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"Português Suave" na Rádio Observador e, já sabe, sempre também disponível em podcast. Eu sou o João Costa e Silva. Olá, Marco Neves.
Olá, cá estamos.
Já se sente o cheiro da primavera?
Já se sente, sim, senhor.
Ainda que o tempo esteja farruzco.
"Sim, senhor" é uma boa expressão pra nós falarmos. Por que eu digo "sim, senhora" ou "sim, senhor"? Como é que isto se usa? Não sei se tens essa dúvida.
Eu, por acaso, utilizo quase sempre "sim, senhores".
Mas também podemos usar "sim, senhora". E o interessante é que não tem nada que ver com a pessoa que está à nossa frente, se é mulher ou se é homem. Mas já falamos.
Tu falaste aí de outra expressão, o "tem que ver" ou "tem a ver". Também existe muito esta dúvida, as pessoas também perguntam muitas vezes.
Podemos falar sobre isso hoje ou noutro episódio. Mas, neste caso, estando neste domingo especial, porque estamos a começar a primavera, é claro que vamos falar da primavera e depois vamos acabar com o "voltem para os vossos lugares" que nós prometemos no último episódio.
Pois é, já não me lembrava disso.
Discutir essa questão. Vamos então à língua nas notícias.
Vamos a isso.
Estamos na primavera, estamos a começar agora a primavera e eu lembro algo de que já falamos aqui, provavelmente o ano passado, quando começou a primavera, não sei se te lembras. Isto é, as vantagens de ter um programa que já tem mais do que um ano.
E um documento com quantas páginas?
Eu, por acaso, fui ver há pouco.
Duzentas e duas.
Temos que publicar isto. Temos que publicar as nossas notas.
Meu Deus!
As notas secretas do "Português Suave".
E não tem desde o início, ou tem todos?
Tem desde o início. São as notas secretas do "Português Suave" e não vão sair daí. Não vai. A primavera é uma palavra simpática, bonita, não sei se gostas.
Por acaso, gosto.
Penso que terá que ver com as associações que nós fazemos à primavera, mas o que é curioso é que a palavra tem uma origem estranha, porque a palavra verão tem origem na palavra que os latinos usavam para primavera. Era uma estação que era o "ver". Era uma estação muito indefinida, as estações não estavam tão bem definidas como estão hoje. Então o tempo quente tinha um nome e depois, com o tempo, começamos a dizer que havia o primeiro verão, a primavera, e depois tínhamos o verão. Os latinos também tinham uma outra palavra para verão, ou seja, pra parte mais quente, que nos deu estio. Mas havia uma certa indefinição.
Estio? Nós já falamos daqui de estio, não já?
Nós já falamos de estio, sim, provavelmente, também no verão. Já está há uns meses.
Sabes que a minha memória não é grande coisa.
Não, mas estás-te a lembrar. Tudo pra dizer então que primavera, no fundo, quer dizer primeiro verão, a primeira parte da época mais quente do ano. E é isto que eu queria dizer, desejar uma boa primavera. Mas aqui ainda estamos na língua das notícias e porque não conseguia pôr o que vou dizer a seguir em qualquer outro espaço. A notícia, neste caso, é: começou a primavera. Outra notícia é que me apetece dizer uma coisa que me perguntaram esta semana, que é se cara-metade pode ser aplicada a irmão ou irmã, ou não.
Não percebi, desculpa.
Ou seja, se a expressão cara-metade só pode ser aplicada à pessoa que vive conosco ou também a um irmão ou irmã. Não sei se alguma vez tinhas ouvido esta dúvida.
Por acaso, não.
E o que tu achas?
E pode?
Diz-me lá qual é a tua opinião.
Eu associo sempre cara-metade a algo amoroso.
Exatamente.
Se bem que o amor de irmão também pode ser amoroso.
Exato, mas cara-metade é mesmo só. É uma dúvida estranha, mas surgiu-me esta semana. Cara-metade é mesmo só para alguém com quem temos um relacionamento romântico.
Até porque não me estou a imaginar a chamar cara-metade.
Pois, eu também não, a nenhum irmão.
Exato.
Nem um pouco, mais ou menos. Mas o que é interessante é que aquela cara não é a cara ou rosto. Aquela palavra vem de cara, no sentido querida, cara pessoa. Portanto, é cara-metade, querida-metade.
