Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Nunca falhamos. Aqui estamos mais uma vez, para que não falte nada a quem nos ouve. Nova dose de sugestões da semana do "PopUp". Pedro Boucher Mendes, vamos começar por ti e eu não faço ideia o que é que vais sugerir às pessoas.
Primeiro, os Suede vêm cá.
É verdade, sim senhor.
Uma banda inglesa, britânica.
Gostei muito.
Do tempo da Britpop, e que eu também sempre gostei. Tenho bastantes dos primeiros CDs e CDs singles, umas raridades.
CDs singles, coisas que já ninguém tem.
Que podem valer um bom dinheiro. Segundo o meu amigo Bruno dieg Amaral, não devem valer nada.
Devem valer uns €0,70.
Se é em CD, tenho muitas dúvidas que tenha valor.
Não, está na moda o CD.
Dou-te €0,70 por isso.
Vêm ao Porto.
Pela colecção completa.
Naquela arena com nome de cerveja, Super Bock Arena, acho eu. É assim que se chama.
Também vêm ao Campo Pequeno.
E depois vêm ao Campo Pequeno na sexta-feira. Ainda havia bilhetes quando estamos a gravar isto.
Que é a Cristal Arena, não?
Não sei. É a primeira sugestão. Segunda sugestão: um livro de um colaborador aqui do Observador, tanto no texto como na voz, o Nuno Gonçalo Poças. Ou Póças, não sei como é que vocês dizem. Poças?
Acho que dizem mais Poças.
Eu digo Poças, até porque sou amigo do Nuno Gonçalo Poças. Que reuniu alguns dos textos que publicou aqui no Observador sobre política. Ele escreve sobre política, é um colunista político.
Sim, análise social.
Sobre a actualidade.
E o livro reúne, ele chamou "Águas de Bacalhau", que eu acho um ótimo título, do advento da geringonça à ascensão do Chega. Como sabem, não sei se já falámos aqui sobre isso, mas eu escrevi um livro sobre os anos 80 e estou a escrever um livro sobre os anos 90, não sei se alguma vez falámos sobre isso aqui. E não tenho a menor intenção, vontade ou curiosidade de escrever um livro sobre as décadas de 2000, de 2010 e desta.
Mas poderás ser convencido pelo teu editor.
Sim, exato. Com um livro de cheques ou como estiver.
Estás disponível a ser persuadido.
Não consigo, e por isso é que este livro é aconselhável, outras pessoas poderão conseguir, make sense, portanto, tirar um sentido do que se tem passado nos últimos 15, 20 anos. Nós estamos em 2026, portanto, mais ou menos a seguir ao euro 2004 até agora. O Nuno chama, de facto, do advento da geringonça à ascensão do Chega. A geringonça para o jornalismo português é, a seguir à descoberta da penicilina, a coisa mais importante que aconteceu.
E do pão torrado.
Eu não tenho a certeza.
Não sei onde é que está o pão com manteiga no meio disto.
Estou muito curioso, nunca vou saber, claro, o que é que acharão os historiadores daqui a 50, 100 anos, sobre esta fase da vida portuguesa, da democracia portuguesa, se foi bom, se foi mau. Claro que os historiadores não fazem este tipo de juízos, mas imaginem que há um tipo como eu que escreve um livro sobre este tempo, o que é que achará? Porque, por um lado, tivemos estabilidade política, mas por outro lado tivemos, e eu creio que o Nuno partilha mais ou menos esta opinião, pelo menos os textos são neste sentido, uma espécie de anestesia, que pelos vistos continua com este governo, é a opinião de alguns, incluindo de Passos Coelho. E pronto, do advento da geringonça à ascensão do Chega e os Suede.
O magnífico automóvel.
Sim, isso era o que dizia o Carlos Cruz. O filme sobre Melania chegou à Prime Video, portanto podemos ver, quem tiver uma subscrição. Eu devo dizer que eu sempre achei Melania: "Hum, ela não abre bem a boca".
Estás a falar fisicamente, o movimento, é isso?
