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Tudo pronto para mais um "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje já temos conosco o Bruno Vieira Amaral, de quem tínhamos muitas saudades.

Olá, Eduardo.

Eu sou a Judite França e vamos falar da decisão do Supremo Tribunal que obriga patrões a deixarem os trabalhadores com filhos folgarem aos fins de semana. Eduardo, olá, boa tarde. Isto é uma boa notícia?

Olá, Judite. Olá, Bruno.

Olá, Eduardo.

Que efeito é esse?

É verdade, estive desaparecido.

Claro que é uma excelente notícia, Judite. Eu gostava imenso que não fosse preciso uma decisão judicial, ainda por cima de um tribunal superior, para quem organiza o trabalho ter esse tipo de atenções. Eu também percebo que as entidades patronais têm um conjunto de limitações e de constrangimentos, e entendem que as coisas têm que funcionar e não pende para o lado delas, serão algumas, este tipo de obrigações. Mas, de facto, eu acho que devia fazer parte da regra de quem organiza o trabalho ou de quem o planeia, neste caso, o Estado, definir este tipo de parâmetros porque fazem parte das regras do jogo, porque é importante que nós tomemos isso em consideração, porque nós somos um país cada vez mais envelhecido e com cada vez menos crianças. E, portanto, se nós tratarmos das poucas crianças que temos com o cuidado indispensável, o mundo fica um lugar mais ameno e o futuro vai ser significativamente melhor, não é?

Eduardo, creio que todos nós, um pouco céticos, olhamos para estas coisas e pensamos: "O que as empresas vão fazer então depois é penalizar os trabalhadores que têm filhos, ou então pôr de parte, não escolher, não contratar pessoas que têm filhos". É isto que pode acontecer numa situação desta?

Bruno, pode. E a sua questão só faz sentido. Aliás, durante algum tempo, havia uma entidade, um banco, neste caso, com um componente confessional muito significativo da parte da respectiva administração, que, todavia, não contratava mulheres porque os períodos de gravidez, de pós-parto, etc., acabavam por ser um obstáculo àquilo que eles entendiam que era a dinâmica saudável de uma empresa. Eu conheço escolas, e se eu dissesse que algumas são ligadas à igreja, quase não dá para acreditar, mas são, em que pedem que as professoras jovens, quando são contratadas, se comprometam no sentido de nos primeiros anos não engravidarem, para não comprometerem os desempenhos que podem ter no contexto daquela empresa.

E era precisamente a pensar nesse tipo de exemplos, e sobretudo no caso das mulheres, que nós sabemos que acontecem, que lhe fiz essa pergunta, não é?

Claro. E é isso que a mim me preocupa muito. Claro, porque eu também acho, e aí é um terremoto, mas é um terremoto saudável, que da mesma forma que os pais podem tirar uma licença parental em consequência de um parto, isto não deve ser restringido à mãe, tem que ser aberto aos pais. E se for aberto aos pais e se passar a fazer parte das rotinas indispensáveis de um mundo desenvolvido e que olha para as crianças com outros olhos, a certa altura, tudo acaba por assumir uma normalidade. Mas eu devo lhe dizer que ainda hoje, mesmo em organismos estatais, eu conheço muitas pessoas, neste caso, muitos homens, que quando se trata de reclamarem uma licença parental em consequência do nascimento de um filho, por exemplo, são convencidos, e às vezes convencidos de uma forma nem sempre tão simpática assim, para que reconsiderem, porque, no final de contas, o trabalho está primeiro. Eu acho o trabalho muito importante e o compromisso que se tem com ele seríssimo, mas é importante que nós possamos conciliar aquilo que tem de ser conciliável, porque senão passamos a vida a falar em abstrato de um conjunto de necessidades e depois nunca criamos condições às pessoas para que tudo isso seja exequível. Veja, é preciso uma pessoa ir até a um tribunal superior para que um direito, que é só razoável, lhe seja reconhecido. Isso não faz sentido.

Ainda por cima, estamos a falar do caso, neste caso, de uma mulher que não conseguia trabalhar por turnos porque o marido também trabalhava por turnos. Estamos a falar de uma trabalhadora de um centro comercial e, portanto, são casos muito evidentes. Já não é sequer um pedido para que a vida familiar seja estável e consiga estar toda junta em casa ao mesmo tempo. É uma questão prática de quem é que fica com aquela criança. Pegando na ideia do Bruno sobre o fato das empresas provavelmente começarem agora a discriminar quem tem filhos, isto faz parte, mais do que tudo, de uma cultura em Portugal em que não se aprecia o fato das pessoas continuarem a ter filhos quando há cada vez menos crianças. E o mesmo não se vê noutros países, por exemplo, nos países nórdicos, em que também há problemas demográficos, mas as pessoas que decidem ter filhos têm outro tipo de condições.