Faz sentido.
Querida metade que nos acompanha por esta vida afora. Eu queria só partilhar isto contigo e com os nossos ouvintes.
Esta semana também tivemos o Dia do Pai. Tiveste um bom Dia do Pai? Foste surpreendido?
Fui surpreendido com aquela surpresa que não é surpresa, que é ter o meu filho, neste caso, o mais novo, a entregar-me uma pequena moldura com uma fotografia.
Eu adorava sempre fazer esses presentes.
O meu filho mais velho já tem 13 anos e já não fazem isso na escola. Eu fiquei muito triste e disse que ele devia ter feito.
Também acho que sim.
Ele começou a rir e eu não estava com vontade de rir.
Acho que deviam fazer até os 18 anos, porque era um momento de vulnerabilidade, de experimentar o seu criativo.
Eu devia ter feito um pequeno. Mas enviei uma mensagem ao meu pai, desejei-lhe um feliz Dia do Pai, publiquei um pequeno vídeo comentando sobre o Dia do Pai. Foi o Dia do Pai.
Muito bem, e que foi celebrado também esta semana, na quinta-feira. Vamos avançar agora, Marco, para o Mapa da Língua.
E no Mapa da Língua, e se não te importar, eu vou usar aqui o meu livro. Isto é pra fazer publicidade.
Quando é que sai? Vamos lá relembrar.
Hoje é domingo, vai sair na terça-feira.
Está quase.
Terça-feira, dia 24, estará nas livrarias.
Ou seja, no próximo episódio do "Português Suave", ou seja, na quarta-feira, já sai.
Já as pessoas podem ainda correr pras livrarias pra comprar o livro. E é bom, não só por causa do livro.
Ainda por cima, não precisam de ir correr. Porque agora também dá para comprar online.
Sim, mas podem ir até às livrarias.
Sim, também é uma boa experiência, não é?
Eu também compro online, claro, mas também é bom ir às livrarias. As livrarias online também fazem isso. Também descobrimos coisas que não estávamos à espera. Mas estar com os livros à frente e procurar um livro, mas depois temos o outro livro ao lado que não sabíamos que existia.
Isto já me aconteceu imensas vezes, ir a uma livraria e estar com o pensamento de quero comprar aquele livro e acabo por trazer outro completamente diferente.
Sim, e também passar os dedos pelas estantes e descobrir alguma coisa é sempre bom. Então eu só gostava, já que estamos a falar do mapa, de olhar para alguns percursos de palavras. Eu escolhi aqui duas, praticamente ao calhas. Uma é a palavra açúcar. Nós também já falámos dela. Não estou aqui a dizer nenhuma novidade, mas a palavra açúcar tem esta particularidade de ter vindo do sânscrito, na Índia, passou para o persa, depois passou para o árabe, e depois chegou até ao português e às outras línguas europeias.
Tantas viagens. Está cansada, essa palavra.
Está cansada, mas ela tem muita energia. Também é um pouco perigosa. O produto em si é que-
O açúcar supostamente dá energia, não é?
Dá energia e não faz assim muito bem.
Adrenalina.
Não faz maravilhosamente bem, como sabemos. Mas a palavra é muito interessante. Mas há aqui uma particularidade que é nós, em muitas palavras de origem árabe, o português e o castelhano, aqui ao nosso lado, o que faz muitas vezes é manter o artigo, aquele "a" inicial é o artigo. Portanto, quando nós dizemos o açúcar é como se estivéssemos a dizer o, o açúcar. É uma palavra interessante. Outra palavra que também acho interessante é a palavra coche, que os nossos vizinhos aqui do lado usam para carro. Que nós usamos para aquela carruagem um pouco mais. E que eu só acho interessante este percurso porque começa numa terra em particular, uma palavra húngara, kocsi, uma terra húngara, kocsi, onde se começaram a fazer os primeiros coches e depois os coches acabaram por chegar ao português como palavra com que nós indicamos um certo meio de transporte. Isto é uma antologia de pequenas viagens das palavras, porque nós já falámos destas duas.
Sim.
E há muitas outras.