Sim, mas eu achava que esta mulher é esperta. Eu tenho a mania que interpreto bem.
E que sabes tudo.
Como todos nós.
Eu achava: "Esta senhora..." Nem sabia bem a idade dela, só fui ver ontem. Ela nasceu em 1970. Tem 55, vai fazer 56. E eu pensava: "Coitada, ela aguenta." Bom, o filme dela é inacreditável. Lembram-se daquelas coisas que o Borat fazia e o Ben Stiller.
Inacreditável, porque é difícil de acreditar no que se passa.
Aquele zulander. De vez em quando, nos filmes americanos, nós vemos um tipo muito rico e muito parvo. O filme é inacreditável, não se consegue acreditar no filme, porque não tem nenhuma ironia. Eu vi 20 minutos. Nós temos cenas em que é de noite, dentro do carro, e ela está de óculos escuros. É inacreditável, mas não está a brincar, não há ironia.
Certo. Mas isso não tem graça?
Vamos ter aqui um filme de culto daqui a 10, 20 anos.
Vai ser o Scream de Trump.
Ou The Rocky Horror Picture.
O filme vale a pena ver. Não é para estar a falar mal, e o Trump é maluco. É o terror das pessoas que estão à volta dela, os tipos que estão a ver o vestido que ela vai usar na tomada de posse, e não sei o quê. Tu percebes que aquilo é terror, devem ter medo de ser despedidos.
Se tu vires o filme.
É inacreditável. Desculpem.
Como uma cena experimental não parece melhor?
Não, dá para ver que, de facto, o homem mais poderoso do mundo, que é o Donald Trump, não deve bater bem.
Tu tens essa suspeita?
O filme é inacreditável, mas merece ser visto, pelo menos um bocado, para que se perceba onde eu quero chegar.
Pois bem, estou aqui um pouco...
Melania na Amazon Prime.
Exato. Bruno Vera Amaral, vamos fugir agora.
Vamos embora.
Olha, tudo coisas incompletas, ainda estou no meio disto tudo. Tenho três sugestões.
Mas este processo é interessante.
Este processo é que é. Vou começar aqui por um livro agora editado pela Quetzal. É uma espécie de biografia, é uma história
Da vida do Baruch Espinoza, ou Bento Espinoza, descendente de judeus portugueses que tiveram de fugir para os Países Baixos. Ele nasceu em Amesterdão e é uma história de um dos pensadores, de um dos filósofos mais importantes do mundo ocidental. Este livro é do Ian Buruma, que foi editor da New York Review of Books. Era daí que eu conhecia o nome dele. É também um livro que faz um retrato dessa Amesterdão, onde foi possível germinar e florescer um espírito até radical de pensamento livre como o de Espinoza. Não que ele seja apenas um produto dessa época, até porque sofreu na pele as consequências do exercício dessa liberdade, mas também é difícil pensar que algum do pensamento produzido por ele tivesse sido possível num outro contexto que não o contexto tolerante, e o autor explica muito bem o significado deste conceito de tolerante nos Países Baixos no século XVII. Não é a tolerância o que hoje os neerlandeses alardeiam como uma virtude, mas é aquela coisa: se não causar muito dano, não vamos proibir. E isto tem a ver com as comunidades que existiam, as comunidades judaicas, por isso é que encontraram aí refúgio, apesar de haver também limites para essa liberdade e para o exercício da liberdade religiosa. Mas o problema deles até era mais com os católicos, com quem estavam em guerra, do que propriamente com os judeus. Por isso é que não permitiam a construção de edifícios, de igrejas, de templos católicos, ou permitiam, mas tinha que ficar meio escondido, e permitiram a construção da sinagoga portuguesa em Amesterdão. E toda esta história também é talvez mal conhecida em Portugal, porque a comunidade judaica era conhecida como a nação portuguesa. E conhecemos, creio eu, pouco desta história, que está ligada à nossa história, porque eles são descendentes de portugueses. Pelo meio, o Ian Buruma conta algumas histórias de outras personagens dessa comunidade, e tudo isso é muito interessante do nosso ponto de vista, de portugueses. Depois, claro, há o alcance universal do Espinoza, do que significou, em termos de exercício dessa liberdade, ele tomar certas posições, não só na sociedade holandesa daquele tempo, mas também para a comunidade judaica de onde ele vinha e da qual acabou por ser expulso. Essa é a minha primeira recomendação, ainda vou aqui a meio do livro. Outros pensadores fundamentais do mundo ocidental, mas estes do século XX, John e Paul, não é preciso dizer os apelidos.
