Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindos ao primeiro "Porque Sim Não é Resposta da Semana" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França, comigo está o Bruno Vieira Amaral e hoje vamos falar de um caso de uma mãe que escreveu ao Eduardo, em que o filho de três anos começou a bater quando não lhe é feita a vontade. E pergunta esta mãe: o que deve fazer? Eduardo, boa tarde. Como se ajuda esta mãe?
Olá, Judite. Olá, Bruno.
Olá, Eduardo.
Boa semana.
Igualmente.
Obrigado.
Muito obrigado. Judite, explicando uma coisa que eu acho que é sempre importante os pais nunca perderem de vista. Já falámos aqui algumas vezes disso, mas eu acho que nunca é demais. Eu gosto muito quando as crianças se zangam com os pais, porque têm-nos em tão boa conta e reconhecem de tal forma a sua força, que percebem que mesmo quando as crianças se insurgem, os pais podem tremer, podem vacilar, mas não se partem. Isso é uma coisa boa. E, portanto, gosto que as crianças reajam às vezes desta maneira, um bocado exagerada, quando são pequeninas, porque isso significa que estão tão habituadas a que os pais cumpram muito mais que os mínimos que elas estão à espera, que depois quando eles as decepcionam, elas reagem numa atitude do gênero: "Por isso sai, sai da minha vida". E, portanto, até aqui tudo bem. O que eu não acho razoável é que os pais depois fiquem mais ou menos perplexos, como quem diz: "E agora, o que é que eu faço? Posso-me zangar?" Porque a resposta correta é: sim, pode. Aliás, não, não pode, deve. Porque a mim parece-me que muitos pais, e sobretudo muitas mães, vivem tão ansiosamente presas à ideia de que os filhos têm que ser felizes, que acham que contrariá-los, dizer que não, impor às vezes algumas regras, que são regras de bom senso, é qualquer coisa que de algum modo lhes faz mal e os torna menos capazes de serem felizes. E, portanto, nessas circunstâncias, em relação a esta nossa ouvinte, por favor, abra os seus olhos como deve ser. Ele precisa ter um bocadinho de medo do seu olhar, só por um bocadinho. Explique-lhe que uma mãe com o coração grande não é uma mãe como deve ser, se não souber zangar-se de vez em quando. Zangue-se e não permita, por favor, porque uma coisa é ele poder zangar-se, outra coisa é ele ficar sem perceber o que é que precisa de fazer mais, até que a mãe consiga finalmente dizer que não.
Eduardo, estes comportamentos violentos, impulsivos, são comuns a todas as crianças? Isto tem que ver com o exemplo, com o ambiente em casa? Porque alguns pais parecem surpreendidos quando os filhos têm este tipo de reações e por isso não sabem bem o que fazer na situação.
Bruno, não são violentos. Eu ia responder no impulso. Não, Bruno, são muito adequados e depois travei fundo. Mas pronto, são muito adequados. São muito adequados por quê? Porque repare, antes das crianças aprenderem a falar, aprendem a dizer: "Ah, ram". E o "ah, ram" das crianças é uma manifestação muito engraçada, porque o "ah" é um som aberto, portanto, que suscita a aproximação e o "ram", uma forma de rosnarem, literalmente, de rosnarem, nomeadamente para a mãe, que é a quem fazem muitas vezes num primeiro momento este som. E, portanto, as crianças aprendem primeiro a rosnar, para que depois aprendam a falar. As crianças, antes de aprenderem a dar um beijinho, mordiscam a bochecha da mãe. As mães, na sua bondade, costumam chamar a isto, veja bem como são bondosas, as raivinhas dos bebês e só depois é que aprendem a dar um beijo. Portanto, as crianças precisam de poder estar à vontade quando manifestam a sua agressividade junto de uma mãe ou de um pai. É bom, é uma maneira de dizer assim: "Eu adoro-te, eu não sei o que seria a minha vida sem ti, mas caramba, se tu fosses uma mãe como deve ser, fazias as minhas vontades todas." É isso que elas sentem. E quando finalmente a mãe diz: "Olha, meu amor, não, nem penses", é natural que as crianças tenham esta reação mais enxofrada, no sentido de dizer: "Não, não quero". E às vezes batam, que é como se dissessem: "Bom, eu já fiz birras, eu já vociferei, eu já fiz cara de mau, já fiz tudo e mais alguma coisa e tu não perdes a compostura, vou só esticar-te mais um bocadinho para ver do que é que tu és capaz." E, portanto, não é um comportamento violento, é um comportamento agressivo, sem dúvida, que precisa depois de ser arredondado pela bondade das mães. Isto é, quando elas dizem: "Olha, não, não podes fazer isto", é como se estivessem a dizer: "Sim, podes manifestar a tua agressividade Agora amanha, meu amigo, vais ter que a manifestar de uma maneira que a mãe entenda que não é agressiva pra ela. Só isto. E, portanto, é muito saudável, porque depois quando as crianças fazem isto e são educadas, elas mais à frente vão manifestar a agressividade de outra maneira, como, por exemplo, quando se viram pra uma mãe e dizem: "Não gosto de ti", como quem diz: "Não penses que és assim uma pessoa tão importante", que magoa sempre um bocadinho. Já não magoa assim tanto, porque as mães depois têm aquela resposta quase automática: "Deixa lá que eu gosto de ti ao mesmo, eu gosto de vocês dois", que deixa sempre uma criança meia sem jeito. Mas eles precisam de fazer esta ortopedia da agressividade junto dos pais, porque é assim que depois aprendem a usar a agressividade quando ela é precisa, pra se defenderem, pra protegerem, pra serem capazes de ir a jogo, seja em que circunstância for. E, portanto, eu gostava que as pessoas não confundissem a agressividade, que é um patrimônio da humanidade, com a violência. Eu acho que nós vivemos num mundo que baralha isto. E se as crianças não aprendem a fazer esta ortopedia da agressividade, o que acontece? Um dia, quando forem líderes políticos e tenham um debate a nove, fazem figuras tristes, porque não são capazes de ser urbanas quando são agressivas e são, às vezes, tão mal-educadas que até assusta.
