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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de escrever apenas e só com recurso a inteligência artificial. Um ouvinte, pai de um jovem de 20 anos, conta que o filho já não escreve nada. Trabalhos, e-mails e até conversas emocionais com amigos passam pela IA. Olá, Eduardo. Este pai estranha esta situação e está preocupado. Tem razões para isso?
Olá, Judite. Judite, eu acho que tem, porque compreendo o deslumbramento que isto pode trazer aos mais jovens. Compreendo que isso lhes dê a ideia de que têm uma espécie de génio da lâmpada a trabalhar para eles e a fazer os trabalhos complexos que noutras circunstâncias seriam muito difíceis de fazer. Não tenho dúvidas que fiquem tão deslumbrados que a determinada altura suponham que quem não faça como eles está longe, muito longe, muito longe mesmo, de um admirável mundo novo. E depois, os custos que isto representa são tremendos, porque como é óbvio, a inteligência artificial não é um demónio, ajuda a fazer sínteses em tempo real que são incríveis, mas quando se cria esta ideia de que no fundo pensa por nós, nós estamos a atrofiar. E movimento de atrofia a prazo, obviamente que a forma como se articula uma palavra, como se defende uma ideia ou como se vai a jogo no meio de uma discussão, acaba por ficar tão rudimentar que, de facto, não é razoável sequer admitir que a inteligência artificial sirva para nos tornar menos capazes como pessoas, porque era suposto que nos tornasse cada vez mais aptos e viesse complementar a inteligência humana, que é absolutamente fantástica, nunca, de modo algum, substituí-la.
O filho diz que não precisa de saber escrever porque dá as indicações à inteligência artificial, ela faz o resto. Escrever está aqui a ser relegado como uma técnica e não uma maneira de pensar.
Está, evidentemente que está. E nessas circunstâncias, é o lado mais preocupante que tudo pode ter, não é Judite? Mas cuidado, eu acho que esta faixa de jovens não representa a totalidade. Eu acho que eles têm uma noção de que em muitos momentos pisam o risco, às vezes exageram, às vezes são só pragmáticos, porque à boleia da inteligência artificial conseguem ter umas classificações mais ou menos simpáticas. E eu até sei de professores universitários que em vez de corrigirem os trabalhos, dão-nos à inteligência artificial para eles os corrigir. E, portanto, eu tenho medo que nesta engrenagem toda, os miúdos que leem, que pensam, que falam, se tornem cada vez mais destacados e os outros que vão ficando inebriados por tamanha evolução, vão ficando cada vez menos capazes. E, portanto, depois a vida encarrega-se de ajustar aquilo que nós gostaríamos todos que não significasse perdas pelo caminho. E eu acho que cada vez que os mais jovens vão ficando engolidos por esta onda, estão, de facto, a permitir estragar-se. Isso é tão triste que eu fico de coração apertado.
E este pai inquieta-se muito quando as discussões emocionais entre amigos são simuladas na inteligência artificial.
Sim. E tem todos os motivos para se inquietar por uma razão simples. Porque eu acho que às vezes nós ganhávamos se disséssemos de maneira clara como é que funcionamos por dentro. Os nossos sentimentos não são uma espécie de manifestação colateral de tudo o que se passa dentro de nós, Judite. Os nossos sentimentos têm uma função absolutamente indispensável para organizar a nossa relação entre a mente e o corpo. São eles que pautam a homeostase, são eles que de alguma forma nos tornam mais saudáveis ou não, também de um ponto de vista físico. E, portanto, numa circunstância destas, quando se criou a ideia ou se deixa que passe a ideia que a inteligência artificial vem pegar em tudo o que são características absolutamente humanas, indispensáveis para o nosso equilíbrio de todo o dia, e vem fazer com que elas pareçam supérfluas, coisas quase adjacentes e não tanto a coluna vertebral de tudo o que se passa conosco, nós estamos a permitir que alguns jovens se magoem. Portanto, este pai vai ter que se chegar à frente para tentar educar este filho. É evidente que muitos pais quando têm um filho de 18, 19 ou de 20, acham que ele já tem 18, 19 ou 20. E, portanto, interferir Como pai ou mãe, tentando educar, pode parecer supérfluo, mas eu gostava que ficasse claro quando os nossos filhos têm 30 ou 40, e é preciso nós fazermos esse movimento, eles ficam muito reconhecidos. Na hora, podem ficar até um pouquinho zangados. Logo em seguida, percebem que nós não desistimos deles e não desistimos de lutar arduamente pela melhor versão deles, como gostam de dizer, porque se o fizermos, de vez em quando têm estes deslumbramentos e depois caem em si, que é uma expressão, aliás, muito bonita, e tornam-se muito melhores sem tanta intromissão artificial. Aliás, intromissão artificial, como o nome bem diz, não é propriamente sinônimo de um rasgo de luz que venha de dentro de um filho e verdade seja isso que nós queremos mais que ele nos dê.
E como é que com 20 anos se impõem limites?
Acho que os pais, quando querem ser um pouquinho chatos, sabem muito bem como hão de fazer e quando querem ser persuasivos, também. E eu não me canso de chamar a atenção da maneira como os nossos filhos e os nossos alunos nos dão ouvidos. Amanhã vai ser divulgado um estudo com a reação dos alunos portugueses à proibição dos telemóveis. E quando se estava à espera de um levantamento de ranços, de uma espécie de sublevação, etc, os alunos, pela primeira vez, perceberam o óbvio. Ou seja, fantástico, estes pais ou estes professores, que às vezes parecem um bocadinho missionários, que às vezes parecem fixos porque têm muita dificuldade em dizer não ou sim, quando é não ou sim. Quando eles têm uma opinião fundamentada e os filhos percebem que a opinião fundamentada dos pais não é uma opinião em cima do joelho, é uma opinião séria, que tem um conjunto de argumentos que é, de facto, imbatível, os filhos dão ouvidos, os alunos dão ouvidos e, portanto, nessas circunstâncias, não se trata de ser chato. Trata-se de ser firme na luta pelo melhor de um filho, porque quando nós lhe permitimos que ele entre por este tipo de devaneio, nós estamos a perceber que ele se vai magoar e estamos a dizer, por outras palavras, que não podemos fazer nada. Ora, a função de um pai, a função do professor pode ser toda, menos essa.
E, portanto, é possível argumentar, mostrar com evidências.
Sim. Os nossos filhos podem ser aparentemente rebeldes, podem ser senhores do seu nariz, podem armar-se um bocadinho em tolos de vez em quando, mas quando percebem que os nossos argumentos são sérios de verdade, eles escutam-nos e não só nos escutam, como nos dão razão. E portanto, às vezes, eles só não nos dão razão mais vezes, porque nós nos encolhemos mais do que devíamos, quando se trata de os chamar à razão.
É isso, ficamos assim, Eduardo. Voltamos amanhã com mais um tema. Até lá, já sabem, continuem a escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Outros dias e até amanhã.