Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Há quem conte os dias para as férias e mal se chega à última semana, já está a pensar na segunda-feira de regresso. Afinal, por que o fim das férias pesa tanto mesmo antes de acontecer, Eduardo? Olá, boa tarde.
Olá, Judite. Porque, afinal, se calhar, não temos uma vida tão boa quanto nós gostaríamos.
Não gostamos tanto assim do nosso emprego, é isso?
Judite, às vezes gostamos. Não gostamos é muitas vezes do formato da nossa vida. Eu já ouvi tantas pessoas. Não sei se um bar de praia resolve tudo, mas eu já ouvi tantas vezes as pessoas-- eu próprio, de vez em quando, pergunto assim: "Deve ser uma coisa magnífica. É que aí já nem é primavera todo o ano, é de certa forma verão todo o ano". E eu já perdi a conta das pessoas que dizem: "Olhe, o meu sonho é trabalhar muito e depois passar a ter um bar de praia" e como quem diz, viver o resto da vida em férias. Eu acho que se calhar a nossa vida não é tão boa como nós gostaríamos. E note, nós dois temos o enorme privilégio, que eu acho sinceramente, Judite, que não é um privilégio que é transversal à maior parte das pessoas que todos nós conhecemos, de fazermos coisas de que gostamos muito e de certa forma pagarem-nos para brincarmos, no sentido nobre do termo. Eu gostaria muito que fosse assim pra toda a gente, mas não é. De facto, quando começa a contagem decrescente, é um Deus nos acuda, porque então quem tem filhos em idade escolar-
Já está antever...
Judite, é incrível. As pessoas terminam as férias uma semana antes, porque elas têm a noção que aquela primeira semana arrasa completamente todas as baterias que elas entretanto encheram à conta de um banho e de um bronze como deve ser, porque depois é aquela coisa louca de compatibilizar as agendas dos miúdos com as dos pais, as atividades escolares com as atividades extracurriculares e de repente voltarem a ser motoristas o tempo todo, numa cidade como Lisboa. É loucura, porque qualquer coisa que fica a meia hora de distância fica perto, mas meia hora pra cada lado e depois nunca há só miúdo. É uma coisa tão exigente, que eu percebo que as pessoas antes de irem embora das férias, já estejam a suspirar, porque no fundo reconhecem que a vida delas não é tão boa quanto devia. E não interprete mal, eu não estou a dizer que seja uma lástima, nada disso. Agora, aquilo que me deixa sempre muito preocupado é duas coisas. Primeiro, as mães chamam a si mais isto do que os pais. Infelizmente, digo eu. Quando as mães estão a fazer aqueles horários, uma tabela, que depois até põem no frigorífico pra conseguirem compatibilizar aquilo tudo sem se perderem, habitualmente esquecem-se de uma coisa e não deviam esquecer. É que as crianças precisam brincar todos os dias. Isso devia ter uma entrada de agenda todos os dias a vermelho, porque torna aquelas agendas ainda mais complexas, mas em contrapartida, é vitamina do crescimento pros filhos.
Já agora, só uma coisa: quanto tempo é que tem que ter esse quadradinho na agenda?
Judite, estamos a falar só entre nós dois.
Sim, ninguém nos está a ouvir.
Mas se me perguntar assim, pra ser como deve ser, Judite, duas horas.
Ok.