Pois é.
Este é um livro publicado pela Zigurat, é de Ian Leslie. O livro tem o título "John e Paul: uma história de amor feita de canções". Isto foi um bocado de impulso por nós termos estado a preparar um programa que era sobre o Paul McCartney e o documentário que está na Amazon?
Está na Amazon.
Na Amazon.
Prime Video.
E então eu disse: "Deixa cá ver, porque isto dos Beatles está sempre a render e é sempre bom ouvir e ler coisas sobre a história deles." Por muito que conheçamos pormenores de Hamburgo e do Cavern Club, e como é que foi o início, onde é que se conheceram e as mães que morreram, essas coisas todas, há sempre coisas novas.
É como uma arca de pessoa. Acho que qualquer coisa há sempre.
Encontras sempre, ou mesmo a maneira de contar a história é um bocadinho diferente. Estou a gostar muito. O John Lennon era, de facto, insuportável. Tenho de dizê-lo.
Já podemos dizer.
Acho que se pode dizer que era mesmo um tipo insuportável e que santa paciência a do Paul McCartney. Ainda bem que foi assim. Ainda bem que ele era insuportável, porque, de facto, houve ali qualquer coisa no encontro destes dois senhores, que não se pode explicar unicamente pela personalidade ou pelo que eles conheciam, pela música que eles conheciam. Há aqui uma série de coisas, que mesmo todas juntas não explicam o inexplicável que foi este encontro e o que resultou desse encontro, que é talvez só o melhor cancioneiro da música pop de sempre. É um livro. Também vou a meio. Outra coisa que deixei a meio é o documentário que está na Netflix, que é "Inside the Manosphere".
Mas deixaste a meio porque não tiveste tempo ou porque...?
Adormeci. Estava a gostar, mas deixa-me só dizer.
Adormecer pra ti não é critério.
Não é, porque a minha vida é complicada.
Exato.
Mas estava a gostar. Isto é um documentário do jornalista Louis Theroux, que é sobre aquilo que chamam a manosfera, dos influenciadores, tipo Andrew Tate, é Andrew Tate que ele se chama? E outros que prometem que todos os rapazes, se quiserem, podem ser machos alfa. Por quê? Porque 80% das mulheres sentem-se atraídas por 20% dos homens. Então eles querem fazer parte desses 20% dos homens e isso implica o quê? Implica ser uma autêntica besta e ir ao ginásio. É basicamente, no fundo, os conselhos que eles dão. E entretanto pedem que os tipos invistam em aplicações financeiras, que é assim que eles ganham dinheiro. Mas eu, de vez em quando, recebo nas sugestões das redes sociais aquelas coisas Como passar autoridade, a postura, nunca cumprimentes ninguém estando sentado, nunca dês um aperto de mão estando sentado. Olha as pessoas nos olhos, não digas por favor. Esse tipo de conselhos.
Eles que se tornaram uma fábrica de conselhos de moral.
Não, de atitude. É fácil tu seres um homem confiante e estudares confiança.
Mantras.
E capacidade de atração, e vais ser multimilionário e ter muitas gajas. E eu só me consigo lembrar daquela velha lição do Pedro Abrunhosa, sintetizada num verso, que estes tipos deviam ler, que é quando ele diz: "O que mais gosto em ti, se queres saber o que eu acho, é que consigo ser homem sem dar uma de macho". Eles deviam ler o Pedro Abrunhosa, recomendo vivamente. E não lhe chamo manósfera, acho que lhe podiam chamar machosfera. Machosfera seria uma tradução mais adequada.
Em português, claro.