Sim. Eu tenho a noção que não é um termo muito polido aquele que eu vou usar, mas isto é um bocadinho burro, no limite, por uma razão simples: porque cada vez mais as empresas, e muito bem, têm a noção que os seus colaboradores, que têm uma vida pessoal, uma vida familiar, têm compromissos sociais, políticos, independentemente do partido ao qual possam estar ligados, etc. Cada vez mais as empresas, quando selecionam quadros que integrem essa mesma empresa, têm a noção que quanto mais estas pessoas têm esta diversidade de vidas, várias vidas a concorrer umas com as outras, mais massa crítica trazem à própria empresa. E portanto, numa circunstância destas, não é um ônus, curiosamente até representa um ganho. Mas de facto, é uma visão tão estreita e tão subdesenvolvida que inquieta muito. E depois o Bruno há pouco estava a falar de uma questão que é muito importante, porque na Grande Lisboa há infantários que abrem ao fim de semana. E há infantários que abrem durante a noite, nomeadamente para o pessoal que faz trabalho nos aeroportos ou nos aviões. E por mais que nós percebamos que essas pessoas têm constrangimentos tremendos, não têm uma rede, às vezes, de apoio, avós, tios, seja quem for, que consiga acolher ou pelo menos ajudá-los a gerir aquelas crianças, ainda assim, quando nós convivemos de uma forma razoavelmente descontraída com infantários que abrem cada vez até mais tarde, abrem ao fim de semana e se permite que às vezes abram à noite, nós estamos a partir do pressuposto que as crianças no meio de tudo isso são muito bem-vindas, mas às vezes parecem ser vividas como um fardo. E quando elas são vividas como um fardo, nós perguntamo-nos até que ponto é que os responsáveis políticos têm os pés na Terra, têm uma ideia do que é que querem para o futuro, têm uma ideia do que é a política, no final de contas, porque implica escolhas, opções e, sobretudo, opções com rosto humano, evidentemente. E às vezes parece que não estão cá.

Eduardo, a preocupação com a conciliação entre a vida profissional e a vida familiar não devia ser, logo em primeira análise, uma preocupação da empresa? Porque o trabalhador passa uma grande parte do seu tempo a trabalhar e está ligado à empresa, está ou fisicamente ou mesmo agora em teletrabalho, mas tem essa ligação uma grande parte do seu tempo, do seu dia. Não devia ser uma preocupação das empresas entender quem é que está ali, quem é aquela pessoa que está a trabalhar para elas, para também se esforçarem e criarem as condições para que aquela pessoa se sinta bem? E esse sentir-se bem, nós sabemos que não se reduz apenas às condições no local de trabalho, é da sua vida pessoal. Por que essa preocupação não existe mais nas empresas?

Porque a revolução industrial ainda está num primeiro patamar em Portugal. As pessoas cada vez mais são tratadas por colaboradores e são pagas como se fossem, nalgumas circunstâncias, delicadamente exploradas. E isso não é razoável, porque de facto, numa circunstância destas, é bem verdade que foi preciso o diabo da pandemia para que as empresas percebam como os seus funcionários são pessoas sérias e não precisam de estar ali a pôr o dedo milimetricamente à hora para mostrarem serviço. Mesmo com mil compromissos, nomeadamente quando estiveram em quarentena, as pessoas empenharam-se e deram tudo o que têm. E de facto, foi preciso isso para que as empresas dissessem assim: "Se calhar agora nós podemos ter muitos destes colaboradores, uma parte a somar em casa, outra parte presencialmente, porque feitas as contas, ganhamos todos com isso". E se calhar, às vezes é preciso este tipo de incidentes, em que alguém, através de um tribunal, diz assim: "Atenção, olhem que este pormenor é um pormenor muito importante", para que, de facto, as empresas percebam que quanto melhor tratam a pessoa, não é o trabalhador como se fosse uma entidade mais ou menos sem rosto. É aquela pessoa, aquelas pessoas, mais elas se ligam ao trabalho que fazem, mais são briosas em tudo isso. E portanto, há muitas empresas que já têm dimensões significativas, que se calhar podiam ter um infantário ou pelo menos um local onde as crianças pudessem estar por ali. As mães e os pais não seriam seguramente menos comprometidos com as tarefas que têm em mãos, seguramente que faltariam muito menos quando elas estão constipadotas ou com uma queixa mais ou menos difusa. E se elas estiverem pertinho do controle da mãe ou do pai, as coisas ficam diferentes. E este tipo de compromisso com o lado humano dos trabalhadores é uma coisa um bocado tola, não se faz. E o que é estranho é que se fizesse o retorno para as instituições a que estas pessoas estão ligadas, seria tão mais vantajoso que é um bocadinho como na quarentena. Afinal de contas, se nós levarmos isto a peito, todos saímos a ganhar.

É isso mesmo, Eduardo. Esperemos que muitos empresários estejam agora a ouvir a Rádio Observador. Para quem não ouviu, pode sempre ouvir em podcast, que vai aprendendo bastante com o Eduardo. Nós regressamos amanhã e até lá podes sempre escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, obrigada, um abraço e até amanhã.

Até amanhã, Eduardo. Um abraço.

Até amanhã. Um grande abraço para os dois.