E eu gosto sempre de acompanhar, às vezes, quando fazemos aqui essa viagem, é sempre interessante perceber também as influências ao longo do tempo que vão recebendo.
E o português também serviu de ponto de partida para várias viagens. Uma das que eu acho mais curiosas, e mais uma vez vamos estar aqui em estilo de antologia, porque também já falámos dela, que é o fetiche. A palavra fetiche começa em feitiço no português. Os navegadores portugueses chegam à Costa do Ouro, em África, e chamam feitiços aos amuletos que as pessoas tinham, um pouco com aquele ar, eles acham que é magia, mas aquilo é uma coisa feita, artificial. Nós também tínhamos os nossos próprios amuletos, claro, mas os amuletos dos outros parecem mais estranhos. Portanto, chamávamos àquilo algo feitiço, postiço. Um holandês pega naquela palavra, escreve um livro sobre aquela zona, diz que naquela zona os habitantes tinham muitos feitiços. Isto em holandês, uma palavra portuguesa a ser usada em holandês, foi traduzido para francês e a partir do francês espalhou-se pelo mundo. E pronto, hoje o mapa da língua foi só estas três palavras.
E fomos a todo lado, até falámos de fetiche. Isto é sempre extraordinário. Vamos então para a nossa última rubrica, os mitos e dúvidas.
Eu tinha prometido que falávamos hoje de "voltem para os vossos lugares", que é uma espécie de fóssil. Nós já falámos aqui também de fósseis da língua portuguesa. Há alguma coisa que te soa estranha na expressão ou na frase "voltem para os vossos lugares"? Tens assim alguma ideia?
A frase não me parece altamente fluida.
Ah, não? Pronto, então qual é que seria?
Não parece. Explica tu, Marco Neves, tu és o especialista.
É assim, nós temos "voltem para os vossos lugares", que eu acho que todas as pessoas percebem perfeitamente, mas há aqui uma espécie de incoerência. Nós falámos disto no último episódio, por isso é que voltámos a esta frase. Nós costumamos tratar, ou costumávamos tratar, um grupo de pessoas com quem estamos a falar na segunda pessoa do plural, portanto, "voltai para os vossos lugares". Isto seria a forma habitual há uns séculos. Foi mudando pelo país fora, ainda se usa em certas zonas do país, como nós discutimos no último episódio. Mas nós transformamos esta forma de tratamento na segunda pessoa, numa forma de tratamento em que usamos a terceira pessoa. Em vez de "voltai", nós passamos a dizer "voltem", no sentido de Vossas Mercês, voltem para os vossos lugares, os senhores voltem para os lugares. Só que para sermos completamente coerentes, nós deveríamos dizer então o determinante que vem a seguir, o vossos, deveria ser seus. O possessivo que vem a seguir. Porque seus é que é o que está na terceira pessoa, portanto, deveria ser voltem para os seus lugares. O vossos está relacionado com o voltai, não com o voltem, mas nós deixámos o vossos como quase um fóssil da forma como nós dizíamos anteriormente, e ainda dizemos em certas zonas do país.
Então é um fóssil?
Há pessoas que dizem que é incorreto, que não se pode mesmo dizer voltem para os vossos lugares, que deveríamos dizer voltem para os seus lugares. Mas o que está a acontecer, basicamente, é a língua está a cristalizar nesta forma particular, em que nós temos as formas do verbo na terceira pessoa, mas depois o vossos, os possessivos, ficam na segunda pessoa do plural. É só uma questão mais técnica que decidi trazer aqui. E agora, como ainda temos algum tempo, penso eu.
O senhor do relógio diz que sim.
Podíamos falar de uma dúvida que recebemos. Não é um áudio, é uma dúvida. É uma dúvida do Leandro, do Brasil Num vídeo publicado pelo professor Marco Neves no dia 19 de março, por ocasião do Dia dos Pais, como eu te disse.
Sim, bem recente. Foi esta semana.
O professor ensina a origem da palavra pai e suas congéneres em outras línguas derivadas do protoindo-europeu. A minha pergunta é: como evoluímos do pai para o papai, da mãe para mamãe, do tio para o titio, do avô e da avó para o vovô e para a vovó? Existe similar dessa evolução em outras línguas? Esta é uma evolução particular no Brasil. Nós cá não dizemos tantas vezes. Se eu disser papai, as pessoas associam ao Brasil.