Em português, claro.
Senão parece que são irmãos.
Podia ser dos bros, dos manos.
Mas também é uma irmandade.
É uma irmandade. Com grandes doses, às vezes, de homoerotismo. Também há ali um pouco.
Mas isso não é crime.
Não é crime, não. Meu amigo, hoje é quase obrigatório. Crime, não. Até no nosso programa há um pouco.
Achas?
Acho.
Muito bem.
Tiago, acho mesmo.
Eu tenho três sugestões muito rápidas.
Ai tens?
Primeiro, um livro que não li.
Os livros!
Tiago e os nossos ouvintes? Hoje eu vou fazer o Pedro Abrunhosa. E os nossos ouvintes? E o nosso e-mail?
Calma, mas eu vou dizer no fim. Os ouvintes, depois depende da época. Tenham calma, não sejam assim. Até fiquei baralhado. O livro chama-se "Sete Rios", é um livro publicado pela Temas & Debates. A autora chama-se Vanessa Taylor e é um livro que conta a história de sete rios. Não conta a história dos rios, porque a história dos rios é: nasceu e depois...
Se fosse o nosso presidente, diria: "Não conta a história do Rios".
Do Rios. Mas conta a história de como estes rios em particular, o Nilo, o Danúbio, o Ganges, o Tamisa, o Mississipi, o Níger e o Yangtzé.
Ora aí está uma grande ideia.
E o Tibre? Não fui eu que escrevi. Se calhar vai haver um segundo volume, não sei. Conta a história de como estes rios influenciaram países, impérios, civilizações, a história, etc. É verdade. E eu estou muito curioso, porque acho isto muito interessante.
Claro.
Aprecio muito estes temas.
Coisas fluviais.
Exatamente.
Tu gostas de correr junto ao rio, não é?
Sim, aprecio. É fresquinho.
E sabiam que o Mondego não nasce em Espanha?
Por acaso sabia. Acho que ainda ensinam isso na escola.
Nasce no Mondeguinho, na Serra da Estrela.
Não sei.
É o Mondeguinho, na Serra da Estrela.
Outra coisa, estejam atentos ao moço que dá pelo nome Miguel Maroco, que tem tocado sobretudo piano e teclas com imensa gente e que no dia 10 de abril edita um álbum a solo que se chama "Desgraça". A 18 de junho toca no Beleza, tem uma canção nova que se chama "Sayonara", além de já ter uns quantos singles desde o final do ano passado, e vale bem a pena, é muito interessante. E uma coisa que eu descobri há pouco tempo, está na Filmin, apesar de também estar na RTP Play, mas já que está na Filmin vale a pena voltar a falar, que é uma série curta, que passou na RTP aqui há poucos anos, que se chama "Até que a Vida nos Separe" e tem aquela premissa muito interessante, que é uma família que gere uma quinta onde são organizados casamentos, mas cujas relações dos vários elementos da família estão todas pela hora da morte. E a família chama-se Paixão, também é muito interessante. Tem tudo muita piada, mas o mais giro, de facto, é o enredo, são as interpretações, é uma belíssima série, se puderem ver. Só tem oito episódios.
Está bom o custo. Olha, na Filmin também está o concerto dos Player, em Wembley. Vi este fim de semana.
Já não é de vocês.
Vi durante o dia, também.
Mas vale sempre a pena.
É tão bom.
É melhor do que Pedro Sinners.
É. Para mim, não há nada melhor do que ver um concerto dos Player.
Atenção, Pedro, o que é interessante é que nós estamos a gravar este pedaço antes dos Oscars e agora, neste momento, quando isto está disponível, Sinners pode ter ganho tudo.
Tudo!
Se calhar ganhou tudo.
Ganharam tudo.
Mas o Pedro não tem nada a ver com ele.
É melhor ver tinta a secar.
Também não sei.
Mas acrílica ou...?
Tu não viste o filme.
Mas se Sinners estivesse a concorrer com o Damon Albarn, o Bruno também não hesitava.
Claro. Se a minha família estivesse a concorrer com o Damon Albarn.
