
Mais ou menos.
Vai ser para aí. Vamos ser o Canadá deste mundial.
Vamos ser o Canadá próximo.
Vamos. E Marrocos vai ser o México. Acho que é isso que vai acontecer.
Acho que não.
Muito bem. Vamos com tristeza a caminho da final, isto vai tudo acabar, enfim. Final de mais um "PopUp". Já sabem, escrevam-nos para popup@observador.pt. Sigam-nos nas plataformas de podcast. Nós voltamos na segunda-feira com as sugestões da semana. Até lá.