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No "Porque Sim", não é resposta de hoje, falamos de dois casos que perturbaram o país. Em Santarém, um pai atirou-se do oitavo andar com a filha de quatro anos. Em Vale de Passos, uma madrasta terá matado a enteada de oito. Foram dois crimes com o mesmo móbil: a vingança. Olá, Eduardo. Em ambos os casos, fala-se então de vingança. Como é que uma pessoa chega ao ponto de instrumentalizar um filho, de transformar uma criança numa arma contra o companheiro?

É uma maneira triste de começarmos a semana, mas eu acho que é importante, por uma razão simples. Em primeiro lugar, porque nós, e quando digo nós, digo nós todos e os tribunais também, insistimos em separar, em muitos momentos, a violência doméstica da violência sobre crianças. E eu acho isso inquietante, porque muitas vezes há casais onde um dos membros promove continuadamente violência doméstica e não deixa de ter direitos sobre o seu filho, que acaba por presenciar os atos mais inacreditáveis, mais perturbadores e mais arrepiantes, violência a que jamais deveria ter acesso. Acho incrível como é que ainda hoje, quando há a presunção de violência doméstica de um dos pais em relação ao outro, aquele que supostamente tem sobre si o ónus de promover a violência doméstica, ainda tem direitos de ter um filho à sua guarda, como se, no fundo, para efeitos de uma relação de casal, aquela pessoa fosse perturbada e violenta, e para efeitos de parentalidade, fosse equilibrada e não pudesse pôr uma criança em perigo. Acho uma vergonha que continuemos a viver como se, no fundo, estas realidades tivessem uma comporta a separá-las e as crianças não fossem como são, vítimas particularmente vulneráveis. Aliás, acho curioso que em muitas circunstâncias os tribunais as definam assim, e depois para efeitos de parentalidade, se criem aqui portas e barreiras, como se no fundo, quem promove a violência tivesse todos os direitos e não se estivesse a inabilitar em função da violência que promove para o exercício da parentalidade. Segundo aspecto é que a perturbação e a doença mental é muito mais banal e muito mais democrática do que pode parecer. Não escolhe classes ou estratos sociais e, portanto, nessas circunstâncias, há, de facto, pessoas muito doentes. Eu acho que cada vez mais doentes, tenho esperança que um destes dias, desta semana, possamos falar disso também. E, portanto, nestas circunstâncias, evidentemente, que a perturbação mental e a perturbação mental muito grave, que não se traduz em perturbações exuberantes de comportamento com impacto social, mas se manifesta fundamentalmente nas relações mais próximas, mais íntimas, como uma relação de casal e a parentalidade, seja cada vez mais uma questão que nos deve obrigar a parar todos para perguntarmos o que está a acontecer e, sobretudo, para sabermos o que se deve fazer. Terceiro aspecto, e vou me calar, Edite.

Não.

Eu tenho muito medo que estas notícias difundidas de uma forma exaustiva, onde se mostra tudo, mostra-se a casa onde estas pessoas viviam, fala-se disto até à exaustão, sem se escalpelizar de uma forma ponderada aquilo que se está a passar, muitas vezes seja o empurrãozinho que falta para muitas destas pessoas perturbadas deixarem a clandestinidade dos seus pensamentos e passarem elas também ao ato fazendo coisas deste tipo.

Tem-se falado publicamente do risco de contágio. Acredita nisso, nesta imitação?

Sem dúvida, é um bocado como nos registos suicidários. As pessoas não nascem más, mas a vida e muitos sobressaltos, muitos acontecimentos de vida, muitas violências, às vezes de que foram vítimas. E note-se, nada disto justifica ou serve para criar uma espécie de álibi ou atenuante para os atos que cometem. Mas as pessoas vão ficando muito doentes ao longo da vida, a ponto de utilizarem as crianças como se, no fundo, fossem um escudo humano para a sua violência, seja ela inveja, seja ela o ciúme doentio, seja ela o desejo de vingança. E, portanto, nestas circunstâncias, sim, ficam no vai, não vai, faço, não faço. E quando existe um episódio que tem este impacto, as probabilidades de acontecerem dois ou três aumentam muito significativamente.

Para os pais que estão a ouvir-nos assustados, a olhar de lado para discussões em casa, há sinais que merecem ser levados a sério?

Edite, porque eu acho que a violência doméstica tem que ser interdita. E eu gostava muito que ficasse claro que a violência doméstica começa devagarinho por desconsiderações, a seguir passa das desconsiderações às presunções um bocadinho delirantes, a seguir a um insulto fácil, depois a um empurrão quase sem querer e quando se banaliza, vai por ali adiante. E eu gostava também que ficasse muito claro para as vítimas destes processos verdadeiramente hediondos, que aquilo que elas fazem não é o recomendável. Eu percebo que às vezes elas ficam tão aterradas, sem argumentos. Quem é que os tem, afinal, perante este tipo de coisas, que tentem ocupar o mínimo espaço possível, que tentem contrariar o mínimo possível. E aquilo que de alguma forma pode ser qualquer coisa que à luz dos seus olhos sirva como atenuante, aos olhos de um cobarde, serve fundamentalmente como manifestação de medo, que o ajuda a ter um comportamento mais violento no episódio que vai acontecer um dia ou dois logo a seguir.

Fica esse recado importante. Eduardo, um grande abraço. Obrigada.

Todo para si.

E até amanhã.

Até amanhã, Edite.