Tu votavas no Damon Albarn. Obviamente. Vamos lá fechar isto. Maria Ramos Silva, alguma dignidade, por favor.
Isso vai ser um pouco mais difícil. Porque o Bruno falou de manósfera, eu vou voltar um pouco à manósfera. Quer dizer, não, vou para o outro lado.
Ou machosfera.
Exato, vou para o outro lado. Eu penso que tu já trouxeste este livro.
Eu?
Sim, o "Girl On Girl".
Trouxe, sim senhor.
Já trouxeste a certa altura.
Agora foi publicado em português.
Pronto, é precisamente isso. E portanto, está assim mais acessível, digamos.
É um belíssimo livro.
É isso que eu queria chegar. Não sei se é um belíssimo livro.
Eu gostei muito.
Isto foi escrito pela Sophie Gilbert, ela é jornalista e escreve para a Atlantic, agora a edição portuguesa tem o selo da Penguin. Essa parte eu acho interessante, porque funciona como um compêndio.
O lado histórico.
Sim, de registar aquilo que nós às vezes nos queixamos muito, do que o Pedro e com razão, nos últimos 30 anos da cultura pop e a forma muito misógina, não há outro nome, como a música, o cinema, a televisão, de alguma forma tratou ou explorou o conteúdo das próprias figuras femininas. Começas a ler e ao fim de 10 páginas há coisas que já não nos lembramos e percebemos, de facto, que são não só presentes, como hoje fazemos, e bem, essa reflexão, convoca-nos de alguma forma a pensar como é que nós vimos isto e achámos normal. E hoje já não acharíamos, e se calhar ainda bem que já não acharíamos. Por outro lado, e é isso que me deixa sempre de pé atrás, porque estas coisas começam sempre com um princípio muito bem-intencionado, eu compreendo, mas eu acho que quando tu corres o risco de colocar demasiado, talvez ao trabalhar demasiado a mulher, esta coisa: "Elas ficaram umas contra as outras", e de colocares demasiado a mulher no papel da vítima, acabas por lhe tirar voz e acabas por lhe tirar também, muitas vezes, algum poder. Reconheço que é muito difícil encontrar esse equilíbrio, mas também não sei quem é a melhor pessoa para julgar se, por exemplo, uma figura como a Madonna cedeu mais à objetificação ou se, por outro lado, teve um papel absolutamente fundamental na emancipação feminina. E quantas miúdas hoje não têm carreiras, perfis, trabalhos, posturas e atitudes na sua vida também pessoal, à conta da emancipação que figuras como a Madonna trouxeram. A juntar a isto, eu acho que ela cede em alguns momentos, e é aí que depois compromete essa estrita análise mais histórica. Acho que traz muita presunção, presunções ou percepções, como nós diríamos hoje. Ela tem frases como, e passo a citar: "Presumivelmente, eram os homens que decidiam o que os casais iam ver quando saíam para ir ao cinema". Isto é verdade. Estás a perceber? Ou seja, "A Clockwork Orange". Percebes? "A Clockwork Orange", as mulheres não decidem. Eu não sei.
Depende.
Eu acho que há aqui muitas certezas.
A resposta portuguesa é: "Depende".
Eu acho que há aqui muitas certezas que partem do ponto de vista dela, que eu compreendo.
Sim, é um ensaio.
Mas muito livre. Eu acho que acaba por ter aqui uma película, isto é só um exemplo, tem outras. Ela tem outras. Ela fala, por exemplo, de uma cena do "American Pie", com uma miúda que ela diz que é impossível acontecer.
Por acaso, isso eu acho. Há pouco tempo vi pela primeira vez, nunca tinha visto o "American Pie".
Há cenas que são impossíveis, porque seriam impossíveis acontecer. Mas segundo quem? Estás a perceber, Bruno?
São percepções.
São percepções.
Muita gente diz essas coisas acerca dos filmes. "Hoje aquele filme não seria feito."
Não, mas nem é disso que eu estou a falar. Há cenas que ela acha que são invrusímas, porque só aconteceriam na pornografia e portanto era impossível a mulher estar naquele papel de livre vontade.