Veja como é que é possível. Quer dizer, seria possível se os nossos filhos tivessem, por exemplo, aulas só da parte da manhã. Era possível. E não era por isso que eles iriam aprender menos, acredite. Se calhar aprendiam até mais, mas isso é outro pormenor. E depois, já agora, onde é que entram as atividades que são preciosas pra mãe e pro pai? Aqueles inquéritos valem o que valem. A mãe e o pai não usam estes tempos deles, ginásio, ir às compras, ir tomar café, ler um livro, o que entendam. Da mesma forma, os pais usam-nos muito mais do que as mães. E não entram estes espaços de agenda e percebe-se que depois, neste contexto todo, a generosidade dos pais é uma coisa imensa, sem fim. Mas depois os pais têm a noção de uma coisa que as jovens mães dizem de forma muito espontânea e que é um murro no estômago pra quem as escuta, que é: "Eu queria ter a minha vida de volta". Ou seja: "Não, eu adoro ser mãe, ser pai, mas por favor, por que eu, pra além disso, não posso ter tudo aquilo que eu tinha antes de eles nascerem de volta?" E a minha tentação é dizer: "Não pode Deve, devia ter. E isso devia entrar nas agendas, nem que seja, por mais ridículo que possa parecer, à sexta-feira, entre 19h e 22h, pai e mãe vão namorar, nem que seja para irem a uma hamburgueria qualquer ali ao canto e estarem a conversar. E portanto, é tudo uma engrenagem tão grande.
E as pessoas já estão a antever isso tudo.
Claro. E percebem: "Pronto, nós vamos conseguir corresponder a isto e isto". E depois, se calhar, isso não acontece no jornalismo e não acontece seguramente na vida universitária. Mas, por exemplo, as pessoas que trabalham nos bancos, que trabalham na empresa A ou B ou C, depois têm sempre à sua frente os objetivos, sobre os quais depois são avaliados para o novo ano, que invariavelmente são megalómanos. São rigorosamente megalómanos. E portanto, é como se, no fundo, as pessoas quando entram nesta engrenagem, se sentissem um bocadinho como os hamsters, que andam ali, correm durante a noite toda e não saem do mesmo sítio. Eu acho que muitos de nós, se calhar a esmagadora maioria de nós, sente isso e portanto, as férias não podem ser tributadas, taxadas com imposto de luxo, mas por favor, a vida boa também não pode merecer uma sobretaxa de imposto de luxo. E é isso que merece, se calhar, em cada um de nós.
E como é que se pode aproveitar as férias até ao fim, sem estragar tudo na reta final com essa ansiedade?
Edite, fazer aquilo que nós, quando definitivamente decidimos dar um murro na mesa, fazemos muito bem, que é: mas porque é que estas coisas têm que ser assim e até que ponto é que não é legítimo que eu não aproveite as férias, ou nós, se for o caso, não aproveitemos as férias para em conjunto passarmos a ter uma vida na qual possamos mandar, de forma que ela tenha a nossa cara.
Mudar a estratégia para regressar à rotina.
Porque se nós fizermos isso, as rotinas vão lá estar, lá vamos nós ter que levar a miudagem ao futebol, etc. Mas se calhar não os pomos em não sei quantas atividades e pomo-nos na equação. E temos a noção que às vezes ir buscá-los à quarta-feira e lanchar com eles à quarta-feira, sem estarmos naquela correria intra, porque senão chegamos atrasados à próxima atividade, pode ser uma coisa muito mais importante do que terem mais uma atividade extracurricular, porque estas entradas de agenda fazem com que os nossos filhos se abram e desabafem, como às vezes não fazem noutras circunstâncias. E portanto, as férias também podem servir para nós, dizermos assim: "A minha vida tem que ser uma vida na versão hamster, ou pode ser uma versão muito mais séria de duas pessoas que gostam muito de estar vivas, gostam muito uma do outro, gostam muito da criançada, mas acima de tudo, gostam muito de mandar na vida", que é aquilo que nós, aliás, devíamos fazer.
Se calhar, em vez de fazermos resoluções de Ano Novo na passagem de ano, precisamos de fazer algumas resoluções enquanto estivermos em férias.
Claro, mas afinal de contas, tecnicamente o ano começa no dia 1 de janeiro, para quem tem filhos, portanto, para a esmagadora maioria dos pais, o ano começa em setembro. Sempre. Porque depois a engrenagem dispara até às férias do próximo verão.
E por falar nisso, vamos falar no regresso às aulas já amanhã no próximo programa. Um grande abraço, Eduardo. Obrigada e até amanhã.
Outra para si, Edite, e até amanhã.