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Hoje falamos de um tema pouco comum: depressão pós-parto nos pais. Eduardo, boa tarde. Já é frequente ouvirmos falar na depressão pós-parto nas mães, mas nos pais é muito raro. Estamos a falar de que tipo de sintomas e se são relacionados com o bebê?
Sim?
Sim, Eduardo, estamos a ouvir.
Olá. Olá, Judite. Eu de repente deixei de ouvir e fiquei preocupado. Judite, eu tenho sempre algum mal-estar quando escuto alguma coisinha acerca da depressão pós-parto na mãe. E tenho algum mal-estar por quê? Porque eu acho que de uma forma muito enviesada, se parte do pressuposto que algumas mães que são fortes e corajosas e há outras mães que são frágeis e de porcelana, o que eu acho que é mentira. Com a experiência de quem já trabalhou muitos anos em maternidade central, eu costumo dizer: "Querem uma referência para aquilo que é a depressão pós-parto na mãe? Então aproximem essas percentagens de 100% por uma única razão: porque é impossível que, seja quando uma pessoa percebe que, afinal, não é capaz de amamentar, seja quando, de repente, parece que toda a vida que tinha se evaporou e desapareceu, quer quando está em jogo um conjunto de aprendizagens e a vida parece ter uma velocidade de cruzeiro que uma pessoa tem dificuldade de perceber o que se passa, etc. Evidentemente, mal estaríamos, que as mães saudáveis, que às vezes dormem em suaves prestações de duas horas, não vivessem presas por cabelos e muitas vezes com muitos episódios depressivos. E de uma vez por todas, começa a ser urgente que nós possamos dizer: calma, a depressão também é um sinal vital, é sinal que estamos vivos, que estamos ali a processar o que está a acontecer na nossa vida e muitas vezes só fazemos mal quando fugimos de perceber o porquê e vamos a correr pôr algum pó de arroz sobre isso. E no homem, isso acontece muitas vezes porque, de uma forma diferente, como se compreende em relação à mulher. A vinda de um bebê é um solavanco muito significativo e, de repente, um pai tenta ocupar pouco espaço, tenta corresponder a tudo que está ao seu alcance para tratar do que é indispensável para o bebê, do que é indispensável para a mãe do bebê, e ainda assim ter que trabalhar, às vezes sem saber muito bem qual é o lugar que ele passa a ocupar no meio daquelas duas pessoas, e com a ideia de que, no fundo, tem que estar a ouvir comentários, que às vezes até são de gosto duvidoso, em relação àquilo que é suposto esperar-se de um pai. E, portanto, muitas vezes, o sintoma mais claro daquilo a que eu chamo de depressão puerperal no pai é o silêncio. Um silêncio, um isolamento, como se de repente o pai deixasse de estar triste, irritado ou outra coisa qualquer e passasse a funcionar. E, portanto, silêncio, isolamento e terapia ocupacional, porque muitas vezes o que é que os pais fazem? Trabalham. E de repente, dissociam-se daquela relação, afastam-se um bocadinho. Às vezes não é por birra. Às vezes é só porque não sabem o que é que hão de fazer. E vale a verdade, às vezes também não sabem falar disso de uma forma clara.
E daí vem o isolamento, mas também da própria assunção do pai. Assumir que pode estar depressivo. Passa pela cabeça de um pai que essa depressão esteja a acontecer numa altura em que é pai, em que devia ser um momento de grande exaltação e de felicidade. Os próprios pais conseguem assumir essa depressão?
Judite, não, claro que não. Como as mães também não conseguem, porque sabe como é, Judite, sabe na pele. Que mãe que é mãe adora ver uma criança, o seu filho a sorrir, porque é sinal que com cada sorriso que ele faz, quanto mais precoce melhor, está a dizer à mãe: "Vejam lá como eu sou boa mãe". E portanto, numa circunstância como esta, claro que um homem fica completamente atarantado, tipo barata tonta. E qual é a legitimidade que ele pode ter, ao mesmo tempo que desfruta do privilégio incrível de ter um filho no colo, qual é a legitimidade que ele pode ter para dizer: "Sim, todavia, eu estou assustado, porque de repente a minha vida vai mudar completamente. Eu já não sei onde é que vão ficar todos os sonhos e todos os projetos que eu fiz à medida que fui crescendo. Também já não sei muito bem onde é que vai ficar a minha relação com a mãe. Já não sei qual vai ser o próximo fim de semana que eu vou ter com ela. Já não sei se tudo aquilo que eu faço chega para eu reunir condições para que meu filho cresça com tudo o que tem direito". E muitas vezes os homens assumem para si este lado mais guerreiro. "Não vou falar disto com mais ninguém. Estas preocupações são, sobretudo, minhas". E vão ficando de coração apertado, muito encurralados, muito pequeninos, como se não tivessem capacidade para transmitir. E às vezes não têm e, portanto, sim, não sentem que haja legitimidade para dizerem: "Eu estou muito feliz, mas, ao mesmo tempo Estou muito assustado e as pernas tremem de uma ponta à outra. Eu sinto-me triste e até tenho vergonha de assumir isso, porque homem que é homem, ainda por cima, não chora nem fica triste. Isso tudo fica muito difícil.
Portanto, em cima disso tudo, estão desamparados.
Super desamparados. Porque depois o que aparece? Sempre aquele comentário do género: "Já mudaste a primeira fralda. Ai, coitado, e agora já não dormes como deve ser". Quando não é isso que está em questão. É: será que tudo aquilo que eu fiz, que eu estudei, o meu trabalho, etc, chega pra eu dar ao meu filho tudo aquilo a que ele tem direito? Será que eu sou capaz de pegar nas pontas do filho e pôr a mão por baixo da mãe e segurar todos os saltos de humor que ela tem, mesmo quando às vezes não fala claro e corresponder àquilo que ele espera de mim? E depois, há sempre pessoas a dar palpite, a família de um e a família de outro. E meu Deus, Edite, às vezes as famílias de um e de outro só querem ajudar, mas entram ali numa espécie de braço de ferro, que nalgumas circunstâncias parece um rolo compressor, em que uma pessoa fica um bocadinho amalgamada. E portanto, esse coquetel todo é tão difícil de gerir, sobretudo quando se acaba por tentar gerir em silêncio, mais ou menos sozinho, naquela de: "Eu tomo conta destas pontas todas, venham mais cinco", que, como se compreende, estes pais às vezes vão deixando de existir e às vezes passam cinco ou 10 anos e eles são uma segunda figura que ainda nessa altura parece ter medo de ter uma voz, uma vontade e de reclamar aquilo a que tem direito.
E à procura do seu espaço. Eduardo, hoje ficamos por aqui e amanhã voltamos com mais um tema. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Outras pazes, Edite. Até amanhã.