Pois.
Estás a perceber? Ou seja, é outra coisa. Depois há a outra camada, claro, que é as coisas que aparecem ali que hoje não seriam feitas.
Sim, era nesse sentido.
Isso aí é que me deixa de alguma forma um pouco... E não é só isso, dá a ideia que também há aqui uma certa diabolização, se quiseres, dos últimos 30 anos e dos anos 90, início de 2000, muito como saco de pancada, como se a história começasse ou acabasse ali, quando tu chegas a 2026 e qual é um dos filmes do ano? É um filme feito por uma mulher, num remake de uma história com uma mulher branca lindíssima à procura do príncipe encantado e de volta ao seu príncipe encantado. Estás a perceber? Ou seja, tu tens uma oportunidade para fazer uma coisa diferente. É que não foi contado por um homem.
Sim, mas acho que a autora escolhe claramente o intervalo temporal e como isso definiu a orientação de boa parte da cultura pop.
Eu acho que do ponto de vista de um registo de história, e percebo isso, acho que há coisas que depois se atravessam por caminhos que são menos interessantes. São menos interessantes. Eu estou a dizer isto do ponto de vista da mulher, porque também não gosto que me roubem a narrativa. Estás a perceber? Ou seja, eu acho que as mulheres também não gostam disso. Querem uma justiça que, de alguma forma, também não as silencie a sua própria versão das histórias.
Não estejas a silenciar a Maria. Não, eu não interpretei dessa forma sempre. Acho que há muitas ocasiões em que a autora não coloca a mulher no lugar da vítima, não me parece. E que explica e que dá a entender, de facto, aquilo que estavas a dizer.
Não, mas censura. Ela não deixa de haver ali uma censura subtil.
Claro, mas mesmo esse questionamento, eu acho que isso ajuda.
Ou seja, também faz parte da armadilha das mulheres contra mulheres, é aqui que está desse jogo.
Claro, mas isso é uma das premissas do livro. Certo.
Que ela também cede.
Mas é um ponto de vista, é como tu dizes, é a perceção. Mas isso ajuda a fazer do livro um documento interessante.
Não, claro. Eu acho que é um documento muito interessante.
Nem que seja para despertar a discussão, e eu acho que isso vale a pena. Até porque é um tema que normalmente não é muito conversado. Mas já acabou?
Não.
Vamos embora!
Agora trago o nosso momento comic relief, que é o que vão ouvir Tim Maia, esse buzerão do soul, do funk. Vai ter umas belas reedições. Diz lá, conta lá.
Toda essa história. Isso é porque começou a ser reeditada aquela trilogia do Tim Maia Racional, em que ele faz três discos, que são extraordinários e que têm algumas das canções mais conhecidas do Tim Maia hoje. Aquilo não estava editado de forma integral em vinil e agora vai passar a estar. E os discos são todos baseados num momento em que ele integra uma seita em que acredita que há uns aliens. Enfim, é muito complexo. Ele passa a andar sempre de branco, sempre a vender um livro que o guru tinha escrito. Aquilo influencia a vida dele durante um período, até que depois o guru mais tarde é apanhado, porque afinal era um grandessíssimo bandido e fazia coisas, e ele descobre que se calhar é melhor voltar a beber, a fumar e a ser Tim Maia. Mas pelo meio fez esses discos.
Fez.
Extraordinários.
E acho que havia ali um hiato que as pessoas tinham para conseguir chegar a isto, porque nos vinis era contrabando e coisas do género.
Pois.
Claro que hoje temos o streaming, as internets, essas coisas todas, mas acho que vale sempre a pena voltar ao grande Tim Maia, que já não está cá desde 98.
Pois é.
Mas 50 anos depois, em grande forma estes álbuns.
Pois é, meus amigos. Muito bem, vamos embora. Sugestões entregues, estão todas em podcast. Sigam-nos e não percam nenhum episódio. E como dizia a Maria, muito bem, escrevam-nos para popup@observador.pt. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.