Enquanto muito dizemos papá, mamã.
Sim, dizemos papá, mamã. O que acontece aqui, primeiro, a origem da palavra pai, posso repetir aquilo que disse nesse vídeo, nós tínhamos padre no latim, que já tinha vindo do protoindo, desculpe, no latim, não, pater no latim, que passou para padre, que se usa em português e que se usou em português e que hoje está associado apenas a um cargo eclesiástico, digamos, mas padre chegou a querer dizer pai. E foram as próprias crianças que transformaram padre em pai, ao diminuir a palavra padre, padé, pai. Portanto, foi uma espécie de diluir da palavra infantil. É como se nós hoje usássemos, no texto formal, uma palavra que é das crianças. É como se nós hoje disséssemos, ou se daqui a uns séculos, a palavra oficial pra pai fosse papá. Isso foi o que aconteceu com a nossa palavra. Agora, o que ele está a perguntar não é isso. O que ele está a perguntar é de onde é que veio papai, de onde é que veio mamãe. É uma evolução que acontece em muitas línguas, muito particular do português do Brasil, que é a duplicação. Há muitas palavras infantis duplicadas, desde palavras que não têm nada a ver com, como xixi, cocó e por aí fora, até papá, mamã, ou no Brasil, papai, mamãe, vovó. Não consigo explicar mais do que isto. Há uma tendência das línguas para, na fase infantil, termos uma repetição das palavras, e algumas dessas depois acabam por ficar mesmo pela vida fora. Não é só do português, não é só do português do Brasil, mas no caso dos termos carinhosos, é em particular do português do Brasil, sim.
Muito bem, então esta repetição acaba por acontecer.
É natural e é humana e é infantil, mas no bom sentido.
Muito bem, nós ficamos por aqui neste episódio do "Português Suave" de domingo. A não esquecer que a partir de terça-feira, esta terça-feira que vem, dia 24 de março, o livro do Marco Neves está disponível, "As Raízes da Língua". Aliás, já pode pré-encomendar. Pré-encomendar?
Sim, pré-encomendar.
Ok, agora eu fiquei confuso. Mas não se costuma dizer pré-encomendar. É pré-reserva, não é?
Sim, porque no fundo, encomendar, a palavra encomendar já tem ali o ar de que nós estamos a fazer uma coisa que vai receber mais tarde. Mas como é uma pré-venda, acho que pré aqui não ficaria completamente mal.
Ok, então pré-reserva. Não, eu estou a pensar, porque eu também nunca disse pré-encomendar, sei uma agora, mas geralmente eu sou assim, não ligo muito às regras. O livro do Marco Neves vai ficar disponível a partir de terça-feira. Pode fazer a pré-reserva e depois recebe em casa, ou então pode correr para as livrarias, como já disse o Marco Neves. Tu já tens vários livros, não é?
Nas viagens das várias palavras, contando assim também a viagem da própria língua portuguesa. Mas são crônicas.
Que é o que nós muitas vezes também fazemos aqui.
Sim, não é um livro técnico, já escrevi outros livros mais da história da língua. É um livro de histórias que fui contando, às vezes até aos meus filhos, sobre as várias viagens que as palavras fazem.
Muito bem, fica aqui então a sugestão, quem sabe prenda de aniversário pra alguém que gosta ou que seja fã do ninja Marco Neves.
A pessoa sofre daquelas pessoas que gosta de ter tudo já.
Eu acho que até o Natal a pessoa depois recebe o livro. Eu acho que ainda falta um bocadinho, mas pode ser. Agora vamos ter a Páscoa, pode ser uma prenda.
Prenda de Páscoa.
Existe essa tradição.
Não em todas as famílias.
Em algumas famílias.
Os avós costumam dar. Não sei se é só na minha família, mas na minha família eram os avós que davam mais prendas na Páscoa.
Sim, em algumas, sim. Marco Neves, ficamos por aqui. Voltamos na quarta-feira. Dúvidas, já sabe, é enviar para o e-mail.
portuguessuave@observador.pt.
Muito bem, e através do WhatsApp, que é o 91 002 41 85, 91 002 41 85. Até quarta-feira.
Até quarta.