Esta mãe diz que depois da criança bater, diz que quer fazer as pazes.
Logito, porque eles são pequeninos, mas não são tolos. Em primeiro lugar, porque percebem que a mãe é muito maior, portanto, a mão da mãe, comparando com a mão de uma criança pequenina, que diferença. E depois percebem uma coisa que é muito mais importante que isso tudo: é que eles não ganham nada em fazer com que a mãe fique triste, e muito menos triste com eles. Eles ganham é que a mãe esteja contente e esteja tão orgulhosa deles. E, portanto, eles percebem que aquilo tem um valor negocial, um valor comunicativo, que é uma parvoíce do momento, mas que só vale por isso. E, portanto, antes que a mãe diga alguma coisa ou até se zangue, eles são tão mábeis, mas tão espertos, que é quase como se dissessem: "Olha, pronto. Amigos como dantes, faz de conta que eu não fui nem por um bocadinho parvo ao pé de ti. Portanto, venham daí esses ossos e diz que me amas como sempre disseste". Daí nós não devemos dar a importância de um ato tremendo, agressivo, muito menos violento. Daí este tipo de comportamentos que todas as crianças, note-se, têm, porque elas precisam aprender a perceber como é que vão usar tudo isto. Vejam, quando nós nos rimos uns com os outros e muitas vezes temos alguém ao pé de nós que se está a rir e nós não sabemos por quê, mas acautela rimos com essa pessoa, nós não podemos ver dois caninos muito pronunciados diretamente sobre o nosso rosto, que acautela rimo-nos também, pronunciando os nossos, quase como quem diz: "Ei, cidadão, caso não tenhas reparado, quando se trata de caninos, estamos pro que for preciso". E todos nós temos isto de uma forma reflexa, muito animal, mas que se for bem compreendida por nós, deixa de ser só animal, passa a ser clarividente e pode ser muito saudável.
Eduardo, e uma palmadinha pode funcionar como solução pra esta situação e pra outras parecidas, como birras?
Deixe-me escutar.
Eu ia pedir uma resposta breve, porque estamos a ficar sem tempo, mas se calhar é uma resposta que exigia mais tempo.
Bruno, eu sou a última pessoa do mundo a dizer: "Educa em estalo, se faz favor". Não, claro que não. Mas eu entendo que às vezes há uma mãe ou um pai que chega à casa com os nervos em franja. Quando nós chegamos à casa com os nervos em franja e os nossos filhos nos tiram, aliás, muito bem as medidas, percebem que nós estamos tão agitados que ficam assustados e, portanto, fazem o favor de nos agitar ainda mais. E reconheço que os pais, sobretudo menos experientes, no impulso, muitas vezes, dão uma palmada. Se me disser assim: "Bate palmas diante dessa palmada", eu digo: "Não, claro que não, meu Deus, claro que não". E não tenho dúvidas que os pais quando fazem isto de uma forma irrefletida, logo a seguir param, até porque lhes vêm à memória muitos episódios em que foram vítimas de palmadas que eles gostariam de nunca ter tido. E, portanto, eu gosto sempre que os pais nunca precisem ter esse tipo de gestos. Mas eu também percebo que às vezes os pais, mesmo quando não se passam dando uma palmadinha, passam-se de outras maneiras e são, às vezes, muito assustadores. É bom que tenhamos noção disso. Não ganhamos nada que os pais sejam muito assustadores. Nada. Mas também não vale a pena criarmos a ideia que os pais são sempre bucólicos, irrepreensíveis, porque são animais de sangue quente e às vezes estão tão espremidos, com tantas solicitações e às vezes estão encurralados em tantas coisas que quando dão conta, pronto, fazem mais nada. Não vale a pena aplaudirmos, mas também não vale a pena fazermos disso uma cruzada terrível, como se estes pais fossem as pessoas mais horríveis do mundo, porque não são.
Ficamos por aqui hoje. Voltamos amanhã com mais um tema. Até lá, escreva-nos para eduardosar@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Um grande abraço para os dois e até amanhã.
Até amanhã, Eduardo.